UFRGS e a Covid-19

Pesquisadores da UFRGS alertam para impactos na saúde mental em decorrência de uma pandemia

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Sumário
Foto: Ryan Melaugh /CC BY 2.0

Editorial publicado na Revista Brasileira de Psiquiatria indica que momentos traumáticos acirram sofrimentos psicológicos e que são necessárias estratégias de saúde mental para enfrentamento desses casos

Como fica a saúde mental das pessoas durante uma pandemia e depois dela? Como a sociedade e os serviços de saúde estão preparados para lidar com os sofrimentos psicológicos durante um período de traumas? Como é esse impacto na situação atual da Covid-19? Diante dessas perguntas, pesquisadores da UFRGS publicaram um artigo editorial na Revista Brasileira de Psiquiatria, em que indicam que há questões paralelas à pandemia que merecem atenção durante e depois desse período. Segundo os pesquisadores, a “pandemia de medo”, como chamada no editorial, já foi evidenciada em outras situações epidêmicas e emergenciais e dura por algum tempo depois do fim do ciclo de uma doença ou de uma tragédia, conforme estudos de situações anteriores citadas no editorial, em casos como Tsunami, Ebola, H1N1, Atentado de 11 de Setembro e a tragédia na Boate Kiss, em Santa Maria/RS.

Conforme explica Felipe Ornell, doutorando em Psiquiatria e Ciências do Comportamento na UFRGS e autor principal do texto, o medo está na base de uma série de transtornos psiquiátricos e o sistema biológico é acionado rapidamente quando essa sensação está envolvida. Desse modo, para Ornell, é preciso ser tratada, simultaneamente à pandemia viral, a pandemia de medo. Ele afirma que “numa epidemia, parte da população será afetada pelo patógeno biológico, mas uma parte maior vai ser atingida de forma psicológica”. O texto cita o medo aumenta os níveis de ansiedade e estresse em indivíduos saudáveis e intensifica os sintomas daqueles com transtornos psiquiátricos preexistentes. Os elementos de uma pandemia passam a fazer parte do dia a dia das pessoas e o risco de contaminação ou de ter alguma pessoa próxima contaminada passam a fazer parte do cotidiano das pessoas e de sua saúde mental. Ornell destaca que profissionais da saúde têm essa situação agravada pelas situações de estresse e esgotamento adicionadas às demais questões cotidianas pelas quais se preocupa o resto da população.

Ações
O pesquisador alerta que, historicamente, a saúde mental tem sido menos privilegiada que outras ciências médicas, o que transparece, num momento de crise, em vazios de cobertura que não serão supridos neste momento. Neste momento, então, é possível realizar “primeiros socorros psicológicos”, numa atitude emergencial diante da crise. Como indica Ornell, não há um modelo internacional de protocolo para todas as epidemias e emergências, mas é possível indicar algumas diretrizes de ação em níveis diferentes. O nível 1 trata da informação confiável. Estabelecer oferta de informação confiável colabora para a saúde mental das pessoas. Aquelas que têm transtornos ou tendências podem agravar sua situação diante de alardes, de informações falsas e, até mesmo, de excesso de informação. As equipes de saúde também devem se capacitar para oferecer as informações de forma correta.

No nível 2, a oferta se dá pelo aconselhamento, a informação mais específica. Ou seja, o conjunto de informações sobre a saúde mental. Ornell exemplifica: “É preciso entender que é normal se sentir tenso, triste, com tédio… etc numa situação como essa sem precedente”. E existem formas de lidar com isso oferecidas em materiais disponibilizados em aplicativos e vídeos. Entidades sérias estão engajadas na produção de material e no auxílio remoto. O terceiro nível indica o atendimento assistencial e trata de pessoas que já têm transtornos ou pessoas que estejam desenvolvendo algum transtorno. Esse atendimento pode ser direto ou, em alguns caso, pela autoaplicação, pois o acesso ainda é restrito na país, como indica o pesquisador.

O editorial completo está no site da Revista Brasileira de Psiquiatria (em língua inglesa): http://www.bjp.org.br/details/943/en-US/-pandemic-fear–and-covid-19–mental-health-burden-and-strategies

Uma versão em português pode ser acessada aqui: https://plone.ufrgs.br/ufrgs/noticias/arquivos/pandemia-de-medo-e-covid-19-impacto-na-saude-mental-e-possiveis-estrategias

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