UFRGS e a Covid-19

Programa busca dar acolhimento a profissionais de saúde do SUS frente aos desafios do coronavírus

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Sumário
Foto: Rochele-Bristot / Arquivo pessoal

Por Jacira Cabral da Silveira/Jornal da Universidade

Pesquisadores da UFRGS e gestores da Secretaria de Saúde de Sapucaia do Sul trabalham juntos para implementar Rede de Acolhimento e Apoio aos Trabalhadores e Trabalhadoras do SUS (RAAT-SUS)

De acordo com o Ministério da Saúde, as Unidades Básicas de Saúde (UBS) são a porta de entrada preferencial do Sistema Único de Saúde (SUS), atendendo a até 80% dos problemas da população nessa área. É também nessa linha de frente que está concentrada a maior parte dos profissionais de saúde – médicos, enfermeiros e técnicos em saúde – que, nos últimos meses, vêm trabalhando no enfrentamento à covid-19. As novidades trazidas pelo novo vírus, impondo constantes mudanças nos protocolos de atendimento, e os aspectos emocionais dessas equipes de profissionais exigem resposta dos gestores no sentido de garantir um ambiente saudável para todos – população e trabalhadores. 

“Um ambiente de trabalho mais harmonioso resulta numa atuação mais engrenada”, defende Rochele Bristot, terapeuta ocupacional junto à Secretaria de Saúde de Sapucaia do Sul, na Grande Porto Alegre. 

“Quando uma equipe se sente mais segura em atuar, a população percebe essa sintonia entre os trabalhadores e o serviço oferecido.” Rochele Bristot

Com especialização em saúde mental coletiva, desde 2019 ela integra o grupo de apoiadores institucionais com mais seis especialistas. Essa função, prevista na Política Nacional de Humanização (PNH/2008), busca propor uma gestão compartilhada para que o SUS se afirme como política efetivamente pública. 

Há cerca de um mês, Rochele e suas colegas apoiadoras procuraram a UFRGS em busca de algum serviço ou produto que fosse especialmente voltado ao bem-estar emocional dos profissionais de saúde e que pudesse ser implementado no sistema de saúde de seu município. A resposta da Universidade veio de forma multidisciplinar, tendo como coordenadores o professor José Geraldo Damico, do Departamento de Psicanálise do Instituto de Psicologia, e o professor Tadeu de Paula Souza, do Departamento de Saúde Coletiva, da Escola de Enfermagem. Foi criada, então, a Rede de Acolhimento e Apoio aos Trabalhadores e Trabalhadoras do SUS (RAAT-SUS), reunindo 16 servidores da Universidade, entre professores e técnicos.

Dentro dos pressupostos que norteiam a política do SUS estão conceitos como tecnologias relacionais, acolhimento e vínculo, prioritariamente tendo como foco o paciente. Entretanto, para Tadeu, num momento de pandemia, no qual o próprio profissional de saúde é alvo da infecção que acomete e amedronta a população como um todo e que recorre ao SUS em busca de atendimento, esse trabalhador também precisa ser considerado a partir desses pressupostos, uma vez que ele próprio integra o chamado grupo de risco. 

“É importante não só acolher o profissional da saúde, visando unicamente sua competência técnica junto à população, mas deve ser também levada em conta a dimensão humana desse indivíduo para quem a vida também está difícil, e ele mesmo enfrenta o medo da morte”, ressalta o doutor em Saúde Coletiva na área de Políticas, Planejamento e Gestão. “Não dá pra atender a população ignorando o trabalhador”, defende.

“No município é onde estoura o processo de abandono do SUS.” Tadeu de Paula Souza

Segundo ele, enquanto cidades grandes bancam a compra de equipamentos de prevenção para as equipes de saúde e respiradores para o sistema, municípios menores ficam à margem, como resultado de uma “esfera federal que não assumiu [o abastecimento das unidades de saúde] como compromisso central”. E ironiza: “Município não consegue negociar com a China”. 

Realidade na grande Porto Alegre

A estrutura do sistema de saúde da prefeitura de Sapucaia do Sul compreende 28 equipes de Atenção Básica e quatro de atendimento noturno, um laboratório de infectologia, equipe do Programa Melhor em Casa e a Clínica de Saúde da Mulher (Clisam).  Nesses serviços, atuam 566 profissionais da saúde, incluindo médicos, enfermeiros, técnicos em enfermagem, dentistas, auxiliares de saúde bucal e agentes comunitários de saúde.  Somados a esses profissionais, existem aqueles que trabalham nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS): psicólogos, psiquiatras, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais, profissionais de educação física e técnicos de enfermagem em saúde mental. 

Para além do impacto direto junto às equipes de saúde, José Damico diz que o RAAT-SUS será fonte de produção de conteúdo a ser trabalhado em sala de aula, de elaboração de artigos, participação em congressos, como forma de socializar e ampliar conhecimentos sobre o gerenciamento e o apoio a profissionais de saúde em casos excepcionais, como o imposto pelo coronavírus. Outro encaminhamento a ser dado à produção de conhecimento gerado a partir do trabalho conjunto Universidade e Secretaria de Saúde de Sapucaia do Sul é a multiplicação da experiência junto a outros municípios.

Segundo Rochele, a primeira etapa do Projeto Rede de Acolhimento foi identificar os problemas e traçar um diagnóstico da situação da realidade dos serviços e das condições dos profissionais envolvidos. 

Para chegar a essas frentes como foco do apoio a ser prestado, foram discutidos o perfil dos profissionais de saúde, as equipes de trabalho, as questões que estão surgindo com mais frequência por ocasião da pandemia. Durante esse processo, foram identificados, de acordo com a terapeuta ocupacional, aspectos positivos, como a qualificação profissional dos trabalhadores em saúde, todos com especialização ou com residência médica em suas áreas de atuação. Por outro lado, perceberam também desafios como as dificuldades de lidar com as novidades quanto ao vírus e ao seu enfrentamento, exigindo ações rápidas frente ao desconhecido. “É muito diferente da cena em que estávamos acostumados a trabalhar”, ilustra a especialista. 

O posto de Estratégia de Saúde da Família Freitas é uma 32 unidades de saúde do município de Sapucaia do Sul que serão beneficiadas com a Rede de Acolhimento e Apoio aos Trabalhadores e Trabalhadoras do SUS (Foto: Rochele-Bristot / Arquivo pessoal)

Com relação aos agentes comunitários de família, igualmente há cuidados específicos a serem tomados no contexto atual de prevenção: as visitas e o agendamento de consultas deverão ser repensados. As equipes terão que ser preparadas para atender as pessoas que apresentem suspeita de covid-19 e, ao mesmo tempo, precisarão seguir atendendo aos casos importantes de outros diagnósticos.  

A segunda etapa do RAAT-SUS terá início na próxima semana, com a disponibilização de atendimento psicológico individualizado e também de apoio às equipes de profissionais de cada unidade de saúde. “É a fase de operacionalização”, diz Rochele. A intenção é que sejam discutidas formas de atendimento à população frente a conflitos que possam surgir no dia a dia das unidades, além de se pensar novos protocolos e formas de colocá-los em prática.

Em função de sua formação, Rochele presta suporte especialmente aos três Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e às duas equipes de Apoio Matricial em saúde mental. Enquanto os CAPS prestam serviço direto à população por meio de equipes multiprofissionais, realizando atendimento às pessoas com sofrimento ou transtorno mental, incluindo aquelas com necessidades decorrentes do uso de álcool e outras drogas, o apoiador matricial é um profissional especializado em alguma área de conhecimento (saúde mental, educação física, nutrição, fisioterapia, etc.) que atua junto aos profissionais lotados nas UBS.  

Ao avaliar a parceria entre a Universidade e a Secretaria da Saúde de Sapucaia, Rochele destaca o caráter público de ambos os segmentos: “É algo fantástico quando um recurso público está sendo usado para dar apoio ao SUS e à população!”.

Com relação à demanda de apoio aos trabalhadores, tanto ela quanto as demais apoiadoras percebem o quanto é preciso acolhimento a esses profissionais para dar conta de inseguranças, como a dúvida quanto à qualidade do trabalho que vêm oferecendo à população, a preocupação com a saúde de suas famílias e o receio diário de estarem cara a cara com o coronavírus.

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