{"id":3284,"date":"2023-01-10T16:22:50","date_gmt":"2023-01-10T19:22:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/?p=3284"},"modified":"2023-01-10T16:36:02","modified_gmt":"2023-01-10T19:36:02","slug":"argentina-1985-brasil-2023","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/argentina-1985-brasil-2023\/","title":{"rendered":"Argentina, 1985. Brasil, 2023"},"content":{"rendered":"\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>rico machado<\/strong> | Texto publicado originalmente na <strong><a href=\"https:\/\/www.revistafranciscoufob.net\/post\/argentina-1985-brasil-2023\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Revista Francisco da UFOB<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-e6cn9\">\u2013 <em>Te vas a meter preso a Videla?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-99bc2\">\u2013 <em>A todos los responsables.<\/em><\/p>\n<cite><em>Di\u00e1logo do filme, Argentina, 1985<\/em><\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-bvq81\">Esse ensaio come\u00e7a h\u00e1 pouco mais de 12 anos. Era uma manh\u00e3 gelada de outono em Buenos Aires. Havia chegado naquela madrugada e caminh\u00e1vamos r\u00e1pido pelas ruas de um bairro cujo nome me escapa, mas que era mais ou menos pr\u00f3ximo ao Teatro Col\u00f3n. And\u00e1vamos[1] com pressa e atentos. Era preciso chegar \u00e0 sede onde se reuniam as M\u00e3es da Pra\u00e7a de Maio quando n\u00e3o estavam em frente \u00e0 Casa Rosada. Tratava-se de um local discreto. Descobri por meio de algumas liga\u00e7\u00f5es a um produtor de uma r\u00e1dio portenha um contato da associa\u00e7\u00e3o e consegui agendar a entrevista. \u00c9ramos jovens, ansiosos e estar\u00edamos diante de uma <em>de las madres<\/em>. Na hora do encontro, seguramos nossa onda, mantivemos o decoro e nos comportamos como os jornalistas experientes que n\u00e3o \u00e9ramos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-4kbbv\">Batemos \u00e0 porta, uma mulher nos recebeu e logo fomos encaminhados \u00e0 sala onde seria realizada a entrevista. C\u00e9lia Prosperi nos recebeu em um espa\u00e7o pequeno, repleto de quadros, fotografias e uma enorme mesa com um tampo de vidro, sobre a qual gesticulava e onde refletia suas velhas m\u00e3os nenhum pouco d\u00e9beis. \u00c0 \u00e9poca, fazia 33 anos, que C\u00e9lia, juntamente com suas companheiras, ia todas as quintas-feiras \u00e0 Plaza de Mayo reclamar \u00e0s autoridades o desaparecimento de dezenas de milhares de pessoas durante o regime militar argentino, que eram para elas 30 mil filhos. O ritual se repetiu por d\u00e9cadas e mais d\u00e9cadas numa incans\u00e1vel luta dessas mulheres que tinham como arma o pr\u00f3prio corpo e um <em>pa\u00f1uelo <\/em>branco sobre a cabe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-7q980\">Em setembro de 2018, com 93 anos, C\u00e9lia morreu e encerrou sua jornada de luta, dor e esperan\u00e7a de jamais ver instaurada outra ditadura em seu pa\u00eds. O que de fato, at\u00e9 hoje, nunca voltou a ocorrer. Ali\u00e1s, a Argentina foi a primeira na\u00e7\u00e3o do mundo a condenar penalmente seus ditadores, naquele que foi o mais importante julgamento desde o Tribunal de Nuremberg. Esse \u00e9 o pano de tempo em que se descortina o filme do jovem diretor Santiago Mitre, Argentina, 1985.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed aligncenter is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"Argentina, 1985 \u2022 Trailer Legendado\" width=\"960\" height=\"540\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/txjU7CdOV4s?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"viewer-98hrh\"><strong>Argentina, 1985<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-fgttc\">Em suma, a pel\u00edcula \u00e9 baseada no processo que culminou no \u201cJulgamento das Juntas\u201d. Tratou-se de um tribunal civil a que os militares argentinos das tr\u00eas armas \u2013 ex\u00e9rcito, marinha e aeron\u00e1utica \u2013, incluindo o presidente-ditador Jorge Rafael Videla[2], foram julgados pelos crimes cometidos entre 1976 e 1982 (at\u00e9 a Guerra das Malvinas), per\u00edodo que vigeu o regime de exce\u00e7\u00e3o. A acusa\u00e7\u00e3o ficou a cargo do promotor Julio Cesar Strassera e do procurador-adjunto Luis Moreno Ocampo Gabriel, interpretados, respectivamente, por Ricardo Dar\u00edn e Juan Pedro Lanzani.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-3aj43\">Na est\u00f3ria (e na hist\u00f3ria) o processo foi bastante tenso. A trama compreende os poucos meses em que a pe\u00e7a de acusa\u00e7\u00e3o foi montada at\u00e9 as sess\u00f5es em que os terroristas de Estado foram julgados. A quest\u00e3o central a ser respondida pela promotoria contra os r\u00e9us foi ordenada pelo presidente Raul Alfons\u00edn, por meio do <a href=\"https:\/\/www.comisionporlamemoria.org\/archivos\/cpm\/normativa\/lesa\/Decreto_158.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong><u>Decreto n\u00ba 158\/83<\/u><\/strong><\/a>. Contudo, a investiga\u00e7\u00e3o s\u00f3 come\u00e7aria cerca de um ano e meio depois, em fun\u00e7\u00e3o da promulga\u00e7\u00e3o da Lei 23.049\/1984, que restringia a a\u00e7\u00e3o da Justi\u00e7a Militar a crimes essencialmente militares. Com isso, os comandantes das for\u00e7as armadas passaram a ser julgados no \u00e2mbito da Justi\u00e7a Civil pelos crimes cometidos durante a ditadura.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/antropofagias.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/argentina-1985-divulgacao1-1024x575.jpg\" alt=\"Os atores Peter Lanzani e Ricardo Dar\u00edn interpretram, respectivamente, o copromotor Luis Moreno Ocampo e o promotor Julio Strassera no filme &quot;Argentina, 1985&quot;\" class=\"wp-image-1137\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Os atores Peter Lanzani e Ricardo Dar\u00edn  interpretram, respectivamente, o copromotor Luis Moreno Ocampo e o promotor Julio Strassera no filme &#8220;Argentina, 1985&#8221;. Imagem: Divulga\u00e7\u00e3o\/Amazon Prime V\u00eddeo<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-f4jq9\">Strassera, um discreto, experiente e tenaz procurador, tinha dois desafios dif\u00edceis e convergentes: 1) encontrar colegas dispostos a trabalhar nesse processo; 2) pouqu\u00edssimo tempo para apresentar as provas de que o mortic\u00ednio de 30 mil pessoas foi sistem\u00e1tico e de conhecimento das altas patentes militares. Seu auxiliar, Moreno Ocampo, era, ao contr\u00e1rio, um jovem procurador oriundo de uma aristocrata fam\u00edlia portenha, cujo tio era, tamb\u00e9m, um militar de alta patente. \u00c9 justamente o jovem e inexperiente quem oferece uma alternativa ao dilema da equipe que seria montada para investigar o caso, sugerindo incluir outros jovens servidores do judici\u00e1rio e estudantes no lugar dos velhos e covardes carreiristas, que n\u00e3o desejavam nem se esfor\u00e7ariam em julgar os militares.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-crskh\">O trabalho, tal como retratado no filme, foi impressionante. Entre os dias 22 de abril e 14 de agosto de 1985 foram tomados depoimentos de nada menos que 833 pessoas. Todos eles gravados perante os ju\u00edzes. O processo havia chegado \u00e0s m\u00e3os do Minist\u00e9rio P\u00fablico Fiscal, \u00f3rg\u00e3o respons\u00e1vel por recolher as provas, no dia 20 de setembro de 1984, aproximadamente seis meses antes das oitivas. A dois dias de completar um ano do in\u00edcio da investiga\u00e7\u00e3o, em 18 de setembro de 1985, Strassera come\u00e7ara a sustenta\u00e7\u00e3o oral diante do colegiado de ju\u00edzes, dos acusados e das centenas de pessoas que ocupavam os sal\u00f5es da C\u00e2mara Nacional de Apela\u00e7\u00f5es em Mat\u00e9ria Penal e Correcional Federal, em Buenos Aires.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O resultado do julgamento, ampla e historicamente conhecido, condenou Jorge Rafael Videla e Emilio Eduardo Massera \u00e0 pris\u00e3o perp\u00e9tua. Roberto Eduardo Viola foi condenado a 17 anos de pris\u00e3o, Armando Lambruschini a 8 anos de pris\u00e3o e Orlando Ram\u00f3n Agosti a 4 anos e 6 meses de pris\u00e3o, todos destitu\u00eddos dos cargos que ocupavam.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-bfkfo\">Omar Graffigna, Leopoldo Galtieri, Lami Dozo e Jorge Basilio Anaya foram absolvidos. A decis\u00e3o e a aplica\u00e7\u00e3o das penas teriam idas e vindas, inclusive com o indulto do ex-presidente Carlos Menem a Videla, em 1991. Em 2010, por fim, a Suprema Corte de Justi\u00e7a da Na\u00e7\u00e3o Argentina, apoiada em Conven\u00e7\u00f5es Internacionais e jurisprud\u00eancia do pr\u00f3prio pa\u00eds, considerou inconstitucional o decreto de indulto expedido por Menem.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"viewer-5kja1\"><strong>Brasil, 2023<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-86vb2\">\u00c9 poss\u00edvel, mais do que isso, desej\u00e1vel que a cinematografia brasileira conte a hist\u00f3ria que o Brasil testemunhou durante a pandemia global da covid-19, cujo pico de mortes registrou milhares de mortes por dezenas de semanas a fio. E qual a rela\u00e7\u00e3o disso com o contexto da ditadura argentina? Em que pese o Brasil n\u00e3o ter sofrido (por um fio) uma ruptura constitucional \u2013 ou seja, um golpe \u2013, os \u00faltimos anos foram marcados por profundos retrocessos em pol\u00edticas p\u00fablicas, sobretudo \u00e0s popula\u00e7\u00f5es marginalizadas e minorias pol\u00edticas. Em 2020, ano em que a pandemia da covid-19 atingiu, por semanas a fio, picos di\u00e1rios de milhares de mortes, inclusive com uma crise sem precedentes de falta de oxig\u00eanio nos hospitais de Manaus, o governo brasileiro tinha nada menos que 6.157 militares ocupando cargos civis no Estado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-af491\">Parte importante desse universo de fardados estava no Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, sob a batuta de Eduardo Pazuello. Os dados s\u00e3o de um Levantamento do <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/politica\/noticia\/2020\/07\/17\/governo-bolsonaro-tem-6157-militares-em-cargos-civis-diz-tcu.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong><u>Tribunal de Contas da Uni\u00e3o (TCU)<\/u><\/strong><\/a>. Portanto, n\u00e3o tivemos um regime militar institu\u00eddo, mas um regime civil repleto de militares em pastas estrat\u00e9gicas e, por coincid\u00eancia ou responsabilidade, culminou com o maior mortic\u00ednio de brasileiros em toda sua hist\u00f3ria. Do come\u00e7o da crise sanit\u00e1ria mundial at\u00e9 agora, foram 689.665 v\u00edtimas da covid-19 oficialmente reconhecidas pelo Estado, segundo dados do <a href=\"https:\/\/covid.saude.gov.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong><u>Minist\u00e9rio da Sa\u00fade<\/u><\/strong><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/antropofagias.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Manaus-27_04_20-Cemiterio_Publico_Nossa_Senhora_Aparecida_Foto-Alex_Pazuello-Semcom-1024x684.jpg\" alt=\"Cemit\u00e9rio P\u00fablico Nossa Senhora Aparecida, com coveiros trabalhando em valas comuns e dezenas de milhares de cruzes sobre covas j\u00e1 tapadas ao fundo\" class=\"wp-image-1138\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Cemit\u00e9rio P\u00fablico Nossa Senhora Aparecida, com coveiros trabalhando em valas comuns e dezenas de milhares de cruzes sobre covas j\u00e1 tapadas ao fundo. Foto: Alex Pazuello\/Semcom Prefeitura de Manaus &#8211; Flickr CC<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-17ivh\">A popula\u00e7\u00e3o brasileira soma algo da ordem de 2,7% da popula\u00e7\u00e3o mundial, mas a certa altura da pandemia <a href=\"https:\/\/www12.senado.leg.br\/noticias\/materias\/2021\/06\/24\/pesquisas-apontam-que-milhares-de-mortes-por-covid-poderiam-ter-sido-evitadas-no-brasil\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong><u>o Brasil registrou 13% dos mortos globais<\/u><\/strong><\/a>. As v\u00edtimas do coronav\u00edrus s\u00e3o encontradas em todos os quadrantes do globo, mas a quest\u00e3o sens\u00edvel, ainda pendente de explica\u00e7\u00e3o, s\u00e3o as propor\u00e7\u00f5es. Aqui, os n\u00fameros foram quatro vezes maiores que a m\u00e9dia populacional. Isso ponderando apenas dados oficiais, sem considerar a subnotifica\u00e7\u00e3o ainda em investiga\u00e7\u00e3o por parte de pesquisadores da \u00e1rea.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tal como no caso argentino de 37 anos atr\u00e1s, a transi\u00e7\u00e3o de governo e quebra dos sigilos centen\u00e1rios abrir\u00e3o a oportunidade para discutirmos os erros e acertos da gest\u00e3o na cruzada necropol\u00edtica brasileira. A abertura desse flanco de possibilidades de passarmos a limpo nosso passado recente tem como marco as elei\u00e7\u00f5es presidenciais e como protagonista o nordeste do Brasil. Pelo menos dois ter\u00e7os dos moradores da regi\u00e3o votaram a favor de uma mudan\u00e7a no Executivo federal, puxado, sobretudo, pelo <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/2022\/09\/datafolha-lula-mantem-vantagem-sobre-bolsonaro-entre-mulheres-e-homens.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong><u>voto de mulheres<\/u><\/strong><\/a> e <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/2022\/09\/datafolha-lula-mantem-lideranca-entre-mais-pobres-e-bolsonaro-nas-faixas-de-renda-acima.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong><u>pessoas empobrecidas<\/u><\/strong><\/a>. A Bahia, quarto maior col\u00e9gio eleitoral do pa\u00eds, teve papel decisivo neste contexto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-4mrgm\">Calhou, por circunst\u00e2ncias conjunturais e pessoais, de eu passar a viver numa pequena cidade do oeste baiano desde setembro de 2022. Nascido no extremo sul do pa\u00eds, acostumado mais ao pampa que ao cerrado e o semi\u00e1rido, minhas mem\u00f3rias e afetos foram, at\u00e9 ent\u00e3o, constru\u00eddos predominantemente no espa\u00e7o subtropical, que se estende do Rio Grande do Sul, atravessa o Uruguai e ultrapassa Buenos Aires em dire\u00e7\u00e3o ao interior da Argentina. Da\u00ed meu interesse pelo cinema argentino.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-cb9sk\">Ocorre, no entanto, que sempre tive um interesse muito genu\u00edno e profundo pelo nordeste e conhecer o S\u00e3o Francisco, o Rio, foi como encontrar pela primeira vez um velho amigo que a literatura me apresentou. Viver aqui, no nordeste, \u00e9 um certo privil\u00e9gio, principalmente nesta esquina do tempo, cuja possibilidade de futuro para o planeta, em virtude do <a href=\"https:\/\/antropofagias.com.br\/2021\/09\/04\/pequena-biblioteca-do-fim-do-mundo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong><u>colapso clim\u00e1tico<\/u><\/strong><\/a>, passa pela periferia do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-1qh6j\">Nesse \u00ednterim, bastante pessoal e complexo, cruzam-se Argentina e Brasil, ainda que separados por d\u00e9cadas. O que est\u00e1 em jogo, afinal de contas, \u00e9 a mem\u00f3ria de nossos mortos. Um pa\u00eds, h\u00e1 mais de tr\u00eas d\u00e9cadas decidiu fazer mem\u00f3ria e com isso justi\u00e7a aos assassinados pelo regime ditatorial. O outro, h\u00e1 43 anos, decidiu a anistiar os terroristas de Estado e jogar para debaixo do tapete o sangue de nossas v\u00edtimas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-4faco\">O n\u00famero de perseguidos e assassinados \u00e9 dezenas de vezes maior que o relat\u00f3rio final da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade. No documento constam apenas 434 pessoas mortas ou desaparecidas. Isso, contudo, n\u00e3o se sustenta nem \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o de um estagi\u00e1rio de jornalismo. Somente no Cemit\u00e9rio Dom Bosco, no bairro de Perus, em S\u00e3o Paulo, em uma vala clandestina havia 1.049 ossadas sem identifica\u00e7\u00e3o, not\u00edcia amplamente divulgada pela imprensa. O livro de Rubens Valente, Os fuzis e as flechas (2017), apresenta documentos oficiais resultantes de sua pesquisa para a reda\u00e7\u00e3o da obra e de uma investiga\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade (CNV), cuja estimativa contabiliza nada menos que 8.350 \u00edndios mortos por neglig\u00eancia ou a\u00e7\u00e3o direta do Estado entre 1946 e 1988.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O destino nos deu uma segunda chance para fazermos, de fato e de direito, uma Justi\u00e7a de Transi\u00e7\u00e3o, ainda que com d\u00e9cadas de atraso. \u00c9 preciso, para tanto, ocupar ruas e espa\u00e7os digitais \u2013 redes sociais, sobretudo \u2013 na defesa intransigente de uma justi\u00e7a que seja capaz de honrar a mem\u00f3ria de nossos mortos.<\/p>\n<cite>rico machado<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-f9t7d\">Os quais, dois ter\u00e7os poderiam ser evitados n\u00e3o fosse o atraso de meses na compra das vacinas e cujas pol\u00edticas de prote\u00e7\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, tais como <em>contact tracing<\/em> e isolamento social, n\u00e3o foram tomadas por parte do governo federal, mesmo com os alertas dos especialistas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-5oavi\">O desafio \u00e9 devolver o Brazil ao Brasil com sua pluralidade e diversidade que sempre lhe foi caracter\u00edstica e que sempre se tentou apagar. O del\u00edrio de uma identidade brasileira narc\u00edsica, elitista e de vi\u00e9s cristofascista[3] \u2013 expressa na vers\u00e3o brasileira do aforismo do <a href=\"https:\/\/jornalistaslivres.org\/nazismo-escancara-sua-ameaca-slogan-de-bolsonaro-e-traducao-de-lema-de-hitler\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong><u>Terceiro Reich<\/u><\/strong><\/a> \u201cBrasil acima de tudo. Deus acima de todos\u201d \u2013, fundamenta-se sobre o paradoxo de negar as lutas identit\u00e1rias para afirmar a pr\u00f3pria como a \u00fanica poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-2ckb9\">Basta caminhar pelas ruas das periferias das grandes cidades ou pelo interior do pa\u00eds, para que se perceba esboroar o castelo de areia de uma identidade singular que nunca existiu. O preconceito e o discurso xen\u00f3fobo a que parte das popula\u00e7\u00f5es nordestinas foram (e s\u00e3o) submetidas ap\u00f3s o resultado das elei\u00e7\u00f5es demonstram a incontorn\u00e1vel fratura de pensar a identidade brasileira como uma unidade. Nisso o antrop\u00f3logo brasileiro Eduardo Viveiros de Castro foi muito feliz ao afirmar que o Brasil n\u00e3o existe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-bahak\">O Brasil n\u00e3o existe: o que existe \u00e9 uma multiplicidade de povos, ind\u00edgenas e n\u00e3o-ind\u00edgenas, baixo o tac\u00e3o de uma elite corrupta, brutal e gananciosa, povos unificados \u00e0 for\u00e7a por um sistema medi\u00e1tico e policial que finge constituir-se em um Estado-Na\u00e7\u00e3o territorial. Um lugar que \u00e9 o para\u00edso dos ricos e o inferno dos pobres. Mas entre o para\u00edso e o inferno, existe a terra. E a terra \u00e9 dos \u00edndios. Isto posto, no Brasil todo mundo \u00e9 \u00edndio, exceto quem n\u00e3o \u00e9. (VIVEIROS DE CATRO, 2020, s\/p)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-2t2t7\">A grande tarefa que temos pela frente, para o Brasil de 2023, \u00e9 brigar para que possamos, finalmente e com enorme atraso, construir uma justi\u00e7a de transi\u00e7\u00e3o que leve em conta a mem\u00f3ria dos quase 700 mil mortos pela covid-19. \u00c9 preciso que os respons\u00e1veis pelas mortes sejam julgados, tenham direito \u00e0 defesa e sejam punidos pelos crimes que cometeram.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-3bkcp\">Mais de 60 milh\u00f5es de brasileiros escolheram a civiliza\u00e7\u00e3o ao inv\u00e9s da barb\u00e1rie. Agora \u00e9 hora do Estado honrar a escolha democr\u00e1tica e cumprir seu papel em favor da democracia e do estado de Direito. Isso passa por fazer justi\u00e7a \u00e0s v\u00edtimas do pr\u00f3prio Estado. Que fa\u00e7amos a nossa parte e honremos o mais fundamental de todos os direitos, o direito \u00e0 vida. \u00c9 a nossa chance. Na encruzilhada da hist\u00f3ria, chegamos ao \u201cBrasil, 2023\u201d.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>NOTAS<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-4ric4\"><strong>[1]<\/strong> Dedico este texto aos amigos que h\u00e1 muitos anos n\u00e3o vejo, Ana, T\u00e1rlis e Bruna, companheiros desta viagem \u00e0 mem\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-1eq9r\"><strong>[2]<\/strong> Os militares julgados, al\u00e9m de Videla, foram: Orlando Ram\u00f3n Agosti, Emilio Eduardo Massera, Roberto Eduardo Viola, Omar Graffigna, Armando Lambruschini, Leopoldo Galtieri, Lami Dozo e Jorge Basilio Anaya. O processo ficou conhecido com \u201cCausa 13\/84\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-rvgd\"><strong>[3]<\/strong> A express\u00e3o tem origem nos trabalhos da te\u00f3loga alem\u00e3 Dorothee S\u00f6lle, que descrevia o fen\u00f4meno da rela\u00e7\u00f5es entre o partido nazista e as igrejas crist\u00e3s germ\u00e2nicas, foi retomada pelo te\u00f3logo brasileiro Fabio Py em perspectiva com a conjuntura nacional. Os desdobramentos dessa ideia pode ser lidos na entrevista concedida ao <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/611116-bolsonaro-e-o-cristofascismo-brasileiro-relacao-cristianismo-e-politica-entrevista-com-fabio-py\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong><u>Instituto Humanitas Unisinos<\/u><\/strong><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\" id=\"viewer-1rte1\"><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-aj434\">ARGENTINA, 1985 (Original). Dire\u00e7\u00e3o de Santiago Mitre. Roteiro: Santiago Mitre, Mariano Llin\u00e1s, Mart\u00edn Mauregui. Buenos Aires: Infinity Hill, Amazon Studios, Kanya Films, La Uni\u00f3n de Los Rios, 2022. (140 min.), son., color. Legendado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-384pp\">ARGENTINA. COMISSI\u00d3N PELA MEM\u00d3RIA. <a href=\"https:\/\/www.comisionporlamemoria.org\/archivos\/cpm\/normativa\/lesa\/Decreto_158.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><u><strong>Texto del Decreto 158\/83<\/strong><\/u><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-1m9cn\">BARBON, J\u00falia. <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/2022\/09\/datafolha-lula-mantem-lideranca-entre-mais-pobres-e-bolsonaro-nas-faixas-de-renda-acima.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><u><strong>Datafolha: Lula mant\u00e9m lideran\u00e7a entre mais pobres, e Bolsonaro, nas faixas de renda acima<\/strong><\/u><\/a>. Folha de S\u00e3o Paulo. Rio de Janeiro. 30 set. 2022.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-6q3od\">BARBON, J\u00falia. <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/2022\/09\/datafolha-lula-mantem-vantagem-sobre-bolsonaro-entre-mulheres-e-homens.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><u><strong>Lula mant\u00e9m vantagem sobre Bolsonaro entre mulheres e homens<\/strong><\/u><\/a>. Folha de S\u00e3o Paulo. Rio de Janeiro. 30 set. 2022.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-dee0k\">LIS, La\u00eds. <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/politica\/noticia\/2020\/07\/17\/governo-bolsonaro-tem-6157-militares-em-cargos-civis-diz-tcu.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><u><strong>Governo Bolsonaro mais que dobra n\u00famero de militares em cargos civis, aponta TCU<\/strong><\/u><\/a>: levantamento identificou 6.157 militares da ativa e da reserva em cargos civis no governo. Minist\u00e9rio da Defesa considera somente os da ativa e diz que s\u00e3o 3.029. G1. Bras\u00edlia. 17 jul. 2020.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-5ks5i\">MACHADO, Rico. <a href=\"https:\/\/antropofagias.com.br\/2021\/09\/04\/pequena-biblioteca-do-fim-do-mundo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><u><strong>Pequena biblioteca do fim do mundo. Antropofagias.<\/strong><\/u><\/a> Porto Alegre. 4 set. 2021.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-65fvp\">SA\u00daDE, Minist\u00e9rio da. <a href=\"https:\/\/covid.saude.gov.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong><u>Covid<\/u><\/strong><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-fkdhj\">SENADO, Ag\u00eancia. <a href=\"https:\/\/www12.senado.leg.br\/noticias\/materias\/2021\/06\/24\/pesquisas-apontam-que-milhares-de-mortes-por-covid-poderiam-ter-sido-evitadas-no-brasil\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong><u>Pesquisas apontam que milhares de mortes por covid poderiam ter sido evitadas no Brasil<\/u><\/strong><\/a>. Portal &#8211; Senado Not\u00edcias. Bras\u00edlia, p. 0-0. 24 jun. 2021.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-75c5l\">UENF, Assessoria de Comunica\u00e7\u00e3o (Ascom) da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro. <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/611116-bolsonaro-e-o-cristofascismo-brasileiro-relacao-cristianismo-e-politica-entrevista-com-fabio-py\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong><u>Bolsonaro e o cristofascismo brasileiro: rela\u00e7\u00e3o cristianismo e pol\u00edtica<\/u><\/strong><\/a>. Entrevista com F\u00e1bio Py. Ihu. S\u00e3o Leopoldo. 16 jul. 2021.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-dt400\">VALENTE, Rubens. Os fuzis e as flechas: a hist\u00f3ria de sangue e resist\u00eancia ind\u00edgena na diratura. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2017.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-56jk5\">VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. <a href=\"https:\/\/www.academia.edu\/84021322\/Identidade_brasileira\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong><u>Identidade brasileira<\/u><\/strong><\/a>. Academia.Edu. Rio de Janeiro. 1 jan. 2022.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-2urit\">WANDELLI, Raquel. <a href=\"https:\/\/jornalistaslivres.org\/nazismo-escancara-sua-ameaca-slogan-de-bolsonaro-e-traducao-de-lema-de-hitler\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong><u>Nazismo escancara sua amea\u00e7a: Slogan de Bolsonaro \u00e9 tradu\u00e7\u00e3o literal do lema de Hitler<\/u><\/strong><\/a>. Jornalistas Livres. Brasil, p. 0-0. 15 out. 2018.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ensaio discute filme sobre o hist\u00f3rico julgamento dos militares argentinos e o Brasil de 2023, depois de quase 700 mil mortes pela covid-19.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3289,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[762,763,764,765,16,17,185,28,761,34,766,767,768,769,770,485,771,772,773,774],"class_list":["post-3284","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo","tag-america-latina","tag-anistia","tag-anistia-nao","tag-argentina","tag-audiovisual","tag-audiovisualidades","tag-brasil","tag-cinema","tag-comissao-nacional-da-verdade","tag-corporalidades","tag-covid","tag-covid-19","tag-ditadura-militar","tag-ensaio","tag-maes-da-praca-de-maio","tag-pandemia","tag-repressao-militar","tag-ricardo-darin","tag-tortura","tag-videla"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Argentina, 1985. 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