{"id":1192,"date":"2014-09-11T18:47:49","date_gmt":"2014-09-11T18:47:49","guid":{"rendered":"http:\/\/corporalidades.wordpress.com\/?p=951"},"modified":"2014-09-11T18:47:49","modified_gmt":"2014-09-11T18:47:49","slug":"boaventura-e-as-ciencias-sociais-necessarias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/boaventura-e-as-ciencias-sociais-necessarias\/","title":{"rendered":"Boaventura e as ci\u00eancias sociais necess\u00e1rias"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_952\" aria-describedby=\"caption-attachment-952\" style=\"width: 660px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/corporalidades.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/foto-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-952\" src=\"http:\/\/corporalidades.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/foto-1.jpg\" alt=\"Cr\u00e9dito: Gustavo Diehl\/UFRGS\" width=\"660\" height=\"437\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-952\" class=\"wp-caption-text\">Cr\u00e9dito: Gustavo Diehl\/UFRGS<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na confer\u00eancia \u201cAs epistemologias do Sul e as ci\u00eancias sociais do futuro\u201d, realizada no dia 5 de setembro de 2014 para um Sal\u00e3o de Atos da UFRGS lotado, o soci\u00f3logo portugu\u00eas Boaventura de Sousa Santos realizou uma reflex\u00e3o cr\u00edtica acerca das ci\u00eancias sociais e de seu papel no mundo contempor\u00e2neo, al\u00e9m de sugerir tamb\u00e9m alguns caminhos epistemol\u00f3gicos pass\u00edveis de serem seguidos no presente e no futuro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para Boaventura, as ci\u00eancias sociais d\u00e3o sinais de esgotamento. Enquanto a alma deste grupo de disciplinas, ao longo dos tempos, caracterizou-se pelo desejo de construir uma sociedade melhor e mais justa, hoje em dia isto j\u00e1 n\u00e3o se verifica. Impregnados pelo esp\u00edrito neoliberal (segundo o qual n\u00e3o h\u00e1 alternativa de mundo poss\u00edvel a esta), cada vez mais cientistas sociais inserem-se em um pensamento funcional voltado para os interesses dos mercados e\/ou para as quest\u00f5es t\u00e9cnicas e administrativas relacionadas ao Estado. Da mesma maneira, as universidades funcionam tal como empresas, numa l\u00f3gica mercadol\u00f3gica que fortalece as \u00e1reas voltadas \u00e0 tecnologia em detrimento dos departamentos de humanidades. Empresas privadas de consultoria corporativa, ali\u00e1s, j\u00e1 disputam com a academia a m\u00e3o de obra de soci\u00f3logos, antrop\u00f3logos e historiadores, entre outros. Segundo ele, vemos hoje o \u00e1pice de um processo iniciado quando da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, que lentamente deslocou a for\u00e7a motriz da ci\u00eancia da \u201ccuriosidade\u201d para a \u201cutilidade\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O diagn\u00f3stico do soci\u00f3logo \u00e9 de que vivemos sob a domina\u00e7\u00e3o de tr\u00eas blocos: o capitalismo, o patriarcado e o colonialismo. Enquanto o primeiro \u00e9 alvo tradicional das mais variadas cr\u00edticas, e o segundo vem sendo crescentemente questionado pelo movimento feminista, o colonialismo ainda recebe pouca aten\u00e7\u00e3o. Boaventura ressalta este como o maior empecilho atual \u00e0s ci\u00eancias sociais. Para melhor explicar seus tra\u00e7os caracter\u00edsticos, ele divide o colonialismo entre colonialismo externo e interno.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_953\" aria-describedby=\"caption-attachment-953\" style=\"width: 660px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/corporalidades.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/foto-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-953\" src=\"http:\/\/corporalidades.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/foto-2.jpg\" alt=\"Cr\u00e9dito: Gustavo Diehl\/UFRGS\" width=\"660\" height=\"437\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-953\" class=\"wp-caption-text\">Cr\u00e9dito: Gustavo Diehl\/UFRGS<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao colonialismo externo, o intelectual nascido em Coimbra critica o olhar euroc\u00eantrico, dominante at\u00e9 hoje na academia, que sempre desprezou outras vis\u00f5es de mundo e pensadores dos demais continentes. Cientistas europeus \u2013 ligados \u00e0s mais variadas correntes pol\u00edticas e filos\u00f3ficas \u2013constru\u00edram obras relevantes, mas totalmente baseadas na no\u00e7\u00e3o de uma condi\u00e7\u00e3o superior da Europa sobre o resto do planeta. O conceito de desenvolvimento, segundo Boaventura,revela-se altamente agressivo e limitador da genu\u00edna produ\u00e7\u00e3o de conhecimento.Paradoxalmente, acad\u00eamicos dos pa\u00edses do \u201cSul geopol\u00edtico\u201d d\u00e3o continuidade a este processo desigual, utilizando-se das epistemologias cristalizadas no Norte durante os s\u00e9culos XIX e XX.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No ambiente interno das ci\u00eancias sociais, Boaventura aponta que o colonialismo traduz-se na exclus\u00e3o do quadro te\u00f3rico e do debate progressista atores sociais como os negros, as mulheres e os ind\u00edgenas. Assim como no colonialismo externo, aqui a voz dos grupos \u201cvencidos\u201d tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 considerada.Para ele, estas s\u00e3o provas de que as ci\u00eancias sociais n\u00e3o conseguem mais representar o mundo como ele realmente \u00e9, por dispor de instrumentos atrasados para a an\u00e1lise da sociedade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A partir disto,Boaventura de Sousa Santos prop\u00f5e o desenvolvimento das \u201cepistemologias do Sul\u201d: novas formas de conhecimento e modelos de colabora\u00e7\u00e3o entre a academia e os movimentos populares, as minorias, os grupos sociais tradicionalmente exclu\u00eddos do ambiente cient\u00edfico tradicional. Elabora\u00e7\u00f5es n\u00e3o extrativistas, mas dial\u00f3gicas, que valorizem o diferente e primem pela justi\u00e7a cognitiva. Nas palavras dele, \u00e9 preciso \u201cdesmonumentalizar o Ocidente\u201d, para que se possa realizar uma conversa mundial mais ampla. Como um dos exemplos deste tipo de atua\u00e7\u00e3o, ele cita a Universidade Popular dos Movimentos Sociais, iniciativa que ajudou a conceber no \u00e2mbito do F\u00f3rum Social Mundial (http:\/\/www.universidadepopular.org\/site\/pages\/pt\/em-destaque.php).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Assista \u00e0 confer\u00eancia \u201cAs epistemologias do Sul e as ci\u00eancias sociais do futuro\u201d, registrada pela UFRGS TV:<\/strong><\/p>\n<p>[youtube=http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=tvZBoV4o86Y]<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>TEXTO<\/p>\n<p>Ramiro Simch<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Na confer\u00eancia \u201cAs epistemologias do Sul e as ci\u00eancias sociais do futuro\u201d, realizada no dia 5 de setembro de 2014 para um Sal\u00e3o de Atos da UFRGS lotado, o soci\u00f3logo portugu\u00eas Boaventura de Sousa Santos realizou uma reflex\u00e3o cr\u00edtica acerca das ci\u00eancias sociais e de seu papel no mundo contempor\u00e2neo, al\u00e9m de sugerir tamb\u00e9m alguns caminhos epistemol\u00f3gicos pass\u00edveis de serem seguidos no presente e no futuro. &nbsp; Para Boaventura, as ci\u00eancias sociais d\u00e3o sinais de esgotamento. 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Segundo ele, vemos hoje o \u00e1pice de um processo iniciado quando da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, que lentamente deslocou a for\u00e7a motriz da ci\u00eancia da \u201ccuriosidade\u201d para a \u201cutilidade\u201d. &nbsp; O diagn\u00f3stico do soci\u00f3logo \u00e9 de que vivemos sob a domina\u00e7\u00e3o de tr\u00eas blocos: o capitalismo, o patriarcado e o colonialismo. Enquanto o primeiro \u00e9 alvo tradicional das mais variadas cr\u00edticas, e o segundo vem sendo crescentemente questionado pelo movimento feminista, o colonialismo ainda recebe pouca aten\u00e7\u00e3o. Boaventura ressalta este como o maior empecilho atual \u00e0s ci\u00eancias sociais. Para melhor explicar seus tra\u00e7os caracter\u00edsticos, ele divide o colonialismo entre colonialismo externo e interno. &nbsp; &nbsp; &nbsp; Em rela\u00e7\u00e3o ao colonialismo externo, o intelectual nascido em Coimbra critica o olhar euroc\u00eantrico, dominante at\u00e9 hoje na academia, que sempre desprezou outras vis\u00f5es de mundo e pensadores dos demais continentes. Cientistas europeus \u2013 ligados \u00e0s mais variadas correntes pol\u00edticas e filos\u00f3ficas \u2013constru\u00edram obras relevantes, mas totalmente baseadas na no\u00e7\u00e3o de uma condi\u00e7\u00e3o superior da Europa sobre o resto do planeta. O conceito de desenvolvimento, segundo Boaventura,revela-se altamente agressivo e limitador da genu\u00edna produ\u00e7\u00e3o de conhecimento.Paradoxalmente, acad\u00eamicos dos pa\u00edses do \u201cSul geopol\u00edtico\u201d d\u00e3o continuidade a este processo desigual, utilizando-se das epistemologias cristalizadas no Norte durante os s\u00e9culos XIX e XX. &nbsp; No ambiente interno das ci\u00eancias sociais, Boaventura aponta que o colonialismo traduz-se na exclus\u00e3o do quadro te\u00f3rico e do debate progressista atores sociais como os negros, as mulheres e os ind\u00edgenas. 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Segundo ele, vemos hoje o \u00e1pice de um processo iniciado quando da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, que lentamente deslocou a for\u00e7a motriz da ci\u00eancia da \u201ccuriosidade\u201d para a \u201cutilidade\u201d. &nbsp; O diagn\u00f3stico do soci\u00f3logo \u00e9 de que vivemos sob a domina\u00e7\u00e3o de tr\u00eas blocos: o capitalismo, o patriarcado e o colonialismo. Enquanto o primeiro \u00e9 alvo tradicional das mais variadas cr\u00edticas, e o segundo vem sendo crescentemente questionado pelo movimento feminista, o colonialismo ainda recebe pouca aten\u00e7\u00e3o. Boaventura ressalta este como o maior empecilho atual \u00e0s ci\u00eancias sociais. Para melhor explicar seus tra\u00e7os caracter\u00edsticos, ele divide o colonialismo entre colonialismo externo e interno. &nbsp; &nbsp; &nbsp; Em rela\u00e7\u00e3o ao colonialismo externo, o intelectual nascido em Coimbra critica o olhar euroc\u00eantrico, dominante at\u00e9 hoje na academia, que sempre desprezou outras vis\u00f5es de mundo e pensadores dos demais continentes. Cientistas europeus \u2013 ligados \u00e0s mais variadas correntes pol\u00edticas e filos\u00f3ficas \u2013constru\u00edram obras relevantes, mas totalmente baseadas na no\u00e7\u00e3o de uma condi\u00e7\u00e3o superior da Europa sobre o resto do planeta. O conceito de desenvolvimento, segundo Boaventura,revela-se altamente agressivo e limitador da genu\u00edna produ\u00e7\u00e3o de conhecimento.Paradoxalmente, acad\u00eamicos dos pa\u00edses do \u201cSul geopol\u00edtico\u201d d\u00e3o continuidade a este processo desigual, utilizando-se das epistemologias cristalizadas no Norte durante os s\u00e9culos XIX e XX. &nbsp; No ambiente interno das ci\u00eancias sociais, Boaventura aponta que o colonialismo traduz-se na exclus\u00e3o do quadro te\u00f3rico e do debate progressista atores sociais como os negros, as mulheres e os ind\u00edgenas. 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Enquanto a alma deste grupo de disciplinas, ao longo dos tempos, caracterizou-se pelo desejo de construir uma sociedade melhor e mais justa, hoje em dia isto j\u00e1 n\u00e3o se verifica. Impregnados pelo esp\u00edrito neoliberal (segundo o qual n\u00e3o h\u00e1 alternativa de mundo poss\u00edvel a esta), cada vez mais cientistas sociais inserem-se em um pensamento funcional voltado para os interesses dos mercados e\/ou para as quest\u00f5es t\u00e9cnicas e administrativas relacionadas ao Estado. Da mesma maneira, as universidades funcionam tal como empresas, numa l\u00f3gica mercadol\u00f3gica que fortalece as \u00e1reas voltadas \u00e0 tecnologia em detrimento dos departamentos de humanidades. Empresas privadas de consultoria corporativa, ali\u00e1s, j\u00e1 disputam com a academia a m\u00e3o de obra de soci\u00f3logos, antrop\u00f3logos e historiadores, entre outros. Segundo ele, vemos hoje o \u00e1pice de um processo iniciado quando da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, que lentamente deslocou a for\u00e7a motriz da ci\u00eancia da \u201ccuriosidade\u201d para a \u201cutilidade\u201d. &nbsp; O diagn\u00f3stico do soci\u00f3logo \u00e9 de que vivemos sob a domina\u00e7\u00e3o de tr\u00eas blocos: o capitalismo, o patriarcado e o colonialismo. Enquanto o primeiro \u00e9 alvo tradicional das mais variadas cr\u00edticas, e o segundo vem sendo crescentemente questionado pelo movimento feminista, o colonialismo ainda recebe pouca aten\u00e7\u00e3o. Boaventura ressalta este como o maior empecilho atual \u00e0s ci\u00eancias sociais. Para melhor explicar seus tra\u00e7os caracter\u00edsticos, ele divide o colonialismo entre colonialismo externo e interno. &nbsp; &nbsp; &nbsp; Em rela\u00e7\u00e3o ao colonialismo externo, o intelectual nascido em Coimbra critica o olhar euroc\u00eantrico, dominante at\u00e9 hoje na academia, que sempre desprezou outras vis\u00f5es de mundo e pensadores dos demais continentes. Cientistas europeus \u2013 ligados \u00e0s mais variadas correntes pol\u00edticas e filos\u00f3ficas \u2013constru\u00edram obras relevantes, mas totalmente baseadas na no\u00e7\u00e3o de uma condi\u00e7\u00e3o superior da Europa sobre o resto do planeta. O conceito de desenvolvimento, segundo Boaventura,revela-se altamente agressivo e limitador da genu\u00edna produ\u00e7\u00e3o de conhecimento.Paradoxalmente, acad\u00eamicos dos pa\u00edses do \u201cSul geopol\u00edtico\u201d d\u00e3o continuidade a este processo desigual, utilizando-se das epistemologias cristalizadas no Norte durante os s\u00e9culos XIX e XX. &nbsp; No ambiente interno das ci\u00eancias sociais, Boaventura aponta que o colonialismo traduz-se na exclus\u00e3o do quadro te\u00f3rico e do debate progressista atores sociais como os negros, as mulheres e os ind\u00edgenas. Assim como no colonialismo externo, aqui a voz dos grupos \u201cvencidos\u201d tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 considerada.Para ele, estas s\u00e3o provas de que as ci\u00eancias sociais n\u00e3o conseguem mais representar o mundo como ele realmente \u00e9, por dispor de instrumentos atrasados para a an\u00e1lise da sociedade. &nbsp; A partir disto,Boaventura de Sousa Santos prop\u00f5e o desenvolvimento das \u201cepistemologias do Sul\u201d: novas formas de conhecimento e modelos de colabora\u00e7\u00e3o entre a academia e os movimentos populares, as minorias, os grupos sociais tradicionalmente exclu\u00eddos do ambiente cient\u00edfico tradicional. Elabora\u00e7\u00f5es n\u00e3o extrativistas, mas dial\u00f3gicas, que valorizem o diferente e primem pela justi\u00e7a cognitiva. Nas palavras dele, \u00e9 preciso \u201cdesmonumentalizar o Ocidente\u201d, para que se possa realizar uma conversa mundial mais ampla. 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