Coleção Cartografias

 

A imagem de pensamento que evocamos para pensar a proposta desta Coleção é a do deserto e sua manifestação. Queremos constituir uma dobra que, ao produzir mundos, ao mesmo tempo se coloca como desnaturalização do que, até então, se tem colocado como paisagem definitiva em uma terra geometrizada e disciplinada. Espaço-tempo de exercícios e de operações para propiciar a emergência de outras formas de existir, indissociadas do viver.
Queremos uma Coleção que funcione a partir e por causa de agenciamentos maquínicos, sempre em conexão com outros agenciamentos e ressonâncias. Cada livro, como uma pequena máquina, abrindo-nos para o indispensável Fora e sempre convergindo com outras máquinas de guerra, para fazermo-nos superar limites impostos pelas formas Mundo, Deus e Eu. Queremos uma Coleção regida pela lógica do Rizoma, sem um eixo central, mas articulada por e com  muitas linhas de fuga. Coleção de livros que se conecta ao próprio mundo que problematiza e o faz diferir porque o rasga como insinuante provocação.
Queremos uma Coleção como espaço de encontro e interlocução transdisciplinar, que propicie a invenção de ferramentas conceituais e dispositivos práticos para operar sobre o vasto e espesso território da produção de subjetividade.
Seu título – Cartografias – inspirado no espírito colecionista que, no ato de organizar a série não dissimula seu fascínio pelo outro, permite      localizar sua alma no próprio paradoxo de albergar quantidades e qualidades definidas pelo contorno do mesmo.
Carregando e sendo carregada pelo desejo de mar e pelo desejo de povoar o deserto, a Coleção CARTOGRAFIAS nasce como expressão atual de um modo de produzir e conhecer que, nas mais diferentes áreas do pensamento, coloca-se em sintonia com a expansão da vida. Não se definindo por buscar ater-se aos limites de fronteiras disciplinares e saberes especialistas, os livros que comporão esta Coleção deverão expressar aquela voz que fala de um contradiscurso, de uma contraacultura, de um antihumanismo. Colocados à margem torta do rio discursivo, os livros da Coleção Cartografias devem ser tomados como uma espécie de desgraça que se abate com ferocidade sobre o leitor, desestabilizando e destruindo os acomodados confortos das formas Mundo, Deus e Eu. Livros que, nas palavras de Kafka, devem funcionar como um machado que quebra o mar gelado que há em nós, que nos incomodam e nos obrigam a sair da toca, que nos atiram para fora de nós, forçando-nos a ir lá onde não quereríamos ir.
Livros-exercício de si, livros de experimentação da invenção de outros olhares cujo projeto encarnou-se como possível graças à interconexão de duas editoras riograndenses, a Sulina e a da Universidade Federal do Rio Grande do Sul que, ao unirem seus esforços, ofereceram consistência à base de sustentação de um sonho: o de uma coleção de livros que se desenrole como uma conversa infinita e que se coloque como signo de uma conversação que acolhe os balbucios e também as gagueiras da língua, porque criada para fazer diferença no domínio dos saberes instituídos.
Nesta Coleção, a noção de Cartografias torna-se também um sintoma contra a verdade unívoca, sintoma do que nos força a pensar quando nos deixamos olhar pelo mundo no qual estamos mergulhados. Ao concordarmos com Deleuze quando este nos diz que acreditar no mundo é o que mais nos falta, gostaríamos que a Coleção Cartografias suscitasse acontecimentos, mesmo que pequenos e que fosse acolhida como uma tentativa de resistência que convoca ao mesmo tempo criação e povo.

Porto Alegre, outubro de 2005.
Tania Mara Galli Fonseca

 

Lançamentos:

– Estéticas do esgotamento – extratos para uma política em Beckett e Deleuze (Alexandre de Oliveira Henz)

A tarefa que norteia a confecção deste livro é a construção de um habitat com algumas obras de Samuel Beckett como um meio de experimentação com o esgotamento. Para tanto, são evidenciados clichês e passagens de estado, bem como apontada, a partir do estatuto da imagem em Beckett, uma perspectiva ético-política do esgotamento. São percorridas agitações e efetuações, enfocando especialmente os trabalhos que precedem o período final das peças televisivas do autor. Para a construção deste habitat, tornou-se importante o trabalho com o último longo texto de Gilles Deleuze, publicado em 1992, intitulado L’épuisé1 (O esgotado). É um ensaio dedicado a Samuel Beckett, anexado como posfácio à publicação de quatro roteiros de peças para televisão, do autor irlandês, cujo tema é o esgotamento do possível.

 

Estéticas do esgotamento – extratos para uma política em Beckett e Deleuze
Nº de páginas: 158
ISBN: 978-85-205-0612-7

 

Alexandre de Oliveira Henz, formado em filosofia e psicologia, com doutorado em psicologia clínica no Núcleo de Estudos e Pesquisa da Subjetividade da PUC-SP. Atualmente é professor da Universidade Federal de São Paulo. Realiza atividades de ensino, extensão, pesquisa e pós-graduação relacionadas à formação, política, saúde, estética e subjetivação. Coordena o Laboratório de Sensibilidades da UNIFESP e integra os grupos de pesquisa: Formação e Trabalho em Saúde (LEPETS) e Políticas da Subjetivação.

 

– Três esquizos literários: Antonin Artraud, Raymond Roussel e Jean-Pierre Brisset (Marcos Eduardo Rocha Lima)

    Este livro é o resultado de uma tese de doutorado, em que o autor coloca todo seu estilo ensaístico e acadêmico num texto vibrante, que contagia por seu estilo desconcertante, um estilo que descomprometido com respostas e verdades, busca lançar as questões em um jogo de xadrez x poder e que traz aos leitores o embate da escrita, da autoria e da loucura.

    Os loucos dançam, os loucos cantam, os loucos escrevem. É simples assim. E é como Marcos Eduardo Rocha Lima aproxima e embaralha o que ele chama os Três Esquizos Literários. Para longe do diagnóstico que estigmatiza e do autoritarismo da razão sobre a loucura, o contato aqui com e entre Artaud, Roussel e Brisset é procedido muito mais pela festa que seus feitos escriturais suscitam. À beira dessa esquiza tríade de nomes próprios, permanecem a inspiração e a alegria da vida que só mesmo loucamente pode redundar, como diria Michel Foucault, em beleza possível.

 

Três esquizos literários: Antonin Artraud, Raymond Roussel e Jean-Pierre Brisset
Nº de páginas: 200
ISBN: 978-85-205-0564-9

Marcos Eduardo Rocha Lima é doutor em Literatura pela UFSC. Atuou como professor da Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM), na Cidade do México, da Fundação Mineira de Educação e Cultura (FUMEC), em Belo Horizonte/MG, e na Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI), em Itajaí/SC. Atualmente, é professor adjunto do Departamento de Psicologia da UFSC e coordenador do Projeto de Extensão intitulado “Grupo de Teatro, Cinema e Terapia para Usuários do CAPS”.

 

-À flor da pele: subjetividade,  clínica e cinema no contemporâneo (Leila Domingues)

      Temos aqui um livro que fala sobre os sentidos. Assim como poderá partir do cinema para questões que envolvem a subjetividade, do cinema à ética, do cinema à clínica, também, é um livro que lê a subjetividade como produção de sentidos, que lê a ética que perpassa os modos de vida. Leila Domingues nos presenteia com a sensibilidade de trazer a voz dos que lutam contra os controladores artificiais de sentidos, dos controladores morais de sentidos. É um livro que, como diz a autora, que faz experimentar a leitura por todos os lados, então, “Faça-o seu.”. Não um alerta contra males vindo “de poderosas indústrias de produção de sentidos e conceitos manufaturados para o mundo”. É um livro que age no sentido contrário da letargia ou das euforias artificiais, que vai da leitura para a descoberta do texto.

     À Flor da Pele é um livro sem bula, sem receita, mas com a diversidade dos benefícios que a leitura traz em na sua profundidade de temas tão importantes na atualidade. O leitor encontrará a abertura para outros sentidos, “A linguagem contém as palavras, mas não os dizíveis”, diz a autora. 

 À flor da pele: subjetividade, clínica e cinema no contemporâneo
Nº de páginas: 139
ISBN: 978-85-205-0586-1

Leila Dominguesé graduada em Psicologia (USU), mestre em Teoria Psicanalítica (UFRJ), doutora em Psicologia Clínica (PUC-SP) e pós-doutora em Psicologia Social (UERJ). É professora do Departamento de Psicologia e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Institucional (UFES), coordenadora do LIS/CNPq – Laboratório de Imagens da Subjetividade.

 

– Rumores Discretos da Subjetividade (Rosane Preciosa)

Rumores Discretos da Subjetividade é um texto ensaístico, em que a autora maneja uma escritura que preza seus inacabamentos, onde o espelho se quebra, mesclando a reflexão e sonhos. Tudo pode nascer dos signos na escritura, o inacabado está no limiar do começo, onde o leitor poderá encontrar o seu canto para ler e ficar. Constrói então uma narrativa nada linear, que de forma incansável, página à página,  vai convocando estados de invenção de si mesma, revelando-se uma espécie de pesquisadora da existência em busca dos espaços e variações do pensamento. Se trata de um texto para além da poesia, um poético do narrar na contemporaneidade.

“Uma admirável surpresa, dentre outras que rumorejam ao longo deste bom encontro, advém do discreto realce da beleza que se envolve com as frases aí presentes. Entretanto, essa virtude do livro não me deixa preso, como leitor, apenas ao prazer da leitura. Ela me obriga a acolher com delicado esforço pensante sua própria raridade, sua força cognitiva e seu engenho estético. Nessa escrita, os próprios pensamentos ficam sensibilizados” (fragmento de texto de Luiz  B. L.Orlandi)

Enfim, um livro de interesse para artistas e todos aqueles envolvidos com questões sobre escritura, subjetividade e contemporaneidade.

  Rumores Discretos da Subjetividade
Nº de páginas: 96
ISBN: 978-85-205-0545-8

Rosane Preciosa é doutora em Psicologia Clínica (Núcleo de Estudos e Pesquisas da Subjetividade Contemporânea) pela PUC/SP. É autora do livro Produção Estética: notas sobre roupas, sujeitos e modos de vida, publicado, 2005, pela editora Anhembi Morumbi de São Paulo. Pesquisa moda, fronteiras arte e moda, cultura contemporânea e política da subjetividade. Atualmente é professora do bacharelado interdisciplinar do Instituto de Artes e Design da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

 

– Os Cantos de Fouror: escrileitura em filosofia-educação (Sandra Mara Corazza)

Os Cantos de Fouror é a cartografia da diferença, é o livro que parte da escrileitura ao ato de educar através da filosofia livre de ideais. Temos um texto contundente que na rebelião das idéias contraria a lógica formal do pensamento. Um livro em que toca fundo o corpus do texto, da carne. Um livro que nasce para disseminar os cantos em nome de um educar sem as regras de um bom pensamento. Aqui o leitor irá encontrar a diferença nos autores, na literatura vista, olhada de dentro do olho que de leituras inovadoras não propõem um único caminho para se ler e cantar o pensamento contemporâneo. O maldizer aqui é banido por suas escolhas em nome de pensadores malditos — o caminho é da diferença — do encontro das leituras no que diria Barthes “uma literatura a céu aberto” quando pensou em Bataille e nisso Sandra encontra o signo das escrileituras.

A Cartografias segue seu rumo(s) através do olhar transdisciplinar sob a coordenação da Dra. Tania Fonseca que sabe escolher os labirintos, por onde a compreensão dos temas encontram os leitores atentos as possibilidades da Filosofia da Diferença.

 

Os Cantos de Fouror: Escrileitura em filosofia-eucação

Nº de páginas: 296

ISBN: 978-85-205-0502-1

 

Sandra Mara Corazza: é licenciada em Filosofia. Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Professora Associada da Faculdade de Educação da UFRGS. Trabalha com a filosofia da diferença. É orientadora do mestrado e doutorado. Coordena o Grupo de Pesquisa DIF – artistagens, fabulações, variações. É pesquisadora em currículo e infância contemporânea, junto ao CNPq. Além de artigos em revistas, é autora dos livros Para uma filosofia do inferno na educação: Nietzsche, Deleuze e outros malditos afins (2002) e Artistagens: filosofia da diferença e educação (2006).

 

– O impensável na clínica: virtualidades nos encontros clínicos (Luis  Eduardo P. Aragon)

      Fazendo uso de sua experiência singular, a qual atravessa os campos da cardiologia, psicanálise e filosofia, levanta questões fundamentais do cenário clínico contemporâneo, como o estatuto do corpo traduzido em imagens pela tecnologia médica, a redução da experiência do encontro aos quadros psicopatológicos tornados clichês ou as “agonias impensáveis” dos seres expropriados da condição de elaborar os acontecimentos que a vida lhes apresenta.
No limite, tanto o clínico como o paciente, o escritor ou o leitor se desconhecem, interrogam e inventam formas de si, a partir dos encontros, e Luis propõe o encontro de acontecimentos clínicos atuais com a experiência de filósofos como Deleuze, Lyotard, Simondon e IIIich, psicanalistas como Freud, Winnicott e Bion ou ainda etólogos como Uexküll e Stern. Destes encontros, disparações e afetações, distanciamo-nos das figuras de autoria, em favor da participação em um plano coletivo pré-pessoal e pré-individual, singular e intensivo, em que se forja uma clínica que aposta ética e politicamente na invenção e na alegria.

 

O impensável na clínica: virtualidades nos encontros clínicos

Nº de páginas: 156

ISBN:978-85-205-0476-5

Luis Eduardo P. Aragon: médico cardiologista, mestre em cardiologia pela UNIFESP, psicanalista e doutor em psicologia clínica pela PUC-SP (Núcleo de Estudos e Pesquisas da Subjetividade).

 

– Rizomas da reforma psiquiátrica: a difícil reconciliação (Tania Mara Galli Fonseca, Cláudia Maria Perrone e Selda Engelman)

Saltar no âmago de questões que permeiam a Reforma Psiquiátrica no Brasil para acelerar, cutucar, provocar seu movimento, sempre o movimento, foi motivo das viagens de pesquisa encontradas neste livro. Pesquisadoras que empunharam suas convicções e afectos na tentativa de reconciliar o irreconciliável: o tempo. Tempo que já não existe mais, que foge por todos os lados, que faz rizoma. Fluxos que se encontram e se desencontram, que emergem e submergem, que pululam em um vaivém de avanços e retrocessos, de conquistas e derrotas, de graus de forças: fortes e fracas. Fluxos que levam a um tempo perdido, um tempo onde o passado não cessa de exigir uma voz. Um tempo virtual que já está aí, que urge ao despertar para ser reconquistado. Enfim, como reconciliar a loucura com a sua razão? A Reforma com a sua Reforma? Este livro esboça alguns caminhos as possíveis condições para um agenciamento coletivo que poderá repercurtir em muitos outros movimentos pelos direitos à vida.

 

Rizomas da reforma psiquiátrica: a difícil reconciliação

Nº de páginas: 182

ISBN: 978-85-205-0445-1

 

 

– Grupo: a afirmação de um simulacro (Regina Benevides de Barros)

O trabalho acompanha, num primeiro momento, os movimentos de construção do objeto-grupo destacando alguns dos diagramas que foram se montando, especialmente da década de 40 do século XX até os dias atuais. As cartografias percorridas apontaram para a emergência do grupo como objeto intermediário entre o indivíduo e a sociedade. O grupo inclui-se no modo de subjetivação ao qual demos o nome de modo-indivíduo. A totalização, a unidade, a generalização, a intimização e a identidade são características dominantes deste modo que, no caso do grupo acabou por transformá-lo em mais um dentre outros indivíduos.
Num segundo momento, o trabalho aponta para outras linhas e outros modos de subjetivação possíveis de se configurar. A subjetividade, não mais tomada como equivalente à noção de indivíduo, promove a abertura para o campo das multiplicidades informes, onde se processam agenciamentos. Escapando das dualidades impostas pelo modo-indivíduo, encontramos a possibilidade de criar um grupo-dispositivo que favoreça a emergência de modos singulares de existência. O grupo no seio da multiplicidade, passa a operar como um entre: abrem-se possibilidades de agenciamento nos quais diferenças serão produzidas. Aqui ele se faz grupo-molecular, a desenhar linhas heterogenéticas, porque construídas pelas diferenças que se engendram incessantemente. Trata-se de uma prática grupal que segue a via da criação-experimentação-diferenciação, na qual se destaca a dimensão processual, operando desconstruções que visam efeitos desindividualizantes. Um paradigma ético-estético-político insinua-se nos momentos da constituição do objeto-grupo, delineando nova paisagem.

 

Grupo: a afirmação de um simulacro

Nº de páginas: 350

ISBN: 978-85-205-0461-1

 

Regina Benevides de Barros: Doutora em Psicologia Clínica pela PUC/SP. Psicóloga e professora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense. Autora de artigos publicados em livros e revistas nacionais e internacionais na área de Instituições e Grupos.

 

– Cartografia Sentimental. Transformações contemporâneas do desejo. (Suely Rolnik)

Perguntamo-nos sobre o relançamento do livro de Suely Rolnik: o que nele insiste em durar, relançando-o em dias outros que não aqueles de sua criação? Estamos, sem dúvida, diante de um livro-tempo, desdobrado de si mesmo, proliferado pelas escavações dos leitores e dos silêncios que ainda guarda. Suely Rolnik pertence à tribo dos extemporâneos e intempestivos. Seu trabalho de pensamento e escrita segue a imagem dos estilhaços bifurcantes de uma granada sempre recém-lançada na direção de nosso desalojamento. Sua escrita nos transporta sempre para algo por vir e, como máquina de afectos, opera tanto como sismógrafo quanto terremoto.

A Coleção Cartografias contagia-se e anima-se com o prestígio da autora e de sua obra. Oferece ao público leitor essa publicação já consagrada como referência inconteste, e sabe, de antemão, que seu grande valor refere-se ao que nela sempre resiste e insiste, enfim, à sua face de livro por vir.

 

Cartografia Sentimental. Transformações contemporâneas do desejo.

Nº de páginas: 248

ISBN: 85-205-0424-8

 

Suely Rolnik:psicanalista, ensaísta e curadora, é professora titular da PUC-SP. Autora entre outros, de Micropolítica. Cartografias do desejo em co-autoria com Guattari (Vozes, 1986) do qual uma 7ª edição revisada (Vozes, 2005) está sendo publicada em 6 países, entre os quais EUA (Semiotext/MIT) e França (Seuil).

 

– Trabalho e Loucura: por uma biopolítica dos afectos  (Selda Engelman)

         A associação entre ex-internos e moradores da vila já nos joga no coração da precariedade, ali onde o desvalimento social proveniente do desemprego se cruza com a morte social, proveniente da internação psiquiátrica. Se acrescentamos a isso o trabalho realizado por essas pessoas, a reciclagem de lixo, é inevitável dizer: são os dejetos sociais e psíquicos inventando uma saída a partir dos dejetos industriais… Como se vê, o tema desse trabalho é absolutamente fascinante, porque é uma descida ao fundo do poço, a uma espécie de ponto zero social e psíquico, a partir do qual impõe-se pensar as viradas possíveis. Nesse contexto, a escolha de trabalhar essa configuração a partir da idéia de vida nua de Giorgio Agamben é compreensível, com toda a rede de associações problemática porém inevitável que ela carrega, o campo de concentração, o estado de exceção..  Afinal, hoje cada vez mais essa condição se alastra por populações as mais diversas, desde imigrantes albaneses até minorias étnicas ou maiorias privadas de seus direitos, chegando até os prisioneiros da Al Qaeda em Guantánamo. A autora fala na sua perturbação do seguinte modo: Eu buscava uma aproximação com lugares onde a vida poderia ter sido reduzida ao simples fato de viver (zoè) e pensava quais seriam as possibilidades de reverter, revestir novamente essa vida, com a criação e invenção de novas formas (bios). E continua: Também com Agamben, encontrei um outro sentido para biopolítica, uma biopolítica minoritária, menor, na qual os mais assujeitados do poder, os mais miseráveis, precarizados e desvalidos são aqueles que têm a presunção de uma resposta de esperança… Eles são o resto da divisão (entre ricos/pobres, loucos/não loucos). Não há lugar para colocá-los, seja esse lugar uma categoria, uma classe social e/ou uma identidade. Não há nada que os identifique, tamanhas suas misérias. Para Agamben, esse resto poderia ser visto como resistência, pois aquele que não tem um lugar, constrói um lugar.
É poderoso, é comovente, é inescapável. Claro, tem uma ponta de messianismo, benjaminiano, por onde se insinua a esperança, ou a salvação, a partir dos mais desesperados.. Mas a autora não toma essa via, embora ela esteja presente no seu trabalho. Ela toma uma via muito concreta, e sua bagagem em Deleuze, Guattari e Foucault a ajuda nisso, bem como uma série de outros autores convocados. Ela se pergunta então sobre as possibilidades de reversão nesse ponto de vida nua, e encontra ali, como ela diz, trejeitos, práticas de ver o mundo, singularidades, mas também, e sobretudo, concebe a própria ATUT como um dispositivo de subjetivação, que amplia os patamares de sociabilidade, que compõe novos territórios existenciais, ao mesmo tempo em que promove condições de sustentabilidade.  Considero essa perspectiva justa e promissora, e creio que ela convoca os conceitos pertinentes para pensar essa direção, não só a empresa social, a empresa solidária, a idéia de empreendedor biopolítico, a própria idéia de dispositivo, de dispositivo de subjetivação, de trabalho afetivo.. Enfim, devo dizer que o trabalho tem a capacidade de selecionar, no vasto universo de conceitos e filosofemas freqüentados nos últimos anos, aqueles fios com os quais se pudesse tornar essa experiência inteligível. A autora aceitou o desafio de não se esconder atrás da teoria, de trazer essas pessoas, suas falas, alguns trechos sobre sua dinâmica, sobre os conflitos entre os da vila e do hospital, as mudanças na vida de algumas pessoas.
Em suma, nesse trabalho aparece o problema da relação entre vida, desvalor, trabalho, coletivo, subjetividade. Ao pensar nessa trama produtiva, onde tudo está um pouco mesclado, o trabalho, o afeto, a comunidade – somos impelidos a revisitar a idéia de agenciamento coletivo, bem como a noção de empresa social, atravessada pelo empreendedorismo biopolítico.
É um desafio gigantesco, hoje, o de pensar a biopolítica de maneira concreta, em espaços concretos, com pessoas concretas, e ver como ali, no extremo da vida nua se forjam redes “quentes”, como diz o trabalho. Nesse sentido, esse texto se insere numa preocupação maior, que a meu ver está no ar, e merece ser pensada com a maior coragem.

 Peter Pál Pelbart

 

Trabalho e Loucura
Uma biopolítica dos afetos

Nº de páginas: 176

ISBN: 85-205-0425-6

 

Selda Engelman: é administradora de empresas e administradora pública, mestre em psicologia social e institucional (UFRGS) e doutoranda em educação (UFRGS). É pesquisadora, consultora e uma das organizadoras do livro Corpo – arte e clínica (Editora UFRGS).

 

– A face oculta da organização:A Microfísica do Poder na Gestão do Trabalho (José Mário Neves)

O livro “A FACE OCULTA DA ORGANIZAÇÃO: a microfísica do poder na gestão do trabalho”, lançado pela Coleção Cartografias, busca dar visibilidade ao jogo de forças e estratégias moleculares que constitui a forma como se gerencia o trabalho nas organizações, a partir de uma questão bem concreta: como o gestor/gerente/chefia faz para gerenciar. A base empírica para o desenvolvimento deste estudo foi uma organização pública, mas as análises desenvolvidas do processo de gestão do trabalho extrapolam o universo do serviço público, possibilitando desvelar a microfísica do poder nas organizações. O resultado são algumas contribuições inovadoras para a discussão sobre o processo de gestão, entre as quais vale destacar: a análise das características da cultura brasileira e sua incidência sobre o padrão gerencial que temos em nossas organizações; a apresentação de uma nova perspectiva para as discussões sobre a eficiência no serviço público e a Reforma do Estado; e o exame minucioso do processo de gestão, dando visibilidade ao jogo de forças e estratégias moleculares que conformam a maneira como se gerencia o trabalho nas organizações brasileiras.

A investigação do jeitinho brasileiro, juntamente com o exame das raízes históricas do fosso social existente entre o trabalho manual e o trabalho intelectual, permitem compreender a incidência da cultura brasileira na dinâmica de gestão do trabalho e fornece elementos para enriquecer a análise do funcionamento das organizações, evidenciando a singularidade da forma como se gerencia em nosso país.

A forma simplista como têm sido feitas as discussões sobre a eficiência do serviço público e a Reforma do Estado em nosso país, decorre, por um lado, da colocação do problema da ineficiência no serviço público como este se fosse uma falha ou uma disfunção e, por outro, da discussão da crise do Estado isoladamente da análise da correlação de forças que caracteriza a atual fase do capitalismo globalizado. A análise estratégica do processo de constituição Estado brasileiro permite demonstrar que a ineficiência no serviço público não é uma disfunção ou uma falha em um sistema que deveria funcionar, mas uma produção, pois o Estado brasileiro está estruturado para produzir um determinado padrão de eficiência/ineficiência. Portanto, a abordagem dominante, que coloca a discussão em termos de necessidade de superação do paradigma burocrático pelo paradigma gerencial, não esta habilitada a perceber a complexidade do problema e a indicar a direção das medidas a serem tomadas.

 A investigação das dinâmicas gerenciais, mediante o exame minucioso do processo de constituição das normas e da sua aplicação através da flexibilização seletiva das práticas, permite compreender a microfísica do poder nas organizações. Através da análise genealógica dos processos de gestão, a partir de contribuições de Michel Foucault e Pierre Bourdieu, explicita-se a dinâmica das relações de força na organização, colocando em evidência as estratégias desenvolvidas pelos diferentes agentes. O conjunto dessas análises estabelece uma cartografia das relações de poder, propiciando uma compreensão da dinâmica da construção da governabilidade na gestão do trabalho nas organizações brasileiras.

 

 

A Face Oculta da Organização: a microfísica do poder na gestão do trabalho

Editora da UFRGS e Editora Sulina

Nº de páginas: 191

José Mário Neves é mestre em Psicologia Social e Institucional pela UFRGS e especialista em Psicologia Organizacional e do Trabalho pelo Conselho Federal de Psicologia. É psicólogo na Prefeitura Municipal de Porto Alegre e sócio e consultor da NEXUS Consultoria e Desenvolvimento Institucional.

Editora UFRGS 

Editora Sulina