{"id":2308,"date":"2014-05-27T12:11:58","date_gmt":"2014-05-27T12:11:58","guid":{"rendered":"http:\/\/corporalidades.wordpress.com\/?p=925"},"modified":"2014-05-27T12:11:58","modified_gmt":"2014-05-27T12:11:58","slug":"explosao-de-textos-corporais-na-semiosfera-dos-piercings","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/explosao-de-textos-corporais-na-semiosfera-dos-piercings\/","title":{"rendered":"Explos\u00e3o de textos corporais na semiosfera dos piercings"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/corporalidades.files.wordpress.com\/2014\/05\/foto-0128.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-926\" src=\"http:\/\/corporalidades.files.wordpress.com\/2014\/05\/foto-0128.jpg\" alt=\"Foto 01\" width=\"660\" height=\"239\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como se pode facilmente notar, o homem e a mulher das fotos acima t\u00eam em comum uma incr\u00edvel quantidade de piercings. Rolf Buchholz, na foto da esquerda, \u00e9 alem\u00e3o e recordista mundial, desde 2011, por ser o homem com mais piercings que existe, isso devido aos seus 453 piercings, sendo que 258 est\u00e3o localizados na sua zona genital, 25 na zona dos olhos, 8 no nariz e os restantes em outras \u00e1reas de seu corpo. Impressionante, n\u00e3o? Ent\u00e3o saiba que a mulher na foto da direita se chama Elaine Davidson, \u00e9 brasileira e est\u00e1 no <em>Guinness World Records <\/em>por ser a PESSOA com mais piercings do mundo. Em 2000 ela ganhou o t\u00edtulo por possuir 462 joias perfuradas em seu corpo, das quais 192 estavam no rosto e orelhas (30 apenas na l\u00edngua), 56 ao longo do corpo (m\u00e3os, barriga, etc.) e 214 na regi\u00e3o p\u00fabica (piercings genitais internos e externos). Em 2012 ela atingiu a incr\u00edvel marca de 9000 mil piercings, sendo muitos deles internos e somando um peso total de aproximadamente 3kg de metal no seu corpo!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os piercings, embora sejam artigos da moda na sociedade contempor\u00e2nea, n\u00e3o s\u00e3o recentes, pois h\u00e1 registros que a arte do <em>body piercing<\/em> j\u00e1 tenha mais de 5.000 anos. Antigamente, estes fragmentos met\u00e1licos perfurados no corpo eram utilizados como express\u00e3o corporal, ritual espiritual, distin\u00e7\u00e3o de realeza, moda e, hoje mais comumente, diferencia\u00e7\u00e3o pessoal, em que as pessoas utilizam piercings no sentido de criar uma identidade que se distinga.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/corporalidades.files.wordpress.com\/2014\/05\/foto-0129.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-927\" src=\"http:\/\/corporalidades.files.wordpress.com\/2014\/05\/foto-0129.jpg\" alt=\"Foto 01\" width=\"660\" height=\"456\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Dentro da semi\u00f3tica, para uma melhor compreens\u00e3o visual e comunicacional acerca dos casos em quest\u00e3o, \u00e9 interessante relacionar esse uso exacerbado de piercings a textos corporais aos quais se refere Lotman (1985). Este autor defende que podemos decifrar num homem de qualquer tempo ou qualquer grupo social os vest\u00edgios de sua cultura ao ler o seu corpo como um texto. Um texto nunca surge como um fen\u00f4meno isolado, mas como parte de um amplo quadro que \u00e9 chamado de semiosfera. Lotman (1985, p.24) define semiosfera, fazendo uma analogia ao conceito de biosfera, como um mecanismo em funcionamento formado de elementos diversos que se inter-relacionam num mecanismo din\u00e2mico complexo, o qual traduz mensagens em novos textos ou sistemas de signos. Ou seja, semiosfera \u00e9 o espa\u00e7o de significa\u00e7\u00e3o, \u00e9 o processo de interpreta\u00e7\u00e3o dos sentidos que permite que a cultura seja significada. Assim, o autor conclui que \u201ccultura \u00e9 mem\u00f3ria, ela relaciona-se necessariamente com a experi\u00eancia hist\u00f3rica passada. (&#8230;) A pr\u00f3pria exist\u00eancia da cultura pressup\u00f5e a constru\u00e7\u00e3o dum sistema de regras para a tradu\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia imediata em texto.\u201d (LOTMAN e USPENSKI, 1981, p.41).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/corporalidades.files.wordpress.com\/2014\/05\/foto-0130.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-928\" src=\"http:\/\/corporalidades.files.wordpress.com\/2014\/05\/foto-0130.jpg\" alt=\"Foto 01\" width=\"277\" height=\"415\" \/><\/a><\/p>\n<p>Campelo (1996, p.66), a partir de seus estudos sobre semiosfera, afirma que \u201c\u00e9 no corpo que se vai gravando a hist\u00f3ria da cultura a que aquele corpo pertence. Afinal, desde o momento de seu nascimento, o homem \u00e9 moldado para pertencer a um dado grupo, com regras \u00e9ticas e est\u00e9ticas mais ou menos fixas.\u201d Portanto, dependendo do espa\u00e7o, do tempo e do grupo em que um indiv\u00edduo se encontra, ele vai se moldar conforme a sua cultura exigir; a no\u00e7\u00e3o de identidade \u00e9 a no\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a do Outro em um determinado grupo.<\/p>\n<p>Relacionando com os casos acima, esse estudo nos instiga a perceber que Buchholz e Davidson, em algum momento de suas vidas, foram tensionados pela est\u00e9tica do piercing. Ou cresceram dentro desta semiosfera ou simplesmente acabaram sendo influenciados pela imagem do Outro. Com o passar do tempo come\u00e7aram a fazer diversas perfura\u00e7\u00f5es pelo corpo para assumir uma identidade pr\u00f3pria, fazer sucesso, aparecer na m\u00eddia e ganhar um t\u00edtulo que acabou tornando-os mundialmente conhecidos. Em um dado momento, usar piercings para este alem\u00e3o e para esta brasileira j\u00e1 n\u00e3o servia mais apenas como diferencia\u00e7\u00e3o pessoal, pois passou a servir como ferramenta de reconhecimento mundial. Quando os vemos, apesar de termos certa familiaridade com esse tipo de adorno, ainda assim nos sentimos impactados pelo excesso, ocorre uma ruptura de sentidos em rela\u00e7\u00e3o as fei\u00e7\u00f5es previs\u00edveis de um ser humano. Para Lotman, esse \u00e9 um momento de explos\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/corporalidades.files.wordpress.com\/2014\/05\/foto-0131.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-929\" src=\"http:\/\/corporalidades.files.wordpress.com\/2014\/05\/foto-0131.jpg\" alt=\"Foto 01\" width=\"317\" height=\"412\" \/><\/a><\/p>\n<p><b>REFER\u00caNCIAS<\/b><\/p>\n<p>BEATRIZ, Helena. <strong>A mulher com mais piercings no mundo:<\/strong> conhe\u00e7a Elaine Davidson. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.artenocorpo.com\/1257\/a-mulher-com-mais-piercings-no-mundo-conheca-elaine-davidson<\/p>\n<p>CAMPELO, Cleide Riva. <strong>Caleidoscorpos:<\/strong> um estudo semi\u00f3tico do corpo e seus c\u00f3digos. S\u00e3o Paulo: Annablume, 1996.<\/p>\n<p>LOTMAN, Iuri. <strong>La semiosfera I<\/strong> . trad, de Desid\u00e9rio Navarro, Madrid: Ediciones C\u00e1tedra, 1985.<\/p>\n<p>LOTMAN, Iuri; USPENSKII, B\u00f3ris. <strong>Ensaios de Semi\u00f3tica Sovi\u00e9tica<\/strong>. Lisboa: Livros Horizontes, 1981.<\/p>\n<p>STANBOROUGH, Denise. <strong>The World&#8217;s Most Pierced Man. <\/strong>Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.bizarremag.com\/tattoos-and-bodyart\/body-mods\/11707\/the_worlds_most_pierced_man.html<\/p>\n<p>SANTANA, Ana L\u00facia. <strong>Piercings. <\/strong>Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.infoescola.com\/artes\/piercings\/<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>TEXTO<\/strong><\/p>\n<p>Renata Mansque,<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; Como se pode facilmente notar, o homem e a mulher das fotos acima t\u00eam em comum uma incr\u00edvel quantidade de piercings. Rolf Buchholz, na foto da esquerda, \u00e9 alem\u00e3o e recordista mundial, desde 2011, por ser o homem com mais piercings que existe, isso devido aos seus 453 piercings, sendo que 258 est\u00e3o localizados na sua zona genital, 25 na zona dos olhos, 8 no nariz e os restantes em outras \u00e1reas de seu corpo. Impressionante, n\u00e3o? Ent\u00e3o saiba que a mulher na foto da direita se chama Elaine Davidson, \u00e9 brasileira e est\u00e1 no Guinness World Records por ser a PESSOA com mais piercings do mundo. Em 2000 ela ganhou o t\u00edtulo por possuir 462 joias perfuradas em seu corpo, das quais 192 estavam no rosto e orelhas (30 apenas na l\u00edngua), 56 ao longo do corpo (m\u00e3os, barriga, etc.) e 214 na regi\u00e3o p\u00fabica (piercings genitais internos e externos). Em 2012 ela atingiu a incr\u00edvel marca de 9000 mil piercings, sendo muitos deles internos e somando um peso total de aproximadamente 3kg de metal no seu corpo! &nbsp; Os piercings, embora sejam artigos da moda na sociedade contempor\u00e2nea, n\u00e3o s\u00e3o recentes, pois h\u00e1 registros que a arte do body piercing j\u00e1 tenha mais de 5.000 anos. Antigamente, estes fragmentos met\u00e1licos perfurados no corpo eram utilizados como express\u00e3o corporal, ritual espiritual, distin\u00e7\u00e3o de realeza, moda e, hoje mais comumente, diferencia\u00e7\u00e3o pessoal, em que as pessoas utilizam piercings no sentido de criar uma identidade que se distinga. &nbsp; &nbsp; Dentro da semi\u00f3tica, para uma melhor compreens\u00e3o visual e comunicacional acerca dos casos em quest\u00e3o, \u00e9 interessante relacionar esse uso exacerbado de piercings a textos corporais aos quais se refere Lotman (1985). Este autor defende que podemos decifrar num homem de qualquer tempo ou qualquer grupo social os vest\u00edgios de sua cultura ao ler o seu corpo como um texto. Um texto nunca surge como um fen\u00f4meno isolado, mas como parte de um amplo quadro que \u00e9 chamado de semiosfera. Lotman (1985, p.24) define semiosfera, fazendo uma analogia ao conceito de biosfera, como um mecanismo em funcionamento formado de elementos diversos que se inter-relacionam num mecanismo din\u00e2mico complexo, o qual traduz mensagens em novos textos ou sistemas de signos. Ou seja, semiosfera \u00e9 o espa\u00e7o de significa\u00e7\u00e3o, \u00e9 o processo de interpreta\u00e7\u00e3o dos sentidos que permite que a cultura seja significada. Assim, o autor conclui que \u201ccultura \u00e9 mem\u00f3ria, ela relaciona-se necessariamente com a experi\u00eancia hist\u00f3rica passada. (&#8230;) A pr\u00f3pria exist\u00eancia da cultura pressup\u00f5e a constru\u00e7\u00e3o dum sistema de regras para a tradu\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia imediata em texto.\u201d (LOTMAN e USPENSKI, 1981, p.41). &nbsp; Campelo (1996, p.66), a partir de seus estudos sobre semiosfera, afirma que \u201c\u00e9 no corpo que se vai gravando a hist\u00f3ria da cultura a que aquele corpo pertence. Afinal, desde o momento de seu nascimento, o homem \u00e9 moldado para pertencer a um dado grupo, com regras \u00e9ticas e est\u00e9ticas mais ou menos fixas.\u201d Portanto, dependendo do espa\u00e7o, do tempo e do grupo em que um indiv\u00edduo se encontra, ele vai se moldar conforme a sua cultura exigir; a no\u00e7\u00e3o de identidade \u00e9 a no\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a do Outro em um determinado grupo. Relacionando com os casos acima, esse estudo nos instiga a perceber que Buchholz e Davidson, em algum momento de suas vidas, foram tensionados pela est\u00e9tica do piercing. Ou cresceram dentro desta semiosfera ou simplesmente acabaram sendo influenciados pela imagem do Outro. Com o passar do tempo come\u00e7aram a fazer diversas perfura\u00e7\u00f5es pelo corpo para assumir uma identidade pr\u00f3pria, fazer sucesso, aparecer na m\u00eddia e ganhar um t\u00edtulo que acabou tornando-os mundialmente conhecidos. Em um dado momento, usar piercings para este alem\u00e3o e para esta brasileira j\u00e1 n\u00e3o servia mais apenas como diferencia\u00e7\u00e3o pessoal, pois passou a servir como ferramenta de reconhecimento mundial. Quando os vemos, apesar de termos certa familiaridade com esse tipo de adorno, ainda assim nos sentimos impactados pelo excesso, ocorre uma ruptura de sentidos em rela\u00e7\u00e3o as fei\u00e7\u00f5es previs\u00edveis de um ser humano. Para Lotman, esse \u00e9 um momento de explos\u00e3o. &nbsp; REFER\u00caNCIAS BEATRIZ, Helena. A mulher com mais piercings no mundo: conhe\u00e7a Elaine Davidson. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.artenocorpo.com\/1257\/a-mulher-com-mais-piercings-no-mundo-conheca-elaine-davidson CAMPELO, Cleide Riva. Caleidoscorpos: um estudo semi\u00f3tico do corpo e seus c\u00f3digos. S\u00e3o Paulo: Annablume, 1996. LOTMAN, Iuri. La semiosfera I . trad, de Desid\u00e9rio Navarro, Madrid: Ediciones C\u00e1tedra, 1985. LOTMAN, Iuri; USPENSKII, B\u00f3ris. Ensaios de Semi\u00f3tica Sovi\u00e9tica. Lisboa: Livros Horizontes, 1981. STANBOROUGH, Denise. The World&#8217;s Most Pierced Man. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.bizarremag.com\/tattoos-and-bodyart\/body-mods\/11707\/the_worlds_most_pierced_man.html SANTANA, Ana L\u00facia. Piercings. 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Em 2012 ela atingiu a incr\u00edvel marca de 9000 mil piercings, sendo muitos deles internos e somando um peso total de aproximadamente 3kg de metal no seu corpo! &nbsp; Os piercings, embora sejam artigos da moda na sociedade contempor\u00e2nea, n\u00e3o s\u00e3o recentes, pois h\u00e1 registros que a arte do body piercing j\u00e1 tenha mais de 5.000 anos. Antigamente, estes fragmentos met\u00e1licos perfurados no corpo eram utilizados como express\u00e3o corporal, ritual espiritual, distin\u00e7\u00e3o de realeza, moda e, hoje mais comumente, diferencia\u00e7\u00e3o pessoal, em que as pessoas utilizam piercings no sentido de criar uma identidade que se distinga. &nbsp; &nbsp; Dentro da semi\u00f3tica, para uma melhor compreens\u00e3o visual e comunicacional acerca dos casos em quest\u00e3o, \u00e9 interessante relacionar esse uso exacerbado de piercings a textos corporais aos quais se refere Lotman (1985). Este autor defende que podemos decifrar num homem de qualquer tempo ou qualquer grupo social os vest\u00edgios de sua cultura ao ler o seu corpo como um texto. Um texto nunca surge como um fen\u00f4meno isolado, mas como parte de um amplo quadro que \u00e9 chamado de semiosfera. Lotman (1985, p.24) define semiosfera, fazendo uma analogia ao conceito de biosfera, como um mecanismo em funcionamento formado de elementos diversos que se inter-relacionam num mecanismo din\u00e2mico complexo, o qual traduz mensagens em novos textos ou sistemas de signos. Ou seja, semiosfera \u00e9 o espa\u00e7o de significa\u00e7\u00e3o, \u00e9 o processo de interpreta\u00e7\u00e3o dos sentidos que permite que a cultura seja significada. Assim, o autor conclui que \u201ccultura \u00e9 mem\u00f3ria, ela relaciona-se necessariamente com a experi\u00eancia hist\u00f3rica passada. (&#8230;) A pr\u00f3pria exist\u00eancia da cultura pressup\u00f5e a constru\u00e7\u00e3o dum sistema de regras para a tradu\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia imediata em texto.\u201d (LOTMAN e USPENSKI, 1981, p.41). &nbsp; Campelo (1996, p.66), a partir de seus estudos sobre semiosfera, afirma que \u201c\u00e9 no corpo que se vai gravando a hist\u00f3ria da cultura a que aquele corpo pertence. Afinal, desde o momento de seu nascimento, o homem \u00e9 moldado para pertencer a um dado grupo, com regras \u00e9ticas e est\u00e9ticas mais ou menos fixas.\u201d Portanto, dependendo do espa\u00e7o, do tempo e do grupo em que um indiv\u00edduo se encontra, ele vai se moldar conforme a sua cultura exigir; a no\u00e7\u00e3o de identidade \u00e9 a no\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a do Outro em um determinado grupo. Relacionando com os casos acima, esse estudo nos instiga a perceber que Buchholz e Davidson, em algum momento de suas vidas, foram tensionados pela est\u00e9tica do piercing. Ou cresceram dentro desta semiosfera ou simplesmente acabaram sendo influenciados pela imagem do Outro. Com o passar do tempo come\u00e7aram a fazer diversas perfura\u00e7\u00f5es pelo corpo para assumir uma identidade pr\u00f3pria, fazer sucesso, aparecer na m\u00eddia e ganhar um t\u00edtulo que acabou tornando-os mundialmente conhecidos. Em um dado momento, usar piercings para este alem\u00e3o e para esta brasileira j\u00e1 n\u00e3o servia mais apenas como diferencia\u00e7\u00e3o pessoal, pois passou a servir como ferramenta de reconhecimento mundial. Quando os vemos, apesar de termos certa familiaridade com esse tipo de adorno, ainda assim nos sentimos impactados pelo excesso, ocorre uma ruptura de sentidos em rela\u00e7\u00e3o as fei\u00e7\u00f5es previs\u00edveis de um ser humano. Para Lotman, esse \u00e9 um momento de explos\u00e3o. &nbsp; REFER\u00caNCIAS BEATRIZ, Helena. A mulher com mais piercings no mundo: conhe\u00e7a Elaine Davidson. 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Rolf Buchholz, na foto da esquerda, \u00e9 alem\u00e3o e recordista mundial, desde 2011, por ser o homem com mais piercings que existe, isso devido aos seus 453 piercings, sendo que 258 est\u00e3o localizados na sua zona genital, 25 na zona dos olhos, 8 no nariz e os restantes em outras \u00e1reas de seu corpo. Impressionante, n\u00e3o? Ent\u00e3o saiba que a mulher na foto da direita se chama Elaine Davidson, \u00e9 brasileira e est\u00e1 no Guinness World Records por ser a PESSOA com mais piercings do mundo. Em 2000 ela ganhou o t\u00edtulo por possuir 462 joias perfuradas em seu corpo, das quais 192 estavam no rosto e orelhas (30 apenas na l\u00edngua), 56 ao longo do corpo (m\u00e3os, barriga, etc.) e 214 na regi\u00e3o p\u00fabica (piercings genitais internos e externos). Em 2012 ela atingiu a incr\u00edvel marca de 9000 mil piercings, sendo muitos deles internos e somando um peso total de aproximadamente 3kg de metal no seu corpo! &nbsp; Os piercings, embora sejam artigos da moda na sociedade contempor\u00e2nea, n\u00e3o s\u00e3o recentes, pois h\u00e1 registros que a arte do body piercing j\u00e1 tenha mais de 5.000 anos. Antigamente, estes fragmentos met\u00e1licos perfurados no corpo eram utilizados como express\u00e3o corporal, ritual espiritual, distin\u00e7\u00e3o de realeza, moda e, hoje mais comumente, diferencia\u00e7\u00e3o pessoal, em que as pessoas utilizam piercings no sentido de criar uma identidade que se distinga. &nbsp; &nbsp; Dentro da semi\u00f3tica, para uma melhor compreens\u00e3o visual e comunicacional acerca dos casos em quest\u00e3o, \u00e9 interessante relacionar esse uso exacerbado de piercings a textos corporais aos quais se refere Lotman (1985). Este autor defende que podemos decifrar num homem de qualquer tempo ou qualquer grupo social os vest\u00edgios de sua cultura ao ler o seu corpo como um texto. Um texto nunca surge como um fen\u00f4meno isolado, mas como parte de um amplo quadro que \u00e9 chamado de semiosfera. Lotman (1985, p.24) define semiosfera, fazendo uma analogia ao conceito de biosfera, como um mecanismo em funcionamento formado de elementos diversos que se inter-relacionam num mecanismo din\u00e2mico complexo, o qual traduz mensagens em novos textos ou sistemas de signos. Ou seja, semiosfera \u00e9 o espa\u00e7o de significa\u00e7\u00e3o, \u00e9 o processo de interpreta\u00e7\u00e3o dos sentidos que permite que a cultura seja significada. Assim, o autor conclui que \u201ccultura \u00e9 mem\u00f3ria, ela relaciona-se necessariamente com a experi\u00eancia hist\u00f3rica passada. (&#8230;) A pr\u00f3pria exist\u00eancia da cultura pressup\u00f5e a constru\u00e7\u00e3o dum sistema de regras para a tradu\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia imediata em texto.\u201d (LOTMAN e USPENSKI, 1981, p.41). &nbsp; Campelo (1996, p.66), a partir de seus estudos sobre semiosfera, afirma que \u201c\u00e9 no corpo que se vai gravando a hist\u00f3ria da cultura a que aquele corpo pertence. Afinal, desde o momento de seu nascimento, o homem \u00e9 moldado para pertencer a um dado grupo, com regras \u00e9ticas e est\u00e9ticas mais ou menos fixas.\u201d Portanto, dependendo do espa\u00e7o, do tempo e do grupo em que um indiv\u00edduo se encontra, ele vai se moldar conforme a sua cultura exigir; a no\u00e7\u00e3o de identidade \u00e9 a no\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a do Outro em um determinado grupo. Relacionando com os casos acima, esse estudo nos instiga a perceber que Buchholz e Davidson, em algum momento de suas vidas, foram tensionados pela est\u00e9tica do piercing. Ou cresceram dentro desta semiosfera ou simplesmente acabaram sendo influenciados pela imagem do Outro. Com o passar do tempo come\u00e7aram a fazer diversas perfura\u00e7\u00f5es pelo corpo para assumir uma identidade pr\u00f3pria, fazer sucesso, aparecer na m\u00eddia e ganhar um t\u00edtulo que acabou tornando-os mundialmente conhecidos. Em um dado momento, usar piercings para este alem\u00e3o e para esta brasileira j\u00e1 n\u00e3o servia mais apenas como diferencia\u00e7\u00e3o pessoal, pois passou a servir como ferramenta de reconhecimento mundial. Quando os vemos, apesar de termos certa familiaridade com esse tipo de adorno, ainda assim nos sentimos impactados pelo excesso, ocorre uma ruptura de sentidos em rela\u00e7\u00e3o as fei\u00e7\u00f5es previs\u00edveis de um ser humano. Para Lotman, esse \u00e9 um momento de explos\u00e3o. &nbsp; REFER\u00caNCIAS BEATRIZ, Helena. A mulher com mais piercings no mundo: conhe\u00e7a Elaine Davidson. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.artenocorpo.com\/1257\/a-mulher-com-mais-piercings-no-mundo-conheca-elaine-davidson CAMPELO, Cleide Riva. Caleidoscorpos: um estudo semi\u00f3tico do corpo e seus c\u00f3digos. S\u00e3o Paulo: Annablume, 1996. LOTMAN, Iuri. La semiosfera I . trad, de Desid\u00e9rio Navarro, Madrid: Ediciones C\u00e1tedra, 1985. LOTMAN, Iuri; USPENSKII, B\u00f3ris. Ensaios de Semi\u00f3tica Sovi\u00e9tica. Lisboa: Livros Horizontes, 1981. STANBOROUGH, Denise. The World&#8217;s Most Pierced Man. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.bizarremag.com\/tattoos-and-bodyart\/body-mods\/11707\/the_worlds_most_pierced_man.html SANTANA, Ana L\u00facia. Piercings. 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