{"id":3671,"date":"2025-05-06T10:18:31","date_gmt":"2025-05-06T13:18:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/?p=3671"},"modified":"2025-05-16T11:02:00","modified_gmt":"2025-05-16T14:02:00","slug":"a-livraria-um-duelo-feminino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/a-livraria-um-duelo-feminino\/","title":{"rendered":"\u201cA Livraria\u201d, um duelo feminino"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Por Adriana Pierre Coca<\/em>:<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cA Livraria\u201d \u00e9 um filme que enreda os desafios de uma mulher jovem, vi\u00fava de guerra que decide abrir uma livraria em uma pequena cidade litor\u00e2nea da Inglaterra, no fim dos anos 1950. \u00c9 uma produ\u00e7\u00e3o lan\u00e7ada no cinema e disponibilizada na Netflix. Atualmente (abril de 2025), pode ser vista nas plataformas digitais Prime V\u00eddeo, Apple TV e Google Play. O longa-metragem de 2017\/2018, al\u00e9m de ter uma mulher como personagem principal e ser narrado no feminino, \u00e9 escrito e dirigido tamb\u00e9m por uma mulher2, sendo um roteiro adaptado do romance hom\u00f4nimo criado por uma escritora. Essa informa\u00e7\u00e3o importa a esta reflex\u00e3o, que buscou dar conta de observar como o filme \u201cA Livraria\u201d traduz as imposi\u00e7\u00f5es sociais enfrentadas pelas mulheres no referido per\u00edodo hist\u00f3rico. Suspeitando que a narrativa revela aspectos que refletem uma mem\u00f3ria cultural que se sobrep\u00f5e ao tempo.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse post do Blog Corporalidades \u00e9 continua\u00e7\u00e3o do \u00faltimo texto publicado aqui, \u201c<a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/a-livraria-um-filme-com-alma-feminina\/\">\u2018A Livraria\u2019, um filme com alma feminina<\/a>\u201d, no qual tecemos outras rela\u00e7\u00f5es sobre o filme \u201cA Livraria\u201d. N\u00e3o deixe de ler.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><strong>Os aliados<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Poucos s\u00e3o os aliados conquistados pela livreira em sua miss\u00e3o, exatamente aqueles que parecem ocupar os espa\u00e7os das fronteiras culturais\/semi\u00f3ticas, onde a troca de informa\u00e7\u00f5es e a reconfigura\u00e7\u00e3o dos sentidos \u00e9 mais perene, suscet\u00edvel \u00e0s mudan\u00e7as. S\u00e3o as personagens que n\u00e3o tiveram tempo de serem corrompidas pela rigidez cultural em que est\u00e3o inseridas. S\u00e3o elas: as crian\u00e7as escoteiras que a ajudam a arrumar a loja; Christine, sua jovem funcion\u00e1ria e o dono do barco, Sr. Raven, que \u00e9 um morador do vilarejo, mas que vive muito tempo fora dali, fazendo a travessia de barco; al\u00e9m do defensor mais impetuoso da sua causa, o Sr. Brundish (interpretado por Bill Nighy), que se torna seu primeiro cliente e, mais tarde, amigo. Esse morador vive isolado, tem pouco contato com as outras pessoas, tanto que, por desconhecerem sua vida, inventam hist\u00f3rias sobre ele. Sr. Brundish a admira pela coragem e ousadia, em um bilhete afirma: \u201cQuerida Senhora. Ningu\u00e9m teve coragem suficiente para vender livros nesse peda\u00e7o esquecido do mundo.\u201d. E, pessoalmente, quando se refere a Violet (interpretada por Patricia Clarkson), sua antagonista, pergunta se ela tem consci\u00eancia do risco que corre: \u201cEla \u00e9 uma mulher muito poderosa, isso n\u00e3o a preocupa?\u201d. \u201cN\u00e3o\u201d \u00e9 a resposta de Florence, um sinal de resist\u00eancia diante das imposi\u00e7\u00f5es que v\u00e3o se colocando em seu caminho. Sua fibra tamb\u00e9m \u00e9 exposta quando o gerente do banco tenta coagi-la a vender a livraria, enf\u00e1tica, ela diz que a loja n\u00e3o est\u00e1 \u00e0 venda.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diante da resist\u00eancia de Florence em abandonar a ideia de se instalar na Old House, o nome dado ao casar\u00e3o onde ela abre sua livraria e vai morar, Violet v\u00ea a necessidade de se autoafirmar como benfeitora da cidade e usa de muitos subterf\u00fagios para isso. Um deles \u00e9 corromper outras pessoas contra a livreira. Uma dessas situa\u00e7\u00f5es acontece quando, extrajudicialmente, Violet aciona seus advogados e exige que a aglomera\u00e7\u00e3o causada em frente \u00e0 loja seja contida. A exposi\u00e7\u00e3o na vitrine do romance \u201cLolita\u201d de Vladimir Nabokov estaria causando alvoro\u00e7o na rua estreita. A venda da obra estaria atraindo uma \u201caten\u00e7\u00e3o indesej\u00e1vel\u201d entre os moradores de Hardborough. O livro em quest\u00e3o n\u00e3o poderia ser outro, o romance de 1955 \u00e9 um cl\u00e1ssico, mas traz uma hist\u00f3ria controversa em que um homem mais velho se v\u00ea obcecado por uma menina de 12 anos. O pr\u00f3prio advogado de Florence a aconselha a encerrar a venda do livro que considera \u201cbanal e sensacionalista\u201d, antes que uma reclama\u00e7\u00e3o formal seja feita. Entretanto, ela n\u00e3o acata tais recomenda\u00e7\u00f5es.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes de comprar os exemplares de \u201cLolita\u201d, ela o enviou para o Sr. Brundish para uma leitura pr\u00e9via, queria saber se era um bom livro. Ele leu e afirmou se tratar de um bom livro, mas que as pessoas da cidade, possivelmente, n\u00e3o iriam entend\u00ea-lo, s\u00f3 que isso n\u00e3o era de todo o mal, j\u00e1 que \u201centender\u201d faz com que a mente fique pregui\u00e7osa. A considera\u00e7\u00e3o da personagem traduz um pensamento bastante Lotmaniano, pois o que Lotman (2013; 2021) nos faz refletir \u00e9 que o tensionamento, a imprevisibilidade dos sentidos \u00e9 o que pode provocar a cria\u00e7\u00e3o de novas ideias e percep\u00e7\u00f5es sobre o mundo.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fora essa obra liter\u00e1ria, poucos s\u00e3o os outros livros mencionados nomeadamente no filme. Um deles \u00e9 \u201cFahrenheit 451\u201d, escrito por Ray Bradbury, que como um exerc\u00edcio de metalinguagem, retrata a hist\u00f3ria de uma sociedade aparentemente ut\u00f3pica em que livros s\u00e3o queimados para o bem de todos. Essas poucas cita\u00e7\u00f5es a obras liter\u00e1rias nos fazem crer que \u201cA Livraria\u201d n\u00e3o \u00e9 um filme sobre livros. Menos ainda sobre a vida de uma mulher inocente, injusti\u00e7ada. As rela\u00e7\u00f5es que se apresentam s\u00e3o mais complexas que isso e explicitam alguns desafios que se colocam \u00e0 protagonista apenas por ela ser mulher, uma mulher que desafia, em alguns aspectos, o sistema hegem\u00f4nico no qual est\u00e1 inserida.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desse modo, a constitui\u00e7\u00e3o de sentidos reportados a ela traduz percep\u00e7\u00f5es de desd\u00e9m e incapacidade. Alguns moradores duvidam que uma mulher sozinha, sem filhos, que chega a uma cidade desconhecida tenha condi\u00e7\u00f5es de gerir uma livraria, algo incomum para as pessoas dali. Outras a admiram exatamente por sua coragem em realizar algo t\u00e3o provocador.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><strong>O fim e o Recome\u00e7o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse n\u00e3o \u00e9 um filme com final feliz para a sua protagonista, que abandona o sonho da ter a sua livraria e acaba sendo expulsa do lugar. Violet consegue fazer com que um projeto de lei seja criado permitindo que as c\u00e2maras municipais adquiram lugares de valor p\u00fablico por compra compuls\u00f3ria. Mais do que isso, consegue provar que a Old House n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de ser habitada e, por isso, Florence vai embora da cidade sem direito a nenhum ressarcimento financeiro pelo casar\u00e3o que havia comprado. Um lugar que foi negociado por ela por 6 meses e que estava fechado h\u00e1 7 anos.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda assim, o filme se finda com uma mensagem de alento e esperan\u00e7a, sobretudo, para \u00e0s mulheres, porque nas cenas derradeiras nos damos conta que Florence deixou um legado de coragem e paix\u00e3o pelos livros: \u00e9 quando nos \u00e9 revelado que quem narra a hist\u00f3ria \u00e9 Christine, sua pupila durante esse tempo, que j\u00e1 adulta se mostra feliz como propriet\u00e1ria de uma livraria. Tamb\u00e9m descobrimos que Christine ateou fogo ao antigo casar\u00e3o Old House com um aquecedor de parafina. As chamas s\u00e3o anunciadas enquanto acompanhamos Florence deixar de barco o vilarejo. As a\u00e7\u00f5es da personagem se configuram como resist\u00eancia e ressignificam a situa\u00e7\u00e3o vivenciada por Florence anos antes, impondo novos olhares sobre \u00e0s mulheres e suas potencialidades, mas, \u00e9 claro que para que houvesse alguma mudan\u00e7a foi preciso o embate, a disputa de sentidos que provocou de algum modo a ruptura com os sistemas semi\u00f3ticos hegem\u00f4nicos vigentes naquela cultura, como reflete Lotman (2013; 2021).<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa discuss\u00e3o \u00e9 parte integrante do cap\u00edtulo \u201cMem\u00f3ria cultural e resist\u00eancia no filme \u2018A Livraria\u2019\u201d publicado no livro \u201cA arte da imagem\u201d, disponibilizado para <a href=\"https:\/\/www.riaeditorial.com\/livro\/a-arte-da-imagem\">download<\/a> pela editora portuguesa Ria Editorial.<br><br><br><strong>Imagem<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cr\u00e9dito: A Contracorriente Films\/Divulga\u00e7\u00e3o.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Coca, A. P. Mem\u00f3ria cultural e resist\u00eancia no filme \u201cA Livraria\u201d. In: Cardoso, F. L. et al. (Coords.). <strong>A arte da imagem<\/strong>. Aveiro: Ria Editorial, 2024.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lotman, I. M. <strong>Cultura y explosi\u00f3n<\/strong>: lo previsible y lo imprevisible en los procesos de cambio social. 2\u00aa. ed. Gedisa Editorial, 2013.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">_______. <strong>Mecanismos das imprevisibilidades da cultura<\/strong>. Trad. Irene Machado. Hucitec, 2021.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Adriana Pierre Coca: \u201cA Livraria\u201d \u00e9 um filme que enreda os desafios de uma mulher jovem, vi\u00fava de guerra que decide abrir uma livraria em uma pequena cidade litor\u00e2nea da Inglaterra, no fim dos anos 1950. \u00c9 uma produ\u00e7\u00e3o lan\u00e7ada no cinema e disponibilizada na Netflix. Atualmente (abril de 2025), pode ser vista nas plataformas digitais Prime V\u00eddeo, Apple TV e Google Play. O longa-metragem de 2017\/2018, al\u00e9m de ter uma mulher como personagem principal e ser narrado no feminino, \u00e9 escrito e dirigido tamb\u00e9m por uma mulher2, sendo um roteiro adaptado do romance hom\u00f4nimo criado por uma escritora. Essa informa\u00e7\u00e3o importa a esta reflex\u00e3o, que buscou dar conta de observar como o filme \u201cA Livraria\u201d traduz as imposi\u00e7\u00f5es sociais enfrentadas pelas mulheres no referido per\u00edodo hist\u00f3rico. Suspeitando que a narrativa revela aspectos que refletem uma mem\u00f3ria cultural que se sobrep\u00f5e ao tempo. Esse post do Blog Corporalidades \u00e9 continua\u00e7\u00e3o do \u00faltimo texto publicado aqui, \u201c\u2018A Livraria\u2019, um filme com alma feminina\u201d, no qual tecemos outras rela\u00e7\u00f5es sobre o filme \u201cA Livraria\u201d. N\u00e3o deixe de ler. 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Sr. Brundish a admira pela coragem e ousadia, em um bilhete afirma: \u201cQuerida Senhora. Ningu\u00e9m teve coragem suficiente para vender livros nesse peda\u00e7o esquecido do mundo.\u201d. E, pessoalmente, quando se refere a Violet (interpretada por Patricia Clarkson), sua antagonista, pergunta se ela tem consci\u00eancia do risco que corre: \u201cEla \u00e9 uma mulher muito poderosa, isso n\u00e3o a preocupa?\u201d. \u201cN\u00e3o\u201d \u00e9 a resposta de Florence, um sinal de resist\u00eancia diante das imposi\u00e7\u00f5es que v\u00e3o se colocando em seu caminho. Sua fibra tamb\u00e9m \u00e9 exposta quando o gerente do banco tenta coagi-la a vender a livraria, enf\u00e1tica, ela diz que a loja n\u00e3o est\u00e1 \u00e0 venda. Diante da resist\u00eancia de Florence em abandonar a ideia de se instalar na Old House, o nome dado ao casar\u00e3o onde ela abre sua livraria e vai morar, Violet v\u00ea a necessidade de se autoafirmar como benfeitora da cidade e usa de muitos subterf\u00fagios para isso. Um deles \u00e9 corromper outras pessoas contra a livreira. Uma dessas situa\u00e7\u00f5es acontece quando, extrajudicialmente, Violet aciona seus advogados e exige que a aglomera\u00e7\u00e3o causada em frente \u00e0 loja seja contida. A exposi\u00e7\u00e3o na vitrine do romance \u201cLolita\u201d de Vladimir Nabokov estaria causando alvoro\u00e7o na rua estreita. A venda da obra estaria atraindo uma \u201caten\u00e7\u00e3o indesej\u00e1vel\u201d entre os moradores de Hardborough. O livro em quest\u00e3o n\u00e3o poderia ser outro, o romance de 1955 \u00e9 um cl\u00e1ssico, mas traz uma hist\u00f3ria controversa em que um homem mais velho se v\u00ea obcecado por uma menina de 12 anos. O pr\u00f3prio advogado de Florence a aconselha a encerrar a venda do livro que considera \u201cbanal e sensacionalista\u201d, antes que uma reclama\u00e7\u00e3o formal seja feita. Entretanto, ela n\u00e3o acata tais recomenda\u00e7\u00f5es. Antes de comprar os exemplares de \u201cLolita\u201d, ela o enviou para o Sr. Brundish para uma leitura pr\u00e9via, queria saber se era um bom livro. Ele leu e afirmou se tratar de um bom livro, mas que as pessoas da cidade, possivelmente, n\u00e3o iriam entend\u00ea-lo, s\u00f3 que isso n\u00e3o era de todo o mal, j\u00e1 que \u201centender\u201d faz com que a mente fique pregui\u00e7osa. A considera\u00e7\u00e3o da personagem traduz um pensamento bastante Lotmaniano, pois o que Lotman (2013; 2021) nos faz refletir \u00e9 que o tensionamento, a imprevisibilidade dos sentidos \u00e9 o que pode provocar a cria\u00e7\u00e3o de novas ideias e percep\u00e7\u00f5es sobre o mundo. Fora essa obra liter\u00e1ria, poucos s\u00e3o os outros livros mencionados nomeadamente no filme. Um deles \u00e9 \u201cFahrenheit 451\u201d, escrito por Ray Bradbury, que como um exerc\u00edcio de metalinguagem, retrata a hist\u00f3ria de uma sociedade aparentemente ut\u00f3pica em que livros s\u00e3o queimados para o bem de todos. Essas poucas cita\u00e7\u00f5es a obras liter\u00e1rias nos fazem crer que \u201cA Livraria\u201d n\u00e3o \u00e9 um filme sobre livros. Menos ainda sobre a vida de uma mulher inocente, injusti\u00e7ada. As rela\u00e7\u00f5es que se apresentam s\u00e3o mais complexas que isso e explicitam alguns desafios que se colocam \u00e0 protagonista apenas por ela ser mulher, uma mulher que desafia, em alguns aspectos, o sistema hegem\u00f4nico no qual est\u00e1 inserida. Desse modo, a constitui\u00e7\u00e3o de sentidos reportados a ela traduz percep\u00e7\u00f5es de desd\u00e9m e incapacidade. 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As a\u00e7\u00f5es da personagem se configuram como resist\u00eancia e ressignificam a situa\u00e7\u00e3o vivenciada por Florence anos antes, impondo novos olhares sobre \u00e0s mulheres e suas potencialidades, mas, \u00e9 claro que para que houvesse alguma mudan\u00e7a foi preciso o embate, a disputa de sentidos que provocou de algum modo a ruptura com os sistemas semi\u00f3ticos hegem\u00f4nicos vigentes naquela cultura, como reflete Lotman (2013; 2021). Essa discuss\u00e3o \u00e9 parte integrante do cap\u00edtulo \u201cMem\u00f3ria cultural e resist\u00eancia no filme \u2018A Livraria\u2019\u201d publicado no livro \u201cA arte da imagem\u201d, disponibilizado para download pela editora portuguesa Ria Editorial. Imagem Cr\u00e9dito: A Contracorriente Films\/Divulga\u00e7\u00e3o. Refer\u00eancias Coca, A. P. Mem\u00f3ria cultural e resist\u00eancia no filme \u201cA Livraria\u201d. In: Cardoso, F. L. et al. (Coords.). A arte da imagem. Aveiro: Ria Editorial, 2024. Lotman, I. M. 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Hucitec, 2021.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3672,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[16,181],"class_list":["post-3671","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-audiovisual","tag-comunicacao"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>\u201cA Livraria\u201d, um duelo feminino - Corporalidades<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/a-livraria-um-duelo-feminino\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"en_US\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"\u201cA Livraria\u201d, um duelo feminino - Corporalidades\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Por Adriana Pierre Coca: \u201cA Livraria\u201d \u00e9 um filme que enreda os desafios de uma mulher jovem, vi\u00fava de guerra que decide abrir uma livraria em uma pequena cidade litor\u00e2nea da Inglaterra, no fim dos anos 1950. \u00c9 uma produ\u00e7\u00e3o lan\u00e7ada no cinema e disponibilizada na Netflix. Atualmente (abril de 2025), pode ser vista nas plataformas digitais Prime V\u00eddeo, Apple TV e Google Play. O longa-metragem de 2017\/2018, al\u00e9m de ter uma mulher como personagem principal e ser narrado no feminino, \u00e9 escrito e dirigido tamb\u00e9m por uma mulher2, sendo um roteiro adaptado do romance hom\u00f4nimo criado por uma escritora. Essa informa\u00e7\u00e3o importa a esta reflex\u00e3o, que buscou dar conta de observar como o filme \u201cA Livraria\u201d traduz as imposi\u00e7\u00f5es sociais enfrentadas pelas mulheres no referido per\u00edodo hist\u00f3rico. Suspeitando que a narrativa revela aspectos que refletem uma mem\u00f3ria cultural que se sobrep\u00f5e ao tempo. Esse post do Blog Corporalidades \u00e9 continua\u00e7\u00e3o do \u00faltimo texto publicado aqui, \u201c\u2018A Livraria\u2019, um filme com alma feminina\u201d, no qual tecemos outras rela\u00e7\u00f5es sobre o filme \u201cA Livraria\u201d. N\u00e3o deixe de ler. Os aliados Poucos s\u00e3o os aliados conquistados pela livreira em sua miss\u00e3o, exatamente aqueles que parecem ocupar os espa\u00e7os das fronteiras culturais\/semi\u00f3ticas, onde a troca de informa\u00e7\u00f5es e a reconfigura\u00e7\u00e3o dos sentidos \u00e9 mais perene, suscet\u00edvel \u00e0s mudan\u00e7as. S\u00e3o as personagens que n\u00e3o tiveram tempo de serem corrompidas pela rigidez cultural em que est\u00e3o inseridas. S\u00e3o elas: as crian\u00e7as escoteiras que a ajudam a arrumar a loja; Christine, sua jovem funcion\u00e1ria e o dono do barco, Sr. Raven, que \u00e9 um morador do vilarejo, mas que vive muito tempo fora dali, fazendo a travessia de barco; al\u00e9m do defensor mais impetuoso da sua causa, o Sr. Brundish (interpretado por Bill Nighy), que se torna seu primeiro cliente e, mais tarde, amigo. Esse morador vive isolado, tem pouco contato com as outras pessoas, tanto que, por desconhecerem sua vida, inventam hist\u00f3rias sobre ele. Sr. Brundish a admira pela coragem e ousadia, em um bilhete afirma: \u201cQuerida Senhora. Ningu\u00e9m teve coragem suficiente para vender livros nesse peda\u00e7o esquecido do mundo.\u201d. E, pessoalmente, quando se refere a Violet (interpretada por Patricia Clarkson), sua antagonista, pergunta se ela tem consci\u00eancia do risco que corre: \u201cEla \u00e9 uma mulher muito poderosa, isso n\u00e3o a preocupa?\u201d. \u201cN\u00e3o\u201d \u00e9 a resposta de Florence, um sinal de resist\u00eancia diante das imposi\u00e7\u00f5es que v\u00e3o se colocando em seu caminho. Sua fibra tamb\u00e9m \u00e9 exposta quando o gerente do banco tenta coagi-la a vender a livraria, enf\u00e1tica, ela diz que a loja n\u00e3o est\u00e1 \u00e0 venda. Diante da resist\u00eancia de Florence em abandonar a ideia de se instalar na Old House, o nome dado ao casar\u00e3o onde ela abre sua livraria e vai morar, Violet v\u00ea a necessidade de se autoafirmar como benfeitora da cidade e usa de muitos subterf\u00fagios para isso. Um deles \u00e9 corromper outras pessoas contra a livreira. Uma dessas situa\u00e7\u00f5es acontece quando, extrajudicialmente, Violet aciona seus advogados e exige que a aglomera\u00e7\u00e3o causada em frente \u00e0 loja seja contida. A exposi\u00e7\u00e3o na vitrine do romance \u201cLolita\u201d de Vladimir Nabokov estaria causando alvoro\u00e7o na rua estreita. A venda da obra estaria atraindo uma \u201caten\u00e7\u00e3o indesej\u00e1vel\u201d entre os moradores de Hardborough. O livro em quest\u00e3o n\u00e3o poderia ser outro, o romance de 1955 \u00e9 um cl\u00e1ssico, mas traz uma hist\u00f3ria controversa em que um homem mais velho se v\u00ea obcecado por uma menina de 12 anos. O pr\u00f3prio advogado de Florence a aconselha a encerrar a venda do livro que considera \u201cbanal e sensacionalista\u201d, antes que uma reclama\u00e7\u00e3o formal seja feita. Entretanto, ela n\u00e3o acata tais recomenda\u00e7\u00f5es. Antes de comprar os exemplares de \u201cLolita\u201d, ela o enviou para o Sr. Brundish para uma leitura pr\u00e9via, queria saber se era um bom livro. Ele leu e afirmou se tratar de um bom livro, mas que as pessoas da cidade, possivelmente, n\u00e3o iriam entend\u00ea-lo, s\u00f3 que isso n\u00e3o era de todo o mal, j\u00e1 que \u201centender\u201d faz com que a mente fique pregui\u00e7osa. A considera\u00e7\u00e3o da personagem traduz um pensamento bastante Lotmaniano, pois o que Lotman (2013; 2021) nos faz refletir \u00e9 que o tensionamento, a imprevisibilidade dos sentidos \u00e9 o que pode provocar a cria\u00e7\u00e3o de novas ideias e percep\u00e7\u00f5es sobre o mundo. Fora essa obra liter\u00e1ria, poucos s\u00e3o os outros livros mencionados nomeadamente no filme. Um deles \u00e9 \u201cFahrenheit 451\u201d, escrito por Ray Bradbury, que como um exerc\u00edcio de metalinguagem, retrata a hist\u00f3ria de uma sociedade aparentemente ut\u00f3pica em que livros s\u00e3o queimados para o bem de todos. Essas poucas cita\u00e7\u00f5es a obras liter\u00e1rias nos fazem crer que \u201cA Livraria\u201d n\u00e3o \u00e9 um filme sobre livros. Menos ainda sobre a vida de uma mulher inocente, injusti\u00e7ada. As rela\u00e7\u00f5es que se apresentam s\u00e3o mais complexas que isso e explicitam alguns desafios que se colocam \u00e0 protagonista apenas por ela ser mulher, uma mulher que desafia, em alguns aspectos, o sistema hegem\u00f4nico no qual est\u00e1 inserida. Desse modo, a constitui\u00e7\u00e3o de sentidos reportados a ela traduz percep\u00e7\u00f5es de desd\u00e9m e incapacidade. Alguns moradores duvidam que uma mulher sozinha, sem filhos, que chega a uma cidade desconhecida tenha condi\u00e7\u00f5es de gerir uma livraria, algo incomum para as pessoas dali. Outras a admiram exatamente por sua coragem em realizar algo t\u00e3o provocador. O fim e o Recome\u00e7o Esse n\u00e3o \u00e9 um filme com final feliz para a sua protagonista, que abandona o sonho da ter a sua livraria e acaba sendo expulsa do lugar. Violet consegue fazer com que um projeto de lei seja criado permitindo que as c\u00e2maras municipais adquiram lugares de valor p\u00fablico por compra compuls\u00f3ria. Mais do que isso, consegue provar que a Old House n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de ser habitada e, por isso, Florence vai embora da cidade sem direito a nenhum ressarcimento financeiro pelo casar\u00e3o que havia comprado. Um lugar que foi negociado por ela por 6 meses e que estava fechado h\u00e1 7 anos. Ainda assim, o filme se finda com uma mensagem de alento e esperan\u00e7a, sobretudo, para \u00e0s mulheres, porque nas cenas derradeiras nos damos conta que Florence deixou um legado de coragem e paix\u00e3o pelos livros: \u00e9 quando nos \u00e9 revelado que quem narra a hist\u00f3ria \u00e9 Christine, sua pupila durante esse tempo, que j\u00e1 adulta se mostra feliz como propriet\u00e1ria de uma livraria. Tamb\u00e9m descobrimos que Christine ateou fogo ao antigo casar\u00e3o Old House com um aquecedor de parafina. As chamas s\u00e3o anunciadas enquanto acompanhamos Florence deixar de barco o vilarejo. As a\u00e7\u00f5es da personagem se configuram como resist\u00eancia e ressignificam a situa\u00e7\u00e3o vivenciada por Florence anos antes, impondo novos olhares sobre \u00e0s mulheres e suas potencialidades, mas, \u00e9 claro que para que houvesse alguma mudan\u00e7a foi preciso o embate, a disputa de sentidos que provocou de algum modo a ruptura com os sistemas semi\u00f3ticos hegem\u00f4nicos vigentes naquela cultura, como reflete Lotman (2013; 2021). Essa discuss\u00e3o \u00e9 parte integrante do cap\u00edtulo \u201cMem\u00f3ria cultural e resist\u00eancia no filme \u2018A Livraria\u2019\u201d publicado no livro \u201cA arte da imagem\u201d, disponibilizado para download pela editora portuguesa Ria Editorial. Imagem Cr\u00e9dito: A Contracorriente Films\/Divulga\u00e7\u00e3o. Refer\u00eancias Coca, A. P. Mem\u00f3ria cultural e resist\u00eancia no filme \u201cA Livraria\u201d. In: Cardoso, F. L. et al. (Coords.). A arte da imagem. Aveiro: Ria Editorial, 2024. Lotman, I. M. 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Atualmente (abril de 2025), pode ser vista nas plataformas digitais Prime V\u00eddeo, Apple TV e Google Play. O longa-metragem de 2017\/2018, al\u00e9m de ter uma mulher como personagem principal e ser narrado no feminino, \u00e9 escrito e dirigido tamb\u00e9m por uma mulher2, sendo um roteiro adaptado do romance hom\u00f4nimo criado por uma escritora. Essa informa\u00e7\u00e3o importa a esta reflex\u00e3o, que buscou dar conta de observar como o filme \u201cA Livraria\u201d traduz as imposi\u00e7\u00f5es sociais enfrentadas pelas mulheres no referido per\u00edodo hist\u00f3rico. Suspeitando que a narrativa revela aspectos que refletem uma mem\u00f3ria cultural que se sobrep\u00f5e ao tempo. Esse post do Blog Corporalidades \u00e9 continua\u00e7\u00e3o do \u00faltimo texto publicado aqui, \u201c\u2018A Livraria\u2019, um filme com alma feminina\u201d, no qual tecemos outras rela\u00e7\u00f5es sobre o filme \u201cA Livraria\u201d. N\u00e3o deixe de ler. 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Sr. Brundish a admira pela coragem e ousadia, em um bilhete afirma: \u201cQuerida Senhora. Ningu\u00e9m teve coragem suficiente para vender livros nesse peda\u00e7o esquecido do mundo.\u201d. E, pessoalmente, quando se refere a Violet (interpretada por Patricia Clarkson), sua antagonista, pergunta se ela tem consci\u00eancia do risco que corre: \u201cEla \u00e9 uma mulher muito poderosa, isso n\u00e3o a preocupa?\u201d. \u201cN\u00e3o\u201d \u00e9 a resposta de Florence, um sinal de resist\u00eancia diante das imposi\u00e7\u00f5es que v\u00e3o se colocando em seu caminho. Sua fibra tamb\u00e9m \u00e9 exposta quando o gerente do banco tenta coagi-la a vender a livraria, enf\u00e1tica, ela diz que a loja n\u00e3o est\u00e1 \u00e0 venda. Diante da resist\u00eancia de Florence em abandonar a ideia de se instalar na Old House, o nome dado ao casar\u00e3o onde ela abre sua livraria e vai morar, Violet v\u00ea a necessidade de se autoafirmar como benfeitora da cidade e usa de muitos subterf\u00fagios para isso. Um deles \u00e9 corromper outras pessoas contra a livreira. Uma dessas situa\u00e7\u00f5es acontece quando, extrajudicialmente, Violet aciona seus advogados e exige que a aglomera\u00e7\u00e3o causada em frente \u00e0 loja seja contida. A exposi\u00e7\u00e3o na vitrine do romance \u201cLolita\u201d de Vladimir Nabokov estaria causando alvoro\u00e7o na rua estreita. A venda da obra estaria atraindo uma \u201caten\u00e7\u00e3o indesej\u00e1vel\u201d entre os moradores de Hardborough. O livro em quest\u00e3o n\u00e3o poderia ser outro, o romance de 1955 \u00e9 um cl\u00e1ssico, mas traz uma hist\u00f3ria controversa em que um homem mais velho se v\u00ea obcecado por uma menina de 12 anos. O pr\u00f3prio advogado de Florence a aconselha a encerrar a venda do livro que considera \u201cbanal e sensacionalista\u201d, antes que uma reclama\u00e7\u00e3o formal seja feita. Entretanto, ela n\u00e3o acata tais recomenda\u00e7\u00f5es. Antes de comprar os exemplares de \u201cLolita\u201d, ela o enviou para o Sr. Brundish para uma leitura pr\u00e9via, queria saber se era um bom livro. Ele leu e afirmou se tratar de um bom livro, mas que as pessoas da cidade, possivelmente, n\u00e3o iriam entend\u00ea-lo, s\u00f3 que isso n\u00e3o era de todo o mal, j\u00e1 que \u201centender\u201d faz com que a mente fique pregui\u00e7osa. A considera\u00e7\u00e3o da personagem traduz um pensamento bastante Lotmaniano, pois o que Lotman (2013; 2021) nos faz refletir \u00e9 que o tensionamento, a imprevisibilidade dos sentidos \u00e9 o que pode provocar a cria\u00e7\u00e3o de novas ideias e percep\u00e7\u00f5es sobre o mundo. Fora essa obra liter\u00e1ria, poucos s\u00e3o os outros livros mencionados nomeadamente no filme. Um deles \u00e9 \u201cFahrenheit 451\u201d, escrito por Ray Bradbury, que como um exerc\u00edcio de metalinguagem, retrata a hist\u00f3ria de uma sociedade aparentemente ut\u00f3pica em que livros s\u00e3o queimados para o bem de todos. Essas poucas cita\u00e7\u00f5es a obras liter\u00e1rias nos fazem crer que \u201cA Livraria\u201d n\u00e3o \u00e9 um filme sobre livros. Menos ainda sobre a vida de uma mulher inocente, injusti\u00e7ada. As rela\u00e7\u00f5es que se apresentam s\u00e3o mais complexas que isso e explicitam alguns desafios que se colocam \u00e0 protagonista apenas por ela ser mulher, uma mulher que desafia, em alguns aspectos, o sistema hegem\u00f4nico no qual est\u00e1 inserida. Desse modo, a constitui\u00e7\u00e3o de sentidos reportados a ela traduz percep\u00e7\u00f5es de desd\u00e9m e incapacidade. Alguns moradores duvidam que uma mulher sozinha, sem filhos, que chega a uma cidade desconhecida tenha condi\u00e7\u00f5es de gerir uma livraria, algo incomum para as pessoas dali. Outras a admiram exatamente por sua coragem em realizar algo t\u00e3o provocador. O fim e o Recome\u00e7o Esse n\u00e3o \u00e9 um filme com final feliz para a sua protagonista, que abandona o sonho da ter a sua livraria e acaba sendo expulsa do lugar. Violet consegue fazer com que um projeto de lei seja criado permitindo que as c\u00e2maras municipais adquiram lugares de valor p\u00fablico por compra compuls\u00f3ria. Mais do que isso, consegue provar que a Old House n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de ser habitada e, por isso, Florence vai embora da cidade sem direito a nenhum ressarcimento financeiro pelo casar\u00e3o que havia comprado. Um lugar que foi negociado por ela por 6 meses e que estava fechado h\u00e1 7 anos. Ainda assim, o filme se finda com uma mensagem de alento e esperan\u00e7a, sobretudo, para \u00e0s mulheres, porque nas cenas derradeiras nos damos conta que Florence deixou um legado de coragem e paix\u00e3o pelos livros: \u00e9 quando nos \u00e9 revelado que quem narra a hist\u00f3ria \u00e9 Christine, sua pupila durante esse tempo, que j\u00e1 adulta se mostra feliz como propriet\u00e1ria de uma livraria. Tamb\u00e9m descobrimos que Christine ateou fogo ao antigo casar\u00e3o Old House com um aquecedor de parafina. As chamas s\u00e3o anunciadas enquanto acompanhamos Florence deixar de barco o vilarejo. As a\u00e7\u00f5es da personagem se configuram como resist\u00eancia e ressignificam a situa\u00e7\u00e3o vivenciada por Florence anos antes, impondo novos olhares sobre \u00e0s mulheres e suas potencialidades, mas, \u00e9 claro que para que houvesse alguma mudan\u00e7a foi preciso o embate, a disputa de sentidos que provocou de algum modo a ruptura com os sistemas semi\u00f3ticos hegem\u00f4nicos vigentes naquela cultura, como reflete Lotman (2013; 2021). Essa discuss\u00e3o \u00e9 parte integrante do cap\u00edtulo \u201cMem\u00f3ria cultural e resist\u00eancia no filme \u2018A Livraria\u2019\u201d publicado no livro \u201cA arte da imagem\u201d, disponibilizado para download pela editora portuguesa Ria Editorial. Imagem Cr\u00e9dito: A Contracorriente Films\/Divulga\u00e7\u00e3o. Refer\u00eancias Coca, A. P. Mem\u00f3ria cultural e resist\u00eancia no filme \u201cA Livraria\u201d. In: Cardoso, F. L. et al. (Coords.). A arte da imagem. Aveiro: Ria Editorial, 2024. Lotman, I. M. Cultura y explosi\u00f3n: lo previsible y lo imprevisible en los procesos de cambio social. 2\u00aa. ed. Gedisa Editorial, 2013. _______. Mecanismos das imprevisibilidades da cultura. Trad. Irene Machado. 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