{"id":3675,"date":"2025-05-06T10:31:45","date_gmt":"2025-05-06T13:31:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/?p=3675"},"modified":"2025-05-06T17:23:30","modified_gmt":"2025-05-06T20:23:30","slug":"circulo-de-castidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/circulo-de-castidade\/","title":{"rendered":"C\u00edrculo de castidade"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Por Tiago Segabinazzi<\/em>:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Trabalhadores do mundo, pensemos: se, de qualquer forma, 1\u00ba de maio \u00e9 um feriado, faz alguma diferen\u00e7a chamar essa data de Dia do Trabalho ou de Dia dos Trabalhadores? Basta termos folga para n\u00e3o nos importarmos se a homenagem \u00e9 dirigida a quem se esfor\u00e7a ou \u00e0quilo que nos obriga a nos esfor\u00e7armos?<br><br>Nessa pequena varia\u00e7\u00e3o de letras h\u00e1 um pouco de luta de classes, um pouco de semi\u00f3tica e mais um tanto da pr\u00f3pria quest\u00e3o existencial de se trabalhar. Na escolha do termo se encontra o sentido intencionado: se o dia n\u00e3o remeter ao sujeito (o trabalhador), mas ao objeto abstrato (o trabalho), o humano \u00e9 apagado em favor de uma entidade despersonalizada.<br><br>O trabalho torna-se, assim, um mito moderno, como apontaria Roland Barthes, que transforma uma rela\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de explora\u00e7\u00e3o em um valor naturalizado, inquestion\u00e1vel. A invers\u00e3o \u00e9 semi\u00f3tica e hist\u00f3rica.<br><br>H\u00e1 exatamente um s\u00e9culo o Brasil reconheceu essa data como o Dia do Trabalhador. Extraoficialmente e anteriormente, por\u00e9m, j\u00e1 se tratava de um marco da mem\u00f3ria coletiva do proletariado. Em 1\u00ba de maio de 1886, quando ocorreu uma greve geral nos Estados Unidos que exigia o limite de oito horas di\u00e1rias para a jornada de trabalho, houve confronto com a pol\u00edcia e morte de sindicalistas que protestaram. As manifesta\u00e7\u00f5es se espalharam pelo pa\u00eds e nos anos seguintes oper\u00e1rios da Europa usaram esta data para homenagear os trabalhadores e organizar protestos e greves. Ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o oficial da escravatura, imigrantes europeus vieram ao Brasil e trouxeram consigo ideias anarquistas, socialistas e comunistas que colaboraram com a agita\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora e culminaram na primeira greve geral em 1917. Como o governo sofria com os embates com os movimentos sociais, em 26 de setembro de 1924 Artur Bernardes decretou a data do ano seguinte como feriado nacional \u201cconsagrado \u00e0 confraternidade universal das classes oper\u00e1rias e \u00e0 comemora\u00e7\u00e3o dos m\u00e1rtires do trabalho\u201d.<br><br>Exatamente, m\u00e1rtir: \u201cpessoa que passa por tormentos e flagelos para defender as suas cren\u00e7as, opini\u00f5es, causas, entre outras\u201d; \u201csujeito sacrificado\u201d; \u201cindiv\u00edduo que pena ou sofre imensamente\u201d. Nunca houve d\u00favidas sobre o quanto trabalhar significa sofrer. Decretar um dia especial \u00e0queles que sofriam foi uma tentativa de acalmar os \u00e2nimos sem acabar com a rela\u00e7\u00e3o de abuso.<br><br>O termo \u201cm\u00e1rtir\u201d funciona da seguinte forma: ao mesmo tempo em que reconhece o sofrimento, o glorifica; converte a dor em virtude. De acordo com Charles Sanders Peirce, o efeito de um signo \u00e9 um interpretante: a ideia que se forma na mente do int\u00e9rprete. Ainda que esse efeito seja em algum grau indeterminado, \u00e9 poss\u00edvel pensarmos que tal interpretante oscile entre a compaix\u00e3o e a resigna\u00e7\u00e3o, refor\u00e7ando, assim, a no\u00e7\u00e3o de que o sacrif\u00edcio \u00e9 t\u00e3o inevit\u00e1vel quanto desej\u00e1vel. Como \u00e9 poss\u00edvel afirmar isso?<br><br>A partir dos ind\u00edcios que vemos em nossa cultura: com exce\u00e7\u00e3o da arte, h\u00e1 poucos exemplos de celebra\u00e7\u00e3o da pregui\u00e7a, mas n\u00e3o faltam exalta\u00e7\u00f5es ao trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><br>\u201cLabour vs Leisure\u201d &#8211; pavilh\u00e3o romeno da Bienal de Veneza (2024)<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"683\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/labour-vs-leisure-683x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3676\" style=\"width:460px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/labour-vs-leisure-683x1024.jpg 683w, https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/labour-vs-leisure-200x300.jpg 200w, https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/labour-vs-leisure-768x1152.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/labour-vs-leisure-1024x1536.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/labour-vs-leisure.jpg 1067w\" sizes=\"auto, (max-width: 683px) 100vw, 683px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Cr\u00e9dito: Foto do autor (2024)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\"><br>A organiza\u00e7\u00e3o das regras de explora\u00e7\u00e3o se deu em 1943, com a Consolida\u00e7\u00e3o das Leis do Trabalho por Get\u00falio Vargas. Entretanto, o dia deixava de ser dos trabalhadores que sofrem para ser chamado de Dia do Trabalho. Seguran\u00e7a, f\u00e9rias, m\u00e1ximo de jornada e sal\u00e1rio-m\u00ednimo foram adotados no dia 1\u00ba de maio daquele ano. Normalmente era a data em que era anunciado o aumento do sal\u00e1rio-m\u00ednimo, que, por mais modesto e injusto, \u00e9 sempre algo a ser comemorado.<br><br>Assim, ao inv\u00e9s de ter passeatas e manifesta\u00e7\u00e3o de trabalhadores, 1\u00ba de maio passou a ter comemora\u00e7\u00f5es e desfiles oficiais festejando o trabalho. O dia da consci\u00eancia de classe se transformou no dia da explora\u00e7\u00e3o consentida. A mudan\u00e7a sem\u00e2ntica, como diria Umberto Eco, reflete um c\u00f3digo ideol\u00f3gico: ao substituir o sujeito pelo sistema, o Estado reconfigurou o imagin\u00e1rio coletivo, fazendo com que o signo \u201ctrabalho\u201d evocasse n\u00e3o mais resist\u00eancia, mas submiss\u00e3o ritual\u00edstica.<br><br>Aos poucos, mas tamb\u00e9m num caneta\u00e7o, uma data em que companheiros se reuniam para celebrar sua classe e organizar suas lutas deu lugar a um tapa nas costas, uma janta com os patr\u00f5es, um presente para retirar no RH da empresa. O trabalho deixa de ser obra do trabalhador para o trabalhador ser demanda do trabalho. N\u00e3o \u00e9 curioso que h\u00e1 quem pense que o trabalhador deve agradecer pelo emprego que recebe?<br><br>\u00c9 tamb\u00e9m sob a l\u00f3gica s\u00edgnica, portanto, que a rela\u00e7\u00e3o entre patr\u00e3o e empregado \u00e9 distorcida: o emprego \u00e9 representado como um favor, n\u00e3o como um direito, invertendo a hierarquia real de depend\u00eancia econ\u00f4mica.<br><br>Quando celebrado como valor superior e indiscut\u00edvel, o trabalho se torna um mito em torno do qual gira o imagin\u00e1rio da sociedade moderna ocidental: \u00e9 preciso sofrer. Em locais em que m\u00e1rtires praticam a autoimola\u00e7\u00e3o para trabalhar o corpo, este mito \u00e9 atualizado em frases prontas como \u201cno pain, no gain\u201d. No mundo corporativo, sentido semelhante est\u00e1 no jarg\u00e3o \u201c\u00e9 s\u00f3 no dicion\u00e1rio que o sucesso vem antes do trabalho\u201d. Mas o mantra mais comum \u00e9 o antiqu\u00edssimo \u201co trabalho enobrece o homem\u201d.<br><br>A imagem que essa frase tenta criar \u00e9 de que o trabalho e suas dificuldades formam o (bom) car\u00e1ter de uma pessoa, como se o suor tirasse as impurezas de seu corpo, tornando-o, assim, nobre. Mas nobre \u00e9 sin\u00f4nimo tanto de bom quanto de membro da nobreza: o trabalho n\u00e3o s\u00f3 torna o ser humano nobre (bom) como torna o homem um nobre (um burgu\u00eas).<br><br>Ali est\u00e1 tamb\u00e9m o mito do trabalho como condi\u00e7\u00e3o para a mobilidade social: trabalhando, ou seja, se esfor\u00e7ando, tudo seria poss\u00edvel. Nesta l\u00f3gica, quem \u00e9 explorado o \u00e9 porque quer. A individua\u00e7\u00e3o da culpa tem como lei moral subir na vida para se tornar tamb\u00e9m um explorador. Vencer \u00e9 isso.<br><br>O mito do trabalho permite valorizar quem escolhe sofrer e julgar quem n\u00e3o fizer o mesmo: \u201cSe eu tive que sofrer, quem \u00e9 voc\u00ea para ousar fazer diferente? Como ousa neg\u00e1-lo?\u201d. O trabalho, assim, de atividade emancipadora acaba desviado para ideias antigas de ressentimento, baseadas no esfor\u00e7o e no sofrimento; continua sendo mais uma forma de abnega\u00e7\u00e3o, at\u00e9 a chegada do para\u00edso, a aposentadoria.<br><br>A luta pelo sentido \u2013 entre o Dia do Trabalho e o Dia dos Trabalhadores \u2013 \u00e9 tamb\u00e9m uma luta pelo poder. S\u00f3 quando o signo \u201ctrabalhador\u201d recuperar sua ag\u00eancia hist\u00f3rica romperemos o c\u00edrculo de castidade que aprisiona nossa obra \u00e0 servid\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Tiago Segabinazzi: Trabalhadores do mundo, pensemos: se, de qualquer forma, 1\u00ba de maio \u00e9 um feriado, faz alguma diferen\u00e7a chamar essa data de Dia do Trabalho ou de Dia dos Trabalhadores? Basta termos folga para n\u00e3o nos importarmos se a homenagem \u00e9 dirigida a quem se esfor\u00e7a ou \u00e0quilo que nos obriga a nos esfor\u00e7armos? Nessa pequena varia\u00e7\u00e3o de letras h\u00e1 um pouco de luta de classes, um pouco de semi\u00f3tica e mais um tanto da pr\u00f3pria quest\u00e3o existencial de se trabalhar. Na escolha do termo se encontra o sentido intencionado: se o dia n\u00e3o remeter ao sujeito (o trabalhador), mas ao objeto abstrato (o trabalho), o humano \u00e9 apagado em favor de uma entidade despersonalizada. O trabalho torna-se, assim, um mito moderno, como apontaria Roland Barthes, que transforma uma rela\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de explora\u00e7\u00e3o em um valor naturalizado, inquestion\u00e1vel. A invers\u00e3o \u00e9 semi\u00f3tica e hist\u00f3rica. H\u00e1 exatamente um s\u00e9culo o Brasil reconheceu essa data como o Dia do Trabalhador. Extraoficialmente e anteriormente, por\u00e9m, j\u00e1 se tratava de um marco da mem\u00f3ria coletiva do proletariado. Em 1\u00ba de maio de 1886, quando ocorreu uma greve geral nos Estados Unidos que exigia o limite de oito horas di\u00e1rias para a jornada de trabalho, houve confronto com a pol\u00edcia e morte de sindicalistas que protestaram. As manifesta\u00e7\u00f5es se espalharam pelo pa\u00eds e nos anos seguintes oper\u00e1rios da Europa usaram esta data para homenagear os trabalhadores e organizar protestos e greves. Ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o oficial da escravatura, imigrantes europeus vieram ao Brasil e trouxeram consigo ideias anarquistas, socialistas e comunistas que colaboraram com a agita\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora e culminaram na primeira greve geral em 1917. Como o governo sofria com os embates com os movimentos sociais, em 26 de setembro de 1924 Artur Bernardes decretou a data do ano seguinte como feriado nacional \u201cconsagrado \u00e0 confraternidade universal das classes oper\u00e1rias e \u00e0 comemora\u00e7\u00e3o dos m\u00e1rtires do trabalho\u201d. Exatamente, m\u00e1rtir: \u201cpessoa que passa por tormentos e flagelos para defender as suas cren\u00e7as, opini\u00f5es, causas, entre outras\u201d; \u201csujeito sacrificado\u201d; \u201cindiv\u00edduo que pena ou sofre imensamente\u201d. Nunca houve d\u00favidas sobre o quanto trabalhar significa sofrer. Decretar um dia especial \u00e0queles que sofriam foi uma tentativa de acalmar os \u00e2nimos sem acabar com a rela\u00e7\u00e3o de abuso. O termo \u201cm\u00e1rtir\u201d funciona da seguinte forma: ao mesmo tempo em que reconhece o sofrimento, o glorifica; converte a dor em virtude. De acordo com Charles Sanders Peirce, o efeito de um signo \u00e9 um interpretante: a ideia que se forma na mente do int\u00e9rprete. Ainda que esse efeito seja em algum grau indeterminado, \u00e9 poss\u00edvel pensarmos que tal interpretante oscile entre a compaix\u00e3o e a resigna\u00e7\u00e3o, refor\u00e7ando, assim, a no\u00e7\u00e3o de que o sacrif\u00edcio \u00e9 t\u00e3o inevit\u00e1vel quanto desej\u00e1vel. Como \u00e9 poss\u00edvel afirmar isso? A partir dos ind\u00edcios que vemos em nossa cultura: com exce\u00e7\u00e3o da arte, h\u00e1 poucos exemplos de celebra\u00e7\u00e3o da pregui\u00e7a, mas n\u00e3o faltam exalta\u00e7\u00f5es ao trabalho. \u201cLabour vs Leisure\u201d &#8211; pavilh\u00e3o romeno da Bienal de Veneza (2024) A organiza\u00e7\u00e3o das regras de explora\u00e7\u00e3o se deu em 1943, com a Consolida\u00e7\u00e3o das Leis do Trabalho por Get\u00falio Vargas. Entretanto, o dia deixava de ser dos trabalhadores que sofrem para ser chamado de Dia do Trabalho. Seguran\u00e7a, f\u00e9rias, m\u00e1ximo de jornada e sal\u00e1rio-m\u00ednimo foram adotados no dia 1\u00ba de maio daquele ano. Normalmente era a data em que era anunciado o aumento do sal\u00e1rio-m\u00ednimo, que, por mais modesto e injusto, \u00e9 sempre algo a ser comemorado. Assim, ao inv\u00e9s de ter passeatas e manifesta\u00e7\u00e3o de trabalhadores, 1\u00ba de maio passou a ter comemora\u00e7\u00f5es e desfiles oficiais festejando o trabalho. O dia da consci\u00eancia de classe se transformou no dia da explora\u00e7\u00e3o consentida. A mudan\u00e7a sem\u00e2ntica, como diria Umberto Eco, reflete um c\u00f3digo ideol\u00f3gico: ao substituir o sujeito pelo sistema, o Estado reconfigurou o imagin\u00e1rio coletivo, fazendo com que o signo \u201ctrabalho\u201d evocasse n\u00e3o mais resist\u00eancia, mas submiss\u00e3o ritual\u00edstica. Aos poucos, mas tamb\u00e9m num caneta\u00e7o, uma data em que companheiros se reuniam para celebrar sua classe e organizar suas lutas deu lugar a um tapa nas costas, uma janta com os patr\u00f5es, um presente para retirar no RH da empresa. O trabalho deixa de ser obra do trabalhador para o trabalhador ser demanda do trabalho. N\u00e3o \u00e9 curioso que h\u00e1 quem pense que o trabalhador deve agradecer pelo emprego que recebe? \u00c9 tamb\u00e9m sob a l\u00f3gica s\u00edgnica, portanto, que a rela\u00e7\u00e3o entre patr\u00e3o e empregado \u00e9 distorcida: o emprego \u00e9 representado como um favor, n\u00e3o como um direito, invertendo a hierarquia real de depend\u00eancia econ\u00f4mica. Quando celebrado como valor superior e indiscut\u00edvel, o trabalho se torna um mito em torno do qual gira o imagin\u00e1rio da sociedade moderna ocidental: \u00e9 preciso sofrer. Em locais em que m\u00e1rtires praticam a autoimola\u00e7\u00e3o para trabalhar o corpo, este mito \u00e9 atualizado em frases prontas como \u201cno pain, no gain\u201d. No mundo corporativo, sentido semelhante est\u00e1 no jarg\u00e3o \u201c\u00e9 s\u00f3 no dicion\u00e1rio que o sucesso vem antes do trabalho\u201d. Mas o mantra mais comum \u00e9 o antiqu\u00edssimo \u201co trabalho enobrece o homem\u201d. A imagem que essa frase tenta criar \u00e9 de que o trabalho e suas dificuldades formam o (bom) car\u00e1ter de uma pessoa, como se o suor tirasse as impurezas de seu corpo, tornando-o, assim, nobre. Mas nobre \u00e9 sin\u00f4nimo tanto de bom quanto de membro da nobreza: o trabalho n\u00e3o s\u00f3 torna o ser humano nobre (bom) como torna o homem um nobre (um burgu\u00eas). Ali est\u00e1 tamb\u00e9m o mito do trabalho como condi\u00e7\u00e3o para a mobilidade social: trabalhando, ou seja, se esfor\u00e7ando, tudo seria poss\u00edvel. Nesta l\u00f3gica, quem \u00e9 explorado o \u00e9 porque quer. A individua\u00e7\u00e3o da culpa tem como lei moral subir na vida para se tornar tamb\u00e9m um explorador. Vencer \u00e9 isso. O mito do trabalho permite valorizar quem escolhe sofrer e julgar quem n\u00e3o fizer o mesmo: \u201cSe eu tive que sofrer, quem \u00e9 voc\u00ea para ousar fazer diferente? Como ousa neg\u00e1-lo?\u201d. O trabalho, assim, de atividade emancipadora acaba desviado para ideias antigas de ressentimento, baseadas no esfor\u00e7o e no sofrimento; continua sendo mais uma forma de abnega\u00e7\u00e3o, at\u00e9 a chegada do para\u00edso, a aposentadoria. A luta pelo sentido \u2013 entre o Dia do Trabalho e o Dia dos Trabalhadores \u2013 \u00e9 tamb\u00e9m uma luta pelo poder. 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Extraoficialmente e anteriormente, por\u00e9m, j\u00e1 se tratava de um marco da mem\u00f3ria coletiva do proletariado. Em 1\u00ba de maio de 1886, quando ocorreu uma greve geral nos Estados Unidos que exigia o limite de oito horas di\u00e1rias para a jornada de trabalho, houve confronto com a pol\u00edcia e morte de sindicalistas que protestaram. As manifesta\u00e7\u00f5es se espalharam pelo pa\u00eds e nos anos seguintes oper\u00e1rios da Europa usaram esta data para homenagear os trabalhadores e organizar protestos e greves. Ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o oficial da escravatura, imigrantes europeus vieram ao Brasil e trouxeram consigo ideias anarquistas, socialistas e comunistas que colaboraram com a agita\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora e culminaram na primeira greve geral em 1917. Como o governo sofria com os embates com os movimentos sociais, em 26 de setembro de 1924 Artur Bernardes decretou a data do ano seguinte como feriado nacional \u201cconsagrado \u00e0 confraternidade universal das classes oper\u00e1rias e \u00e0 comemora\u00e7\u00e3o dos m\u00e1rtires do trabalho\u201d. Exatamente, m\u00e1rtir: \u201cpessoa que passa por tormentos e flagelos para defender as suas cren\u00e7as, opini\u00f5es, causas, entre outras\u201d; \u201csujeito sacrificado\u201d; \u201cindiv\u00edduo que pena ou sofre imensamente\u201d. Nunca houve d\u00favidas sobre o quanto trabalhar significa sofrer. Decretar um dia especial \u00e0queles que sofriam foi uma tentativa de acalmar os \u00e2nimos sem acabar com a rela\u00e7\u00e3o de abuso. O termo \u201cm\u00e1rtir\u201d funciona da seguinte forma: ao mesmo tempo em que reconhece o sofrimento, o glorifica; converte a dor em virtude. De acordo com Charles Sanders Peirce, o efeito de um signo \u00e9 um interpretante: a ideia que se forma na mente do int\u00e9rprete. Ainda que esse efeito seja em algum grau indeterminado, \u00e9 poss\u00edvel pensarmos que tal interpretante oscile entre a compaix\u00e3o e a resigna\u00e7\u00e3o, refor\u00e7ando, assim, a no\u00e7\u00e3o de que o sacrif\u00edcio \u00e9 t\u00e3o inevit\u00e1vel quanto desej\u00e1vel. Como \u00e9 poss\u00edvel afirmar isso? A partir dos ind\u00edcios que vemos em nossa cultura: com exce\u00e7\u00e3o da arte, h\u00e1 poucos exemplos de celebra\u00e7\u00e3o da pregui\u00e7a, mas n\u00e3o faltam exalta\u00e7\u00f5es ao trabalho. \u201cLabour vs Leisure\u201d &#8211; pavilh\u00e3o romeno da Bienal de Veneza (2024) A organiza\u00e7\u00e3o das regras de explora\u00e7\u00e3o se deu em 1943, com a Consolida\u00e7\u00e3o das Leis do Trabalho por Get\u00falio Vargas. Entretanto, o dia deixava de ser dos trabalhadores que sofrem para ser chamado de Dia do Trabalho. Seguran\u00e7a, f\u00e9rias, m\u00e1ximo de jornada e sal\u00e1rio-m\u00ednimo foram adotados no dia 1\u00ba de maio daquele ano. Normalmente era a data em que era anunciado o aumento do sal\u00e1rio-m\u00ednimo, que, por mais modesto e injusto, \u00e9 sempre algo a ser comemorado. Assim, ao inv\u00e9s de ter passeatas e manifesta\u00e7\u00e3o de trabalhadores, 1\u00ba de maio passou a ter comemora\u00e7\u00f5es e desfiles oficiais festejando o trabalho. O dia da consci\u00eancia de classe se transformou no dia da explora\u00e7\u00e3o consentida. A mudan\u00e7a sem\u00e2ntica, como diria Umberto Eco, reflete um c\u00f3digo ideol\u00f3gico: ao substituir o sujeito pelo sistema, o Estado reconfigurou o imagin\u00e1rio coletivo, fazendo com que o signo \u201ctrabalho\u201d evocasse n\u00e3o mais resist\u00eancia, mas submiss\u00e3o ritual\u00edstica. Aos poucos, mas tamb\u00e9m num caneta\u00e7o, uma data em que companheiros se reuniam para celebrar sua classe e organizar suas lutas deu lugar a um tapa nas costas, uma janta com os patr\u00f5es, um presente para retirar no RH da empresa. O trabalho deixa de ser obra do trabalhador para o trabalhador ser demanda do trabalho. N\u00e3o \u00e9 curioso que h\u00e1 quem pense que o trabalhador deve agradecer pelo emprego que recebe? \u00c9 tamb\u00e9m sob a l\u00f3gica s\u00edgnica, portanto, que a rela\u00e7\u00e3o entre patr\u00e3o e empregado \u00e9 distorcida: o emprego \u00e9 representado como um favor, n\u00e3o como um direito, invertendo a hierarquia real de depend\u00eancia econ\u00f4mica. Quando celebrado como valor superior e indiscut\u00edvel, o trabalho se torna um mito em torno do qual gira o imagin\u00e1rio da sociedade moderna ocidental: \u00e9 preciso sofrer. Em locais em que m\u00e1rtires praticam a autoimola\u00e7\u00e3o para trabalhar o corpo, este mito \u00e9 atualizado em frases prontas como \u201cno pain, no gain\u201d. No mundo corporativo, sentido semelhante est\u00e1 no jarg\u00e3o \u201c\u00e9 s\u00f3 no dicion\u00e1rio que o sucesso vem antes do trabalho\u201d. Mas o mantra mais comum \u00e9 o antiqu\u00edssimo \u201co trabalho enobrece o homem\u201d. A imagem que essa frase tenta criar \u00e9 de que o trabalho e suas dificuldades formam o (bom) car\u00e1ter de uma pessoa, como se o suor tirasse as impurezas de seu corpo, tornando-o, assim, nobre. Mas nobre \u00e9 sin\u00f4nimo tanto de bom quanto de membro da nobreza: o trabalho n\u00e3o s\u00f3 torna o ser humano nobre (bom) como torna o homem um nobre (um burgu\u00eas). Ali est\u00e1 tamb\u00e9m o mito do trabalho como condi\u00e7\u00e3o para a mobilidade social: trabalhando, ou seja, se esfor\u00e7ando, tudo seria poss\u00edvel. 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Basta termos folga para n\u00e3o nos importarmos se a homenagem \u00e9 dirigida a quem se esfor\u00e7a ou \u00e0quilo que nos obriga a nos esfor\u00e7armos? Nessa pequena varia\u00e7\u00e3o de letras h\u00e1 um pouco de luta de classes, um pouco de semi\u00f3tica e mais um tanto da pr\u00f3pria quest\u00e3o existencial de se trabalhar. Na escolha do termo se encontra o sentido intencionado: se o dia n\u00e3o remeter ao sujeito (o trabalhador), mas ao objeto abstrato (o trabalho), o humano \u00e9 apagado em favor de uma entidade despersonalizada. O trabalho torna-se, assim, um mito moderno, como apontaria Roland Barthes, que transforma uma rela\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de explora\u00e7\u00e3o em um valor naturalizado, inquestion\u00e1vel. A invers\u00e3o \u00e9 semi\u00f3tica e hist\u00f3rica. H\u00e1 exatamente um s\u00e9culo o Brasil reconheceu essa data como o Dia do Trabalhador. Extraoficialmente e anteriormente, por\u00e9m, j\u00e1 se tratava de um marco da mem\u00f3ria coletiva do proletariado. Em 1\u00ba de maio de 1886, quando ocorreu uma greve geral nos Estados Unidos que exigia o limite de oito horas di\u00e1rias para a jornada de trabalho, houve confronto com a pol\u00edcia e morte de sindicalistas que protestaram. As manifesta\u00e7\u00f5es se espalharam pelo pa\u00eds e nos anos seguintes oper\u00e1rios da Europa usaram esta data para homenagear os trabalhadores e organizar protestos e greves. Ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o oficial da escravatura, imigrantes europeus vieram ao Brasil e trouxeram consigo ideias anarquistas, socialistas e comunistas que colaboraram com a agita\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora e culminaram na primeira greve geral em 1917. Como o governo sofria com os embates com os movimentos sociais, em 26 de setembro de 1924 Artur Bernardes decretou a data do ano seguinte como feriado nacional \u201cconsagrado \u00e0 confraternidade universal das classes oper\u00e1rias e \u00e0 comemora\u00e7\u00e3o dos m\u00e1rtires do trabalho\u201d. Exatamente, m\u00e1rtir: \u201cpessoa que passa por tormentos e flagelos para defender as suas cren\u00e7as, opini\u00f5es, causas, entre outras\u201d; \u201csujeito sacrificado\u201d; \u201cindiv\u00edduo que pena ou sofre imensamente\u201d. Nunca houve d\u00favidas sobre o quanto trabalhar significa sofrer. Decretar um dia especial \u00e0queles que sofriam foi uma tentativa de acalmar os \u00e2nimos sem acabar com a rela\u00e7\u00e3o de abuso. O termo \u201cm\u00e1rtir\u201d funciona da seguinte forma: ao mesmo tempo em que reconhece o sofrimento, o glorifica; converte a dor em virtude. De acordo com Charles Sanders Peirce, o efeito de um signo \u00e9 um interpretante: a ideia que se forma na mente do int\u00e9rprete. Ainda que esse efeito seja em algum grau indeterminado, \u00e9 poss\u00edvel pensarmos que tal interpretante oscile entre a compaix\u00e3o e a resigna\u00e7\u00e3o, refor\u00e7ando, assim, a no\u00e7\u00e3o de que o sacrif\u00edcio \u00e9 t\u00e3o inevit\u00e1vel quanto desej\u00e1vel. Como \u00e9 poss\u00edvel afirmar isso? A partir dos ind\u00edcios que vemos em nossa cultura: com exce\u00e7\u00e3o da arte, h\u00e1 poucos exemplos de celebra\u00e7\u00e3o da pregui\u00e7a, mas n\u00e3o faltam exalta\u00e7\u00f5es ao trabalho. \u201cLabour vs Leisure\u201d &#8211; pavilh\u00e3o romeno da Bienal de Veneza (2024) A organiza\u00e7\u00e3o das regras de explora\u00e7\u00e3o se deu em 1943, com a Consolida\u00e7\u00e3o das Leis do Trabalho por Get\u00falio Vargas. Entretanto, o dia deixava de ser dos trabalhadores que sofrem para ser chamado de Dia do Trabalho. Seguran\u00e7a, f\u00e9rias, m\u00e1ximo de jornada e sal\u00e1rio-m\u00ednimo foram adotados no dia 1\u00ba de maio daquele ano. Normalmente era a data em que era anunciado o aumento do sal\u00e1rio-m\u00ednimo, que, por mais modesto e injusto, \u00e9 sempre algo a ser comemorado. Assim, ao inv\u00e9s de ter passeatas e manifesta\u00e7\u00e3o de trabalhadores, 1\u00ba de maio passou a ter comemora\u00e7\u00f5es e desfiles oficiais festejando o trabalho. O dia da consci\u00eancia de classe se transformou no dia da explora\u00e7\u00e3o consentida. A mudan\u00e7a sem\u00e2ntica, como diria Umberto Eco, reflete um c\u00f3digo ideol\u00f3gico: ao substituir o sujeito pelo sistema, o Estado reconfigurou o imagin\u00e1rio coletivo, fazendo com que o signo \u201ctrabalho\u201d evocasse n\u00e3o mais resist\u00eancia, mas submiss\u00e3o ritual\u00edstica. 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Em locais em que m\u00e1rtires praticam a autoimola\u00e7\u00e3o para trabalhar o corpo, este mito \u00e9 atualizado em frases prontas como \u201cno pain, no gain\u201d. No mundo corporativo, sentido semelhante est\u00e1 no jarg\u00e3o \u201c\u00e9 s\u00f3 no dicion\u00e1rio que o sucesso vem antes do trabalho\u201d. Mas o mantra mais comum \u00e9 o antiqu\u00edssimo \u201co trabalho enobrece o homem\u201d. A imagem que essa frase tenta criar \u00e9 de que o trabalho e suas dificuldades formam o (bom) car\u00e1ter de uma pessoa, como se o suor tirasse as impurezas de seu corpo, tornando-o, assim, nobre. Mas nobre \u00e9 sin\u00f4nimo tanto de bom quanto de membro da nobreza: o trabalho n\u00e3o s\u00f3 torna o ser humano nobre (bom) como torna o homem um nobre (um burgu\u00eas). Ali est\u00e1 tamb\u00e9m o mito do trabalho como condi\u00e7\u00e3o para a mobilidade social: trabalhando, ou seja, se esfor\u00e7ando, tudo seria poss\u00edvel. Nesta l\u00f3gica, quem \u00e9 explorado o \u00e9 porque quer. A individua\u00e7\u00e3o da culpa tem como lei moral subir na vida para se tornar tamb\u00e9m um explorador. Vencer \u00e9 isso. O mito do trabalho permite valorizar quem escolhe sofrer e julgar quem n\u00e3o fizer o mesmo: \u201cSe eu tive que sofrer, quem \u00e9 voc\u00ea para ousar fazer diferente? Como ousa neg\u00e1-lo?\u201d. O trabalho, assim, de atividade emancipadora acaba desviado para ideias antigas de ressentimento, baseadas no esfor\u00e7o e no sofrimento; continua sendo mais uma forma de abnega\u00e7\u00e3o, at\u00e9 a chegada do para\u00edso, a aposentadoria. A luta pelo sentido \u2013 entre o Dia do Trabalho e o Dia dos Trabalhadores \u2013 \u00e9 tamb\u00e9m uma luta pelo poder. 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