{"id":3248,"date":"2022-11-20T17:50:19","date_gmt":"2022-11-20T20:50:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/?p=3248"},"modified":"2022-11-20T18:15:00","modified_gmt":"2022-11-20T21:15:00","slug":"feminismos-da-diferenca-pensando-a-interseccionalidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/feminismos-da-diferenca-pensando-a-interseccionalidade\/","title":{"rendered":"Feminismos da diferen\u00e7a: pensando a interseccionalidade"},"content":{"rendered":"\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caroline Roveda Pilger<\/strong><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pensar sobre a <strong>representa\u00e7\u00e3o das mulheres <\/strong>nas narrativas midi\u00e1ticas \u00e9 um desafio dada a diversidade que esse grupo representa. A opress\u00e3o de g\u00eanero, apesar de firmar presen\u00e7a em car\u00e1ter coletivo, por\u00e9m, de formas distintas, n\u00e3o pode ser considerada o \u00fanico marcador, ou o principal. Refletir sobre as mulheres implica, portanto, ter a consci\u00eancia de que esse pensamento deve ser atravessado por outras inst\u00e2ncias al\u00e9m da <strong>opress\u00e3o de g\u00eanero<\/strong> e \u00e9 justamente nesta problematiza\u00e7\u00e3o que se insere a teoria e pr\u00e1tica interseccional. Ra\u00e7a, classe (DAVIS, 2016; HOOKS, 1981; LORDE, 2019) e sexualidade principalmente relacionada \u00e0 cr\u00edtica \u00e0 heteronormatividade (BUTLER, 2003), se unem ao g\u00eanero e o interseccionam no momento de refletir sobre as opress\u00f5es sofridas. N\u00e3o \u00e9 uma tarefa simples, essa de atravessar as avenidas identit\u00e1rias que se cruzam e entrecruzam (CRENSHAW, 2002; AKOTIRENE, 2019) e perceber quais interseccionalidades de opress\u00e3o se chocam e se entrela\u00e7am (COLLINS, 2019), gerando as viol\u00eancias sofridas pelas mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na minha <strong>pesquisa de tese<\/strong><a id=\"_ftnref1\" href=\"#_ftn1\">[1]<\/a>, o desafio tem outra varia\u00e7\u00e3o que o complexifica: penso sobre as mulheres gordas, ou seja, a quest\u00e3o est\u00e9tica ou a apar\u00eancia, representada pelo formato, tamanho e peso do corpo, tamb\u00e9m \u00e9 considerada uma interseccionalidade importante. Neste cen\u00e1rio, a <strong>gordofobia <\/strong>insere-se como importante forma de opress\u00e3o se unindo ao<strong> colonialismo, racismo, machismo, sexismo, classismo, etarismo, capacitismo e lgbtqfobia<\/strong> (entre outras formas de domina\u00e7\u00e3o).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje mencionado recorrentemente pelos coletivos feministas, a visibilidade do termo \u201cinterseccionalidade\u201d faz parte do <em>boom<\/em> te\u00f3rico, metodol\u00f3gico e tem\u00e1tico deste novo momento hist\u00f3rico, cultural e social dos feminismos. No entanto, o conceito tem sua raiz pol\u00edtica e fundamento cunhado muito anteriormente, como explica a te\u00f3rica e feminista negra Carla Akotirene: \u201cTal conceito \u00e9 uma sensibilidade anal\u00edtica, pensada por feministas negras cujas experi\u00eancias e reivindica\u00e7\u00f5es intelectuais eram inobservadas tanto pelo feminismo branco quanto pelo movimento antirracista, a rigor, focado nos homens negros.\u201d (AKOTIRENE, 2019, p. 18).<a> <\/a>No Brasil, o pioneirismo da produ\u00e7\u00e3o sobre interseccionalidade de ra\u00e7a, classe e g\u00eanero se encontra nos trabalhos de tr\u00eas intelectuais relevantes do feminismo negro: <strong>L\u00e9lia Gonzalez<\/strong>, <strong>Beatriz Nascimento<\/strong> e <strong>Sueli Carneiro.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Heloisa Buarque de Hollanda (2019) relata que o lan\u00e7amento da antologia feminista organizada por <strong>Cherr\u00ede Moraga<\/strong> e <strong>Gloria Anzald\u00faa<\/strong>, <em>This bridge called my back: writings by radical women of color, <\/em>em 1981,estremeceu as bases do movimento feminista, provocando intensas discuss\u00f5es e divis\u00f5es tanto no coletivo como na academia. Nesta obra, as autoras denunciam a problem\u00e1tica defini\u00e7\u00e3o da categoria mulher como universal e problematizam a ideia de sororidade, tamb\u00e9m universal, decorrida de opress\u00f5es do feminismo branco \u00e0s mulheres negras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este mesmo ano tamb\u00e9m foi marcado pelo lan\u00e7amento de outra obra seminal e importante para as discuss\u00f5es da interseccionalidade. Da ativista e te\u00f3rica <strong>Angela Davis<\/strong>, <em>Mulheres, ra\u00e7a e classe<\/em> (2016) relaciona as categorias de ra\u00e7a e classe em uma an\u00e1lise do per\u00edodo escravocrata (s\u00e9culo XIX) nos Estados Unidos, focando nas rela\u00e7\u00f5es entre negras e negros escravizados e os senhores. A autora \u00e9 fundamental para compreendermos as nuances das opress\u00f5es e a impossibilidade de pens\u00e1-las sem se considerar a quest\u00e3o racial, principalmente em sociedades escravagistas que se fundaram historicamente com base no racismo e na desumaniza\u00e7\u00e3o das mulheres e homens negros, como \u00e9 o caso do Brasil. Al\u00e9m disso, nesta obra, a autora evidencia a necessidade de n\u00e3o hierarquizar as opress\u00f5es e a import\u00e2ncia de se interseccionar as quest\u00f5es g\u00eanero, ra\u00e7a e classe ao se pensar em um novo modelo de sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim como <strong>bell hooks<\/strong><a id=\"_ftnref2\" href=\"#_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>, tamb\u00e9m em 1981, com o livro <em>Ain\u00b4t I a Woman, <\/em>sua primeira obra \u2013, contribui de forma relevante para a constru\u00e7\u00e3o da metodologia interseccional quando cruza e relaciona as experi\u00eancias sexistas vividas pelas mulheres negras durante e ap\u00f3s a escravid\u00e3o e sua consequente desvaloriza\u00e7\u00e3o subjetiva, o machismo advindo dos homens negros e o racismo do pr\u00f3prio movimento feminista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Audre Lorde<\/strong>, um pouco depois, em 1983<a id=\"_ftnref3\" href=\"#_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>, tamb\u00e9m ir\u00e1 realizar importante reflex\u00e3o, quando afirma, relatando sua experi\u00eancia pessoal e interseccional como mulher negra, l\u00e9sbica, feminista, poeta, socialista, m\u00e3e de duas crian\u00e7as e em uma rela\u00e7\u00e3o interracial, que \u201cn\u00e3o existe hierarquia de opress\u00e3o\u201d, j\u00e1 que as lutas de umas se mesclam nas lutas de outras e que todas as opress\u00f5es dizem respeito a todes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A luta \u00e9 sempre contra m\u00faltiplas combina\u00e7\u00f5es e sobreposi\u00e7\u00f5es das opress\u00f5es e viol\u00eancias, que s\u00e3o interseccionais, sem que uma seja mais importante ou mere\u00e7a mais aten\u00e7\u00e3o do que a outra.]<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre as mulheres l\u00e9sbicas eu sou negra; e entre as pessoas negras, eu sou l\u00e9sbica. Qualquer ataque contra as pessoas negras \u00e9 um problema para l\u00e9sbicas e gays, porque eu e milhares de outras mulheres negras somos parte da comunidade l\u00e9sbica. Qualquer ataque contra l\u00e9sbicas e gays \u00e9 um problema para pessoas negras, porque milhares de l\u00e9sbicas e homens gays s\u00e3o negros. N\u00e3o existe hierarquia de opress\u00e3o. <\/p>\n<cite>(LORDE, 2019, p. 236)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1984, Lorde publica <em>Sister Outsider<\/em>, outro marco do \u201cfeminismo da diferen\u00e7a\u201d. A obra \u00e9 uma cole\u00e7\u00e3o de ensaios e palestras que denunciam o complexo e desconfort\u00e1vel lugar simult\u00e2neo que Lorde experimenta, como \u201cirm\u00e3 e estranha\u201d, como de dentro e de fora<a id=\"_ftnref4\" href=\"#_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>. A autora, como mencionamos anteriormente, pensa cada uma das suas identidades e usa sua pr\u00f3pria experi\u00eancia traum\u00e1tica para falar de sexismo, heterossexismo, racismo, homofobia e classismo. Ela diz:<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">[&#8230;] sei que n\u00e3o posso me dar ao luxo de lutar contra uma \u00fanica forma de opress\u00e3o. N\u00e3o tenho como achar que estar livre da intoler\u00e2ncia \u00e9 direito de apenas um grupo espec\u00edfico. E n\u00e3o tenho como escolher em que frente vou lutar contra essas for\u00e7as discriminat\u00f3rias, independente de que lado elas estejam vindo para me derrubar. <\/p>\n<cite>(LORDE, 2019, p. 236)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na sequ\u00eancia, foi publicado texto de <strong>Patricia Hill Collins<\/strong>, importante te\u00f3rica do feminismo negro que tamb\u00e9m aprofunda as quest\u00f5es conceituais relacionadas a g\u00eanero, ra\u00e7a e classe, com o trabalho intitulado <em>Black Feminist Thought <\/em>(1990).Apesar das discuss\u00f5es j\u00e1 estarem de certa forma presentes entre as movimenta\u00e7\u00f5es do feminismo negro, foi a ativista, advogada e acad\u00eamica afro-estadunidense <strong>Kimberl\u00e9 Crenshaw <\/strong>\u2013 uma das principais pensadoras da teoria cr\u00edtica de ra\u00e7a \u2013 que formaliza te\u00f3rica e conceitualmente a no\u00e7\u00e3o de interseccionalidade (AKOTIRENE, 2019).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela introduz o conceito em uma palestra realizada no F\u00f3rum Legal da Universidade de Chicago, em 1987, \u201ce seu argumento partia da exist\u00eancia de infinitas formas de exclus\u00f5es interseccionais, n\u00e3o apenas relativas \u00e0s mulheres negras, mas tamb\u00e9m \u00e0s deficientes, imigrantes, ind\u00edgenas e outras vari\u00e1veis discriminat\u00f3rias.\u201d (HOLLANDA, 2019, n.p).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A op\u00e7\u00e3o por iniciar esse texto enaltecendo, de forma breve, as te\u00f3ricas negras respons\u00e1veis historicamente pela inser\u00e7\u00e3o do conceito de interseccionalidade no feminismo, e dessa forma n\u00e3o tratar diretamente sobre sua teoria, se justifica pelo fato de o conceito estar em constante disputa no campo acad\u00eamico e isso lembra de minha necessidade e responsabilidade, como mulher e como feminista, de o relacionar ao territ\u00f3rio discursivo do feminismo negro, a matriz do pensamento interseccional (AKOTIRENE, 2019).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda, complementa <strong>Carla Akotirene<\/strong> (2019, p. 51), n\u00e3o podemos apenas referir ao conceito como \u201cfeminismo interseccional\u201d sem mencionar o feminismo negro, pois h\u00e1, dessa forma, o \u201csaqueamento da riqueza conceitual e apropria\u00e7\u00e3o [&#8230;] retirando o paradigma afroc\u00eantrico [&#8230;] O feminismo negro substitu\u00eddo por feminismo interseccional equivale explorar a riqueza intelectual de \u00c1frica e chamar isso de modernidade.\u201d (AKOTIRENE, 2019, p. 51). Contudo, \u00e9 preciso lembrar, como nos orienta Stephanie Ribeiro (<a>2019<\/a>, n.p), de que a interseccionalidade n\u00e3o \u00e9 um conceito s\u00f3 das mulheres negras. Ele nasce das pr\u00e1ticas de mulheres negras vinculadas ou n\u00e3o ao feminismo negro, mas deve ser uma urg\u00eancia de todes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O pensamento interseccional surge justamente para combater o que <strong>Crenshaw <\/strong>(2002) ressalta como \u201csuperinclus\u00e3o\u201d de apenas uma das estruturas na an\u00e1lise das sistem\u00e1ticas das opress\u00f5es. Isso pode ocorrer quando focamos nas mulheres e superinclu\u00edmos a estrutura de g\u00eanero como causa da opress\u00e3o sem investigar outras estruturas interseccionais como o racismo, o classismo ou o heterossexismo. Akotirene (2019, p. 73) exemplifica:<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Podemos mencionar adolescentes mortas ap\u00f3s abortos inseguros. Superinclu\u00eddo, g\u00eanero aponta para a criminaliza\u00e7\u00e3o do direito reprodutivo, quando a interseccionalidade exporia classe e gera\u00e7\u00e3o na experi\u00eancia de g\u00eanero, explicando o acesso das mulheres adultas e brancas \u00e0s cl\u00ednicas particulares, em condi\u00e7\u00e3o segura de abortamento.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Todavia, se por um lado ocorre a superinclus\u00e3o, por outro, frisa <strong>Crenshaw <\/strong>(2002, p. 175), pode ocorrer o contr\u00e1rio, com o desenvolvimento da \u201csubinclus\u00e3o\u201d do g\u00eanero em uma an\u00e1lise; ou seja, \u201cquando um subconjunto de mulheres subordinadas enfrenta um problema, em parte por serem mulheres, mas isso n\u00e3o \u00e9 percebido como um problema de g\u00eanero, porque n\u00e3o faz parte da experi\u00eancia das mulheres dos grupos dominantes.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Crenshaw <\/strong>(2002) elabora um Documento para o encontro de especialistas em aspectos da discrimina\u00e7\u00e3o racial relativos ao g\u00eanero, numa tentativa de protocolo a ser seguido e compartilhado por todas as institui\u00e7\u00f5es de direitos. Neste mesmo documento, a autora define interseccionalidade como:<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A interseccionalidade \u00e9 a conceitua\u00e7\u00e3o do problema que busca capturar as consequ\u00eancias estruturais e din\u00e2micas da intera\u00e7\u00e3o entre dois ou mais eixos da subordina\u00e7\u00e3o. Ela trata especificamente da forma pela qual o racismo, o patriarcalismo, as opress\u00f5es de classe e outros sistemas discriminat\u00f3rios criam desigualdades b\u00e1sicas que estruturam as posi\u00e7\u00f5es relativas de mulheres, ra\u00e7as, etnias, classes e outras. Al\u00e9m disso, a interseccionalidade trata da forma como a\u00e7\u00f5es e pol\u00edticas espec\u00edficas geram opress\u00f5es que fluem ao longo de tais eixos, constituindo aspectos din\u00e2micos ou ativos do desempoderamento. <\/p>\n<cite>(CRENSHAW, 2002, p. 177)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pensando a inteseccionalidade como um sistema de opress\u00f5es que est\u00e1 interligado (COLLINS, 2019) e que dialoga entre as coexistentes \u201cavenidas identit\u00e1rias do racismo, cisheteropatriarcado e capitalismo\u201d (AKOTIRENE, 2019, p. 23), fica evidente que surgiu para representar, conforme j\u00e1 salientamos, um grupo de mulheres que se via invisibilizada dentro do movimento feminista, procurando ressaltar \u201cquais s\u00e3o as pessoas realmente acidentadas pela matriz de opress\u00f5es.\u201d (AKOTIRENE, 2019, p. 47).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por exemplo, em se tratando das <strong>mulheres gordas negras<\/strong>, a <strong>interseccionalidade <\/strong>nos evidencia onde, como e quando essas mulheres s\u00e3o discriminadas, violentadas e que elas est\u00e3o, naturalmente, mais vezes posicionadas nas \u201cavenidas identit\u00e1rias\u201d de opress\u00e3o\u2013 neste caso, g\u00eanero, ra\u00e7a e peso, essencialmente \u2013 e mais vulner\u00e1veis \u00e0s colis\u00f5es das estruturas e fluxos da modernidade (AKOTIRENE, 2019) do que as mulheres gordas brancas. Esta seria o que Akotirene (2019, p. 64) chama de \u201cdiscrimina\u00e7\u00e3o interseccional\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esta frente de pensamento, conforme j\u00e1 relatei, fala com, al\u00e9m das mulheres negras, as caribenhas, terceiro-mundistas, l\u00e9sbicas, africanas, latino-americanas e, mais atualmente, tamb\u00e9m com as feministas asi\u00e1ticas, trans e queers, entre outras. Seu letramento discursivo deve ser inserido no conhecimento produzido pelo grupo LGBTQIANP+, por pessoas com defici\u00eancias, ind\u00edgenas, trabalhadoras (AKOTIRENE, 2019) e demais grupos marginalizados historicamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Complementando, <strong>Cecilia Sardenberg<\/strong> (2015) evidencia a complexidade das an\u00e1lises interseccionais na contemporaneidade, ressaltando a inser\u00e7\u00e3o de outros marcadores de opress\u00e3o que operam como produtores das desigualdades dos sujeitos pol\u00edticos, como o capacitismo, etarismo e a lgbtqfobia. Neste contexto tamb\u00e9m inserimos a gordofobia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 importante ressaltar que a interseccionalidade, principalmente sob o vi\u00e9s de <strong>Collins <\/strong>(2019) e <strong>Crenshaw<\/strong> (2002), n\u00e3o visa analisar uma soma de identidades que geram maior ou menor grau de opress\u00e3o. Deve haver a an\u00e1lise profunda e complexa das condi\u00e7\u00f5es estruturais que penetram os corpos, \u201cquais posicionalidades reorientam significados subjetivos desses corpos, por serem experi\u00eancias modeladas por e durante a intera\u00e7\u00e3o das estruturas, repetidas vezes colonialistas, estabilizadas pela matriz de opress\u00e3o, sob a forma de identidade.\u201d (AKOTIRENE, 2019, p. 43).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ou seja, o olhar da feminista interseccional deve estar sempre focado na rela\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as, posto que todas s\u00e3o diferentes umas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s outras. O principal racioc\u00ednio destinado para as desigualdades impostas pelas matrizes de opress\u00e3o, e n\u00e3o simplesmente s\u00f3 para as diferen\u00e7as identit\u00e1rias, \u201ca interseccionalidade se refere ao que faremos politicamente com a matriz de opress\u00e3o respons\u00e1vel por produzir diferen\u00e7as, depois de enxerg\u00e1-las como identidades.\u201d (AKOTIRENE, 2019, p. 46). Lembrando, contudo, que a interseccionalidade n\u00e3o deve ser considerada como uma \u201cnarrativa te\u00f3rica dos exclu\u00eddos\u201d (AKOTIRENE, 2019, p. 50).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A riqueza do <strong>pensamento interseccional<\/strong> est\u00e1 na nega\u00e7\u00e3o das formas dicot\u00f4micas de enfretamento das opress\u00f5es e das viol\u00eancias quando reconhece que n\u00e3o existe o grupo dos somente \u201coprimidos\u201d e dos somente \u201copressores\u201d, quando na verdade h\u00e1 a possibilidade de \u201csermos oprimidas e de corroborarmos com as viol\u00eancias.\u201d (AKOTIRENE, 2019, p. 45). <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No caso do objeto emp\u00edrico de minha tese, sem o olhar interseccional, as an\u00e1lises recairiam no grupo de mulheres gordas, pensando a gordofobia como algo que atinge a todas elas, da mesma forma, pelo vi\u00e9s dos marcadores peso e tamanho. Por\u00e9m, quando complexificamos, percebemos que os atravessamentos est\u00e9ticos, referente aos tamanhos e formatos dos corpos, ser\u00e3o interseccionalizados por ra\u00e7a, classe, g\u00eanero, faixa et\u00e1ria, sexualidade, defici\u00eancia, territ\u00f3rio, e ir\u00e3o gerar experi\u00eancias de opress\u00e3o distintas neste grupo que poderia parecer \u201chomog\u00eaneo\u201d. Em termos da moda e m\u00eddia, por exemplo, uma gorda menor com cintura mais fina, pouca barriga e da cor branca, ir\u00e1 ter mais oportunidades de trabalho e visibilidade do que uma mulher gorda maior e, em mais intensa invisibilidade, uma gorda maior negra. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aqui veremos que o corpo gordo menor desfruta de privil\u00e9gios, assim como ra\u00e7a se estabelece como eixo opressor, quando tratamos do apagamento de mulheres negras gordas \u2013 interseccionadas pelo racismo e gordofobia \u2013, e como eixo de privil\u00e9gio, quando h\u00e1 a prefer\u00eancia e presen\u00e7a majorit\u00e1ria de mulheres gordas brancas na moda e na m\u00eddia. Em vestu\u00e1rio, uma gorda menor com poder aquisitivo encontrar\u00e1 mais facilmente roupas para seu corpo. Neste enfoque h\u00e1, tamb\u00e9m, o marcador classe operando conjuntamente ao marcador peso (sem esquecer tamanho e formato do corpo).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ribeiro (2019, n.p) alerta para um dos desafios principais da interseccionalidade no que tange \u00e0 busca por emancipa\u00e7\u00e3o, relatando que ela s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel quando realmente assumirmos e tratarmos das \u201cdiferen\u00e7as dentro das diferen\u00e7as\u201d. \u00c9 de nossa responsabilidade, como feministas, disputar espa\u00e7os novos para nossas narrativas, criando outras perspectivas, que s\u00e3o extremamente necess\u00e1rias. \u201cReconhe\u00e7o a import\u00e2ncia de as feministas conseguirem maior espa\u00e7o na m\u00eddia, como aconteceu nos \u00faltimos anos, mas ainda temos dificuldade de conseguir englobar as pautas feministas, divergentes ou n\u00e3o, dentro de espa\u00e7os institucionais capazes de impactar a estrutura que est\u00e1 posta.\u201d (RIBEIRO, 2019, n.p).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Conforme a autora, s\u00f3 h\u00e1 chance de alcan\u00e7armos a legitimidade e o real desmonte da estrutura vigente se agirmos coletivamente, por\u00e9m, o coletivo s\u00f3 tem for\u00e7a se em seu interior forem respeitadas as diferen\u00e7as. A <strong>interseccionalidade<\/strong> \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o frut\u00edfera capaz de construir um futuro em que haja lugar para as narrativas m\u00faltiplas nas pautas dos debates. Para Ribeiro (2019), a revolu\u00e7\u00e3o j\u00e1 est\u00e1 acontecendo, protagonizada principalmente por pessoas socialmente invisibilizadas. Portanto, faz parte de nosso legado criar novos paradigmas para a reflex\u00e3o social.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Notas<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a id=\"_ftn1\" href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> PILGER, Caroline Roveda. <strong>As gordas saem do arm\u00e1rio&#8230; e entram no closet<\/strong>: interseccionalidade, lugar de fala e empoderamento na configura\u00e7\u00e3o das mulheres gordas pela revista Donna. 2021. Dispon\u00edvel em: https:\/\/lume.ufrgs.br\/handle\/10183\/232686.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> A op\u00e7\u00e3o de bell hooks pela utiliza\u00e7\u00e3o da letra min\u00fascula em seu nome \u00e9 com o objetivo de desafiar as tradicionais conven\u00e7\u00f5es lingu\u00edsticas e acad\u00eamicas, bem como direcionar o foco para o conte\u00fado da sua escrita e n\u00e3o para a sua pessoa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> Texto originalmente publicado sob o t\u00edtulo \u201c<em>There is no hierarchy of oppression<\/em>\u201d em <em>Interracial Books for Children Bulletin<\/em>, Nova York, v. 14, n. 3, 1983. Tradu\u00e7\u00e3o de P\u00e9 Moreira.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a id=\"_ftn4\" href=\"#_ftnref4\">[4]<\/a> Neste sentido, para complementar a discuss\u00e3o, sugiro a leitura do texto <em>Fora do lugar <\/em>de Edward Said.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">REFER\u00caNCIAS<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">AKOTIRENE, Carla. <strong>Interseccionalidade<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Sueli Carneiro; P\u00f3len, 2019.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BUTLER, Judith. <strong>Problemas de g\u00eanero:<\/strong> feminismo e subvers\u00e3o da identidade. Tradu\u00e7\u00e3o: Renato Aguiar. Rio de janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2003.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">COLLINS, Patricia Hill. Pensamento feminista negro: o poder da autodefini\u00e7\u00e3o. In: HOLLANDA, Heloisa Buarque de (org.). <strong>Pensamento Feminista Brasileiro<\/strong>: Forma\u00e7\u00e3o e contexto. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2019. p. 270 -310.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">CRENSHAW, Kimberl\u00e9. Documento para o encontro de especialistas em aspectos da discrimina\u00e7\u00e3o racial relativos ao g\u00eanero. <strong>Revista Estudos Feministas<\/strong>, v. 10, n. 1, p. 175, 2002.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">DAVIS, Angela. <strong>Mulheres, ra\u00e7a e classe. <\/strong>S\u00e3o Paulo, SP: Boitempo, 2016. 244 p.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">HOLLANDA, Heloisa Buarque de. Falo eu, professora, 79 anos, mulher, branca e cisg\u00eanero. In: HOLLANDA, Heloisa Buarque de(org.).<strong> Explos\u00e3o feminista-<\/strong> arte, cultura, pol\u00edtica e universidade. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2019. Livro eletr\u00f4nico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">HOOKS, bell. <strong>Ain&#8217;t I a Woman?<\/strong> Black Women and Feminism. United States: South end Press, 1981.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">LORDE, Audre. N\u00e3o existe hierarquia de opress\u00e3o. In: HOLLANDA, Heloisa Buarque de (org.). <strong>Pensamento Feminista Brasileiro<\/strong>: Forma\u00e7\u00e3o e contexto. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2019. p. 234-237.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">RIBEIRO, Stephanie. Quem somos: mulheres negras no plural, nossa exist\u00eancia \u00e9 pedag\u00f3gica. In: HOLLANDA, Heloisa Buarque de(org.).<strong> Explos\u00e3o feminista-<\/strong> arte, cultura, pol\u00edtica e universidade. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2019b. Livro eletr\u00f4nico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SARDENBERG, Cecilia M B. Caleidosc\u00f3pios de g\u00eanero: G\u00eanero e interseccionalidades na din\u00e2mica das rela\u00e7\u00f5es sociais. <strong>Media\u00e7\u00f5es<\/strong>, Londrina, v. 20 n. 2, p. 56-96, jul.\/dez. 2015.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Como citar este artigo<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">PILGER, Caroline Roveda. Feminismos da diferen\u00e7a: pensando a interseccionalidade. 2022. Edi\u00e7\u00e3o: Ricardo Machado. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/feminismos-da-diferenca-pensando-a-interseccionalidade. Acesso em: 20. Nov. 2022.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste ensaio, Caroline Pilger retomar e relaciona importantes autoras do pensamento feministas em uma perspectiva interceccional geneal\u00f3gica.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3259,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[295,735,731,738,739,733,729,180,181,179,34,730,734,264,737,732,94,726,736,727,127,728],"class_list":["post-3248","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-audre-lorde","tag-bell-hooks","tag-capacitismo","tag-carla-akotirene","tag-cecilia-sardenberg","tag-cherrie-moraga","tag-classismo","tag-colonialismo","tag-comunicacao","tag-corpo","tag-corporalidades","tag-etarismo","tag-gloria-anzaldua","tag-gordofobia","tag-kimberle-crenshaw","tag-lgbtqfobia","tag-machismo","tag-mulheres","tag-patricia-hill-collins","tag-racismo","tag-representacao","tag-sexismo"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - 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