Coleção Nota Azul

Uma nota azul não funciona para som nem para cor, mas inventa, para uma intensidade inominável, um verbo imperceptível. Alguns textos se utilizam de notas que não encontram lugar nas pautas de linhas retas, a Coleção Nota Azul[1] cria pautas para o intolerável…

Algo que sobrevive aos escorregões da norma culta, algo que faz funcionar uma língua menor no preciso momento em que não domina uma língua maior, algo que conserva um ritmo respiratório na ausência das vírgulas, algo que fala da pequena vida de um autor sem pompas, algo que faz falar habitantes do silêncio, algo que abala uma suposta realidade com uma vida carregada de fora, algo que, ao confundir sujeitos e plurais, traz à superfície um sentido para vidas insignificantemente infames…

É uma nota azul…

O que se faz ouvir num texto, mais do que lê-lo… Uma voz que insiste em cada linha escrita, e faz calar nossa voz interna para ouvir um outro que ali se escreve. É o que arma tensores entre a língua maior e os traços que são incapturáveis por ela: “gritos, clamores, alturas, durações, timbres, acentos, intensidades”. Enquanto as línguas maiores criam modos de entendimento comum através da permanência, da constância e da redundância, as línguas menores dão conta de escorregões e fugas através das potências de variação.

São escritas que se localizam onde falham os sistemas de similitude com uma linguagem comum, com uma sintaxe inteligível, mas que, dessas mesmas falhas, se fazem poesia… Denunciam e refletem um estado de violência e de exceção, onde os limites da loucura e do desatino são, ao mesmo tempo, as fronteiras da arte, da criação e da singularidade. A literatura se torna uma saúde no encontro com o mesmo fora que é capaz de se tornar uma linha de abolição. E este fora não é uma parte excluída que deveríamos incluir em nosso universo de compreensão. O fora não caracteriza um lugar ou um objeto, é uma função revolucionária, contestadora das palavras de ordem de uma língua maior. É o plano de composição dessas escritas que tornam Vidas do Fora[2] capazes de gritar o seu imenso silêncio…

 

Lançamentos:


– O sol que gira – Lydia Francisconi

Trata-se de uma minúscula e intensiva cartografia de dias e lugares de uma vida em estado de (re)invenção.

 


O sol que gira
Nº de páginas: 128
ISBN:
978-85-911324-0-9

 

[1]              A Coleção Nota Azul é um projeto transversal ao Grupo de Pesquisa Corpo, Arte, Clínica, coordenado pela Profa. Tania Mara Galli Fonseca (PPGPSI-UFRGS) e que, atualmente dedica-se à catalogação e pesquisa do Acervo da Oficina de Criatividade do Hospital Psiquiátrico São Pedro, da qual Lydia Francisconi é freqüentadora.

[2]              Em 2010 o grupo de pesquisa desenvolveu um seminário denominado Vidas do Fora – Habitantes do Silêncio, apresentando modos de escuta e visibilização das produções artísticas de vidas esquecidas em longos períodos de internação e problematizando nossas relações com a loucura e outros modos de expressão minoritária.