Corpos de Passagem

O Grupo MODOS DE TRABALHAR, MODOS DE SUBJETIVAR foi fundado em 1997 tendo como base o desejo de constituir um dispositivo para a existência, no âmbito do Departamento de Psicologia Social e Institucional do Instituto de Psicologia da UFRGS, de um grupo de estudo e pesquisas focado na problematização dos modos de trabalhar e de suas articulações com os modos de subjetivação contemporâneos. Estávamos em plena implementação do nosso Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social e Institucional, que viria a funcionar a partir de março de 1998. Viríamos a ele nos integrar como uma pequena máquina – cega e muda -, definida por suas funções de fazer falar e ver, por sua diagramática de misturar e constituir mutações e fazer evoluir  mais ao modo do teatro do que o da fábrica. O grupo faz história e faz devir a história e, seus participantes pertencem a diferentes níveis de formação, sendo que a filiação grupal é aberta a colegas e alunos interessados em desenvolver estudos e pesquisas que integrem a problemática-agenciadora sob orientação teórico-metodológica inserida no corpus da Filosofia da Diferença. No curso dos semestres e anos letivos, verificam-se variações quanto à extensão do corpo-grupal, tendo-se em vista o ingresso e a saída de participantes. Tem sido comum a permanência de alguns membros mesmo após sua titulação e conclusão de suas pesquisas, o que potencializa a configuração de uma memória coletiva que ultrapassa as fronteiras das experiências individuais. O grupo, neste sentido, passa a proliferar-se como plano, como superfície de existencialização para os devires de sujeitos que, ao conferirem corpo a um modo grupal de operar na produção de conhecimento, também operam a si próprios como corpos-de-passagem, espaços de acolhimento de forças , lugares de recebimento, de transmissão, em suma de passagem. Corpos-de-passagem , em cuja presença tempo e espaço se dilatam. Corpos-presença, mesmo quando ausentes, corpos que deixam de ser “submarinos fechados”, como já nos disse a querida Denise Sant’Anna, para fazerem-se água e areia, universo precioso de elos liberado do risco de naufragar.“ O mar não naufraga. E não precisa ser salvo. Necessita apenas marear”[1].

1997 – Introduzindo RIZOMA

PROJETO DE PESQUISA INTEGRADO:

Modos de trabalhar, modos de subjetivar no contexto da reestruturação produtiva/ Fomento Fapergs e Propesq-UFRGS – Período: 1997 a 2001

Os resultados das pesquisas podem ser encontrados no livro: Fonseca, Tania Mara Galli (org). Modos de Trabalhar, Modos de Subjetivar. Tempos de reestruturação produtiva. Um estudo de caso.  Porto Alegre: Editora UFRGS, 2002.

O referido projeto viria abrir a série de pesquisas focada nos efeitos sociais e subjetivos desencadeados a partir do novo paradigma da reestruturação produtiva.  Desenvolveu-se em agências locais de uma importante instituição financeira – nacional e pública -, e focalizou o seguinte: o tempo do trabalhar a partir das novas velocidades imprimidas pelas novas tecnologias digitais de informação e comunicação, a questão do desemprego emergente e da requalificação face ao advento da automação, o uso da fotografia para marcar o advento de novas paisagens no interior e no exterior das agências, implicadas aos modos de subjetivação tanto de funcionários  como de usuários, a posição das mulheres na  divisão técnica  do trabalho referente ao novo paradigma de produção

Pesquisadoras:
Profa. Tania Mara Galli Fonseca, Profa. Carmen Ligia Iocchins Grisci, Profa. Gislei Domingas Romanzini Lazzarotto, Psic. Patrícia Argollo Gomes Kirst, Psic. Kathy Helena Esposito, Psic. Guisela Gehm,  Médica Jaqueline Cunha Campello.

Graduandos em Psicologia:
Maria Elisabete Pimentel Sperb, Magda Beatriz Costa, Andréa Simone Souza Corrêa, Letícia Corrêa Pires, Cristiane Eulália Meneses, Tatiana Pacheco.

Bolsistas de Iniciação Científica:
Sandro Pavan,  Raquel Gehre Panzini, Karla Siqueira Garcia,  Sandra Regina C. Gomes, Ana Lúcia Pivetta.

Graduando Administração:
Maurício Tombini.

1998 – 1999 – ACERCA DO RITORNELO – “no fio de uma cançãozinha”, para lidar com o plano das multiplicidades

Neste ano, com a abertura do Mestrado do PPGPSI, a produção do grupo lança-se/difunde-se/confunde-se ao rizoma, buscando circunscrever-se, entretanto nos contornos de um “em casa”, ou seja, marcação de território, filtro através do qual se pode ATÉ tomar algo emprestado do caos. Lançamo-nos… arriscamo-nos, “saímos de casa no fio de uma cançãozinha” [2]. Verificamos neste desprentesioso revirar d’olhos, que as pesquisas desenvolvidas atinham-se à questão do trabalho como processo inscrito no âmbito de organizações empresariais econômicas, como bancos , empresas multinacionais de serviços e produção de mercadorias. Marcas de um passado recente da orientadora que viria contagiar e colorir um certo segmento da produção;

Mestrandos:
Denise Mairesse, Kathy Helena Esposito, Patrícia Gomes Kirst, Rosângela de Mattos.

2000 – 2002 – DEVIRES INTENSOS

Um novo projeto viria colorir e contagiar a produção: Modos de trabalhar, Modos de Subjetivar na Reforma Psiquiátrica, financiado pela Fapergs e pela Propesq/UFRGS, ele próprio agenciador e agenciado pelos fluxos das relações que se desenvolviam no período. A problematização dos modos de trabalhar passa a se dar no âmbito do sistema público de saúde mental, focalizando as desterritorializações e reterritorializações dos trabalhadores, das equipes profissionais e dos usuários dos serviços. A questão TRANS passa a ser enfatizada por toda a produção o que nos remete também à epistemologia da ciência e mais propriamente à uma tentadora proximidade com a filosofia em seus termos práticos, como nos diria Deleuze. A filosofia como produtora de conceitos-ferramentas, que vêm refletir algum sentido para o não-sentido, sem, contudo, sobrecodificá-lo.

Mestrandos:
Fábio Dal Molin, Carlos Ribeiro, José Ricardo Kreutz, Walter Firmo Cruz, Selda Engelman dariam seguimento e corpo às problematizações referentes aos novos modos de trabalhar e subjetivar no contexto da reforma psiquiátrica. E, os mestrandos, Juliana Dornelles Leal, Eliana Cattoi e Vitor Regis Martins, adicionariam potência ao que passaríamos a chamar de Corpo, Arte e Clínica como uma espécie de morada para os pensamentos que nos vinham visitar, em busca de dobragem e morada.

Bolsistas de Iniciação Cientifica:
Luis Artur Costa e Danishi Mizouguchi, também participaram desta etapa do grupo através da pesquisa intitulada Desterritorializações do espaço-tempo da loucura: um estudo do Hospital Psiquiátrico São Pedro de Porto Alegre.

2003 – 2005 – CORPO, ARTE E CLÍNICA

Ainda sob a égide do projeto Modos de Trabalhar, Modos de Subjetivar no contexto da Reforma Psiquiátrica, este biênio reúne interessados em pesquisas sobre a questão da Saúde Mental, seja do ponto de vista do Corpo, da Arte e da Clínica.

Sob esta consigna, os trabalhos do grupo se desenvolvem nos dias atuais, enfocando de modo irregular e espontâneo cada uma das variáveis. Duas alunas do grupo,Vilene Moelecke e Fabiana Tomazzoni desenvolvem pesquisas sobre o corpo e suas relações com a arte e com a clínica. Por conta de seu interesse e empreendedorismo, apropriaram-se da oportunidade de conhecer o Prof. Dr. José Nuno Gil da Universidade Nova de Lisboa, em visita ao PPGSI-UFRGS em 2003 para fins de um Colóquio Internacional intitulado Corpo, Arte e Clínica, para vir a agenciar a possibilidade de, como bolsistas ALBAN, estudarem, sob a sua direção, durante os 06 últimos meses de seu curso de mestrado, inaugurando com a Europa, de uma maneira oficial, aquilo que Juliana Dornelles, um ano antes, empreendera desde sua própria iniciativa e recursos privados.

Os membros desse grupo farejam “longes” horizontes…

Mestrandos:
Vilene Moelecke, Fabiana Tomazonni da Costa, Christiane Siegmann, Débora de Moraes Coelho, Carmen Debenetti, Andréia Oliveira, Maria de Fátima d’Ávila.

Bolsistas de Iniciação Científica:
Luis Artur Costa e Pedro Craidy Nerva.

2005… ainda CORPO, ARTE E CLÍNICA…

Modos de trabalhar, modos de subjetivar … a que lugares nos conduzirá esse mar de potenciais?

Mestrandos:
Luis Artur Costa e Patrícia Spindler. Novamente a litania Corpo, Arte e Clínica, desta vez considerando-se, do lado do L. Artur, a cidade como o lugar de interlocução com a loucura (?) não mais o hospício e mesmo as equipes de atendimento substitutivo e do lado da Patrícia, utilizamo-nos da dança e da música para virmos a pensar modos de subjetivação e de outramento através da arte, ou que se poderia entender como uma espécie de militância no escopo da Clínica Ampliada.

Bolsista de Iniciação Científica:
Pedro Craidy Nerva, cujo interesse de pesquisa se descortina a partir das relações do teatro com os processos de subjetivação. Um certo herdeiro da Juliana Dornelles Leal.

2006  – Corpo, Arte e Clinica nos Modos de Trabalhar , Modos de Subjetivar

Se é verdade que nosso presente carrega tendências de futuros, vimos constatar que os fluxos de nosso percurso configuram alguns novos sulcamentos no plano de nossas análises. Num primeiro tempo, Modos de Trabalhar, Modos de Subjetivar constituiu-se como a  individuação que obtivemos das confluências dos  nossos interesses de então. Desejávamos firmar nossa posição no domínio dos saberes relativos ao Trabalho e, ao mesmo tempo cortá-lo, através de seu enredamento a conceitos filosóficos e esquizoanalíticos relativos aos processos de subjetivação. Nossa caixa de ferramentas  para operar tais cortes emergiria, sobretudo,da Filosofia da Diferença, encontrando em Gilles Deleuze e Félix Guattari provocações suficientes para ampliar nosso desafio construtivista. Operando como intercessores, os autores abriram des-caminhos ao pensamento e permitiram acolher e fazer entender a necessidade de acolher novas categorias  como a de corpo, a de crítica e clínica e a de  invenção, fazendo-nos percorrer  uma busca inscrita no regime da minoração, para fazer ser, algo do extra-ser, para fazer viver aquilo que é nascente e que pode, além de tudo, estar misturado ao silêncio e à invisibilidade. Regime do sutil, das pequenas percepções, dos paradoxos, da equivocidade e do quase imperceptível.

Já nas dissertações de Patrícia Gomes Kirst, de Juliana Leal Dorneles e  de Vilene Moelecke, anunciavam-se esse fio e esse arrepio da arte , do corpo e da clínica em nossa conversação. A arte e a invenção como dispositivos para fazer falar o impensado e o inumano. Agora, o fio configura-se como uma rede, como uma espécie de solo, por ter sofrido as diversas dobragens. Ele dá suporte a uma ultrapassagem de limites e possibilita uma nova individuação no plano plissado de nossa pesquisa: derivamos por suas forças e com novas propostas, como as de Andréia Machado de Oliveira, Maria de Fátima Ávila, Carmen Debenetti, Débora Moraes Coelho, Christiane Siegmann, Patrícia Spindler, Luiz Arthur Costa, Luisa Rizzo, Regina Jaegger e Andresa Ribeiro Thomazoni.

Nada de nosso passado se encontra relegado ao esquecimento, como nos ensina Bergson. Os lençóis do passado encontram-se em estado contraído em nossa atualidade que se rostifica em novas paisagens, fazendo-nos crer, como nos mostra Denise Santanna, que “todos os seres que nos cercam (e mesmo as coisas) são esfinges; mas com os ardis  da sutileza eles não nos revelam os seus enigmas, assim como nós, por delicadeza, não os deciframos. Apenas não os deixamos morrer”.

Bolsista de Iniciação Científica:
Andresa Ribeiro Thomazoni

Mestrandos PPGPSI:
Luisa Rizzo e Regina Jaegger

Doutorandos PPGIE:
Patricia Gomes Kirst e Fernanda Amador

2007  – Corpo, Arte e Clinica nos Modos de Trabalhar , Modos de Subjetivar

Nosso momento ainda dura e desdobra-se para fazer derivar as categorias Corpo, Arte e Clínica nos conceitos de imagem, virtual e objetos técnicos. Pretendemos conceder à tecnologia um alcance poético e, para tanto, nos valemos também para os objetos tecnológicos com os quais, temos relações subjetivantes e inventivas.

A Clínica, aqui, se traduz como expressão das potências do corpo, e sobretudo do olhar na busca de devires tanto dos sujeitos quanto dos mundos.

Bolsista de Iniciação Científica:
Andresa Ribeiro Thomazoni

Bolsista de Extensão:
Vivian Lockmann e Vitor Butkus

Mestrandos PPGPSI:
Juliane T. Farina e Daniel Dutra

Doutorandos PPGIE:
Andréia Oliveira

2008  – Corpo, Arte e Clinica nos Modos de Trabalhar , Modos de Subjetivar

Bolsista de Iniciação Científica:
Vivian Lockmann

Bolsista de Extensão:
Vitor Butkus, Vera Lúcia Inácio de Souza e Sara Hartmann

Mestrandos PPGPSI:
Andresa Ribeiro Thomazoni e Bianca Sordi Stock

Doutorandos PPGIE:
José Mário Neves, Luis Artur Costa e Vilene Moehlecke

2009  – Corpo, Arte e Clinica: Potência das Memórias da Loucura

Bolsista de Iniciação Científica:
Vivian Lockmann

Mestrandos PPGPSI:
Sara Hartmann, Luciana Rodríguez Barone e Felipe Nunes Vargas

Doutorado PPGIE:
Elenice Corrêa

Pós-Doutorado:
Profa. Dra. Marisa Lopes da Rocha

2010  – Corpo, Arte e Clinica: Potência das Memórias da Loucura

Bolsista Iniciação Científica:
Eleonora Bachi Coelho

Bolsista BIPOP:
Vitor Butkus

Bolsista Extensão:
Mário Eugenio Saretta Poglia

Mestrandos PPGPSI:
Vera Lúcia Inácio de Souza, Júlia Dutra de Carvalho, Leonardo Martins Costa Garavelo

Doutorado PPGPSI:
Andréa Amparo, Juliane T.  Farina, Marcele da Rosa Zucolotto

Doutorado PPGIE:
Andresa Ribeiro Thomazoni

2011  – Corpo, Arte e Clinica: Potência das Memórias da Loucura

Bolsista Iniciação Científica:
Eleonora Bacchi Coelho

Bolsistas BIPOP:
Adriana Klausen

Doutorado PPGPSI:
Regina Jaeger, Carmen Debenetti, Suelci Neusa Hickel

Doutorado PPGIE:
André Furtado, Tânia Bischoff

Pós-Doutorado PPGIE:
Mário Ferreira Resende

2012 – Corpo, Arte e Clínica: Arquivo e Testemunho de Vidas Infames

Bolsista Iniciação Científica:
Daniel Roitman, Cristiane Scholl do Amaral

Bolsista BIPOP:
Francine Berghental

Doutorado PPGPSI:
Leonardo Martins Costa Garavelo, Luciana Knijnik

Doutorado PPGIE:
Carlos A. Cardoso Filho

 

[1]Sant’Anna, Denise B. Corpo-de-passagem. Ensaios sobre a subjetividade contemporânea. São Paulo: EstaçãoLiberdade, 2001. p.106.

[2] Deleuze, Gilles e Guattari, Félix. Mil Platôs. Capitalsmo e Esquizofrenia. V.4. São Paulo> Ed. 34, 1997, p. 117.

Tania Mara Galli Fonseca