{"id":1756,"date":"2017-06-26T13:00:35","date_gmt":"2017-06-26T13:00:35","guid":{"rendered":"https:\/\/corporalidades.wordpress.com\/?p=1512"},"modified":"2017-06-26T13:00:35","modified_gmt":"2017-06-26T13:00:35","slug":"anamorfoses-corporais-audiovisuais-o-caso-de-capitu%c2%b9","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/anamorfoses-corporais-audiovisuais-o-caso-de-capitu%c2%b9\/","title":{"rendered":"Anamorfoses Corporais Audiovisuais: o caso de Capitu\u00b9"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">A imagem \u00e9 o elemento essencial, mas apenas o come\u00e7o da a\u00e7\u00e3o criativa, defende a cineasta de vanguarda americana Maya Deren (2013). \u00c9 isso o que parece revelar o olho-c\u00e2mera do diretor art\u00edstico da TV Globo Luiz Fernando Carvalho na micross\u00e9rie <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Capitu<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> (2008), um olho-c\u00e2mera que se presta \u00e0 a\u00e7\u00e3o criativa e d\u00e1 conta de proporcionar uma experi\u00eancia que se desvia das que s\u00e3o normalmente encontradas pelos telespectadores diante da TV aberta, em especial, nas narrativas ficcionais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Carvalho adentra em um terreno de experimenta\u00e7\u00f5es e faz \u201cuso criativo da realidade\u201d, como sugere Deren no texto <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Cinema: uso criativo da realidade<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. A autora considera, ainda, que as manipula\u00e7\u00f5es de tempo-espa\u00e7o \u00e9 um dos recursos primordiais para testar a potencialidade das imagens. Nesses casos, \u201ca pr\u00f3pria c\u00e2mera \u00e9 entendida como o artista, com lentes distorcidas, m\u00faltiplas posi\u00e7\u00f5es, etc., usadas para simular a a\u00e7\u00e3o criativa do olho, da mem\u00f3ria, etc.\u201d (2013, p. 11). <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Algumas imagens de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Capitu<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> parecem partir da premissa exposta por Deren. Como as que s\u00e3o atribu\u00eddas sob a \u00f3tica de Bentinho. A profunda perturba\u00e7\u00e3o da personagem fica evidente nos enquadramentos em primeiros planos e nas distor\u00e7\u00f5es das imagens. Como o primeiro beijo do casal adolescente<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1524\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/capitu1.jpg\" alt=\"capitu1\" width=\"559\" height=\"370\" \/>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0<\/span><\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Fonte: &lt;<\/span><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=I1jZQLJZ8kU\"><span style=\"font-weight: 400;\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=I1jZQLJZ8kU<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">&gt;\u00a0<\/span><\/h6>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">H\u00e1 muitas cenas que se apresentam sob a forma de anamorfoses, que, segundo Arlindo Machado, \u201c(&#8230;) n\u00e3o s\u00e3o mais do que desdobramentos perversos do c\u00f3digo perspectivo, mas o efeito por elas produzido resulta francamente irrealista.\u201d (MACHADO, 2011, p. 207). O termo anamorfose \u00e9 emprestado do estudioso Jurgis Baltrusaitis. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No percurso da hist\u00f3ria da arte, os movimentos da arte moderna j\u00e1 buscavam a desconstru\u00e7\u00e3o da imagem realista; a imagem eletr\u00f4nica torna essa possibilidade totalmente poss\u00edvel, uma vez que \u00e9 mais male\u00e1vel e, portanto, suscet\u00edvel a anamorfoses (MACHADO, 2011). <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para conseguir esse resultado in\u00e9dito, o diretor de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Capitu<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> fez uso de um recurso t\u00e9cnico criado especialmente para a micross\u00e9rie, uma lente de 30 cent\u00edmetros de di\u00e2metro, cheia de \u00e1gua, que foi colocada \u00e0 frente da c\u00e2mera, por isso, funcionou como uma esp\u00e9cie de \u201cretina\u201d e ganhou o nome de \u201clente Dom Casmurro\u201d\u00b2\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">. A inten\u00e7\u00e3o foi dar uma dimens\u00e3o \u00f3tica, a partir da refra\u00e7\u00e3o da \u00e1gua, nas cenas de devaneio de Bentinho. O resultado foram imagens que parecem o olhar de algu\u00e9m com catarata, dando vistas a um corpo deformado, nebuloso, irreal? Carvalho justifica o resultado impresso por suas lentes como um texto que foi aberto a outras visibilidades, com outras coordenadas est\u00e9ticas. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mas, as anamorfoses podem ser mais intensas que a desordem espacial como as imagens\/corpos que se apresentam distorcidas em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Capitu<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, em outros momentos da mesma narrativa h\u00e1 uma subvers\u00e3o espa\u00e7o-temporal em que acontece uma anamorfose cronot\u00f3pica, por exemplo, nas cenas em que passado e presente contracenam. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Fica o convite para assistirem a micross\u00e9rie <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Capitu<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, para quem j\u00e1 viu, quem sabe rever essa produ\u00e7\u00e3o televisual que como diz Arlindo Machado est\u00e1 repleta de \u201cacidentes do acaso\u201d imag\u00e9ticos e muito bem aproveitados pelas lentes criativas de Luiz Fernando Carvalho.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1525\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/capitu2.jpg\" alt=\"capitu2\" width=\"531\" height=\"268\" \/><\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Fonte: &lt;<\/span><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=k1V-gIWZwgQ\"><span style=\"font-weight: 400;\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=k1V-gIWZwgQ<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">&gt;<\/span><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00b9Parte das discuss\u00f5es sobre as anamorfoses audiovisuais na micross\u00e9rie <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Capitu<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> consta tamb\u00e9m no livro <\/span><b>Tecendo rupturas<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 o processo da recria\u00e7\u00e3o televisual de Dom Casmurro.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00b2Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/tvg.globo.com\/programas\/capitu\/capitu\/platb\/2008\/12\/10\/entre-luz-e-fusco\/<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">&gt;.<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> Acesso em: 25.03.2016 \u00e0s 10h56.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Refer\u00eancias<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">COCA, Adriana Pierre. <\/span><b>Tecendo rupturas<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 o processo da recria\u00e7\u00e3o televisual de Dom Casmurro. Tr\u00edbia: Rio de Janeiro, 2015.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">DEREN, Maya. Cinema: o uso criativo da realidade.<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">Trad. Jos\u00e9 Gatti e Maria Cristina Mendes. <\/span><b>Revista Devires<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">: Dossi\u00ea: Cinema Brasileiro: engajamentos no presente. \u00a0Belo Horizonte\/MG, v. 9, n\u00ba 1, p. 128-149, jan.\/jun.2013. Dispon\u00edvel em: &lt;<\/span><a href=\"http:\/\/www.marcoaureliosc.com.br\/cineantropo\/deren.pdf\"><span style=\"font-weight: 400;\">http:\/\/www.marcoaureliosc.com.br\/cineantropo\/deren.pdf<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">&gt;. Acesso em: 14.03.2016 \u00e0s 19h39.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">MACHADO, Arlindo<\/span> <b>Pr\u00e9-cinemas &amp; p\u00f3s-cinemas<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">. 6. ed. Campinas: Papirus, 2011.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">TEXTO<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Adriana Pierre Coca <\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A imagem \u00e9 o elemento essencial, mas apenas o come\u00e7o da a\u00e7\u00e3o criativa, defende a cineasta de vanguarda americana Maya Deren (2013). \u00c9 isso o que parece revelar o olho-c\u00e2mera do diretor art\u00edstico da TV Globo Luiz Fernando Carvalho na micross\u00e9rie Capitu (2008), um olho-c\u00e2mera que se presta \u00e0 a\u00e7\u00e3o criativa e d\u00e1 conta de proporcionar uma experi\u00eancia que se desvia das que s\u00e3o normalmente encontradas pelos telespectadores diante da TV aberta, em especial, nas narrativas ficcionais. Carvalho adentra em um terreno de experimenta\u00e7\u00f5es e faz \u201cuso criativo da realidade\u201d, como sugere Deren no texto Cinema: uso criativo da realidade. A autora considera, ainda, que as manipula\u00e7\u00f5es de tempo-espa\u00e7o \u00e9 um dos recursos primordiais para testar a potencialidade das imagens. Nesses casos, \u201ca pr\u00f3pria c\u00e2mera \u00e9 entendida como o artista, com lentes distorcidas, m\u00faltiplas posi\u00e7\u00f5es, etc., usadas para simular a a\u00e7\u00e3o criativa do olho, da mem\u00f3ria, etc.\u201d (2013, p. 11). Algumas imagens de Capitu parecem partir da premissa exposta por Deren. Como as que s\u00e3o atribu\u00eddas sob a \u00f3tica de Bentinho. A profunda perturba\u00e7\u00e3o da personagem fica evidente nos enquadramentos em primeiros planos e nas distor\u00e7\u00f5es das imagens. Como o primeiro beijo do casal adolescente &nbsp; \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Fonte: &lt;https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=I1jZQLJZ8kU&gt;\u00a0 H\u00e1 muitas cenas que se apresentam sob a forma de anamorfoses, que, segundo Arlindo Machado, \u201c(&#8230;) n\u00e3o s\u00e3o mais do que desdobramentos perversos do c\u00f3digo perspectivo, mas o efeito por elas produzido resulta francamente irrealista.\u201d (MACHADO, 2011, p. 207). O termo anamorfose \u00e9 emprestado do estudioso Jurgis Baltrusaitis. No percurso da hist\u00f3ria da arte, os movimentos da arte moderna j\u00e1 buscavam a desconstru\u00e7\u00e3o da imagem realista; a imagem eletr\u00f4nica torna essa possibilidade totalmente poss\u00edvel, uma vez que \u00e9 mais male\u00e1vel e, portanto, suscet\u00edvel a anamorfoses (MACHADO, 2011). Para conseguir esse resultado in\u00e9dito, o diretor de Capitu fez uso de um recurso t\u00e9cnico criado especialmente para a micross\u00e9rie, uma lente de 30 cent\u00edmetros de di\u00e2metro, cheia de \u00e1gua, que foi colocada \u00e0 frente da c\u00e2mera, por isso, funcionou como uma esp\u00e9cie de \u201cretina\u201d e ganhou o nome de \u201clente Dom Casmurro\u201d\u00b2\u00a0. A inten\u00e7\u00e3o foi dar uma dimens\u00e3o \u00f3tica, a partir da refra\u00e7\u00e3o da \u00e1gua, nas cenas de devaneio de Bentinho. O resultado foram imagens que parecem o olhar de algu\u00e9m com catarata, dando vistas a um corpo deformado, nebuloso, irreal? Carvalho justifica o resultado impresso por suas lentes como um texto que foi aberto a outras visibilidades, com outras coordenadas est\u00e9ticas. Mas, as anamorfoses podem ser mais intensas que a desordem espacial como as imagens\/corpos que se apresentam distorcidas em Capitu, em outros momentos da mesma narrativa h\u00e1 uma subvers\u00e3o espa\u00e7o-temporal em que acontece uma anamorfose cronot\u00f3pica, por exemplo, nas cenas em que passado e presente contracenam. Fica o convite para assistirem a micross\u00e9rie Capitu, para quem j\u00e1 viu, quem sabe rever essa produ\u00e7\u00e3o televisual que como diz Arlindo Machado est\u00e1 repleta de \u201cacidentes do acaso\u201d imag\u00e9ticos e muito bem aproveitados pelas lentes criativas de Luiz Fernando Carvalho. &nbsp; Fonte: &lt;https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=k1V-gIWZwgQ&gt; &nbsp; \u00b9Parte das discuss\u00f5es sobre as anamorfoses audiovisuais na micross\u00e9rie Capitu consta tamb\u00e9m no livro Tecendo rupturas \u2013 o processo da recria\u00e7\u00e3o televisual de Dom Casmurro. \u00b2Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/tvg.globo.com\/programas\/capitu\/capitu\/platb\/2008\/12\/10\/entre-luz-e-fusco\/&gt;. Acesso em: 25.03.2016 \u00e0s 10h56. &nbsp; &nbsp; Refer\u00eancias COCA, Adriana Pierre. Tecendo rupturas \u2013 o processo da recria\u00e7\u00e3o televisual de Dom Casmurro. Tr\u00edbia: Rio de Janeiro, 2015. &nbsp; DEREN, Maya. Cinema: o uso criativo da realidade. Trad. Jos\u00e9 Gatti e Maria Cristina Mendes. Revista Devires: Dossi\u00ea: Cinema Brasileiro: engajamentos no presente. \u00a0Belo Horizonte\/MG, v. 9, n\u00ba 1, p. 128-149, jan.\/jun.2013. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/www.marcoaureliosc.com.br\/cineantropo\/deren.pdf&gt;. Acesso em: 14.03.2016 \u00e0s 19h39. &nbsp; MACHADO, Arlindo Pr\u00e9-cinemas &amp; p\u00f3s-cinemas. 6. ed. Campinas: Papirus, 2011. &nbsp; &nbsp; TEXTO Adriana Pierre Coca<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1758,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-1756","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Anamorfoses Corporais Audiovisuais: o caso de Capitu\u00b9 - Corporalidades<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/anamorfoses-corporais-audiovisuais-o-caso-de-capitu\u00b9\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"en_US\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Anamorfoses Corporais Audiovisuais: o caso de Capitu\u00b9 - Corporalidades\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"A imagem \u00e9 o elemento essencial, mas apenas o come\u00e7o da a\u00e7\u00e3o criativa, defende a cineasta de vanguarda americana Maya Deren (2013). \u00c9 isso o que parece revelar o olho-c\u00e2mera do diretor art\u00edstico da TV Globo Luiz Fernando Carvalho na micross\u00e9rie Capitu (2008), um olho-c\u00e2mera que se presta \u00e0 a\u00e7\u00e3o criativa e d\u00e1 conta de proporcionar uma experi\u00eancia que se desvia das que s\u00e3o normalmente encontradas pelos telespectadores diante da TV aberta, em especial, nas narrativas ficcionais. Carvalho adentra em um terreno de experimenta\u00e7\u00f5es e faz \u201cuso criativo da realidade\u201d, como sugere Deren no texto Cinema: uso criativo da realidade. A autora considera, ainda, que as manipula\u00e7\u00f5es de tempo-espa\u00e7o \u00e9 um dos recursos primordiais para testar a potencialidade das imagens. Nesses casos, \u201ca pr\u00f3pria c\u00e2mera \u00e9 entendida como o artista, com lentes distorcidas, m\u00faltiplas posi\u00e7\u00f5es, etc., usadas para simular a a\u00e7\u00e3o criativa do olho, da mem\u00f3ria, etc.\u201d (2013, p. 11). Algumas imagens de Capitu parecem partir da premissa exposta por Deren. Como as que s\u00e3o atribu\u00eddas sob a \u00f3tica de Bentinho. A profunda perturba\u00e7\u00e3o da personagem fica evidente nos enquadramentos em primeiros planos e nas distor\u00e7\u00f5es das imagens. Como o primeiro beijo do casal adolescente &nbsp; \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Fonte: &lt;https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=I1jZQLJZ8kU&gt;\u00a0 H\u00e1 muitas cenas que se apresentam sob a forma de anamorfoses, que, segundo Arlindo Machado, \u201c(&#8230;) n\u00e3o s\u00e3o mais do que desdobramentos perversos do c\u00f3digo perspectivo, mas o efeito por elas produzido resulta francamente irrealista.\u201d (MACHADO, 2011, p. 207). O termo anamorfose \u00e9 emprestado do estudioso Jurgis Baltrusaitis. No percurso da hist\u00f3ria da arte, os movimentos da arte moderna j\u00e1 buscavam a desconstru\u00e7\u00e3o da imagem realista; a imagem eletr\u00f4nica torna essa possibilidade totalmente poss\u00edvel, uma vez que \u00e9 mais male\u00e1vel e, portanto, suscet\u00edvel a anamorfoses (MACHADO, 2011). Para conseguir esse resultado in\u00e9dito, o diretor de Capitu fez uso de um recurso t\u00e9cnico criado especialmente para a micross\u00e9rie, uma lente de 30 cent\u00edmetros de di\u00e2metro, cheia de \u00e1gua, que foi colocada \u00e0 frente da c\u00e2mera, por isso, funcionou como uma esp\u00e9cie de \u201cretina\u201d e ganhou o nome de \u201clente Dom Casmurro\u201d\u00b2\u00a0. A inten\u00e7\u00e3o foi dar uma dimens\u00e3o \u00f3tica, a partir da refra\u00e7\u00e3o da \u00e1gua, nas cenas de devaneio de Bentinho. O resultado foram imagens que parecem o olhar de algu\u00e9m com catarata, dando vistas a um corpo deformado, nebuloso, irreal? Carvalho justifica o resultado impresso por suas lentes como um texto que foi aberto a outras visibilidades, com outras coordenadas est\u00e9ticas. Mas, as anamorfoses podem ser mais intensas que a desordem espacial como as imagens\/corpos que se apresentam distorcidas em Capitu, em outros momentos da mesma narrativa h\u00e1 uma subvers\u00e3o espa\u00e7o-temporal em que acontece uma anamorfose cronot\u00f3pica, por exemplo, nas cenas em que passado e presente contracenam. Fica o convite para assistirem a micross\u00e9rie Capitu, para quem j\u00e1 viu, quem sabe rever essa produ\u00e7\u00e3o televisual que como diz Arlindo Machado est\u00e1 repleta de \u201cacidentes do acaso\u201d imag\u00e9ticos e muito bem aproveitados pelas lentes criativas de Luiz Fernando Carvalho. &nbsp; Fonte: &lt;https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=k1V-gIWZwgQ&gt; &nbsp; \u00b9Parte das discuss\u00f5es sobre as anamorfoses audiovisuais na micross\u00e9rie Capitu consta tamb\u00e9m no livro Tecendo rupturas \u2013 o processo da recria\u00e7\u00e3o televisual de Dom Casmurro. \u00b2Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/tvg.globo.com\/programas\/capitu\/capitu\/platb\/2008\/12\/10\/entre-luz-e-fusco\/&gt;. Acesso em: 25.03.2016 \u00e0s 10h56. &nbsp; &nbsp; Refer\u00eancias COCA, Adriana Pierre. Tecendo rupturas \u2013 o processo da recria\u00e7\u00e3o televisual de Dom Casmurro. Tr\u00edbia: Rio de Janeiro, 2015. &nbsp; DEREN, Maya. Cinema: o uso criativo da realidade. Trad. Jos\u00e9 Gatti e Maria Cristina Mendes. Revista Devires: Dossi\u00ea: Cinema Brasileiro: engajamentos no presente. \u00a0Belo Horizonte\/MG, v. 9, n\u00ba 1, p. 128-149, jan.\/jun.2013. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/www.marcoaureliosc.com.br\/cineantropo\/deren.pdf&gt;. Acesso em: 14.03.2016 \u00e0s 19h39. &nbsp; MACHADO, Arlindo Pr\u00e9-cinemas &amp; p\u00f3s-cinemas. 6. ed. 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Carvalho adentra em um terreno de experimenta\u00e7\u00f5es e faz \u201cuso criativo da realidade\u201d, como sugere Deren no texto Cinema: uso criativo da realidade. A autora considera, ainda, que as manipula\u00e7\u00f5es de tempo-espa\u00e7o \u00e9 um dos recursos primordiais para testar a potencialidade das imagens. Nesses casos, \u201ca pr\u00f3pria c\u00e2mera \u00e9 entendida como o artista, com lentes distorcidas, m\u00faltiplas posi\u00e7\u00f5es, etc., usadas para simular a a\u00e7\u00e3o criativa do olho, da mem\u00f3ria, etc.\u201d (2013, p. 11). Algumas imagens de Capitu parecem partir da premissa exposta por Deren. Como as que s\u00e3o atribu\u00eddas sob a \u00f3tica de Bentinho. A profunda perturba\u00e7\u00e3o da personagem fica evidente nos enquadramentos em primeiros planos e nas distor\u00e7\u00f5es das imagens. 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Para conseguir esse resultado in\u00e9dito, o diretor de Capitu fez uso de um recurso t\u00e9cnico criado especialmente para a micross\u00e9rie, uma lente de 30 cent\u00edmetros de di\u00e2metro, cheia de \u00e1gua, que foi colocada \u00e0 frente da c\u00e2mera, por isso, funcionou como uma esp\u00e9cie de \u201cretina\u201d e ganhou o nome de \u201clente Dom Casmurro\u201d\u00b2\u00a0. A inten\u00e7\u00e3o foi dar uma dimens\u00e3o \u00f3tica, a partir da refra\u00e7\u00e3o da \u00e1gua, nas cenas de devaneio de Bentinho. O resultado foram imagens que parecem o olhar de algu\u00e9m com catarata, dando vistas a um corpo deformado, nebuloso, irreal? Carvalho justifica o resultado impresso por suas lentes como um texto que foi aberto a outras visibilidades, com outras coordenadas est\u00e9ticas. Mas, as anamorfoses podem ser mais intensas que a desordem espacial como as imagens\/corpos que se apresentam distorcidas em Capitu, em outros momentos da mesma narrativa h\u00e1 uma subvers\u00e3o espa\u00e7o-temporal em que acontece uma anamorfose cronot\u00f3pica, por exemplo, nas cenas em que passado e presente contracenam. Fica o convite para assistirem a micross\u00e9rie Capitu, para quem j\u00e1 viu, quem sabe rever essa produ\u00e7\u00e3o televisual que como diz Arlindo Machado est\u00e1 repleta de \u201cacidentes do acaso\u201d imag\u00e9ticos e muito bem aproveitados pelas lentes criativas de Luiz Fernando Carvalho. &nbsp; Fonte: &lt;https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=k1V-gIWZwgQ&gt; &nbsp; \u00b9Parte das discuss\u00f5es sobre as anamorfoses audiovisuais na micross\u00e9rie Capitu consta tamb\u00e9m no livro Tecendo rupturas \u2013 o processo da recria\u00e7\u00e3o televisual de Dom Casmurro. \u00b2Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/tvg.globo.com\/programas\/capitu\/capitu\/platb\/2008\/12\/10\/entre-luz-e-fusco\/&gt;. Acesso em: 25.03.2016 \u00e0s 10h56. &nbsp; &nbsp; Refer\u00eancias COCA, Adriana Pierre. Tecendo rupturas \u2013 o processo da recria\u00e7\u00e3o televisual de Dom Casmurro. Tr\u00edbia: Rio de Janeiro, 2015. &nbsp; DEREN, Maya. Cinema: o uso criativo da realidade. Trad. 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