{"id":3442,"date":"2023-03-16T19:32:27","date_gmt":"2023-03-16T22:32:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/?p=3442"},"modified":"2023-03-16T19:42:41","modified_gmt":"2023-03-16T22:42:41","slug":"o-protagonismo-feminino-em-aruanas-parte-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/o-protagonismo-feminino-em-aruanas-parte-i\/","title":{"rendered":"O protagonismo feminino em \u201cAruanas\u201d \u2013 Parte I"},"content":{"rendered":"\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Adriana Pierre Coca<\/strong><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aruana \u00e9 um termo ind\u00edgena que na l\u00edngua Tupi \u00e9 o nome atribu\u00eddo a um peixe de \u00e1gua doce, al\u00e9m de batizar o Deus protetor do povo caraj\u00e1, que o escreve <strong>&#8211; Arun\u00e3 -, divindade que \u00e9 uma esp\u00e9cie de sentinela da natureza, defini\u00e7\u00e3o que se sintoniza com os pap\u00e9is que assumem as protagonistas da s\u00e9rie ficcional \u201cAruanas\u201d<\/strong><a id=\"_ftnref1\" href=\"#_ftn1\">[1]<\/a>. Aruana no singular \u00e9 o nome da <strong>ONG<\/strong> (Organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental) liderada por tr\u00eas ativistas que na primeira temporada se deparam com crimes cometidos por uma mineradora na fict\u00edcia cidade de Cari, que fica em plena floresta amaz\u00f4nica. A segunda temporada tem foco nos problemas causados pela polui\u00e7\u00e3o industrial excessiva em uma cidade fict\u00edcia do interior paulista, Arap\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A aten\u00e7\u00e3o desse post (que \u00e9 parte de um artigo mais amplo publicado na Revista Alaic em 2022) \u00e9 na primeira temporada, que <strong>coloca em discuss\u00e3o a devasta\u00e7\u00e3o e a contamina\u00e7\u00e3o dos rios na Amaz\u00f4nia, regi\u00e3o considerada o pulm\u00e3o do planeta e que vem apresentando \u00edndices crescentes de a\u00e7\u00f5es prejudiciais ao meio ambiente<\/strong>, como o descontrole das queimadas\/inc\u00eandios, assunto que ocupou os telejornais de todo o mundo em agosto de 2019 <a id=\"_ftnref2\" href=\"#_ftn2\">[2]<\/a>, mesmo per\u00edodo do lan\u00e7amento da s\u00e9rie, que foi escrita por <strong>Estela Renner<\/strong> e <strong>Marcos Risti <\/strong>e teve a assessoria e o apoio de entidades internacionais, como o <strong>Greenpeace<\/strong> (parceria t\u00e9cnica) e a <strong>Anistia Internacional<\/strong>, entre outras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A produ\u00e7\u00e3o \u00e9 uma obra original da <strong>Globoplay <\/strong>(coprodu\u00e7\u00e3o com Maria Farinha Filmes), a plataforma de <em>streaming<\/em> dos Est\u00fadios Globo, principal produtor e exibidor de teledramaturgia no Brasil. Ambas as temporadas t\u00eam 10 epis\u00f3dios, a primeira foi disponibilizada na Globoplay integralmente em julho de 2019 e a segunda em novembro de 2021. <strong>\u201cAruanas\u201d em sua primeira temporada chegou h\u00e1 mais de 150 pa\u00edses simultaneamente<\/strong><a id=\"_ftnref3\" href=\"#_ftn3\">[3]<\/a> e teve estreias especiais em Portugal, na Inglaterra e nos Estados Unidos, com a presen\u00e7a de integrantes do elenco e representantes de organiza\u00e7\u00f5es de defesa do meio-ambiente. Nossa experi\u00eancia pessoal revela um sintoma desse contexto de distribui\u00e7\u00e3o audiovisual, pois viv\u00edamos em Portugal na \u00e9poca da estreia da s\u00e9rie, que foi disponibilizada, gratuitamente, em uma plataforma exclusiva equipada com o <em>Vimeo<\/em>, s\u00f3 foi preciso ter a senha de acesso concedida pela Anistia Internacional portuguesa aos seus associados. Em 2019, a Globoplay ainda n\u00e3o funcionava em Portugal, o servi\u00e7o de <em>streaming<\/em> s\u00f3 chegou ao pa\u00eds em outubro de 2021. Na ocasi\u00e3o, assistimos \u00e0 primeira temporada de \u201cAruanas\u201d por conta dessa parceria entre a entidade e os produtores da obra, que, posteriormente, foi exibida na TV aberta no Brasil (abril de 2020) e, em seguida, no Canal Globo, em Portugal, que \u00e9 um canal exclusivo de teledramaturgia acess\u00edvel em todas as operadoras de TVs por assinatura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A vinheta de abertura (tempo de dura\u00e7\u00e3o 1 minuto e 05 segundos) est\u00e1 imbu\u00edda de signos que remetem a a\u00e7\u00f5es criminosas. \u00c9 uma sequ\u00eancia de imagens que percorre as curvas sinuosas dos rios da Amaz\u00f4nia brasileira, a floresta em chamas, o gado que l\u00e1 foi introduzido, pontuados por um tom castanho-avermelhado que se sobressai ao fundo tingido por diferentes nuances de cinza, que nos parece simbolizar um lugar que est\u00e1 morrendo ou j\u00e1 sem vida. Podemos associar essas cenas em destaque ao sangue que corre em nossas veias, s\u00f3 que nesse caso \u00e9 um sangue contaminado, assim como as \u00e1guas, os animais e os povos da floresta, esses s\u00e3o os sentidos expostos pelas imagens de abertura, que tamb\u00e9m revelam o close de um olho, que parece indicar que tudo est\u00e1 sendo observado. Para o espectador mais atento, essa narrativa inicial pode operar nos n\u00edveis informativo e simb\u00f3lico dos sentidos conforme define Barthes (2009).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A vinheta denuncia o desenrolar da hist\u00f3ria que t\u00eam como protagonistas quatro mulheres<\/strong>, interpretadas por tr\u00eas atrizes do elenco de primeira linha da <strong>TV Globo<\/strong>, a advogada Ver\u00f4nica (<strong>Ta\u00eds Ara\u00fajo<\/strong>), a jornalista Natalie (<strong>D\u00e9bora Falabella<\/strong>) e a bi\u00f3loga Luiza (<strong>Leandra Leal<\/strong>). A quarta protagonista \u00e9 uma atriz jovem, negra e pouco conhecida (at\u00e9 ent\u00e3o) a estagi\u00e1ria Clara (<strong>Thain\u00e1 Duarte<\/strong>). <strong>A maior parte do elenco \u00e9 de atores desconhecidos do grande p\u00fablico e com biotipos bem carater\u00edsticos da regi\u00e3o em que se passa a hist\u00f3ria, quase metade do elenco (47%) \u00e9 feminino e atores ind\u00edgenas foram contratados para a produ\u00e7\u00e3o<\/strong>. Essa condi\u00e7\u00e3o importa e \u00e9 uma ruptura de sentidos, uma descontinuidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s s\u00e9ries da TV aberta, inclusive, da TV Globo, que privilegiam um elenco estrelar em produtos com esse formato de narrativa seriada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As personagens se controem em uma ambiguidade de sentidos que oscilam entre fragilidade e for\u00e7a e determina\u00e7\u00e3o para lutarem pelo que acreditam\/querem. Ver\u00f4nica \u00e9 uma profissional admirada por todos, s\u00f3 que traiu sua amiga Natalie ao se envolver com o marido dela por um ano. Natalie \u00e9 uma jornalista destemida, obcecada por justi\u00e7a, que sofre com a perda de uma filha rec\u00e9m-nascida, uma personagem necess\u00e1ria em um momento em que a imprensa, especialmente no Brasil, sofre ataques constantes. A fragilidade dela \u00e9 emocional. Luiza \u00e9 destemperada, rouba, invade propriedades e se culpa por ter pouco tempo para se dedicar ao filho pequeno. \u00c9 dela a frase: \u201cO ideal \u00e9 sempre maior que o medo\u201d. Todas s\u00e3o movidas por um ideal que \u00e9 a defesa das quest\u00f5es ambientais. Clara se mostra corajosa e sens\u00edvel, com essa personagem outro tema urgente ganha contorno na hist\u00f3ria, a viol\u00eancia contra a mulher. O contraponto das protagonistas \u00e9 Olga (Camila Pitanga), advogada, lobista, que tem como ponto fraco o amor que sente por uma ativista que defende as mesmas causas que suas inimigas da <strong>ONG Aruana<\/strong>, informa\u00e7\u00e3o que fica expl\u00edcita na segunda temporada. Na primeira, Olga \u00e9 contratada pelo antagonista Miguel Kiriacos (Luiz Carlos Vasconcelos), dono da KM (Kiriacos Mineradora), empres\u00e1rio que n\u00e3o mede esfor\u00e7os para instalar seus neg\u00f3cios em uma reserva ambiental, a Reserva Eldorado. A personagem tamb\u00e9m tem aspectos destoantes, ele \u00e9 av\u00f4 de uma crian\u00e7a com paralisia cerebral e ama e cuida da neta com muito carinho. Miguel contemporiza e justifica seus crimes afirmando que tamb\u00e9m j\u00e1 foi garimpeiro, passou fome e sentiu dor. As oscila\u00e7\u00f5es de personalidade e as emo\u00e7\u00f5es vividas pelas personagens s\u00e3o componentes das narrativas melodram\u00e1ticas, s\u00f3 que em \u201cAruanas\u201d, embora haja uma polaridade entre o bem e o mal, situa\u00e7\u00f5es de trai\u00e7\u00f5es e perdas, esses elementos n\u00e3o se sobressaem na trama, n\u00e3o s\u00e3o acentuados como em uma narrativa novelesca, aspecto que a atualiza como uma obra seriada produzida pelos Est\u00fadios Globo, porque segue pela via da imprevisibilidade dos sentidos, rompendo com uma regularidade da fic\u00e7\u00e3o seriada can\u00f4nica da TV aberta que \u00e9 privilegiar hist\u00f3rias melodram\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><em>Continua&#8230;<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Notas<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Informa\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis em: <a href=\"https:\/\/perguntaspopulares.com\/library\/artigo\/read\/170111-que-significa-aruanas\">https:\/\/perguntaspopulares.com\/library\/artigo\/read\/170111-que-significa-aruanas<\/a>. Acesso em 10 mai. 2022, 11h39 e, tamb\u00e9m, em <a href=\"https:\/\/www.dicio.com.br\/aruana\/\">https:\/\/www.dicio.com.br\/aruana\/<\/a>. Acesso em 07 set. 2022, 14h21.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> Informa\u00e7\u00f5es mais detalhadas podem ser consultadas em: <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/jornal-nacional\/noticia\/2020\/01\/08\/focos-de-queimadas-na-amazonia-\/aumentam-em-2019-informa-o-inpe.ghtml\">https:\/\/g1.globo.com\/jornal-nacional\/noticia\/2020\/01\/08\/focos-de-queimadas-na-amazonia-\/aumentam-em-2019-informa-o-inpe.ghtml<\/a> Acesso em 10 mai. 2022, 11h43.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> Mais informa\u00e7\u00f5es, consulte: <a href=\"https:\/\/gshow.globo.com\/series\/aruanas\/noticia\/aruanas-tera-lancamento-global-em-mais-de-150-paises-com-alerta-sobre-a-amazonia.ghtml\">https:\/\/gshow.globo.com\/series\/aruanas\/noticia\/aruanas-tera-lancamento-global-em-mais-de-150-paises-com-alerta-sobre-a-amazonia.ghtml<\/a> Acesso em 14 de mai. 2022, 17h01.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Refer\u00eancias<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">COCA, Adriana P.; TAVARES, Miriam N.. Aruanas: a agenda 2030 da ONU pautada na fic\u00e7\u00e3o seriada do streaming. <strong>Revista Latinoamericana de Ci\u00eancias da Comunica\u00e7\u00e3o<\/strong> (online), 40\u00aa edi\u00e7\u00e3o, 2022. Dispon\u00edvel em: &lt; <a href=\"http:\/\/revista.pubalaic.org\/index.php\/alaic\/article\/view\/872\/877\">http:\/\/revista.pubalaic.org\/index.php\/alaic\/article\/view\/872\/877<\/a>&gt;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BARTHES, Roland. <strong>O \u00f3bvio e o obtuso<\/strong>. Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es 70, 2009.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MASSAROLO, Jo\u00e3o et al. <strong>Aruanas<\/strong>: inova\u00e7\u00e3o e criatividade em tempos de pandemia de Covid-19. In: LOPES, Maria Immacolata Vassallo de; SILVA, Lourdes Ana Pereira (orgs.). Cria\u00e7\u00e3o e Inova\u00e7\u00e3o na Fic\u00e7\u00e3o Televisiva em tempos de pandemia de Covid-19. Cole\u00e7\u00e3o Teledramaturgia. Volume 7. Aluminio\/SP: Clea Editorial, 2021. p. 129-148.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SHARMA, Romil. <strong>The Netflix effects<\/strong>: impacts of the streaming models on television storytelling. Middleton: Wesleyan University, 2016.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste artigo, a pesquisadora e doutora Adriana Pierre Coca aborda o papel das personagens mulheres na s\u00e9rie audiovisual passada na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3444,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[791,796,790,789,16,17,792,181,179,34,799,794,59,362,797,800,795,793,798,534],"class_list":["post-3442","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-amazonia","tag-anistia-internacional","tag-aruanas","tag-aruna","tag-audiovisual","tag-audiovisualidades","tag-caraja","tag-comunicacao","tag-corpo","tag-corporalidades","tag-debora-falabella","tag-estela-renner","tag-ficcao","tag-globoplay","tag-greenpeace","tag-leandra-leal","tag-marcos-risti","tag-ong","tag-tais-araujo","tag-tv"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - 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