{"id":1205,"date":"2014-12-26T16:18:20","date_gmt":"2014-12-26T16:18:20","guid":{"rendered":"https:\/\/corporalidades.wordpress.com\/?p=1094"},"modified":"2014-12-26T16:18:20","modified_gmt":"2014-12-26T16:18:20","slug":"nem-santas-nem-vadias-a-igualdade-desigual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/nem-santas-nem-vadias-a-igualdade-desigual\/","title":{"rendered":"Nem santas, nem vadias: a igualdade desigual"},"content":{"rendered":"<p>A Marcha das Vadias \u00e9 um dos movimentos mundiais de maior import\u00e2ncia na tentativa de ruptura ao padr\u00e3o de submiss\u00e3o feminina. A Marcha \u2013 ou <em>SlutWalk<\/em> \u2013 surgiu no Canad\u00e1, em 2011, ap\u00f3s registrarem-se diversos epis\u00f3dios de estupros na Universidade de Toronto. Na \u00e9poca, o policial Michael Sanguinetti afirmou que as pr\u00f3prias mulheres seriam as culpadas pelos crimes, porque se vestiam como \u201cvadias\u201d. Em resposta ao infeliz coment\u00e1rio, pelo menos 3 mil mulheres canadenses organizaram-se em protesto contra a culpabiliza\u00e7\u00e3o da mulher pela viol\u00eancia sofrida e contra o controle de seus corpos por uma sociedade machista.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, a Marcha das Vadias vem ocorrendo em diversos pa\u00edses, como Argentina, Holanda, EUA, Costa Rica, M\u00e9xico, Nicar\u00e1gua,\u00a0Su\u00e9cia e Brasil, e sempre que acontecem s\u00e3o bastante difundidas e discutidas na m\u00eddia. Os protestos centram-se na nega\u00e7\u00e3o do machismo naturalizado na sociedade e na luta pela igualdade de g\u00eanero:<\/p>\n<p>&#8220;As militantes saem \u00e0s ruas em protesto sustentando-se por um discurso feminista que resiste\/op\u00f5e-se ao discurso machista que as motiva. [&#8230;] para tanto, elas levantam cartazes, mostram os corpos e mobilizam enunciados a fim de desestabilizar esse efeito de evid\u00eancia de sentido proveniente de uma forma\u00e7\u00e3o discursiva machista e que parece persistir no imagin\u00e1rio social contempor\u00e2neo&#8221; (RADDE, 2013, p. 3).<\/p>\n<p>O uso do corpo como instrumento pol\u00edtico de reivindica\u00e7\u00e3o tem grande import\u00e2ncia no movimento. As \u201cvadias\u201d protestam nuas ou vestidas de lingeries, e escrevem nos pr\u00f3prios corpos sua indigna\u00e7\u00e3o. Como forma de rep\u00fadio ao discurso machista, elas n\u00e3o simplesmente tiram os suti\u00e3s, mas clamam pelo direito \u00e0 liberdade. Em estudo sobre a Marcha das Vadias no Brasil, Rassi (2012) lembra que as militantes reafirmam a ideia de corpo como um instrumento ativo de poder, o que pode ser visto em fotografias tiradas em diferentes edi\u00e7\u00f5es do evento:<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/corporalidades.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/f_189989.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1095 size-full\" src=\"http:\/\/corporalidades.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/f_189989.jpg\" alt=\"Mulheres escrevem mensagens em seus corpos\" width=\"620\" height=\"400\" \/><\/a> <a href=\"http:\/\/corporalidades.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/machismoa.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1096 size-full\" src=\"http:\/\/corporalidades.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/machismoa.jpg\" alt=\"machismoa\" width=\"170\" height=\"365\" \/><\/a> <a href=\"http:\/\/corporalidades.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/corpo.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1097 size-full\" src=\"http:\/\/corporalidades.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/corpo.jpg\" alt=\"corpo\" width=\"514\" height=\"245\" \/><\/a><\/p>\n<p>&#8220;[&#8230;] h\u00e1 um discurso de nega\u00e7\u00e3o a um discurso pr\u00e9-constru\u00eddo de que a mulher \u00e9 propriedade do homem, de que o corpo da mulher pertence ao seu marido, e que ela lhe deve subservi\u00eancia. As mulheres se apropriam de seus corpos, enquanto propriedades de si mesmas e \u00e9 dessa posi\u00e7\u00e3o que se dirigem aos homens para dizer que eles n\u00e3o t\u00eam direitos sobre seus corpos. O corpo aqui \u00e9 assumido como um lugar de luta, de poder e de conquista&#8221; (RASSI, 2012, p. 56).<\/p>\n<p>O protesto tamb\u00e9m denuncia grandes equ\u00edvocos cometidos pela sociedade, como o de priorizarmos que as mulheres aprendam a ser respeitadas e submissas, ao inv\u00e9s de, antes de tudo, ensinarmos os homens a respeitarem as mulheres:<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/corporalidades.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/homens-a-respeitar.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-medium wp-image-1098 aligncenter\" src=\"http:\/\/corporalidades.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/homens-a-respeitar.jpg?w=231\" alt=\"homens a respeitar\" width=\"231\" height=\"300\" \/><\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/corporalidades.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/machoes.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-medium wp-image-1099 aligncenter\" src=\"http:\/\/corporalidades.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/machoes.jpg?w=233\" alt=\"machoes\" width=\"233\" height=\"300\" \/><\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/corporalidades.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/medo.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1100 size-full\" src=\"http:\/\/corporalidades.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/medo.jpg\" alt=\"medo\" width=\"620\" height=\"465\" \/><\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/corporalidades.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/respeito.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1101 size-large\" src=\"http:\/\/corporalidades.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/respeito.jpg?w=660\" alt=\"respeito\" width=\"660\" height=\"472\" \/><\/a><\/p>\n<p>O machismo est\u00e1 de tal forma institucionalizado socialmente que se manifesta na necessidade de a mulher \u201cse valorizar\u201d, \u201cse dar ao respeito\u201d, \u201cn\u00e3o ser vulgar\u201d, para s\u00f3 assim merecer ser respeitada:<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/corporalidades.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/se-valorizar.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1102 size-full\" src=\"http:\/\/corporalidades.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/se-valorizar.jpg\" alt=\"Marcha da Vadias em Porto Alegre\" width=\"900\" height=\"600\" \/><\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/corporalidades.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/sem-tc3adtulo.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1106 size-full\" src=\"http:\/\/corporalidades.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/sem-tc3adtulo.jpg\" alt=\"Sem t\u00edtulo\" width=\"532\" height=\"479\" \/><\/a>\u00a0Contrariando todos os esfor\u00e7os em defesa da liberta\u00e7\u00e3o feminina, entretanto, ainda \u00e9 muito comum observar manifesta\u00e7\u00f5es das pr\u00f3prias mulheres em favor de um discurso machista e subserviente. Um exemplo disso, tamb\u00e9m amplamente midiatizado, foi a recente discuss\u00e3o das cantoras Pitty e Anitta no programa Altas Horas, na TV Globo. No debate, Anitta defendia que as mulheres \u201cconseguiram ter os mesmos direitos que os homens\u201d, que elas deveriam se dar ao respeito para ter o respeito dos homens, e que os rumos do relacionamento \u201cdependem do comportamento da mulher\u201d. A cantora Pitty rebateu as afirma\u00e7\u00f5es de Anitta dizendo que as mulheres ainda n\u00e3o t\u00eam igualdade de direitos e que \u201co homem n\u00e3o tem que achar nada\u201d, a mulher deve ser livre para comportar-se e vestir-se como quiser. O v\u00eddeo a seguir, editado por internautas que se posicionaram frente \u00e0 pol\u00eamica, mostra a discuss\u00e3o das cantoras:<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=v8s9PmnusZs\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=v8s9PmnusZs<\/a><\/p>\n<p>A opini\u00e3o de Anitta, longe de ser isolada, sugere a exist\u00eancia de um fen\u00f4meno comportamental ainda bastante disseminado em nossa sociedade: o preconceito de g\u00eanero est\u00e1 introjetado no discurso das pr\u00f3prias mulheres. Nossa cultura ainda ensina a submiss\u00e3o e o machismo, mesmo que algumas vezes de maneira velada, sem que as mulheres necessariamente sejam conscientes de suas atitudes servis\/machistas. Nesse sentido, tanto a Marcha das Vadias quanto a opini\u00e3o defendida por Pitty podem ser entendidas como movimentos que buscaram provocar rupturas na cultura vigente de inferioriza\u00e7\u00e3o do feminino.<\/p>\n<p>Contudo, a despeito de significarem grande avan\u00e7o no debate social sobre o assunto, a extrema repercuss\u00e3o midi\u00e1tica desses acontecimentos s\u00f3 reitera que o protesto em favor da mulher ainda \u00e9 considerado algo incomum, antinatural.\u00a0Ou seja, algo que deveria ser evidente e inquestion\u00e1vel \u2013 a liberdade feminina \u2013, ainda \u00e9 capaz de causar tamanho alvoro\u00e7o. Ironicamente, o fato de mulheres defenderem seus direitos ainda configura acontecimento digno de not\u00edcia.<\/p>\n<p>Movimentos de ruptura como esses s\u00e3o capazes de suscitar o debate, mas tamb\u00e9m escancaram o qu\u00e3o longe ainda estamos da igualdade de g\u00eanero e da naturaliza\u00e7\u00e3o da liberdade feminina.<\/p>\n<p>TEXTO<\/p>\n<p>Mariana Somariva<\/p>\n<p>REFER\u00caNCIAS<\/p>\n<p>RADDE, A. <strong>Corpo e Resist\u00eancia(s) na Constitui\u00e7\u00e3o do Sujeito: O Discurso do Corpo na Marcha das Vadias. <\/strong>2013<\/p>\n<p>RASSI, A. P. <strong>Do acontecimento hist\u00f3rico ao acontecimento discursivo: uma an\u00e1lise da \u201cMarcha das vadias\u201d.<\/strong> Rev. Hist. UEG &#8211; Goi\u00e2nia, v.1, n.1, p.43-63, jan.\/jun. 2012<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Marcha das Vadias \u00e9 um dos movimentos mundiais de maior import\u00e2ncia na tentativa de ruptura ao padr\u00e3o de submiss\u00e3o feminina. A Marcha \u2013 ou SlutWalk \u2013 surgiu no Canad\u00e1, em 2011, ap\u00f3s registrarem-se diversos epis\u00f3dios de estupros na Universidade de Toronto. Na \u00e9poca, o policial Michael Sanguinetti afirmou que as pr\u00f3prias mulheres seriam as culpadas pelos crimes, porque se vestiam como \u201cvadias\u201d. Em resposta ao infeliz coment\u00e1rio, pelo menos 3 mil mulheres canadenses organizaram-se em protesto contra a culpabiliza\u00e7\u00e3o da mulher pela viol\u00eancia sofrida e contra o controle de seus corpos por uma sociedade machista. Desde ent\u00e3o, a Marcha das Vadias vem ocorrendo em diversos pa\u00edses, como Argentina, Holanda, EUA, Costa Rica, M\u00e9xico, Nicar\u00e1gua,\u00a0Su\u00e9cia e Brasil, e sempre que acontecem s\u00e3o bastante difundidas e discutidas na m\u00eddia. 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Em estudo sobre a Marcha das Vadias no Brasil, Rassi (2012) lembra que as militantes reafirmam a ideia de corpo como um instrumento ativo de poder, o que pode ser visto em fotografias tiradas em diferentes edi\u00e7\u00f5es do evento: &#8220;[&#8230;] h\u00e1 um discurso de nega\u00e7\u00e3o a um discurso pr\u00e9-constru\u00eddo de que a mulher \u00e9 propriedade do homem, de que o corpo da mulher pertence ao seu marido, e que ela lhe deve subservi\u00eancia. As mulheres se apropriam de seus corpos, enquanto propriedades de si mesmas e \u00e9 dessa posi\u00e7\u00e3o que se dirigem aos homens para dizer que eles n\u00e3o t\u00eam direitos sobre seus corpos. O corpo aqui \u00e9 assumido como um lugar de luta, de poder e de conquista&#8221; (RASSI, 2012, p. 56). O protesto tamb\u00e9m denuncia grandes equ\u00edvocos cometidos pela sociedade, como o de priorizarmos que as mulheres aprendam a ser respeitadas e submissas, ao inv\u00e9s de, antes de tudo, ensinarmos os homens a respeitarem as mulheres: O machismo est\u00e1 de tal forma institucionalizado socialmente que se manifesta na necessidade de a mulher \u201cse valorizar\u201d, \u201cse dar ao respeito\u201d, \u201cn\u00e3o ser vulgar\u201d, para s\u00f3 assim merecer ser respeitada: \u00a0Contrariando todos os esfor\u00e7os em defesa da liberta\u00e7\u00e3o feminina, entretanto, ainda \u00e9 muito comum observar manifesta\u00e7\u00f5es das pr\u00f3prias mulheres em favor de um discurso machista e subserviente. Um exemplo disso, tamb\u00e9m amplamente midiatizado, foi a recente discuss\u00e3o das cantoras Pitty e Anitta no programa Altas Horas, na TV Globo. No debate, Anitta defendia que as mulheres \u201cconseguiram ter os mesmos direitos que os homens\u201d, que elas deveriam se dar ao respeito para ter o respeito dos homens, e que os rumos do relacionamento \u201cdependem do comportamento da mulher\u201d. A cantora Pitty rebateu as afirma\u00e7\u00f5es de Anitta dizendo que as mulheres ainda n\u00e3o t\u00eam igualdade de direitos e que \u201co homem n\u00e3o tem que achar nada\u201d, a mulher deve ser livre para comportar-se e vestir-se como quiser. O v\u00eddeo a seguir, editado por internautas que se posicionaram frente \u00e0 pol\u00eamica, mostra a discuss\u00e3o das cantoras: A opini\u00e3o de Anitta, longe de ser isolada, sugere a exist\u00eancia de um fen\u00f4meno comportamental ainda bastante disseminado em nossa sociedade: o preconceito de g\u00eanero est\u00e1 introjetado no discurso das pr\u00f3prias mulheres. Nossa cultura ainda ensina a submiss\u00e3o e o machismo, mesmo que algumas vezes de maneira velada, sem que as mulheres necessariamente sejam conscientes de suas atitudes servis\/machistas. Nesse sentido, tanto a Marcha das Vadias quanto a opini\u00e3o defendida por Pitty podem ser entendidas como movimentos que buscaram provocar rupturas na cultura vigente de inferioriza\u00e7\u00e3o do feminino. Contudo, a despeito de significarem grande avan\u00e7o no debate social sobre o assunto, a extrema repercuss\u00e3o midi\u00e1tica desses acontecimentos s\u00f3 reitera que o protesto em favor da mulher ainda \u00e9 considerado algo incomum, antinatural.\u00a0Ou seja, algo que deveria ser evidente e inquestion\u00e1vel \u2013 a liberdade feminina \u2013, ainda \u00e9 capaz de causar tamanho alvoro\u00e7o. Ironicamente, o fato de mulheres defenderem seus direitos ainda configura acontecimento digno de not\u00edcia. Movimentos de ruptura como esses s\u00e3o capazes de suscitar o debate, mas tamb\u00e9m escancaram o qu\u00e3o longe ainda estamos da igualdade de g\u00eanero e da naturaliza\u00e7\u00e3o da liberdade feminina. TEXTO Mariana Somariva REFER\u00caNCIAS RADDE, A. Corpo e Resist\u00eancia(s) na Constitui\u00e7\u00e3o do Sujeito: O Discurso do Corpo na Marcha das Vadias. 2013 RASSI, A. P. Do acontecimento hist\u00f3rico ao acontecimento discursivo: uma an\u00e1lise da \u201cMarcha das vadias\u201d. Rev. Hist. 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Em estudo sobre a Marcha das Vadias no Brasil, Rassi (2012) lembra que as militantes reafirmam a ideia de corpo como um instrumento ativo de poder, o que pode ser visto em fotografias tiradas em diferentes edi\u00e7\u00f5es do evento: &#8220;[&#8230;] h\u00e1 um discurso de nega\u00e7\u00e3o a um discurso pr\u00e9-constru\u00eddo de que a mulher \u00e9 propriedade do homem, de que o corpo da mulher pertence ao seu marido, e que ela lhe deve subservi\u00eancia. As mulheres se apropriam de seus corpos, enquanto propriedades de si mesmas e \u00e9 dessa posi\u00e7\u00e3o que se dirigem aos homens para dizer que eles n\u00e3o t\u00eam direitos sobre seus corpos. O corpo aqui \u00e9 assumido como um lugar de luta, de poder e de conquista&#8221; (RASSI, 2012, p. 56). O protesto tamb\u00e9m denuncia grandes equ\u00edvocos cometidos pela sociedade, como o de priorizarmos que as mulheres aprendam a ser respeitadas e submissas, ao inv\u00e9s de, antes de tudo, ensinarmos os homens a respeitarem as mulheres: O machismo est\u00e1 de tal forma institucionalizado socialmente que se manifesta na necessidade de a mulher \u201cse valorizar\u201d, \u201cse dar ao respeito\u201d, \u201cn\u00e3o ser vulgar\u201d, para s\u00f3 assim merecer ser respeitada: \u00a0Contrariando todos os esfor\u00e7os em defesa da liberta\u00e7\u00e3o feminina, entretanto, ainda \u00e9 muito comum observar manifesta\u00e7\u00f5es das pr\u00f3prias mulheres em favor de um discurso machista e subserviente. Um exemplo disso, tamb\u00e9m amplamente midiatizado, foi a recente discuss\u00e3o das cantoras Pitty e Anitta no programa Altas Horas, na TV Globo. 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Nossa cultura ainda ensina a submiss\u00e3o e o machismo, mesmo que algumas vezes de maneira velada, sem que as mulheres necessariamente sejam conscientes de suas atitudes servis\/machistas. Nesse sentido, tanto a Marcha das Vadias quanto a opini\u00e3o defendida por Pitty podem ser entendidas como movimentos que buscaram provocar rupturas na cultura vigente de inferioriza\u00e7\u00e3o do feminino. Contudo, a despeito de significarem grande avan\u00e7o no debate social sobre o assunto, a extrema repercuss\u00e3o midi\u00e1tica desses acontecimentos s\u00f3 reitera que o protesto em favor da mulher ainda \u00e9 considerado algo incomum, antinatural.\u00a0Ou seja, algo que deveria ser evidente e inquestion\u00e1vel \u2013 a liberdade feminina \u2013, ainda \u00e9 capaz de causar tamanho alvoro\u00e7o. Ironicamente, o fato de mulheres defenderem seus direitos ainda configura acontecimento digno de not\u00edcia. 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A Marcha \u2013 ou SlutWalk \u2013 surgiu no Canad\u00e1, em 2011, ap\u00f3s registrarem-se diversos epis\u00f3dios de estupros na Universidade de Toronto. Na \u00e9poca, o policial Michael Sanguinetti afirmou que as pr\u00f3prias mulheres seriam as culpadas pelos crimes, porque se vestiam como \u201cvadias\u201d. Em resposta ao infeliz coment\u00e1rio, pelo menos 3 mil mulheres canadenses organizaram-se em protesto contra a culpabiliza\u00e7\u00e3o da mulher pela viol\u00eancia sofrida e contra o controle de seus corpos por uma sociedade machista. Desde ent\u00e3o, a Marcha das Vadias vem ocorrendo em diversos pa\u00edses, como Argentina, Holanda, EUA, Costa Rica, M\u00e9xico, Nicar\u00e1gua,\u00a0Su\u00e9cia e Brasil, e sempre que acontecem s\u00e3o bastante difundidas e discutidas na m\u00eddia. Os protestos centram-se na nega\u00e7\u00e3o do machismo naturalizado na sociedade e na luta pela igualdade de g\u00eanero: &#8220;As militantes saem \u00e0s ruas em protesto sustentando-se por um discurso feminista que resiste\/op\u00f5e-se ao discurso machista que as motiva. [&#8230;] para tanto, elas levantam cartazes, mostram os corpos e mobilizam enunciados a fim de desestabilizar esse efeito de evid\u00eancia de sentido proveniente de uma forma\u00e7\u00e3o discursiva machista e que parece persistir no imagin\u00e1rio social contempor\u00e2neo&#8221; (RADDE, 2013, p. 3). O uso do corpo como instrumento pol\u00edtico de reivindica\u00e7\u00e3o tem grande import\u00e2ncia no movimento. As \u201cvadias\u201d protestam nuas ou vestidas de lingeries, e escrevem nos pr\u00f3prios corpos sua indigna\u00e7\u00e3o. Como forma de rep\u00fadio ao discurso machista, elas n\u00e3o simplesmente tiram os suti\u00e3s, mas clamam pelo direito \u00e0 liberdade. 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