{"id":3684,"date":"2025-05-09T11:00:00","date_gmt":"2025-05-09T14:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/?p=3684"},"modified":"2025-05-06T15:22:19","modified_gmt":"2025-05-06T18:22:19","slug":"a-equivocidade-semiofagica-de-deus-e-o-diabo-na-terra-do-sol","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/a-equivocidade-semiofagica-de-deus-e-o-diabo-na-terra-do-sol\/","title":{"rendered":"A equivocidade semiof\u00e1gica de Deus e o Diabo na terra do sol"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Por Rico Machado:<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assisti, talvez pela terceira vez, Deus e o diabo na terra do sol (1964). Havia mais de dez anos entre a \u00faltima vez que vi o filme de Glauber Rocha e, agora, na minha nova incurs\u00e3o sobre a obra. A combina\u00e7\u00e3o que fiz com minha orientanda de IC, Mavi Simpl\u00edcio, era que assist\u00edssemos (ela tamb\u00e9m j\u00e1 tinha assistido anteiormente) o filme com uma certa aten\u00e7\u00e3o flutuante, nos termos de Kastrup (2009) e fiz\u00e9ssemos um mapa de nossas impress\u00f5es, para que, depois, compartilh\u00e1ssemos nossos olhares. Com esse objetivo me ocupei da tarefa. O que pretendo abordar de maneira muito breve neste texto \u00e9 um dos aspectos do filme que me chamaram aten\u00e7\u00e3o: a equivocidade de Deus e o Diabo, arqu\u00e9tipos centrais do filme.<br><br>Sert\u00e3o Mar (2019), de Ismail Xavier, e o ensaio Eztetyka da fome (1981), de Glauber Rocha, s\u00e3o textos incontorn\u00e1veis para qualquer discuss\u00e3o sobre o tema, portanto este \u00e9 meu ponto de partida. Tomando o Cinema Novo, nos termos de Glauber, n\u00e3o como resultado de uma mistifica\u00e7\u00e3o, mas \u201cda crise geral da arte brasileira\u201d (1981, p. 24), \u00e9 preciso pensar nossa condi\u00e7\u00e3o no mundo a partir de um olhar que negue uma certa autoindulg\u00eancia como face disfar\u00e7ada do paternalismo e de uma falsa compreens\u00e3o sobre nosso lugar no planeta.<br><br>Frente a isso Glauber postula: \u201c&#8221;Nossa originalidade \u00e9 nossa fome e nossa maior mis\u00e9ria \u00e9 que esta fome, sendo sentida, n\u00e3o \u00e9 compreendida&#8221; (1981, p. 30). Para sair do impasse, o cineasta prop\u00f5e: &#8220;Assim, somente uma cultura da fome, minando suas pr\u00f3prias estruturas, pode superar-se qualitativamente: e a mais nobre manifesta\u00e7\u00e3o cultural da fome \u00e9 a viol\u00eancia.&#8221; (1981, p. 31). Ismail Xavier sublinha a natureza sem\u00e2ntica do t\u00edtulo do ensaio glauberiano para demarcar a pot\u00eancia criativa deste tipo de cinema. \u201cA preposi\u00e7\u00e3o \u2018da\u2019, ao contr\u00e1rio da preposi\u00e7\u00e3o \u2018sobre\u2019, marca a diferen\u00e7a: a fome n\u00e3o se define como tema, objeto do qual se fala. Ela se instala na pr\u00f3pria forma do dizer, na pr\u00f3pria textura das obras\u201d (2019, p. 17).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><br><strong>O deus \u00e9 o diabo, o diabo \u00e9 Deus<\/strong><br><br>A cr\u00edtica que Glauber faz em seu ensaio ao paternalismo, categoria sociol\u00f3gica do patriarcado, tem no filme o casamento com a cr\u00edtica ao messianismo. Este \u00e9 o ponto central deste texto. Porque tanto Sebasti\u00e3o, o beato, quanto Corisco, o cangaceiro, encarnam ambos arqu\u00e9tipos transcendentais \u2013 deus e o diabo. Ant\u00f4nio das mortes, certo sentido, tamb\u00e9m, mas a ele cabe um outro papel, tanto mais imanente (seria necess\u00e1ria aqui uma longa digress\u00e3o sobre a encarna\u00e7\u00e3o deus e o diabo em suas vers\u00f5es imanente e transcendente, mas me furto sugerindo a leitura do livro de Ismail). A rela\u00e7\u00e3o proposta no filme \u00e9 l\u00f3gica e coerente com a hist\u00f3ria social tanto do messianismo, quanto do canga\u00e7o no Brasil.<br><br>Glauber se coloca em uma posi\u00e7\u00e3o, digamos assim, radicalmente antropof\u00e1gica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 tomada da viol\u00eancia como uma v\u00e1lvula de escape redentora. Portanto, quando faz da viol\u00eancia cinematogr\u00e1fica a tradu\u00e7\u00e3o est\u00e9tica da fome como nossa manifesta\u00e7\u00e3o cultural genu\u00edna, n\u00e3o prop\u00f5e com isso uma sublima\u00e7\u00e3o. Quero com isso dizer que a viol\u00eancia em Deus e o diabo na terra do sol n\u00e3o \u00e9 redentora. Tal aspecto, da sublima\u00e7\u00e3o, s\u00f3 seria cr\u00edvel se o conect\u00e1ssemos \u00e0 perspectiva trazida em Semiofagias canibais (2021), na qual \u201cTalvez pud\u00e9ssemos pensar algo como uma \u2018sublima\u00e7\u00e3o canibal\u2019 que cotejasse semelhan\u00e7as e diferen\u00e7as entre a vingan\u00e7a no sentido amer\u00edndio e ocidental, de tal modo que a primeira opera, por meio da ritualidade antropof\u00e1gica que a conforma, isto \u00e9, como um gesto de sublima\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a; ao passo que a segunda opera como destrui\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a, configurando-se a partir da din\u00e2mica do recalque\u201d (Machado, p. 89).<br><br>Retomo Ismail Xavier. \u201cA recapitula\u00e7\u00e3o de messianismo e canga\u00e7o tem em comum com a mem\u00f3ria coletiva esse movimento de recuperar o passado e seus her\u00f3is, para impedir seu desgaste e sua morte pelo tempo, para ressaltar sua dignidade. Mas, enquanto o cordel tende a projetar os seus her\u00f3is na eternidade, como figuras exemplares que escapam \u00e0 decad\u00eancia do mundo, Deus e o diabo projeta esses mesmos her\u00f3is numa temporalidade marcada pelo movimento incontido, pelas necessidades hist\u00f3ricas que decretam a morte de uns e outros como essencial para o progresso dos homens e para a realiza\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio da justi\u00e7a\u201d (2019, p. 159).<br><br>A liberta\u00e7\u00e3o de Manuel, personagem central do filme, n\u00e3o ocorre por uma reden\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica, nem pela via divina, tampouco pela via diab\u00f3lica. Ele \u00e9 liberado pela miseric\u00f3rdia imanente de Ant\u00f4nio das Mortes, que n\u00e3o o mata no massacre de Monte Santo, tampouco quando o encontra no bando de Corisco. A ritual\u00edstica de Deus e o diabo na terra do sol \u00e9 mais antropof\u00e1gica que m\u00edtica, na medida em que n\u00e3o prop\u00f5e um retorno ao princ\u00edpio dos eventos que desencadearam as desventuras de Manuel e Rosa, mas sempre em dire\u00e7\u00e3o a uma reinven\u00e7\u00e3o, como se o futuro s\u00f3 pudesse ser feito (e no filme \u00e9 precisamente assim) a partir do presente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><br><strong>Da identidade \u00e0 equivocidade<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 nesse ponto que a equivocidade, como aspecto semiof\u00e1gico do filme de Glauber, converte-se em uma chave de leitura interessante para pensarmos as constantes transforma\u00e7\u00f5es identit\u00e1rias de Manuel ao longo do filme, passando de vaqueiro, depois seguidor fan\u00e1tico religioso, depois cangaceiro e, por fim, liberto de si mesmo. &#8220;A equivocidade, entendida como a qualidade semi\u00f3tica da equivoca\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 somente um modo de comunicar pelas diferen\u00e7as, mas tamb\u00e9m o elo que une diferentes perspectivas&#8221; (Machado, 2025, p. 118).<br><br>Deus e o diabo na terra do sol \u00e9 um filme radical. Encarna-se, e com isso quero dizer toma corpo, na fome e na viol\u00eancia, tra\u00e7os culturais indel\u00e9veis da sociedade brasileira. Mas n\u00e3o toma isso de maneira rom\u00e2ntica. Glauber n\u00e3o recalca sua condi\u00e7\u00e3o social na falsa sublima\u00e7\u00e3o de um engajamento rom\u00e2ntico com o progressismo de seu tempo (algo comum ontem e hoje). Em seus filmes, n\u00e3o transfere a viol\u00eancia para o campo do simb\u00f3lico (o gesto pr\u00f3prio da sublima\u00e7\u00e3o), embora incontornavelmente a traduza em linguagem cinematogr\u00e1fica, mas a radicaliza em sua nudez imanente. Faz disso seu gesto antropof\u00e1gico ou melhor dizendo: semiof\u00e1gico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Rico Machado: Assisti, talvez pela terceira vez, Deus e o diabo na terra do sol (1964). 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Tomando o Cinema Novo, nos termos de Glauber, n\u00e3o como resultado de uma mistifica\u00e7\u00e3o, mas \u201cda crise geral da arte brasileira\u201d (1981, p. 24), \u00e9 preciso pensar nossa condi\u00e7\u00e3o no mundo a partir de um olhar que negue uma certa autoindulg\u00eancia como face disfar\u00e7ada do paternalismo e de uma falsa compreens\u00e3o sobre nosso lugar no planeta. Frente a isso Glauber postula: \u201c&#8221;Nossa originalidade \u00e9 nossa fome e nossa maior mis\u00e9ria \u00e9 que esta fome, sendo sentida, n\u00e3o \u00e9 compreendida&#8221; (1981, p. 30). Para sair do impasse, o cineasta prop\u00f5e: &#8220;Assim, somente uma cultura da fome, minando suas pr\u00f3prias estruturas, pode superar-se qualitativamente: e a mais nobre manifesta\u00e7\u00e3o cultural da fome \u00e9 a viol\u00eancia.&#8221; (1981, p. 31). Ismail Xavier sublinha a natureza sem\u00e2ntica do t\u00edtulo do ensaio glauberiano para demarcar a pot\u00eancia criativa deste tipo de cinema. \u201cA preposi\u00e7\u00e3o \u2018da\u2019, ao contr\u00e1rio da preposi\u00e7\u00e3o \u2018sobre\u2019, marca a diferen\u00e7a: a fome n\u00e3o se define como tema, objeto do qual se fala. Ela se instala na pr\u00f3pria forma do dizer, na pr\u00f3pria textura das obras\u201d (2019, p. 17). O deus \u00e9 o diabo, o diabo \u00e9 Deus A cr\u00edtica que Glauber faz em seu ensaio ao paternalismo, categoria sociol\u00f3gica do patriarcado, tem no filme o casamento com a cr\u00edtica ao messianismo. Este \u00e9 o ponto central deste texto. Porque tanto Sebasti\u00e3o, o beato, quanto Corisco, o cangaceiro, encarnam ambos arqu\u00e9tipos transcendentais \u2013 deus e o diabo. Ant\u00f4nio das mortes, certo sentido, tamb\u00e9m, mas a ele cabe um outro papel, tanto mais imanente (seria necess\u00e1ria aqui uma longa digress\u00e3o sobre a encarna\u00e7\u00e3o deus e o diabo em suas vers\u00f5es imanente e transcendente, mas me furto sugerindo a leitura do livro de Ismail). A rela\u00e7\u00e3o proposta no filme \u00e9 l\u00f3gica e coerente com a hist\u00f3ria social tanto do messianismo, quanto do canga\u00e7o no Brasil. Glauber se coloca em uma posi\u00e7\u00e3o, digamos assim, radicalmente antropof\u00e1gica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 tomada da viol\u00eancia como uma v\u00e1lvula de escape redentora. Portanto, quando faz da viol\u00eancia cinematogr\u00e1fica a tradu\u00e7\u00e3o est\u00e9tica da fome como nossa manifesta\u00e7\u00e3o cultural genu\u00edna, n\u00e3o prop\u00f5e com isso uma sublima\u00e7\u00e3o. Quero com isso dizer que a viol\u00eancia em Deus e o diabo na terra do sol n\u00e3o \u00e9 redentora. 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Mas, enquanto o cordel tende a projetar os seus her\u00f3is na eternidade, como figuras exemplares que escapam \u00e0 decad\u00eancia do mundo, Deus e o diabo projeta esses mesmos her\u00f3is numa temporalidade marcada pelo movimento incontido, pelas necessidades hist\u00f3ricas que decretam a morte de uns e outros como essencial para o progresso dos homens e para a realiza\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio da justi\u00e7a\u201d (2019, p. 159). A liberta\u00e7\u00e3o de Manuel, personagem central do filme, n\u00e3o ocorre por uma reden\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica, nem pela via divina, tampouco pela via diab\u00f3lica. Ele \u00e9 liberado pela miseric\u00f3rdia imanente de Ant\u00f4nio das Mortes, que n\u00e3o o mata no massacre de Monte Santo, tampouco quando o encontra no bando de Corisco. A ritual\u00edstica de Deus e o diabo na terra do sol \u00e9 mais antropof\u00e1gica que m\u00edtica, na medida em que n\u00e3o prop\u00f5e um retorno ao princ\u00edpio dos eventos que desencadearam as desventuras de Manuel e Rosa, mas sempre em dire\u00e7\u00e3o a uma reinven\u00e7\u00e3o, como se o futuro s\u00f3 pudesse ser feito (e no filme \u00e9 precisamente assim) a partir do presente. Da identidade \u00e0 equivocidade \u00c9 nesse ponto que a equivocidade, como aspecto semiof\u00e1gico do filme de Glauber, converte-se em uma chave de leitura interessante para pensarmos as constantes transforma\u00e7\u00f5es identit\u00e1rias de Manuel ao longo do filme, passando de vaqueiro, depois seguidor fan\u00e1tico religioso, depois cangaceiro e, por fim, liberto de si mesmo. &#8220;A equivocidade, entendida como a qualidade semi\u00f3tica da equivoca\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 somente um modo de comunicar pelas diferen\u00e7as, mas tamb\u00e9m o elo que une diferentes perspectivas&#8221; (Machado, 2025, p. 118). Deus e o diabo na terra do sol \u00e9 um filme radical. Encarna-se, e com isso quero dizer toma corpo, na fome e na viol\u00eancia, tra\u00e7os culturais indel\u00e9veis da sociedade brasileira. Mas n\u00e3o toma isso de maneira rom\u00e2ntica. Glauber n\u00e3o recalca sua condi\u00e7\u00e3o social na falsa sublima\u00e7\u00e3o de um engajamento rom\u00e2ntico com o progressismo de seu tempo (algo comum ontem e hoje). Em seus filmes, n\u00e3o transfere a viol\u00eancia para o campo do simb\u00f3lico (o gesto pr\u00f3prio da sublima\u00e7\u00e3o), embora incontornavelmente a traduza em linguagem cinematogr\u00e1fica, mas a radicaliza em sua nudez imanente. 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Tomando o Cinema Novo, nos termos de Glauber, n\u00e3o como resultado de uma mistifica\u00e7\u00e3o, mas \u201cda crise geral da arte brasileira\u201d (1981, p. 24), \u00e9 preciso pensar nossa condi\u00e7\u00e3o no mundo a partir de um olhar que negue uma certa autoindulg\u00eancia como face disfar\u00e7ada do paternalismo e de uma falsa compreens\u00e3o sobre nosso lugar no planeta. Frente a isso Glauber postula: \u201c&#8221;Nossa originalidade \u00e9 nossa fome e nossa maior mis\u00e9ria \u00e9 que esta fome, sendo sentida, n\u00e3o \u00e9 compreendida&#8221; (1981, p. 30). Para sair do impasse, o cineasta prop\u00f5e: &#8220;Assim, somente uma cultura da fome, minando suas pr\u00f3prias estruturas, pode superar-se qualitativamente: e a mais nobre manifesta\u00e7\u00e3o cultural da fome \u00e9 a viol\u00eancia.&#8221; (1981, p. 31). Ismail Xavier sublinha a natureza sem\u00e2ntica do t\u00edtulo do ensaio glauberiano para demarcar a pot\u00eancia criativa deste tipo de cinema. \u201cA preposi\u00e7\u00e3o \u2018da\u2019, ao contr\u00e1rio da preposi\u00e7\u00e3o \u2018sobre\u2019, marca a diferen\u00e7a: a fome n\u00e3o se define como tema, objeto do qual se fala. Ela se instala na pr\u00f3pria forma do dizer, na pr\u00f3pria textura das obras\u201d (2019, p. 17). O deus \u00e9 o diabo, o diabo \u00e9 Deus A cr\u00edtica que Glauber faz em seu ensaio ao paternalismo, categoria sociol\u00f3gica do patriarcado, tem no filme o casamento com a cr\u00edtica ao messianismo. Este \u00e9 o ponto central deste texto. Porque tanto Sebasti\u00e3o, o beato, quanto Corisco, o cangaceiro, encarnam ambos arqu\u00e9tipos transcendentais \u2013 deus e o diabo. Ant\u00f4nio das mortes, certo sentido, tamb\u00e9m, mas a ele cabe um outro papel, tanto mais imanente (seria necess\u00e1ria aqui uma longa digress\u00e3o sobre a encarna\u00e7\u00e3o deus e o diabo em suas vers\u00f5es imanente e transcendente, mas me furto sugerindo a leitura do livro de Ismail). A rela\u00e7\u00e3o proposta no filme \u00e9 l\u00f3gica e coerente com a hist\u00f3ria social tanto do messianismo, quanto do canga\u00e7o no Brasil. Glauber se coloca em uma posi\u00e7\u00e3o, digamos assim, radicalmente antropof\u00e1gica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 tomada da viol\u00eancia como uma v\u00e1lvula de escape redentora. Portanto, quando faz da viol\u00eancia cinematogr\u00e1fica a tradu\u00e7\u00e3o est\u00e9tica da fome como nossa manifesta\u00e7\u00e3o cultural genu\u00edna, n\u00e3o prop\u00f5e com isso uma sublima\u00e7\u00e3o. Quero com isso dizer que a viol\u00eancia em Deus e o diabo na terra do sol n\u00e3o \u00e9 redentora. 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Mas, enquanto o cordel tende a projetar os seus her\u00f3is na eternidade, como figuras exemplares que escapam \u00e0 decad\u00eancia do mundo, Deus e o diabo projeta esses mesmos her\u00f3is numa temporalidade marcada pelo movimento incontido, pelas necessidades hist\u00f3ricas que decretam a morte de uns e outros como essencial para o progresso dos homens e para a realiza\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio da justi\u00e7a\u201d (2019, p. 159). A liberta\u00e7\u00e3o de Manuel, personagem central do filme, n\u00e3o ocorre por uma reden\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica, nem pela via divina, tampouco pela via diab\u00f3lica. Ele \u00e9 liberado pela miseric\u00f3rdia imanente de Ant\u00f4nio das Mortes, que n\u00e3o o mata no massacre de Monte Santo, tampouco quando o encontra no bando de Corisco. A ritual\u00edstica de Deus e o diabo na terra do sol \u00e9 mais antropof\u00e1gica que m\u00edtica, na medida em que n\u00e3o prop\u00f5e um retorno ao princ\u00edpio dos eventos que desencadearam as desventuras de Manuel e Rosa, mas sempre em dire\u00e7\u00e3o a uma reinven\u00e7\u00e3o, como se o futuro s\u00f3 pudesse ser feito (e no filme \u00e9 precisamente assim) a partir do presente. 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Glauber n\u00e3o recalca sua condi\u00e7\u00e3o social na falsa sublima\u00e7\u00e3o de um engajamento rom\u00e2ntico com o progressismo de seu tempo (algo comum ontem e hoje). Em seus filmes, n\u00e3o transfere a viol\u00eancia para o campo do simb\u00f3lico (o gesto pr\u00f3prio da sublima\u00e7\u00e3o), embora incontornavelmente a traduza em linguagem cinematogr\u00e1fica, mas a radicaliza em sua nudez imanente. 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Havia mais de dez anos entre a \u00faltima vez que vi o filme de Glauber Rocha e, agora, na minha nova incurs\u00e3o sobre a obra. A combina\u00e7\u00e3o que fiz com minha orientanda de IC, Mavi Simpl\u00edcio, era que assist\u00edssemos (ela tamb\u00e9m j\u00e1 tinha assistido anteiormente) o filme com uma certa aten\u00e7\u00e3o flutuante, nos termos de Kastrup (2009) e fiz\u00e9ssemos um mapa de nossas impress\u00f5es, para que, depois, compartilh\u00e1ssemos nossos olhares. Com esse objetivo me ocupei da tarefa. O que pretendo abordar de maneira muito breve neste texto \u00e9 um dos aspectos do filme que me chamaram aten\u00e7\u00e3o: a equivocidade de Deus e o Diabo, arqu\u00e9tipos centrais do filme. Sert\u00e3o Mar (2019), de Ismail Xavier, e o ensaio Eztetyka da fome (1981), de Glauber Rocha, s\u00e3o textos incontorn\u00e1veis para qualquer discuss\u00e3o sobre o tema, portanto este \u00e9 meu ponto de partida. Tomando o Cinema Novo, nos termos de Glauber, n\u00e3o como resultado de uma mistifica\u00e7\u00e3o, mas \u201cda crise geral da arte brasileira\u201d (1981, p. 24), \u00e9 preciso pensar nossa condi\u00e7\u00e3o no mundo a partir de um olhar que negue uma certa autoindulg\u00eancia como face disfar\u00e7ada do paternalismo e de uma falsa compreens\u00e3o sobre nosso lugar no planeta. Frente a isso Glauber postula: \u201c&#8221;Nossa originalidade \u00e9 nossa fome e nossa maior mis\u00e9ria \u00e9 que esta fome, sendo sentida, n\u00e3o \u00e9 compreendida&#8221; (1981, p. 30). Para sair do impasse, o cineasta prop\u00f5e: &#8220;Assim, somente uma cultura da fome, minando suas pr\u00f3prias estruturas, pode superar-se qualitativamente: e a mais nobre manifesta\u00e7\u00e3o cultural da fome \u00e9 a viol\u00eancia.&#8221; (1981, p. 31). Ismail Xavier sublinha a natureza sem\u00e2ntica do t\u00edtulo do ensaio glauberiano para demarcar a pot\u00eancia criativa deste tipo de cinema. \u201cA preposi\u00e7\u00e3o \u2018da\u2019, ao contr\u00e1rio da preposi\u00e7\u00e3o \u2018sobre\u2019, marca a diferen\u00e7a: a fome n\u00e3o se define como tema, objeto do qual se fala. Ela se instala na pr\u00f3pria forma do dizer, na pr\u00f3pria textura das obras\u201d (2019, p. 17). O deus \u00e9 o diabo, o diabo \u00e9 Deus A cr\u00edtica que Glauber faz em seu ensaio ao paternalismo, categoria sociol\u00f3gica do patriarcado, tem no filme o casamento com a cr\u00edtica ao messianismo. Este \u00e9 o ponto central deste texto. Porque tanto Sebasti\u00e3o, o beato, quanto Corisco, o cangaceiro, encarnam ambos arqu\u00e9tipos transcendentais \u2013 deus e o diabo. Ant\u00f4nio das mortes, certo sentido, tamb\u00e9m, mas a ele cabe um outro papel, tanto mais imanente (seria necess\u00e1ria aqui uma longa digress\u00e3o sobre a encarna\u00e7\u00e3o deus e o diabo em suas vers\u00f5es imanente e transcendente, mas me furto sugerindo a leitura do livro de Ismail). A rela\u00e7\u00e3o proposta no filme \u00e9 l\u00f3gica e coerente com a hist\u00f3ria social tanto do messianismo, quanto do canga\u00e7o no Brasil. Glauber se coloca em uma posi\u00e7\u00e3o, digamos assim, radicalmente antropof\u00e1gica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 tomada da viol\u00eancia como uma v\u00e1lvula de escape redentora. Portanto, quando faz da viol\u00eancia cinematogr\u00e1fica a tradu\u00e7\u00e3o est\u00e9tica da fome como nossa manifesta\u00e7\u00e3o cultural genu\u00edna, n\u00e3o prop\u00f5e com isso uma sublima\u00e7\u00e3o. Quero com isso dizer que a viol\u00eancia em Deus e o diabo na terra do sol n\u00e3o \u00e9 redentora. 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Mas, enquanto o cordel tende a projetar os seus her\u00f3is na eternidade, como figuras exemplares que escapam \u00e0 decad\u00eancia do mundo, Deus e o diabo projeta esses mesmos her\u00f3is numa temporalidade marcada pelo movimento incontido, pelas necessidades hist\u00f3ricas que decretam a morte de uns e outros como essencial para o progresso dos homens e para a realiza\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio da justi\u00e7a\u201d (2019, p. 159). A liberta\u00e7\u00e3o de Manuel, personagem central do filme, n\u00e3o ocorre por uma reden\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica, nem pela via divina, tampouco pela via diab\u00f3lica. Ele \u00e9 liberado pela miseric\u00f3rdia imanente de Ant\u00f4nio das Mortes, que n\u00e3o o mata no massacre de Monte Santo, tampouco quando o encontra no bando de Corisco. A ritual\u00edstica de Deus e o diabo na terra do sol \u00e9 mais antropof\u00e1gica que m\u00edtica, na medida em que n\u00e3o prop\u00f5e um retorno ao princ\u00edpio dos eventos que desencadearam as desventuras de Manuel e Rosa, mas sempre em dire\u00e7\u00e3o a uma reinven\u00e7\u00e3o, como se o futuro s\u00f3 pudesse ser feito (e no filme \u00e9 precisamente assim) a partir do presente. Da identidade \u00e0 equivocidade \u00c9 nesse ponto que a equivocidade, como aspecto semiof\u00e1gico do filme de Glauber, converte-se em uma chave de leitura interessante para pensarmos as constantes transforma\u00e7\u00f5es identit\u00e1rias de Manuel ao longo do filme, passando de vaqueiro, depois seguidor fan\u00e1tico religioso, depois cangaceiro e, por fim, liberto de si mesmo. &#8220;A equivocidade, entendida como a qualidade semi\u00f3tica da equivoca\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 somente um modo de comunicar pelas diferen\u00e7as, mas tamb\u00e9m o elo que une diferentes perspectivas&#8221; (Machado, 2025, p. 118). Deus e o diabo na terra do sol \u00e9 um filme radical. Encarna-se, e com isso quero dizer toma corpo, na fome e na viol\u00eancia, tra\u00e7os culturais indel\u00e9veis da sociedade brasileira. Mas n\u00e3o toma isso de maneira rom\u00e2ntica. Glauber n\u00e3o recalca sua condi\u00e7\u00e3o social na falsa sublima\u00e7\u00e3o de um engajamento rom\u00e2ntico com o progressismo de seu tempo (algo comum ontem e hoje). Em seus filmes, n\u00e3o transfere a viol\u00eancia para o campo do simb\u00f3lico (o gesto pr\u00f3prio da sublima\u00e7\u00e3o), embora incontornavelmente a traduza em linguagem cinematogr\u00e1fica, mas a radicaliza em sua nudez imanente. Faz disso seu gesto antropof\u00e1gico ou melhor dizendo: semiof\u00e1gico.","og_url":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/a-equivocidade-semiofagica-de-deus-e-o-diabo-na-terra-do-sol\/","og_site_name":"Corporalidades","article_published_time":"2025-05-09T14:00:00+00:00","og_image":[{"width":437,"height":291,"url":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/deus-o-diabo-frame-do-filme.jpg","type":"image\/jpeg"}],"author":"gerente","twitter_card":"summary_large_image","twitter_misc":{"Written by":"gerente","Est. reading time":"5 minutes"},"schema":{"@context":"https:\/\/schema.org","@graph":[{"@type":"Article","@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/a-equivocidade-semiofagica-de-deus-e-o-diabo-na-terra-do-sol\/#article","isPartOf":{"@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/a-equivocidade-semiofagica-de-deus-e-o-diabo-na-terra-do-sol\/"},"author":{"name":"gerente","@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/#\/schema\/person\/e18ecb8063c1f965a031341c25460e43"},"headline":"A equivocidade semiof\u00e1gica de Deus e o Diabo na terra do sol","datePublished":"2025-05-09T14:00:00+00:00","mainEntityOfPage":{"@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/a-equivocidade-semiofagica-de-deus-e-o-diabo-na-terra-do-sol\/"},"wordCount":1106,"commentCount":0,"image":{"@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/a-equivocidade-semiofagica-de-deus-e-o-diabo-na-terra-do-sol\/#primaryimage"},"thumbnailUrl":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/deus-o-diabo-frame-do-filme.jpg","keywords":["Antropofagia","Comunica\u00e7\u00e3o"],"articleSection":["Blog"],"inLanguage":"en-US","potentialAction":[{"@type":"CommentAction","name":"Comment","target":["https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/a-equivocidade-semiofagica-de-deus-e-o-diabo-na-terra-do-sol\/#respond"]}]},{"@type":"WebPage","@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/a-equivocidade-semiofagica-de-deus-e-o-diabo-na-terra-do-sol\/","url":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/a-equivocidade-semiofagica-de-deus-e-o-diabo-na-terra-do-sol\/","name":"A equivocidade semiof\u00e1gica de Deus e o Diabo na terra do sol - 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