{"id":2301,"date":"2014-04-22T17:21:38","date_gmt":"2014-04-22T17:21:38","guid":{"rendered":"http:\/\/corporalidades.wordpress.com\/?p=868"},"modified":"2014-04-22T17:21:38","modified_gmt":"2014-04-22T17:21:38","slug":"nem-todo-nascimento-e-lindo-marcas-da-violencia-obstetrica-no-corpo-da-mulher-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/nem-todo-nascimento-e-lindo-marcas-da-violencia-obstetrica-no-corpo-da-mulher-brasileira\/","title":{"rendered":"Nem todo nascimento \u00e9 lindo: marcas da viol\u00eancia obst\u00e9trica no corpo da mulher brasileira"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">A madrugada de 1\u00ba de abril deste ano marcou, no munic\u00edpio de Torres, um caso surpreendente de invas\u00e3o contra os direitos e o corpo da mulher. Um acontecimento que, nas palavras de Eliane Brum, em seu texto \u201c<strong>A pot\u00eancia de Adelir\u201d<\/strong> [http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2014\/04\/14\/opinion\/1397481297_943876.html], publicado no El Pa\u00eds em 14 de abril, foi descrito como \u201cuma cena hist\u00f3rica no Brasil\u201d. Em resumo, nas palavras dela:<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: black;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u201cuma mulher em trabalho de parto, Adelir Lemos de Goes, 29 anos, foi arrancada de sua casa, na zona rural do munic\u00edpio ga\u00facho de Torres, por um oficial de justi\u00e7a e policiais armados. Em seguida, ela foi obrigada a entrar numa ambul\u00e2ncia. Se n\u00e3o entrasse, prenderiam seu marido, Emerson Guimar\u00e3es, 41 anos, t\u00e9cnico em manuten\u00e7\u00e3o industrial. Apavorada, com contra\u00e7\u00f5es a cada cinco minutos, preocupada com o susto dos filhos pequenos, Adelir foi escoltada at\u00e9 o Hospital Nossa Senhora dos Navegantes. L\u00e1, mais uma vez, foi obrigada por ordem judicial a deixar-se cortar. Contra a sua vontade, tiraram do seu \u00fatero, por cesariana, seu terceiro filho, uma menina. Naquela madrugada, Adelir descobriu que dois espa\u00e7os que considerava privados, inviol\u00e1veis, tinham sido invadidos no meio da noite: sua casa, seu corpo.\u201d (BRUM, El Pa\u00eds, 2014)<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u00a0 Para entender a hist\u00f3ria, \u00e9 necess\u00e1rio saber que, no dia anterior, Adelir havia comparecido ao mesmo hospital acompanhada de uma doula, assistente treinada de parto, que auxiliava de forma particular a sua gesta\u00e7\u00e3o. A paciente vinha de duas cesarianas consideradas desnecess\u00e1rias e, ap\u00f3s buscar informa\u00e7\u00f5es e apoio, havia optado por priorizar o parto normal, at\u00e9 onde fosse poss\u00edvel. No hospital, foi informada pela m\u00e9dica que seu beb\u00ea estava em posi\u00e7\u00e3o p\u00e9lvica (sentado) e que isso significava a necessidade de uma cesariana imediata. O que reconfigura este parto como um epis\u00f3dio repleto de novos sentidos para a discuss\u00e3o sobre os nascimento no Brasil \u00e9 que Adelir <strong>n\u00e3o<\/strong> aceitou a decis\u00e3o m\u00e9dica. Havia se certificado de que o caso n\u00e3o requeria obrigatoriamente uma ces\u00e1rea e foi informada de que os sinais vitais da beb\u00ea estavam bem. Decidiu assinar um termo de responsabilidade e procurar outro hospital. A consequ\u00eancia: o hospital entrou com uma a\u00e7\u00e3o na justi\u00e7a e nove policiais armados retiraram a gestante de sua casa na madrugada.<\/p>\n<figure id=\"attachment_869\" aria-describedby=\"caption-attachment-869\" style=\"width: 414px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/corporalidades.files.wordpress.com\/2014\/04\/foto-01.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-869\" src=\"http:\/\/corporalidades.files.wordpress.com\/2014\/04\/foto-01.jpg\" alt=\"o caso de Torres ganhou repercuss\u00f5es e manifesta\u00e7\u00f5es de rep\u00fadio em todo Brasil. Na imagem acima, manifesto em Recife.\" width=\"414\" height=\"316\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-869\" class=\"wp-caption-text\">o caso de Torres ganhou repercuss\u00f5es e manifesta\u00e7\u00f5es de rep\u00fadio em todo Brasil. Na imagem acima, manifesto em Recife.<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Rapidamente, o acontecido com Adelir ganhou dissemina\u00e7\u00e3o nas redes sociais. A hashtag #SomostodasAdelir espalhou-se r\u00e1pido, um blog com o mesmo nome foi criado e diversos atos p\u00fablicos foram promovidos em diferentes cidades do pa\u00eds denunciando o caso de desrespeito e viola\u00e7\u00e3o contra o corpo da mulher. E \u00e9 justamente o elevado grau de como\u00e7\u00e3o e identifica\u00e7\u00e3o de tantas mulheres com a hist\u00f3ria que chama a aten\u00e7\u00e3o ao olharmos para a situa\u00e7\u00e3o. \u00c9 a mesma inquieta\u00e7\u00e3o que Eliane Brum provoca: \u201co <em>que tornou Adelir t\u00e3o perigosa, de repente? Que poder t\u00e3o nevr\u00e1lgico ela desafiou para mover tantas autoridades durante a noite? O que, de fato, ela estava amea\u00e7ando, para mobilizar uma demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a dessa ordem<\/em>?\u201d Ser\u00e1 que foi por tentar \u201c<em>reabilitar o parto como ato natural e potente da mulher \u2013 e n\u00e3o como doen\u00e7a na qual os corpos s\u00e3o sujeitados a um outro?<\/em>\u201d (BRUM, 2014).<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u00a0Compreender as for\u00e7as que se colocam em jogo nesse controle do corpo feminino, \u00e0 medida que se compreende a situa\u00e7\u00e3o dos partos hoje no pa\u00eds, emerge como ponto relevante de esclarecimento sobre as correla\u00e7\u00f5es de for\u00e7a em a\u00e7\u00e3o, em toda parte, sobre o direito em rela\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3prio corpo da mulher. O conceito de biopol\u00edtica de Foucault nos auxilia a pensar a quest\u00e3o como um processo onde dizer que o poder, no s\u00e9culo XIX, \u201cincumbiu-se da vida, \u00e9 dizer que ele conseguiu cobrir toda a superf\u00edcie que se estende do org\u00e2nico ao biol\u00f3gico, do corpo \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, mediante o jogo duplo das tecnologias de disciplina, de uma parte, e das tecnologias de regulamenta\u00e7\u00e3o, de outra\u201d (FOUCAULT, 1976, p. 289). Em Foucault, s\u00e3o os processos de natalidade, mortalidade, longevidade, fecundidade justamente os primeiros objetos de saber e de controle destas correla\u00e7\u00f5es de biopoder.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">O caso de Adelir revela uma realidade onde 52% dos partos \u2013 logo, mais da metade \u2013 s\u00e3o feitos por cesarianas no Brasil. Na rede privada, o n\u00famero sobe para 83% dos partos realizados (dados da Ag\u00eancia Nacional de Sa\u00fade Suplementar \u2013 ANS). Enquanto isso, o n\u00famero recomendado pela organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) \u00e9 de 15%. Se o corpo das brasileiras n\u00e3o possui nenhuma dificuldade maior do que a das demais mulheres do mundo, a pista \u00e9 de que talvez estas cirurgias n\u00e3o estejam salvando vidas, mas tornando-se a regra na pr\u00e1tica m\u00e9dica do pa\u00eds. E basta uma busca r\u00e1pida sobre viol\u00eancia obst\u00e9trica para se deparar com diversas poss\u00edveis justificativas para normaliza\u00e7\u00e3o do parto cesariano: a m\u00e1 remunera\u00e7\u00e3o dos m\u00e9dicos, estrutura defasada de recursos humanos nos hospitais, com equipes auxiliares falhas, faculdades que preparam pouco para o parto normal e formam m\u00e9dicos que temem n\u00e3o conhecer toda a t\u00e9cnica, al\u00e9m de quest\u00f5es como maior praticidade no agendamento, remunera\u00e7\u00e3o praticamente do mesmo valor do parto normal, mas com um desgaste muito menor e muito menos horas investidas na realiza\u00e7\u00e3o da cirurgia e at\u00e9 a judicializa\u00e7\u00e3o da medicina, j\u00e1 que o m\u00e9dico \u00e9 responsabilizado por quaisquer complica\u00e7\u00f5es e, numa situa\u00e7\u00e3o de risco, prefere se prevenir optando pela ces\u00e1rea.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">No v\u00eddeo abaixo, \u201cSomos todas Adelir\u201d, esse modo de subjetiva\u00e7\u00e3o fortemente marcado por uma biomedicaliza\u00e7\u00e3o da vida, detentora de poder sobre os corpos, \u00e9 questionado. Para os autores do manifesto, a cada cirurgia desnecess\u00e1ria, realizada por conveni\u00eancias econ\u00f4micas ou m\u00e9dicas, cortam-se as rela\u00e7\u00f5es entre a medicina e a \u00e9tica:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>[youtube=http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=gaDr1zQaIwg\u00a0]<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">O caso de Adelir \u00e9 revelador da for\u00e7a normatizadora da medicina e de uma s\u00e9rie de tantas outras inst\u00e2ncias com poder capaz de decidir sobre o corpo da mulher. Ao negar-se a aceitar a decis\u00e3o alheia sobre seu \u00fatero, seu parto, seu corpo, Adelir, \u201ctornou-se perigosa\u201d, \u201cuma usu\u00e1ria do SUS, moradora da zona rural, pobre, que recusa-se a cumprir a ordem de uma doutora\u201d (BRUM, 2014).\u00a0 Ao mesmo tempo, trouxe \u00e0 tona um debate valioso sobre o que est\u00e1 acontecendo nas maternidades brasileiras e sobre o esvaziamento do poder feminino inclusive no momento \u00fanico de dar \u00e0 luz. Um debate que deve ser analisado para al\u00e9m da individualiza\u00e7\u00e3o do problema \u2013 na figura espec\u00edfica de Adelir, mas em uma aproxima\u00e7\u00e3o com seus engendramentos coletivos, sociais, econ\u00f4micos e culturais. Infelizmente, a quest\u00e3o da viol\u00eancia obst\u00e9trica extrapola hoje a discuss\u00e3o sobre a cesariana e atinge tamb\u00e9m as mulheres que s\u00e3o atendidas em seu desejo de ter um parto normal. Este tema vai ser tratado em um pr\u00f3ximo post. Como escreveu Brum: <em>Adelir, que enorme pot\u00eancia teve o seu n\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>REFER\u00caNCIAS<\/b><\/p>\n<p>AG\u00caNCIA NACIONAL DE SA\u00daDE SUPLEMENTAR \u2013 ANS. <a href=\"http:\/\/www.ans.gov.br\/\">http:\/\/www.ans.gov.br\/<\/a>.<\/p>\n<p>BRUM, Eliane. <em>A pot\u00eancia de Adelir<\/em>. El Pais. 14 de abril de 2014. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2014\/04\/14\/opinion\/1397481297_943876.html\">http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2014\/04\/14\/opinion\/1397481297_943876.html<\/a>.<\/p>\n<p>FOUCAULT, Michel. <em>Em defesa da sociedade<\/em>. Curso no Coll\u00e8ge de France, 1976.<\/p>\n<p>SOMOS TODXS ADELIR. <a href=\"http:\/\/somostodxsadelir.wordpress.com\/\">http:\/\/somostodxsadelir.wordpress.com\/<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>TEXTO<\/strong><\/p>\n<p>Danielle Miranda.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A madrugada de 1\u00ba de abril deste ano marcou, no munic\u00edpio de Torres, um caso surpreendente de invas\u00e3o contra os direitos e o corpo da mulher. Um acontecimento que, nas palavras de Eliane Brum, em seu texto \u201cA pot\u00eancia de Adelir\u201d [http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2014\/04\/14\/opinion\/1397481297_943876.html], publicado no El Pa\u00eds em 14 de abril, foi descrito como \u201cuma cena hist\u00f3rica no Brasil\u201d. Em resumo, nas palavras dela: \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0 \u201cuma mulher em trabalho de parto, Adelir Lemos de Goes, 29 anos, foi arrancada de sua casa, na zona rural do munic\u00edpio ga\u00facho de Torres, por um oficial de justi\u00e7a e policiais armados. Em seguida, ela foi obrigada a entrar numa ambul\u00e2ncia. Se n\u00e3o entrasse, prenderiam seu marido, Emerson Guimar\u00e3es, 41 anos, t\u00e9cnico em manuten\u00e7\u00e3o industrial. Apavorada, com contra\u00e7\u00f5es a cada cinco minutos, preocupada com o susto dos filhos pequenos, Adelir foi escoltada at\u00e9 o Hospital Nossa Senhora dos Navegantes. L\u00e1, mais uma vez, foi obrigada por ordem judicial a deixar-se cortar. Contra a sua vontade, tiraram do seu \u00fatero, por cesariana, seu terceiro filho, uma menina. Naquela madrugada, Adelir descobriu que dois espa\u00e7os que considerava privados, inviol\u00e1veis, tinham sido invadidos no meio da noite: sua casa, seu corpo.\u201d (BRUM, El Pa\u00eds, 2014) \u00a0 \u00a0 Para entender a hist\u00f3ria, \u00e9 necess\u00e1rio saber que, no dia anterior, Adelir havia comparecido ao mesmo hospital acompanhada de uma doula, assistente treinada de parto, que auxiliava de forma particular a sua gesta\u00e7\u00e3o. A paciente vinha de duas cesarianas consideradas desnecess\u00e1rias e, ap\u00f3s buscar informa\u00e7\u00f5es e apoio, havia optado por priorizar o parto normal, at\u00e9 onde fosse poss\u00edvel. No hospital, foi informada pela m\u00e9dica que seu beb\u00ea estava em posi\u00e7\u00e3o p\u00e9lvica (sentado) e que isso significava a necessidade de uma cesariana imediata. O que reconfigura este parto como um epis\u00f3dio repleto de novos sentidos para a discuss\u00e3o sobre os nascimento no Brasil \u00e9 que Adelir n\u00e3o aceitou a decis\u00e3o m\u00e9dica. Havia se certificado de que o caso n\u00e3o requeria obrigatoriamente uma ces\u00e1rea e foi informada de que os sinais vitais da beb\u00ea estavam bem. Decidiu assinar um termo de responsabilidade e procurar outro hospital. A consequ\u00eancia: o hospital entrou com uma a\u00e7\u00e3o na justi\u00e7a e nove policiais armados retiraram a gestante de sua casa na madrugada. &nbsp; Rapidamente, o acontecido com Adelir ganhou dissemina\u00e7\u00e3o nas redes sociais. A hashtag #SomostodasAdelir espalhou-se r\u00e1pido, um blog com o mesmo nome foi criado e diversos atos p\u00fablicos foram promovidos em diferentes cidades do pa\u00eds denunciando o caso de desrespeito e viola\u00e7\u00e3o contra o corpo da mulher. E \u00e9 justamente o elevado grau de como\u00e7\u00e3o e identifica\u00e7\u00e3o de tantas mulheres com a hist\u00f3ria que chama a aten\u00e7\u00e3o ao olharmos para a situa\u00e7\u00e3o. \u00c9 a mesma inquieta\u00e7\u00e3o que Eliane Brum provoca: \u201co que tornou Adelir t\u00e3o perigosa, de repente? Que poder t\u00e3o nevr\u00e1lgico ela desafiou para mover tantas autoridades durante a noite? O que, de fato, ela estava amea\u00e7ando, para mobilizar uma demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a dessa ordem?\u201d Ser\u00e1 que foi por tentar \u201creabilitar o parto como ato natural e potente da mulher \u2013 e n\u00e3o como doen\u00e7a na qual os corpos s\u00e3o sujeitados a um outro?\u201d (BRUM, 2014). \u00a0Compreender as for\u00e7as que se colocam em jogo nesse controle do corpo feminino, \u00e0 medida que se compreende a situa\u00e7\u00e3o dos partos hoje no pa\u00eds, emerge como ponto relevante de esclarecimento sobre as correla\u00e7\u00f5es de for\u00e7a em a\u00e7\u00e3o, em toda parte, sobre o direito em rela\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3prio corpo da mulher. O conceito de biopol\u00edtica de Foucault nos auxilia a pensar a quest\u00e3o como um processo onde dizer que o poder, no s\u00e9culo XIX, \u201cincumbiu-se da vida, \u00e9 dizer que ele conseguiu cobrir toda a superf\u00edcie que se estende do org\u00e2nico ao biol\u00f3gico, do corpo \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, mediante o jogo duplo das tecnologias de disciplina, de uma parte, e das tecnologias de regulamenta\u00e7\u00e3o, de outra\u201d (FOUCAULT, 1976, p. 289). Em Foucault, s\u00e3o os processos de natalidade, mortalidade, longevidade, fecundidade justamente os primeiros objetos de saber e de controle destas correla\u00e7\u00f5es de biopoder. O caso de Adelir revela uma realidade onde 52% dos partos \u2013 logo, mais da metade \u2013 s\u00e3o feitos por cesarianas no Brasil. Na rede privada, o n\u00famero sobe para 83% dos partos realizados (dados da Ag\u00eancia Nacional de Sa\u00fade Suplementar \u2013 ANS). Enquanto isso, o n\u00famero recomendado pela organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) \u00e9 de 15%. Se o corpo das brasileiras n\u00e3o possui nenhuma dificuldade maior do que a das demais mulheres do mundo, a pista \u00e9 de que talvez estas cirurgias n\u00e3o estejam salvando vidas, mas tornando-se a regra na pr\u00e1tica m\u00e9dica do pa\u00eds. E basta uma busca r\u00e1pida sobre viol\u00eancia obst\u00e9trica para se deparar com diversas poss\u00edveis justificativas para normaliza\u00e7\u00e3o do parto cesariano: a m\u00e1 remunera\u00e7\u00e3o dos m\u00e9dicos, estrutura defasada de recursos humanos nos hospitais, com equipes auxiliares falhas, faculdades que preparam pouco para o parto normal e formam m\u00e9dicos que temem n\u00e3o conhecer toda a t\u00e9cnica, al\u00e9m de quest\u00f5es como maior praticidade no agendamento, remunera\u00e7\u00e3o praticamente do mesmo valor do parto normal, mas com um desgaste muito menor e muito menos horas investidas na realiza\u00e7\u00e3o da cirurgia e at\u00e9 a judicializa\u00e7\u00e3o da medicina, j\u00e1 que o m\u00e9dico \u00e9 responsabilizado por quaisquer complica\u00e7\u00f5es e, numa situa\u00e7\u00e3o de risco, prefere se prevenir optando pela ces\u00e1rea. No v\u00eddeo abaixo, \u201cSomos todas Adelir\u201d, esse modo de subjetiva\u00e7\u00e3o fortemente marcado por uma biomedicaliza\u00e7\u00e3o da vida, detentora de poder sobre os corpos, \u00e9 questionado. Para os autores do manifesto, a cada cirurgia desnecess\u00e1ria, realizada por conveni\u00eancias econ\u00f4micas ou m\u00e9dicas, cortam-se as rela\u00e7\u00f5es entre a medicina e a \u00e9tica: &nbsp; [youtube=http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=gaDr1zQaIwg\u00a0] &nbsp; O caso de Adelir \u00e9 revelador da for\u00e7a normatizadora da medicina e de uma s\u00e9rie de tantas outras inst\u00e2ncias com poder capaz de decidir sobre o corpo da mulher. Ao negar-se a aceitar a decis\u00e3o alheia sobre seu \u00fatero, seu parto, seu corpo, Adelir, \u201ctornou-se perigosa\u201d, \u201cuma usu\u00e1ria do SUS, moradora da zona rural, pobre, que recusa-se a cumprir a ordem de uma doutora\u201d (BRUM, 2014).\u00a0 Ao mesmo tempo, trouxe \u00e0 tona um debate valioso sobre o que est\u00e1 acontecendo nas maternidades brasileiras e sobre o esvaziamento do poder feminino inclusive no momento \u00fanico de dar \u00e0 luz. Um debate que deve ser analisado para al\u00e9m da individualiza\u00e7\u00e3o do problema \u2013 na figura espec\u00edfica de Adelir, mas em uma aproxima\u00e7\u00e3o com seus engendramentos coletivos, sociais, econ\u00f4micos e culturais. Infelizmente, a quest\u00e3o da viol\u00eancia obst\u00e9trica extrapola hoje a discuss\u00e3o sobre a cesariana e atinge tamb\u00e9m as mulheres que s\u00e3o atendidas em seu desejo de ter um parto normal. Este tema vai ser tratado em um pr\u00f3ximo post. Como escreveu Brum: Adelir, que enorme pot\u00eancia teve o seu n\u00e3o. &nbsp; REFER\u00caNCIAS AG\u00caNCIA NACIONAL DE SA\u00daDE SUPLEMENTAR \u2013 ANS. http:\/\/www.ans.gov.br\/. BRUM, Eliane. A pot\u00eancia de Adelir. El Pais. 14 de abril de 2014. Dispon\u00edvel em: http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2014\/04\/14\/opinion\/1397481297_943876.html. FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade. Curso no Coll\u00e8ge de France, 1976. SOMOS TODXS ADELIR. http:\/\/somostodxsadelir.wordpress.com\/. &nbsp; TEXTO Danielle Miranda.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1003,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-2301","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Nem todo nascimento \u00e9 lindo: marcas da viol\u00eancia obst\u00e9trica no corpo da mulher brasileira - Corporalidades<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/nem-todo-nascimento-e-lindo-marcas-da-violencia-obstetrica-no-corpo-da-mulher-brasileira\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"en_US\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Nem todo nascimento \u00e9 lindo: marcas da viol\u00eancia obst\u00e9trica no corpo da mulher brasileira - Corporalidades\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"A madrugada de 1\u00ba de abril deste ano marcou, no munic\u00edpio de Torres, um caso surpreendente de invas\u00e3o contra os direitos e o corpo da mulher. 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Apavorada, com contra\u00e7\u00f5es a cada cinco minutos, preocupada com o susto dos filhos pequenos, Adelir foi escoltada at\u00e9 o Hospital Nossa Senhora dos Navegantes. L\u00e1, mais uma vez, foi obrigada por ordem judicial a deixar-se cortar. Contra a sua vontade, tiraram do seu \u00fatero, por cesariana, seu terceiro filho, uma menina. Naquela madrugada, Adelir descobriu que dois espa\u00e7os que considerava privados, inviol\u00e1veis, tinham sido invadidos no meio da noite: sua casa, seu corpo.\u201d (BRUM, El Pa\u00eds, 2014) \u00a0 \u00a0 Para entender a hist\u00f3ria, \u00e9 necess\u00e1rio saber que, no dia anterior, Adelir havia comparecido ao mesmo hospital acompanhada de uma doula, assistente treinada de parto, que auxiliava de forma particular a sua gesta\u00e7\u00e3o. A paciente vinha de duas cesarianas consideradas desnecess\u00e1rias e, ap\u00f3s buscar informa\u00e7\u00f5es e apoio, havia optado por priorizar o parto normal, at\u00e9 onde fosse poss\u00edvel. 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O que, de fato, ela estava amea\u00e7ando, para mobilizar uma demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a dessa ordem?\u201d Ser\u00e1 que foi por tentar \u201creabilitar o parto como ato natural e potente da mulher \u2013 e n\u00e3o como doen\u00e7a na qual os corpos s\u00e3o sujeitados a um outro?\u201d (BRUM, 2014). \u00a0Compreender as for\u00e7as que se colocam em jogo nesse controle do corpo feminino, \u00e0 medida que se compreende a situa\u00e7\u00e3o dos partos hoje no pa\u00eds, emerge como ponto relevante de esclarecimento sobre as correla\u00e7\u00f5es de for\u00e7a em a\u00e7\u00e3o, em toda parte, sobre o direito em rela\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3prio corpo da mulher. O conceito de biopol\u00edtica de Foucault nos auxilia a pensar a quest\u00e3o como um processo onde dizer que o poder, no s\u00e9culo XIX, \u201cincumbiu-se da vida, \u00e9 dizer que ele conseguiu cobrir toda a superf\u00edcie que se estende do org\u00e2nico ao biol\u00f3gico, do corpo \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, mediante o jogo duplo das tecnologias de disciplina, de uma parte, e das tecnologias de regulamenta\u00e7\u00e3o, de outra\u201d (FOUCAULT, 1976, p. 289). Em Foucault, s\u00e3o os processos de natalidade, mortalidade, longevidade, fecundidade justamente os primeiros objetos de saber e de controle destas correla\u00e7\u00f5es de biopoder. O caso de Adelir revela uma realidade onde 52% dos partos \u2013 logo, mais da metade \u2013 s\u00e3o feitos por cesarianas no Brasil. Na rede privada, o n\u00famero sobe para 83% dos partos realizados (dados da Ag\u00eancia Nacional de Sa\u00fade Suplementar \u2013 ANS). Enquanto isso, o n\u00famero recomendado pela organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) \u00e9 de 15%. Se o corpo das brasileiras n\u00e3o possui nenhuma dificuldade maior do que a das demais mulheres do mundo, a pista \u00e9 de que talvez estas cirurgias n\u00e3o estejam salvando vidas, mas tornando-se a regra na pr\u00e1tica m\u00e9dica do pa\u00eds. E basta uma busca r\u00e1pida sobre viol\u00eancia obst\u00e9trica para se deparar com diversas poss\u00edveis justificativas para normaliza\u00e7\u00e3o do parto cesariano: a m\u00e1 remunera\u00e7\u00e3o dos m\u00e9dicos, estrutura defasada de recursos humanos nos hospitais, com equipes auxiliares falhas, faculdades que preparam pouco para o parto normal e formam m\u00e9dicos que temem n\u00e3o conhecer toda a t\u00e9cnica, al\u00e9m de quest\u00f5es como maior praticidade no agendamento, remunera\u00e7\u00e3o praticamente do mesmo valor do parto normal, mas com um desgaste muito menor e muito menos horas investidas na realiza\u00e7\u00e3o da cirurgia e at\u00e9 a judicializa\u00e7\u00e3o da medicina, j\u00e1 que o m\u00e9dico \u00e9 responsabilizado por quaisquer complica\u00e7\u00f5es e, numa situa\u00e7\u00e3o de risco, prefere se prevenir optando pela ces\u00e1rea. No v\u00eddeo abaixo, \u201cSomos todas Adelir\u201d, esse modo de subjetiva\u00e7\u00e3o fortemente marcado por uma biomedicaliza\u00e7\u00e3o da vida, detentora de poder sobre os corpos, \u00e9 questionado. Para os autores do manifesto, a cada cirurgia desnecess\u00e1ria, realizada por conveni\u00eancias econ\u00f4micas ou m\u00e9dicas, cortam-se as rela\u00e7\u00f5es entre a medicina e a \u00e9tica: &nbsp; [youtube=http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=gaDr1zQaIwg\u00a0] &nbsp; O caso de Adelir \u00e9 revelador da for\u00e7a normatizadora da medicina e de uma s\u00e9rie de tantas outras inst\u00e2ncias com poder capaz de decidir sobre o corpo da mulher. Ao negar-se a aceitar a decis\u00e3o alheia sobre seu \u00fatero, seu parto, seu corpo, Adelir, \u201ctornou-se perigosa\u201d, \u201cuma usu\u00e1ria do SUS, moradora da zona rural, pobre, que recusa-se a cumprir a ordem de uma doutora\u201d (BRUM, 2014).\u00a0 Ao mesmo tempo, trouxe \u00e0 tona um debate valioso sobre o que est\u00e1 acontecendo nas maternidades brasileiras e sobre o esvaziamento do poder feminino inclusive no momento \u00fanico de dar \u00e0 luz. Um debate que deve ser analisado para al\u00e9m da individualiza\u00e7\u00e3o do problema \u2013 na figura espec\u00edfica de Adelir, mas em uma aproxima\u00e7\u00e3o com seus engendramentos coletivos, sociais, econ\u00f4micos e culturais. Infelizmente, a quest\u00e3o da viol\u00eancia obst\u00e9trica extrapola hoje a discuss\u00e3o sobre a cesariana e atinge tamb\u00e9m as mulheres que s\u00e3o atendidas em seu desejo de ter um parto normal. Este tema vai ser tratado em um pr\u00f3ximo post. Como escreveu Brum: Adelir, que enorme pot\u00eancia teve o seu n\u00e3o. &nbsp; REFER\u00caNCIAS AG\u00caNCIA NACIONAL DE SA\u00daDE SUPLEMENTAR \u2013 ANS. http:\/\/www.ans.gov.br\/. BRUM, Eliane. A pot\u00eancia de Adelir. El Pais. 14 de abril de 2014. Dispon\u00edvel em: http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2014\/04\/14\/opinion\/1397481297_943876.html. FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade. Curso no Coll\u00e8ge de France, 1976. 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No hospital, foi informada pela m\u00e9dica que seu beb\u00ea estava em posi\u00e7\u00e3o p\u00e9lvica (sentado) e que isso significava a necessidade de uma cesariana imediata. O que reconfigura este parto como um epis\u00f3dio repleto de novos sentidos para a discuss\u00e3o sobre os nascimento no Brasil \u00e9 que Adelir n\u00e3o aceitou a decis\u00e3o m\u00e9dica. Havia se certificado de que o caso n\u00e3o requeria obrigatoriamente uma ces\u00e1rea e foi informada de que os sinais vitais da beb\u00ea estavam bem. Decidiu assinar um termo de responsabilidade e procurar outro hospital. A consequ\u00eancia: o hospital entrou com uma a\u00e7\u00e3o na justi\u00e7a e nove policiais armados retiraram a gestante de sua casa na madrugada. &nbsp; Rapidamente, o acontecido com Adelir ganhou dissemina\u00e7\u00e3o nas redes sociais. A hashtag #SomostodasAdelir espalhou-se r\u00e1pido, um blog com o mesmo nome foi criado e diversos atos p\u00fablicos foram promovidos em diferentes cidades do pa\u00eds denunciando o caso de desrespeito e viola\u00e7\u00e3o contra o corpo da mulher. E \u00e9 justamente o elevado grau de como\u00e7\u00e3o e identifica\u00e7\u00e3o de tantas mulheres com a hist\u00f3ria que chama a aten\u00e7\u00e3o ao olharmos para a situa\u00e7\u00e3o. \u00c9 a mesma inquieta\u00e7\u00e3o que Eliane Brum provoca: \u201co que tornou Adelir t\u00e3o perigosa, de repente? Que poder t\u00e3o nevr\u00e1lgico ela desafiou para mover tantas autoridades durante a noite? O que, de fato, ela estava amea\u00e7ando, para mobilizar uma demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a dessa ordem?\u201d Ser\u00e1 que foi por tentar \u201creabilitar o parto como ato natural e potente da mulher \u2013 e n\u00e3o como doen\u00e7a na qual os corpos s\u00e3o sujeitados a um outro?\u201d (BRUM, 2014). \u00a0Compreender as for\u00e7as que se colocam em jogo nesse controle do corpo feminino, \u00e0 medida que se compreende a situa\u00e7\u00e3o dos partos hoje no pa\u00eds, emerge como ponto relevante de esclarecimento sobre as correla\u00e7\u00f5es de for\u00e7a em a\u00e7\u00e3o, em toda parte, sobre o direito em rela\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3prio corpo da mulher. O conceito de biopol\u00edtica de Foucault nos auxilia a pensar a quest\u00e3o como um processo onde dizer que o poder, no s\u00e9culo XIX, \u201cincumbiu-se da vida, \u00e9 dizer que ele conseguiu cobrir toda a superf\u00edcie que se estende do org\u00e2nico ao biol\u00f3gico, do corpo \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, mediante o jogo duplo das tecnologias de disciplina, de uma parte, e das tecnologias de regulamenta\u00e7\u00e3o, de outra\u201d (FOUCAULT, 1976, p. 289). Em Foucault, s\u00e3o os processos de natalidade, mortalidade, longevidade, fecundidade justamente os primeiros objetos de saber e de controle destas correla\u00e7\u00f5es de biopoder. O caso de Adelir revela uma realidade onde 52% dos partos \u2013 logo, mais da metade \u2013 s\u00e3o feitos por cesarianas no Brasil. Na rede privada, o n\u00famero sobe para 83% dos partos realizados (dados da Ag\u00eancia Nacional de Sa\u00fade Suplementar \u2013 ANS). Enquanto isso, o n\u00famero recomendado pela organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) \u00e9 de 15%. Se o corpo das brasileiras n\u00e3o possui nenhuma dificuldade maior do que a das demais mulheres do mundo, a pista \u00e9 de que talvez estas cirurgias n\u00e3o estejam salvando vidas, mas tornando-se a regra na pr\u00e1tica m\u00e9dica do pa\u00eds. E basta uma busca r\u00e1pida sobre viol\u00eancia obst\u00e9trica para se deparar com diversas poss\u00edveis justificativas para normaliza\u00e7\u00e3o do parto cesariano: a m\u00e1 remunera\u00e7\u00e3o dos m\u00e9dicos, estrutura defasada de recursos humanos nos hospitais, com equipes auxiliares falhas, faculdades que preparam pouco para o parto normal e formam m\u00e9dicos que temem n\u00e3o conhecer toda a t\u00e9cnica, al\u00e9m de quest\u00f5es como maior praticidade no agendamento, remunera\u00e7\u00e3o praticamente do mesmo valor do parto normal, mas com um desgaste muito menor e muito menos horas investidas na realiza\u00e7\u00e3o da cirurgia e at\u00e9 a judicializa\u00e7\u00e3o da medicina, j\u00e1 que o m\u00e9dico \u00e9 responsabilizado por quaisquer complica\u00e7\u00f5es e, numa situa\u00e7\u00e3o de risco, prefere se prevenir optando pela ces\u00e1rea. No v\u00eddeo abaixo, \u201cSomos todas Adelir\u201d, esse modo de subjetiva\u00e7\u00e3o fortemente marcado por uma biomedicaliza\u00e7\u00e3o da vida, detentora de poder sobre os corpos, \u00e9 questionado. Para os autores do manifesto, a cada cirurgia desnecess\u00e1ria, realizada por conveni\u00eancias econ\u00f4micas ou m\u00e9dicas, cortam-se as rela\u00e7\u00f5es entre a medicina e a \u00e9tica: &nbsp; [youtube=http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=gaDr1zQaIwg\u00a0] &nbsp; O caso de Adelir \u00e9 revelador da for\u00e7a normatizadora da medicina e de uma s\u00e9rie de tantas outras inst\u00e2ncias com poder capaz de decidir sobre o corpo da mulher. Ao negar-se a aceitar a decis\u00e3o alheia sobre seu \u00fatero, seu parto, seu corpo, Adelir, \u201ctornou-se perigosa\u201d, \u201cuma usu\u00e1ria do SUS, moradora da zona rural, pobre, que recusa-se a cumprir a ordem de uma doutora\u201d (BRUM, 2014).\u00a0 Ao mesmo tempo, trouxe \u00e0 tona um debate valioso sobre o que est\u00e1 acontecendo nas maternidades brasileiras e sobre o esvaziamento do poder feminino inclusive no momento \u00fanico de dar \u00e0 luz. Um debate que deve ser analisado para al\u00e9m da individualiza\u00e7\u00e3o do problema \u2013 na figura espec\u00edfica de Adelir, mas em uma aproxima\u00e7\u00e3o com seus engendramentos coletivos, sociais, econ\u00f4micos e culturais. Infelizmente, a quest\u00e3o da viol\u00eancia obst\u00e9trica extrapola hoje a discuss\u00e3o sobre a cesariana e atinge tamb\u00e9m as mulheres que s\u00e3o atendidas em seu desejo de ter um parto normal. Este tema vai ser tratado em um pr\u00f3ximo post. Como escreveu Brum: Adelir, que enorme pot\u00eancia teve o seu n\u00e3o. &nbsp; REFER\u00caNCIAS AG\u00caNCIA NACIONAL DE SA\u00daDE SUPLEMENTAR \u2013 ANS. http:\/\/www.ans.gov.br\/. BRUM, Eliane. A pot\u00eancia de Adelir. El Pais. 14 de abril de 2014. Dispon\u00edvel em: http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2014\/04\/14\/opinion\/1397481297_943876.html. FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade. Curso no Coll\u00e8ge de France, 1976. SOMOS TODXS ADELIR. http:\/\/somostodxsadelir.wordpress.com\/. &nbsp; TEXTO Danielle Miranda.","og_url":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/nem-todo-nascimento-e-lindo-marcas-da-violencia-obstetrica-no-corpo-da-mulher-brasileira\/","og_site_name":"Corporalidades","article_published_time":"2014-04-22T17:21:38+00:00","og_image":[{"width":1347,"height":865,"url":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/imagem6-1.jpg","type":"image\/jpeg"}],"author":"gerente","twitter_card":"summary_large_image","twitter_misc":{"Written by":"gerente","Est. reading time":"6 minutes"},"schema":{"@context":"https:\/\/schema.org","@graph":[{"@type":"Article","@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/nem-todo-nascimento-e-lindo-marcas-da-violencia-obstetrica-no-corpo-da-mulher-brasileira\/#article","isPartOf":{"@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/nem-todo-nascimento-e-lindo-marcas-da-violencia-obstetrica-no-corpo-da-mulher-brasileira\/"},"author":{"name":"gerente","@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/#\/schema\/person\/e18ecb8063c1f965a031341c25460e43"},"headline":"Nem todo nascimento \u00e9 lindo: marcas da viol\u00eancia obst\u00e9trica no corpo da mulher brasileira","datePublished":"2014-04-22T17:21:38+00:00","mainEntityOfPage":{"@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/nem-todo-nascimento-e-lindo-marcas-da-violencia-obstetrica-no-corpo-da-mulher-brasileira\/"},"wordCount":1308,"commentCount":1,"image":{"@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/nem-todo-nascimento-e-lindo-marcas-da-violencia-obstetrica-no-corpo-da-mulher-brasileira\/#primaryimage"},"thumbnailUrl":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/imagem6-1.jpg","articleSection":["Blog"],"inLanguage":"en-US","potentialAction":[{"@type":"CommentAction","name":"Comment","target":["https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/nem-todo-nascimento-e-lindo-marcas-da-violencia-obstetrica-no-corpo-da-mulher-brasileira\/#respond"]}]},{"@type":"WebPage","@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/nem-todo-nascimento-e-lindo-marcas-da-violencia-obstetrica-no-corpo-da-mulher-brasileira\/","url":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/nem-todo-nascimento-e-lindo-marcas-da-violencia-obstetrica-no-corpo-da-mulher-brasileira\/","name":"Nem todo nascimento \u00e9 lindo: marcas da viol\u00eancia obst\u00e9trica no corpo da mulher brasileira - 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