{"id":1294,"date":"2016-04-29T00:19:55","date_gmt":"2016-04-29T00:19:55","guid":{"rendered":"https:\/\/corporalidades.wordpress.com\/?p=1294"},"modified":"2016-04-29T00:19:55","modified_gmt":"2016-04-29T00:19:55","slug":"corpos-feridos-o-retrato-da-violencia-obstetrica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/corpos-feridos-o-retrato-da-violencia-obstetrica\/","title":{"rendered":"Corpos feridos: o retrato da viol\u00eancia obst\u00e9trica"},"content":{"rendered":"<p>O projeto \u201c1:4 Retratos da Viol\u00eancia Obst\u00e9trica\u201d, da fot\u00f3grafa paulista Carla Raiter, escancara com imagens e palavras um assunto pouco pautado na m\u00eddia brasileira.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia obst\u00e9trica caracteriza-se<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> por procedimentos m\u00e9dicos que causam tratamentos desumanizados e uso de medicaliza\u00e7\u00e3o sem necessidade cl\u00ednica. Incluem-se agress\u00f5es verbais, impedimento da entrada de acompanhante escolhido pela mulher, jejum obrigat\u00f3rio, cesariana sem indica\u00e7\u00e3o cl\u00ednica ou sem o consentimento da gestante (atendendo aos interesses do m\u00e9dico), priva\u00e7\u00e3o do contato da m\u00e3e com o beb\u00ea e procedimentos que causem dor ou dano f\u00edsico \u2013 como, por exemplo, aplica\u00e7\u00e3o de ocitocina para acelerar o trabalho de parto (por conveni\u00eancia m\u00e9dica) e episiotomia sem necessidade (corte feito entre a vagina e o \u00e2nus para facilitar a sa\u00edda do beb\u00ea).<\/p>\n<p>As fotografias de Carla Raiter mostram partes dos corpos de mulheres v\u00edtimas de viol\u00eancia obst\u00e9trica, com tatuagens tempor\u00e1rias contendo seus depoimentos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1297\" src=\"http:\/\/corporalidades.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/20140325150405248099e.jpg\" alt=\"20140325150405248099e\" width=\"650\" height=\"433\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/20140325150405248099e.jpg 650w, https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/20140325150405248099e-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 650px) 100vw, 650px\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1298\" src=\"http:\/\/corporalidades.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/20140325150408417370i.jpg\" alt=\"20140325150408417370i\" width=\"650\" height=\"433\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/20140325150408417370i.jpg 650w, https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/20140325150408417370i-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 650px) 100vw, 650px\" \/><\/p>\n<p>S\u00e3o fotografias que, para al\u00e9m de evidenciarem sofrimento, dor e viol\u00eancia, exp\u00f5em a patologiza\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es naturais de parto em favor do sistema m\u00e9dico &#8211; muitas vezes, \u00e9 mais conveniente para os m\u00e9dicos e m\u00e9dicas agendarem cesarianas, j\u00e1 que o trabalho de parto, quando natural, geralmente leva de 12 a 16 horas. O Brasil \u00e9 o l\u00edder mundial em realiza\u00e7\u00e3o do procedimento: 84,6% dos partos na rede particular s\u00e3o ces\u00e1reas<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[2]<\/a>. A Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade, no entanto, recomenda que esta taxa esteja entre 10% e 15%.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso lembrar que existe uma parcela grande de mulheres que escolhem a ces\u00e1rea, devido a fatores como o de n\u00e3o sentir dor e a praticidade de agendar a cirurgia. Mas tamb\u00e9m cabe questionar: at\u00e9 que ponto n\u00e3o vem sendo constru\u00edda no Brasil uma cultura de pragmatiza\u00e7\u00e3o excessiva do parto? At\u00e9 que ponto os sentidos atribu\u00eddos ao parto n\u00e3o v\u00eam sendo reconfigurados para a preval\u00eancia das no\u00e7\u00f5es de dor insuport\u00e1vel, sofrimento absurdo e at\u00e9 mesmo de medo de sofrer viol\u00eancia?<\/p>\n<p>O que se v\u00ea nessas fotos n\u00e3o \u00e9 somente neglig\u00eancia e mau atendimento m\u00e9dico. As palavras inscritas nos corpos das mulheres, mais suas cicatrizes f\u00edsicas e simb\u00f3licas, evidenciam problemas estruturais ainda mais profundos: o preconceito de g\u00eanero, o machismo, o androcentrismo, a subjuga\u00e7\u00e3o da mulher e de seu corpo.<\/p>\n<p>S\u00e3o imagens que clamam por aten\u00e7\u00e3o. Pedem que se chegue perto para ler, pedem que se pense, que se pratique a empatia. Pedem, como o fazem as pr\u00f3prias mulheres, que se lhes ou\u00e7a. A\u00ed est\u00e3o corpos feridos, mas que expostos atrav\u00e9s da fotografia cumprem uma fun\u00e7\u00e3o nobre: a de agentes de transforma\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<div id='gallery-1' class='gallery galleryid-1294 gallery-columns-3 gallery-size-thumbnail'><figure class='gallery-item'>\n\t\t\t<div class='gallery-icon landscape'>\n\t\t\t\t<a href='https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/20140325150409518175a\/'><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"150\" height=\"150\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/20140325150409518175a-150x150.jpg\" class=\"attachment-thumbnail size-thumbnail\" alt=\"\" \/><\/a>\n\t\t\t<\/div><\/figure><figure class='gallery-item'>\n\t\t\t<div class='gallery-icon landscape'>\n\t\t\t\t<a href='https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/20140325150410534904u\/'><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"150\" height=\"150\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/20140325150410534904u-150x150.jpg\" class=\"attachment-thumbnail size-thumbnail\" alt=\"\" \/><\/a>\n\t\t\t<\/div><\/figure><figure class='gallery-item'>\n\t\t\t<div class='gallery-icon landscape'>\n\t\t\t\t<a href='https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/20140325150404325503i\/'><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"150\" height=\"150\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/20140325150404325503i-150x150.jpg\" class=\"attachment-thumbnail size-thumbnail\" alt=\"\" \/><\/a>\n\t\t\t<\/div><\/figure><figure class='gallery-item'>\n\t\t\t<div class='gallery-icon portrait'>\n\t\t\t\t<a href='https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/20140325150407968942i\/'><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"150\" height=\"150\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/20140325150407968942i-150x150.jpg\" class=\"attachment-thumbnail size-thumbnail\" alt=\"\" \/><\/a>\n\t\t\t<\/div><\/figure><figure class='gallery-item'>\n\t\t\t<div class='gallery-icon landscape'>\n\t\t\t\t<a href='https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/20140325150406456849e\/'><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"150\" height=\"150\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/20140325150406456849e-150x150.jpg\" class=\"attachment-thumbnail size-thumbnail\" alt=\"\" \/><\/a>\n\t\t\t<\/div><\/figure>\n\t\t<\/div>\n\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a>\u00a0De\u00a0acordo com a Defensoria P\u00fablica de S\u00e3o Paulo. Defini\u00e7\u00e3o publicada em <a href=\"http:\/\/www.defensoria.sp.gov.br\/dpesp\/repositorio\/41\/violencia%20obstetrica.pdf\">http:\/\/www.defensoria.sp.gov.br\/dpesp\/repositorio\/41\/violencia%20obstetrica.pdf<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[2]<\/a>\u00a0Dados da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade<\/p>\n<p>TEXTO<\/p>\n<p>Mariana Somariva<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O projeto \u201c1:4 Retratos da Viol\u00eancia Obst\u00e9trica\u201d, da fot\u00f3grafa paulista Carla Raiter, escancara com imagens e palavras um assunto pouco pautado na m\u00eddia brasileira. A viol\u00eancia obst\u00e9trica caracteriza-se[1] por procedimentos m\u00e9dicos que causam tratamentos desumanizados e uso de medicaliza\u00e7\u00e3o sem necessidade cl\u00ednica. 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At\u00e9 que ponto os sentidos atribu\u00eddos ao parto n\u00e3o v\u00eam sendo reconfigurados para a preval\u00eancia das no\u00e7\u00f5es de dor insuport\u00e1vel, sofrimento absurdo e at\u00e9 mesmo de medo de sofrer viol\u00eancia? O que se v\u00ea nessas fotos n\u00e3o \u00e9 somente neglig\u00eancia e mau atendimento m\u00e9dico. As palavras inscritas nos corpos das mulheres, mais suas cicatrizes f\u00edsicas e simb\u00f3licas, evidenciam problemas estruturais ainda mais profundos: o preconceito de g\u00eanero, o machismo, o androcentrismo, a subjuga\u00e7\u00e3o da mulher e de seu corpo. S\u00e3o imagens que clamam por aten\u00e7\u00e3o. Pedem que se chegue perto para ler, pedem que se pense, que se pratique a empatia. Pedem, como o fazem as pr\u00f3prias mulheres, que se lhes ou\u00e7a. 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Defini\u00e7\u00e3o publicada em http:\/\/www.defensoria.sp.gov.br\/dpesp\/repositorio\/41\/violencia%20obstetrica.pdf [2]\u00a0Dados da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade TEXTO Mariana Somariva<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1297,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-1294","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Corpos feridos: o retrato da viol\u00eancia obst\u00e9trica - Corporalidades<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/corpos-feridos-o-retrato-da-violencia-obstetrica\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"en_US\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Corpos feridos: o retrato da viol\u00eancia obst\u00e9trica - Corporalidades\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"O projeto \u201c1:4 Retratos da Viol\u00eancia Obst\u00e9trica\u201d, da fot\u00f3grafa paulista Carla Raiter, escancara com imagens e palavras um assunto pouco pautado na m\u00eddia brasileira. 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S\u00e3o fotografias que, para al\u00e9m de evidenciarem sofrimento, dor e viol\u00eancia, exp\u00f5em a patologiza\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es naturais de parto em favor do sistema m\u00e9dico &#8211; muitas vezes, \u00e9 mais conveniente para os m\u00e9dicos e m\u00e9dicas agendarem cesarianas, j\u00e1 que o trabalho de parto, quando natural, geralmente leva de 12 a 16 horas. O Brasil \u00e9 o l\u00edder mundial em realiza\u00e7\u00e3o do procedimento: 84,6% dos partos na rede particular s\u00e3o ces\u00e1reas[2]. A Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade, no entanto, recomenda que esta taxa esteja entre 10% e 15%. \u00c9 preciso lembrar que existe uma parcela grande de mulheres que escolhem a ces\u00e1rea, devido a fatores como o de n\u00e3o sentir dor e a praticidade de agendar a cirurgia. Mas tamb\u00e9m cabe questionar: at\u00e9 que ponto n\u00e3o vem sendo constru\u00edda no Brasil uma cultura de pragmatiza\u00e7\u00e3o excessiva do parto? At\u00e9 que ponto os sentidos atribu\u00eddos ao parto n\u00e3o v\u00eam sendo reconfigurados para a preval\u00eancia das no\u00e7\u00f5es de dor insuport\u00e1vel, sofrimento absurdo e at\u00e9 mesmo de medo de sofrer viol\u00eancia? O que se v\u00ea nessas fotos n\u00e3o \u00e9 somente neglig\u00eancia e mau atendimento m\u00e9dico. As palavras inscritas nos corpos das mulheres, mais suas cicatrizes f\u00edsicas e simb\u00f3licas, evidenciam problemas estruturais ainda mais profundos: o preconceito de g\u00eanero, o machismo, o androcentrismo, a subjuga\u00e7\u00e3o da mulher e de seu corpo. S\u00e3o imagens que clamam por aten\u00e7\u00e3o. Pedem que se chegue perto para ler, pedem que se pense, que se pratique a empatia. Pedem, como o fazem as pr\u00f3prias mulheres, que se lhes ou\u00e7a. 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