{"version":"1.0","provider_name":"Corporalidades","provider_url":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades","author_name":"gerente","author_url":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/author\/gerente\/","title":"UMA DRAG QUEEN VITRUVIANA - Corporalidades","type":"rich","width":600,"height":338,"html":"<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"7REktPK96L\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/uma-drag-queen-vitruviana\/\">UMA DRAG QUEEN VITRUVIANA<\/a><\/blockquote><iframe sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/uma-drag-queen-vitruviana\/embed\/#?secret=7REktPK96L\" width=\"600\" height=\"338\" title=\"&#8220;UMA DRAG QUEEN VITRUVIANA&#8221; &#8212; Corporalidades\" data-secret=\"7REktPK96L\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\" class=\"wp-embedded-content\"><\/iframe><script>\n\/*! This file is auto-generated *\/\n!function(d,l){\"use strict\";l.querySelector&&d.addEventListener&&\"undefined\"!=typeof URL&&(d.wp=d.wp||{},d.wp.receiveEmbedMessage||(d.wp.receiveEmbedMessage=function(e){var t=e.data;if((t||t.secret||t.message||t.value)&&!\/[^a-zA-Z0-9]\/.test(t.secret)){for(var s,r,n,a=l.querySelectorAll('iframe[data-secret=\"'+t.secret+'\"]'),o=l.querySelectorAll('blockquote[data-secret=\"'+t.secret+'\"]'),c=new RegExp(\"^https?:$\",\"i\"),i=0;i<o.length;i++)o[i].style.display=\"none\";for(i=0;i<a.length;i++)s=a[i],e.source===s.contentWindow&&(s.removeAttribute(\"style\"),\"height\"===t.message?(1e3<(r=parseInt(t.value,10))?r=1e3:~~r<200&&(r=200),s.height=r):\"link\"===t.message&&(r=new URL(s.getAttribute(\"src\")),n=new URL(t.value),c.test(n.protocol))&&n.host===r.host&&l.activeElement===s&&(d.top.location.href=t.value))}},d.addEventListener(\"message\",d.wp.receiveEmbedMessage,!1),l.addEventListener(\"DOMContentLoaded\",function(){for(var e,t,s=l.querySelectorAll(\"iframe.wp-embedded-content\"),r=0;r<s.length;r++)(t=(e=s[r]).getAttribute(\"data-secret\"))||(t=Math.random().toString(36).substring(2,12),e.src+=\"#?secret=\"+t,e.setAttribute(\"data-secret\",t)),e.contentWindow.postMessage({message:\"ready\",secret:t},\"*\")},!1)))}(window,document);\n\/\/# sourceURL=https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-includes\/js\/wp-embed.min.js\n<\/script>\n","thumbnail_url":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Figura-3.png","thumbnail_width":960,"thumbnail_height":960,"description":"Por Douglas Ostruca Ao nos deparar com uma compila\u00e7\u00e3o de imagens do elenco de artistas selecionadas para a 18\u00aa temporada de RuPauls Drag Race (RPDR), percebemos uma redund\u00e2ncia est\u00e9tica expressa no estilo das maquiagens. Mudam as cores, a intensidade das linhas, a composi\u00e7\u00e3o dos olhos, mas o formato dos contornos e da ilumina\u00e7\u00e3o se repetem. Olhos e bocas grandes, narizes afinados, zigom\u00e1ticos ressaltados, recorr\u00eancias tamb\u00e9m percebidas nos tutorias de monta\u00e7\u00e3o drag publicados no YouTube investigados na pesquisa de mestrado e no meu pr\u00f3prio processo de monta\u00e7\u00e3o como drag queen. Essa predomin\u00e2ncia n\u00e3o \u00e9 apenas uma tend\u00eancia, os procedimentos concretos de aplica\u00e7\u00e3o dos produtos sobre o rosto d\u00e3o a ver l\u00f3gicas abstratas que sustentam um determinado formato de rosto, sendo essas regras de composi\u00e7\u00e3o impl\u00edcitas que nos interessa aqui mapear.\u00a0\u00a0 Entre os aspectos evidentes nos rostos das 13 bonitas apresentadas na Figura 1, est\u00e3o a simetria e a propor\u00e7\u00e3o harm\u00f4nica na distribui\u00e7\u00e3o das zonas de contorno e ilumina\u00e7\u00e3o, bem como na constru\u00e7\u00e3o dos olhos, narizes e bocas. Quem j\u00e1 se arriscou na arte da maquiagem, seja drag ou n\u00e3o, sabe como \u00e9 dif\u00edcil espelhar os tra\u00e7os, raramente consigo espelhar e recorro ao famoso truque do \u201cse errar, aumenta\u201d. \u00c9 por isso que na maior parte das vezes meu delineado vai at\u00e9 a base do cabelo e, observando bem, ainda assim a simetria n\u00e3o acontece. Beleza e simetria aparecem \u00e0 nossa percep\u00e7\u00e3o como sin\u00f4nimos, mas como \u00e9 que tais signos foram articulados? Entre os expoentes na hist\u00f3ria da arte a tratar das propor\u00e7\u00f5es do corpo humano est\u00e1 o pintor e cientista italiano Leonardo Da Vinci, com o Homem Vitruviano, constru\u00eddo por volta de 1490, o qual por sua vez parte dos estudos do arquiteto romano Marco Vitr\u00favio P\u00f3lio desenvolvidos em I a.C. O que nos parece \u00e9 que a maquiagem drag queen contempor\u00e2nea opera como uma tecnologia de reinscri\u00e7\u00e3o de um c\u00e2none ocidental de beleza baseado na propor\u00e7\u00e3o matem\u00e1tica, a qual apaga as diferen\u00e7as ao ser tomada como universal. Para desenvolver tal argumento, trabalharemos com um deslocamento da figura do Homem Vitruviano (figura 2) para a Drag Queen Vitruviana (figura 3), operando como uma personagem conceitual capaz de tornar hiperb\u00f3licas nossas observa\u00e7\u00f5es. Em seus estudos, o semioticista Umberto Eco (2014) localiza uma articula\u00e7\u00e3o entre beleza e propor\u00e7\u00e3o na filosofia plat\u00f4nica. Plat\u00e3o trata a propor\u00e7\u00e3o em seu car\u00e1ter ontol\u00f3gico, estando ela envolvida na constitui\u00e7\u00e3o do cosmos. Nas palavras do fil\u00f3sofo, \u201c[\u2026] o mais belo dos la\u00e7os \u00e9 aquele que, na medida do poss\u00edvel, faz de si e das coisas afins uma coisa s\u00f3: ora, a propor\u00e7\u00e3o realiza isso de modo bel\u00edssimo\u201d (Plat\u00e3o, s\u00e9c. IV a.C., Timeu, 31c-32b, apud Eco, 2014, p. 49). Nisso, a propor\u00e7\u00e3o aparece como uma rela\u00e7\u00e3o, um la\u00e7o que une elementos distintos em \u201cuma coisa s\u00f3\u201d, ou seja, a unifica\u00e7\u00e3o do heterog\u00eaneo. Em sua leitura, Eco (2014) destaca que em Plat\u00e3o a beleza se distingue do suporte f\u00edsico no qual pode vir a se manifestar. Nesse sentido, a arte aparece como uma c\u00f3pia da beleza aut\u00eantica, devendo ser substitu\u00edda pela beleza das formas geom\u00e9tricas compostas pela propor\u00e7\u00e3o. Apesar dessa desconfian\u00e7a de Plat\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a arte, Eco sugere que as ideias do fil\u00f3sofo influenciam artistas daquele per\u00edodo, como \u00e9 o caso do escultor grego Policleto que constr\u00f3i uma est\u00e1tua com base em regras de propor\u00e7\u00e3o tomadas posteriormente como can\u00f4nicas.&nbsp; Tamb\u00e9m interessado nas express\u00f5es da propor\u00e7\u00e3o na arte, o pesquisador Mario Curti (2014)) aponta o arquiteto romano Marco Vitr\u00favio P\u00f3lio, em I a.C, como um marco no estabelecimento de uma descri\u00e7\u00e3o do corpo masculino ideal. Segundo Curti, esta descri\u00e7\u00e3o se aproxima mais de um ideograma do que da representa\u00e7\u00e3o de um corpo humano, sustentando-se apenas na imobilidade plana e sem volumes. Ao se dar conta da inconsist\u00eancia de seu modelo ideal, Vitr\u00favio prop\u00f5e ajustes no c\u00e2none atrav\u00e9s da teoria das corre\u00e7\u00f5es \u00f3pticas, a qual para Curti permanece limitada, j\u00e1 que toma como base um ponto de vista fixo ao n\u00edvel dos olhos que n\u00e3o \u00e9 definido especificamente. Esses ajustes quebram por si s\u00f3 com a busca por uma propor\u00e7\u00e3o can\u00f4nica universal que possa ser definida objetivamente. Tanto Umberto Eco (2014), quanto Mario Curti (2014), observam a influ\u00eancia da filosofia e da arte grega e romana no Renascimento, com destaque para a articula\u00e7\u00e3o entre as no\u00e7\u00f5es de beleza e de propor\u00e7\u00e3o matem\u00e1tica. \u00c9 nesse contexto que Leonardo da Vinci reaviva o c\u00e2none de Vitr\u00favio ao compor o conhecido Homem Vitruviano como corpo ideal. Assim como Vitr\u00favio enfrentou problemas de distor\u00e7\u00e3o \u00e0 vis\u00e3o na busca por medidas fixas em seu c\u00e2none, Da Vinci precisou incluir ajustes como tentativa de ajustar as inconsist\u00eancias de uma propor\u00e7\u00e3o fixa. Nisso, o pintor considerou varia\u00e7\u00f5es decorrentes do movimento dos corpos e da idade. Em vista disso, Curti destaca a impossibilidade de se efetivar um c\u00e2none das propor\u00e7\u00f5es, n\u00e3o havendo converg\u00eancia em termos de padr\u00f5es \u00fanicos que abranjam a heterogeneidade de express\u00f5es do corpo humano. \u00c9 nesse sentido que o escultor renascentista Vincenzo Danti afirma que n\u00e3o h\u00e1 uma propor\u00e7\u00e3o fixa nas representa\u00e7\u00f5es do corpo humano em pinturas e esculturas, confrontando as buscas por identificar tal padr\u00e3o. Michelangelo di Lodovico&nbsp; \u00e9 outro pintor e escultor a tensionar a busca pelas propor\u00e7\u00f5es ideias, sugerindo que artistas deveriam confiar apenas no senso de propor\u00e7\u00e3o dos seus olhos, colocando a percep\u00e7\u00e3o visual acima dos c\u00e2nones. Em rela\u00e7\u00e3o a isso, Eco (2014) ressalta que apesar da articula\u00e7\u00e3o entre beleza e propor\u00e7\u00e3o se fazer presente em distintos momentos hist\u00f3ricos, h\u00e1 uma diferen\u00e7a no que em cada contexto \u00e9 entendido como proporcional. Al\u00e9m disso, o semioticista&nbsp; alerta para o risco das leituras anacr\u00f4nicas, o que sugere a necessidade de se demarcar a diferen\u00e7a entre a perspectiva de beleza na era cl\u00e1ssica, no renascimento e no que hoje percebemos como belo nas monta\u00e7\u00f5es drag queen. Mas se a nossa Drag Queen Vitruviana n\u00e3o \u00e9 uma c\u00f3pia do Homem Vitruviano de Da Vinci, ent\u00e3o porque sugerir tal figura para pensar os par\u00e2metros de maquiagem em uma monta\u00e7\u00e3o? O que tais figuras compartilham n\u00e3o s\u00e3o os mesmos c\u00f3digos de beleza expressos visivelmente. Michelangelo, Vincezo e Eco nos dizem da impossibilidade de se estabelecer uma mesma propor\u00e7\u00e3o que seja fixa e comum a diferentes obras de arte em distintos per\u00edodos hist\u00f3ricos. Disso, entendemos que na materialidade das monta\u00e7\u00f5es drag queen tamb\u00e9m s\u00e3o m\u00faltiplas as varia\u00e7\u00f5es proporcionais que regem as maquiagens. Contudo, o que a figura da Drag Queen Vitruviana d\u00e1 a ver, assim como o Homem Vitruviano, \u00e9 a valoriza\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria propor\u00e7\u00e3o como signo de beleza. Isso \u00e9 que opera como uma l\u00f3gica de funcionamento nas monta\u00e7\u00f5es. Mesmo que concretamente sejam m\u00faltiplas as varia\u00e7\u00f5es, h\u00e1 nelas uma busca pela beleza ideal expressa na propor\u00e7\u00e3o harm\u00f4nica e na simetria das formas desenhadas sobre os rostos. Trata-se de uma reinscri\u00e7\u00e3o da busca incessante pela propor\u00e7\u00e3o como forma de alcan\u00e7ar uma harmonia reconhecia coletivamente como bela. Isso vai ao encontro da afirma\u00e7\u00e3o de Mario Curti (2014), de que apesar de criticada e tensionada ao longo dos s\u00e9culos, a propor\u00e7\u00e3o como r\u00e9gua para medir a beleza ideal insiste em retornar. Para o pesquisador, isso fica evidente no caso dos estudos do matem\u00e1tico romeno Matila Ghyka (1977) que no in\u00edcio do s\u00e9culo XIX procura por ind\u00edcios da repeti\u00e7\u00e3o da propor\u00e7\u00e3o \u00e1urea (tamb\u00e9m conhecida por propor\u00e7\u00e3o divina ou n\u00famero de ouro) em diferentes formas de express\u00e3o, indo de conchas, pinturas, constru\u00e7\u00f5es Greco-Romanas e Renascentistas, at\u00e9 o corpo humano. Isso demonstra o que Curti entende como uma obsess\u00e3o ocidental pela busca da propor\u00e7\u00e3o universal como princ\u00edpio de organiza\u00e7\u00e3o das formas heterog\u00eaneas do mundo, a qual \u00e9 associada \u00e0 beleza. Em seus estudos sobre as propor\u00e7\u00f5es do rosto humano, Matila Ghyka (1977) identifica uma correla\u00e7\u00e3o entre a simetria do formato geom\u00e9trico do icosaedro (figura 4), identificado em pir\u00e2mides eg\u00edpcias, e os rostos humanos ideais tidos pelo autor como uma m\u00e9dia entre os indiv\u00edduos. Nas palavras de Ghyka, \u201cSe tomarmos (&#8230;) a proje\u00e7\u00e3o do grande icosaedro como a moldura do rosto humano, LOK \u00e9 a horizontal dos olhos, mn a da ponta do nariz, PS a da boca\u201d (1977, p.66, tradu\u00e7\u00e3o nossa). Isso evidencia n\u00e3o s\u00f3 a valoriza\u00e7\u00e3o da simetria, mas uma busca por estabelecer um padr\u00e3o rigoroso do que seria o rosto humano ideal. Nessa mesma linha de pensamento, Ghyka ainda sugere que tais rostos ideais correspondem com a propor\u00e7\u00e3o \u00e1urea (\u03a6), chegando a especificar as raz\u00f5es matem\u00e1ticas. Em suas palavras, No rosto mediano ou ideal, encontramos tamb\u00e9m a propor\u00e7\u00e3o \u03a6 entre a altura do rosto (at\u00e9 a raiz do cabelo) e a dist\u00e2ncia vertical &#8216;linha das sobrancelhas-ponta inferior do queixo&#8217;, e entre a dist\u00e2ncia vertical &#8216;parte inferior do nariz-ponta inferior do queixo&#8217; e a dist\u00e2ncia &#8216;linha de encontro dos l\u00e1bios-ponta inferior do queixo (Ghyka, 1977, p.98, tradu\u00e7\u00e3o nossa). Por essa via, Ghyka afirma que tais par\u00e2metros foram encontradas nas medi\u00e7\u00f5es do rosto da atleta Helen Wills, campe\u00e3 ol\u00edmpica de t\u00eanis (figura 5). Al\u00e9m do \u00e2mbito da beleza, o autor chega a associar tais propor\u00e7\u00f5es a um padr\u00e3o de normalidade, reconhecendo que existem varia\u00e7\u00f5es individuais, mas que os corpos saud\u00e1veis expressam um \u201cdesign &#8216;sinf\u00f4nico&#8217; perfeito ou tema harm\u00f4nico\u201d (1977, p.97, tradu\u00e7\u00e3o nossa). Entendemos tal cadeia associativa n\u00e3o s\u00f3 como obsessiva, conforme sugere Curti (2014), mas tamb\u00e9m como delirante. \u00c9 o del\u00edrio ocidental de apagar as diferen\u00e7as em prol de um padr\u00e3o homog\u00eaneo. Trata-se de um modo de pensamento que estabelece um padr\u00e3o de medida a partir do qual as diferen\u00e7as ser\u00e3o categorizadas, hierarquizadas e, sempre que poss\u00edvel, corrigidas.&nbsp; Chama a nossa aten\u00e7\u00e3o que a sobreposi\u00e7\u00e3o da propor\u00e7\u00e3o \u00e1urea sobreposta em rostos, conforme proposto por Ghyka, reaparece na maquiagem drag queen como um sistema de distribui\u00e7\u00e3o de luz e sombra, produzindo um rosto idealizado atrav\u00e9s de par\u00e2metros geom\u00e9tricos (figura 7). Nas maquiagens art\u00edsticas, e tamb\u00e9m sociais, busca-se ressaltar com uma base de tom mais claro a chamada \u201czona T\u201d, constru\u00edda atrav\u00e9s de pontos paralelos em uma linha vertical (um ponto na testa pr\u00f3ximo \u00e0s sobrancelhas, a linha superior do nariz, um ponto acima do l\u00e1bio e outro ponto no queixo). \u00c9 curioso que esses pontos correspondam com as propor\u00e7\u00f5es mencionadas por Ghyka sobre o rosto ideal. Al\u00e9m desses, as maquiagens tamb\u00e9m ressaltam a regi\u00e3o abaixo dos olhos, formando tri\u00e2ngulos invertidos. J\u00e1 a parte superior da testa, os lados do nariz, as bochechas e os ossos do maxilar tendem a ser contornados em um tom mais escuro de base, refor\u00e7ando a ideia de uma moldura que pode at\u00e9 lembrar as arestas do icosaedro presentes nas leituras de Ghyka (figuras 4 e 6).&nbsp; Cabe notar que as varia\u00e7\u00f5es nas medidas de rostos individuais em rela\u00e7\u00e3o aos padr\u00f5es ideais mencionadas por Ghyka, tamb\u00e9m s\u00e3o consideradas na materializa\u00e7\u00e3o do diagrama de contorno e ilumina\u00e7\u00e3o das maquiagens. Embora haja uma regi\u00e3o comum, os tra\u00e7os de luz e sombra variam de um rosto para o outro, tendo em vista que os rostos em si apresentam formatos distintos. Com isso, as varia\u00e7\u00f5es heterog\u00eaneas podem ser atenuadas e sobrecodificadas pela propor\u00e7\u00e3o ideal e supostamente universal. O que est\u00e1 na cara nessa l\u00f3gica de pensamento, mas que muitas vezes n\u00e3o vemos \u00e9 que o concreto, os corpos em si, s\u00e3o o que variam e mesmo que seja poss\u00edvel extrair um ideal a partir de uma m\u00e9dia entre essas varia\u00e7\u00f5es, ainda assim, na materialidade dos corpos permanecem as varia\u00e7\u00f5es. S\u00e3o as diferen\u00e7as que precisam ser apagadas e ajustadas para que se sustente a ideia de uma propor\u00e7\u00e3o matem\u00e1tica fixa, percebida como ideal, normal, saud\u00e1vel, bela. Reencontramos aqui o problema enfrentado por Vitruvio e, posteriormente, por Da Vinci, os quais acabam por sugerir flexibiliza\u00e7\u00f5es nos c\u00e2nones para abarcar as varia\u00e7\u00f5es de ponto de vista, de postura e de tonicidade dos corpos representados artisticamente. Indo ainda mais longe, Michelangelo di Lodovico e Vincenzo Danti criticaram a no\u00e7\u00e3o de que h\u00e1 um padr\u00e3o fixo de propor\u00e7\u00e3o para a representa\u00e7\u00e3o do corpo humano na arte. Contudo, essa l\u00f3gica \u00e9 t\u00e3o cristalizada em nossa subjetividade que o del\u00edrio da busca pela propor\u00e7\u00e3o ideal insiste em retornar e se repetir.&nbsp; A Drag Queen Vitruviana \u00e9, para n\u00f3s, a figura abstrata que rege nossas subjetividades em busca da propor\u00e7\u00e3o divina, mas que s\u00f3 existe como abstra\u00e7\u00e3o cristalizada, m\u00e1quina de rostidade que opera atrav\u00e9s..."}