{"id":3704,"date":"2025-05-16T11:45:36","date_gmt":"2025-05-16T14:45:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/?p=3704"},"modified":"2025-05-16T11:45:37","modified_gmt":"2025-05-16T14:45:37","slug":"transformistas-no-show-de-calouros-interpelacoes-de-genero-e-desobediencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/transformistas-no-show-de-calouros-interpelacoes-de-genero-e-desobediencia\/","title":{"rendered":"Transformistas no &#8220;Show de Calouros&#8221;: Interpela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero e desobedi\u00eancia"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Por Douglas Ostruca:<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando comecei a pesquisar a cena transformista, h\u00e1 7 anos, encontrei no YouTube um fragmento do <em><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=ymcramoXRRM&amp;t=589s&amp;ab_channel=ArquivoTransformista\">Show de Calouros<\/a><\/em>, no qual as transformistas P\u00e2mela Costa e Cristiane s\u00e3o entrevistadas pelo apresentador Silvio Santos ap\u00f3s realizarem suas dublagens. Esse v\u00eddeo me retorna desde ent\u00e3o, junto de um inc\u00f4modo, um estranhamento que se faz no corpo. Neste ensaio, tatearei essa percep\u00e7\u00e3o de estranhamento, tentando localizar o ru\u00eddo estridente que ou\u00e7o em meio as perguntas feitas pelo apresentador \u00e0s artistas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O <em>Show de Calouros<\/em> foi apresentado por Silvio Santos entre 1977 e 1996 no SBT. Por dar espa\u00e7o \u00e0s transformistas, ainda na d\u00e9cada de 1980, Silvio \u00e9 reconhecido como precursor, sendo precedido apenas pelo quadro <em>Eles e Elas<\/em>, no Clube do Bolinha, exibido na Rede Bandeirantes entre 1974 e 1994. O paralelo localizado nas datas em que tais programas foram ao ar \u00e9 um indicador da disputa pela audi\u00eancia. Se, por um lado, tais programas s\u00e3o um marco na visibilidade da arte transformista em territ\u00f3rio nacional, ampliando a alcance dessas artistas para al\u00e9m das cenas locais. Por outro lado, \u00e9 evidente que a disputa pelos pontos de Ibope tamb\u00e9m est\u00e1 em jogo. Mas bem a dizer, n\u00e3o \u00e9 esse o cerne da quest\u00e3o j\u00e1 que, embora tirassem proveito do sucesso que a imagem das transformistas fazia na televis\u00e3o, esses programas tamb\u00e9m inspiraram muitas outras artistas Brasil afora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O estranhamento que agita o corpo, faz-se em sil\u00eancio entre perguntas e respostas. Em meio aos aplausos, risos e elogios tortos, percebo certa tens\u00e3o. A primeira pergunta direcionada por Silvio Santos \u00e0 P\u00e2mela Costa depois das performances apresentadas passa longe da quest\u00e3o art\u00edstica. \u201c\u00c9 do sexo masculino?\u201d. Da\u00ed se segue a inquisi\u00e7\u00e3o, digo, inquiri\u00e7\u00e3o. Embora n\u00e3o pare\u00e7a visivelmente desconfort\u00e1vel, a artista responde as perguntas de forma curta. Entre sins e n\u00e3os, ela deixa-se conduzir. Em um primeiro momento, o apresentador parecer averiguar a legitimidade dos c\u00f3digos de feminilidade expressos pela artista. Ele a olha de cima a baixo, avaliando: \u201cE quando vai \u00e0 praia (\u2026) fica de biqu\u00edni?\u201d; \u201cE o seu cabelo \u00e9 natural? (\u2026) N\u00e3o \u00e9 posti\u00e7o?\u201d; \u201cE seus olhos, s\u00e3o seus mesmo?\u201d; \u201cDentes perfeitos?\u201d; \u201cBusto bonito. Corpo bem delineado\u201d. Manifesta\u00e7\u00e3o explicita do \u201cmale gaze\u201d, t\u00edpica da posi\u00e7\u00e3o de masculinidade hegem\u00f4nica que se autoriza a olhar e avaliar corpos femininos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao falar do conceito de interpela\u00e7\u00e3o proposto por Althusser, Judith Butler (2018) aborda o car\u00e1ter constitutivo dos chamados da lei. Isso porque, quando interpelado pela lei, o sujeito \u00e9 convocado a responder a partir do enquadre normativo e, ao mesmo tempo, \u00e9 reconhecido como sujeito segundo os par\u00e2metros estabelecidos por tal enquadre. Em vista disso, pode-se dizer que os enunciados proferidas por Silvio Santos conferem legitimidade ao corpo de P\u00e2mela, tendo como base os par\u00e2metros bin\u00e1rios de g\u00eanero e os ideais estritos de beleza impostos aos corpos femininos. Trata-se de uma legitimidade restrita \u00e0 epistemologia bin\u00e1ria de g\u00eanero, a qual opera atrav\u00e9s da fixa\u00e7\u00e3o dos corpos em um dos polos \u2013 masculino ou feminino. Contudo, na continuidade do di\u00e1logo o apresentador localiza um elemento que supostamente n\u00e3o se ad\u00e9qua aos ideais de feminilidade vigentes naquele contexto. Ele pergunta: \u201cAgora, por que essa tatuagem aqui no seio? (\u2026) Voc\u00ea serviu ao ex\u00e9rcito? Esteve na marinha? Pilotou avi\u00f5es na aeron\u00e1utica? Esteve na guerra?\u201d. A artista responde reiteradamente: \u201cN\u00e3o\u201d. Ao que Silvio insiste: \u201cE por que a tatuagem?\u201d. Tais afirma\u00e7\u00f5es cobram a coer\u00eancia de uma identidade feminina ideal, a qual segundo as normas sociais cisheterocentradas n\u00e3o se adequa ao contexto da guerra e, portanto, n\u00e3o deve ter tatuagens. Nessa cadeia de signos, a tatuagem aparece como um c\u00f3digo masculino, sendo tido como apropriada aos homens que j\u00e1 estiveram \u201cno ex\u00e9rcito, na marinha, na aeron\u00e1utica, na guerra\u201d. Aqui se encontra uma primeira camada que comp\u00f5e o inc\u00f4modo que sinto ao me deparar com esse v\u00eddeo. As interpela\u00e7\u00f5es de Silvio operam em conformidade com o enquadramento bin\u00e1rio de g\u00eanero.<br><br>Ao tratar sobre o reconhecimento dos corpos a partir de enquadramentos normativos, Butler (2016, p. 85, <em>grifo nosso<\/em>) sugere que<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p>O corpo, na minha opini\u00e3o, \u00e9 onde encontramos uma variedade de perspectivas que podem ou n\u00e3o ser as nossas. O modo como sou apreendido, e como sou mantido, depende fundamentalmente das redes sociais e pol\u00edticas em que esse corpo vive, de como sou considerado e tratado, de como essa considera\u00e7\u00e3o e esse tratamento possibilitam essa vida ou n\u00e3o tornam essa vida viv\u00edvel. Assim, as normas de g\u00eanero mediante as quais compreendo a mim mesma e a minha capacidade de sobreviv\u00eancia n\u00e3o s\u00e3o estipuladas unicamente por mim. J\u00e1 estou nas m\u00e3os do outro quando tento avaliar quem sou. J\u00e1 estou me opondo a um mundo que nunca escolho quando exer\u00e7o minha ag\u00eancia. <strong>Infere-se da\u00ed que certos tipos de corpos parecer\u00e3o mais precariamente que outros, dependendo de que vers\u00f5es de corpo, ou da morfologia em geral, apoiam ou endossam a ideia de vida humana digna de prote\u00e7\u00e3o, amparo, subsist\u00eancia e luto. Esses enquadramentos normativos estabelecem de antem\u00e3o que tipo de vida ser\u00e1 digna de ser vivida<\/strong>, que vida ser\u00e1 digna de ser preservada e que vida ser\u00e1 digna de ser lamentada.<\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse sentido, o enquadramento discursivo que d\u00e1 base \u00e0s interpela\u00e7\u00f5es de Silvio Santos demarca as posi\u00e7\u00f5es de g\u00eanero como polos opostos, sustentando rela\u00e7\u00f5es hier\u00e1rquicas entre elas. Entretanto, esse movimento de reconhecimento da feminilidade expressa por P\u00e2mela, que emerge em meio \u00e0s cobran\u00e7as pelos ideais de bin\u00e1rios g\u00eanero, n\u00e3o se sustenta por muito tempo. Ao longo do v\u00eddeo, d\u00e1-se a ver um segundo movimento que coexiste com o primeiro, o de nega\u00e7\u00e3o da viv\u00eancia trans como um modo de vida poss\u00edvel, tendo como base os pr\u00f3prios par\u00e2metros bin\u00e1rios de g\u00eanero que foram reafirmados na inquisi\u00e7\u00e3o de P\u00e2mela. Silvio reconhece os c\u00f3digos de feminilidade corporificados por P\u00e2mela, para logo em seguida negar a possibilidade dessa exist\u00eancia, demarcando tais express\u00f5es como \u201cimita\u00e7\u00e3o de mulher\u201d e, consequentemente, restringindo-as ao trabalho art\u00edstico como transformista. Ele pergunta: \u201cQuando trabalha como artista, qual \u00e9 o seu nome art\u00edstico?\u201d. A artista responde: \u201cP\u00e2mela Costa\u201d. Ele prossegue: \u201cE quando n\u00e3o \u00e9 artista? Quando \u00e9 de segunda-feira, ter\u00e7a-feira, quarta-feira?\u201d. Ela reafirma o mesmo nome, ao que ele questiona: \u201cMas anda de mulher?\u201d. Ela confirma e Silvio pergunta se na profiss\u00e3o dela como \u201ccabeleireiro\u201d as pessoas sabem que ela \u201cde dia, \u00e9 homem e de noite, \u00e9 mulher\u201d. P\u00e2mela refor\u00e7a que \u00e9 mulher 24 horas por dia, n\u00e3o se restringindo apenas ao trabalho como artista transformista. A conversa se segue e parece que o apresentador n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de escutar sua entrevistada, o esquema interpretativo corporificado por ele parece n\u00e3o registrar o que \u00e9 dito pela artista. Ele continua chamando P\u00e2mela com pronomes masculinos, fazendo valer o enquadramento bin\u00e1rio de g\u00eanero em perspectiva cisheterocentrada.<br><br>Silvio Santos encerra a conversa com P\u00e2mela e inicia o assunto com Cristiane. Os pronomes de tratamento continuam no masculino, mas, diferente de P\u00e2mela, Cristiane n\u00e3o s\u00f3 responde ao que \u00e9 perguntada. Ela desafia as interpela\u00e7\u00f5es, reafirmando-se a cada enunciado com pronomes femininos. Em seus estudos, Butler (2018) questiona o poder supostamente unilateral da interpela\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que para ela \u00e9 poss\u00edvel recusar uma lei, rompendo com ela atrav\u00e9s de articula\u00e7\u00f5es que permitam se virar contra a autoridade da pr\u00f3pria lei. Nesse sentido, a fil\u00f3sofa sugere que a interpela\u00e7\u00e3o perde seu status de um simples performativo no sentido de que al\u00e9m de criar aquilo a que se refere, ela cria um excesso em rela\u00e7\u00e3o a qualquer referente. Portanto, existe uma falha constitutiva no pr\u00f3prio performativo, a qual d\u00e1 a ver a possibilidade de um deslize entre o comando discursivo e a sua apropria\u00e7\u00e3o, criando-se uma abertura para a desobedi\u00eancia. Isso pode ser localizado no confrontamento expl\u00edcito de Cristiane em rela\u00e7\u00e3o aos pressupostos levantados por Silvio em rela\u00e7\u00e3o a ela.<br><br>Quando o apresentador sugere que Cristiane poderia se interessar por Jorge Lafond, conhecido tamb\u00e9m como Vera Ver\u00e3o, Jorge responde que n\u00e3o combinaria: \u201cIr\u00edamos sair de bra\u00e7os dados para procurar um rapaz l\u00e1 embaixo no cal\u00e7ad\u00e3o\u201d. Silvio diz que n\u00e3o acredita; para ele, tanto Cristiane quanto Lafond estariam a mentir. Cristiane rebate: \u201cPor que mentindo?\u201d. Silvio responde: \u201cPorque n\u00e3o creio que sejam f\u00e3s de rapazes\u201d. A artista, indignada, afirma: \u201cSe eu n\u00e3o fosse f\u00e3 de rapaz, eu n\u00e3o tinha a forma feminina, eu era masculina e estava casada com uma mulher\u201d. O apresentador muda o tom, ao inv\u00e9s de validar a posi\u00e7\u00e3o enunciada, ele a questiona: \u201cMas voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 homem?\u201d. Ele usa o nome de Cristiane que fora designado no nascimento como forma de impor sua verdade. A artista \u201cn\u00e3o deita\u201d, ela responde que seu nome dado no nascimento \u201ctomou um veneno e morreu. A\u00ed, recebi o esp\u00edrito da Cristiane e ficou\u201d. O apresentador muda de assunto, ele recome\u00e7a a averigua\u00e7\u00e3o dos c\u00f3digos de feminilidade perguntando se o cabelo dela \u00e9 dela mesmo. Nisso, o movimento de legitimar a conformidade de tal corpo em rela\u00e7\u00e3o aos par\u00e2metros vigentes \u00e9 reinstaurado. Silvio elogia o cabelo de Cristiane, comparando-a comparando-a com Bo Derek no filme <em>Mulher Nota 10<\/em> (1979). Os pronomes vacilam nos enunciados que se seguem: \u201cMas voc\u00ea \u00e9 uma mo\u00e7a muito expansiva, \u00e9 um rapaz muito expansivo, n\u00e9?\u201d. Os limites do paradigma bin\u00e1rio de g\u00eanero s\u00e3o expostos e a desobedi\u00eancia de Cristiane \u00e9 marcada pelo adjetivo \u201cexpansiva\u201d.<br><br>O inc\u00f4modo que me percorre se faz a partir desse duplo movimento. Por um lado, h\u00e1 uma concess\u00e3o de reconhecimento dos corpos de P\u00e2mela e Cristiane como poss\u00edveis, segundo os limites muito estritos dos ideais de feminilidade heterociscentrados. Por outro lado, esse reconhecimento m\u00ednimo, que se d\u00e1 atrav\u00e9s de coment\u00e1rios machistas engendrados por hierarquias entre as posi\u00e7\u00f5es de homens e mulheres, \u00e9 negado em prol da estabiliza\u00e7\u00e3o do paradigma bin\u00e1rio cisheterocentrado. Essa tens\u00e3o que permeia as perguntas, respostas, aplausos e risos pode ser lida a partir do que Paul B. Preciado (2022) localiza como um choque entre duas epistemologias de g\u00eanero \u2013 uma epistemologia bin\u00e1ria e uma epistemologia dissidente que afirma a multiplicidade dos corpos. De acordo com o fil\u00f3sofo, a epistemologia bin\u00e1ria que sustenta o regime da diferen\u00e7a sexual e de g\u00eanero est\u00e1 em crise desde os anos 1940, quando surgem novas t\u00e9cnicas de representa\u00e7\u00e3o e manipula\u00e7\u00e3o dos corpos. Al\u00e9m disso, Preciado destaca que \u00e9 a partir desse per\u00edodo que os movimentos feministas, homossexuais e trans ganham for\u00e7a, contestando o sistema de sexo-g\u00eanero bin\u00e1rio. No v\u00eddeo aqui em quest\u00e3o, essa tens\u00e3o fecha um curto-circuito, as interpela\u00e7\u00f5es de Silvio Santos resvalam de longe quest\u00f5es art\u00edsticas sobre os trabalhos delas, caindo nesse \u00e2mbito, n\u00e3o por acaso, apenas quando P\u00e2mela e Cristiane se afirmam como mulheres para al\u00e9m dos palcos. Quando as respostas arriscam desestabilizar o enquadramento bin\u00e1rio cisheteronormativo, ent\u00e3o, o apresentador resgata o tema da imita\u00e7\u00e3o, como se para tais corpos a feminilidade fosse poss\u00edvel apenas nesse \u00e2mbito. Trata-se de um discurso que opera no limite, reconhece a proximidade da feminilidade corporeada pelas artistas com os ideais normativos vigentes, mas nega a viabilidade de tais viv\u00eancias no cotidiano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><strong>Imagem<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cr\u00e9dito: Arquivo Transformista\/YouTube.<br><br><br><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BUTLER, Judith. <strong>Corpos que importam<\/strong>: Os limites discursivos do \u201csexo\u201d. S\u00e3o Paulo: n-1 edi\u00e7\u00f5es, 2019.<br>BUTLER, Judith. <strong>Quadros de guerra<\/strong>: quando a vida \u00e9 pass\u00edvel de luto? Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2016.<br>PRECIADO, Paul B. <strong>Dysphoria Mundi<\/strong>: O som do mundo desmoronando. Rio de Janeiro: Zahar, 2023.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Douglas Ostruca: Quando comecei a pesquisar a cena transformista, h\u00e1 7 anos, encontrei no YouTube um fragmento do Show de Calouros, no qual as transformistas P\u00e2mela Costa e Cristiane s\u00e3o entrevistadas pelo apresentador Silvio Santos ap\u00f3s realizarem suas dublagens. Esse v\u00eddeo me retorna desde ent\u00e3o, junto de um inc\u00f4modo, um estranhamento que se faz no corpo. Neste ensaio, tatearei essa percep\u00e7\u00e3o de estranhamento, tentando localizar o ru\u00eddo estridente que ou\u00e7o em meio as perguntas feitas pelo apresentador \u00e0s artistas. O Show de Calouros foi apresentado por Silvio Santos entre 1977 e 1996 no SBT. Por dar espa\u00e7o \u00e0s transformistas, ainda na d\u00e9cada de 1980, Silvio \u00e9 reconhecido como precursor, sendo precedido apenas pelo quadro Eles e Elas, no Clube do Bolinha, exibido na Rede Bandeirantes entre 1974 e 1994. O paralelo localizado nas datas em que tais programas foram ao ar \u00e9 um indicador da disputa pela audi\u00eancia. Se, por um lado, tais programas s\u00e3o um marco na visibilidade da arte transformista em territ\u00f3rio nacional, ampliando a alcance dessas artistas para al\u00e9m das cenas locais. Por outro lado, \u00e9 evidente que a disputa pelos pontos de Ibope tamb\u00e9m est\u00e1 em jogo. Mas bem a dizer, n\u00e3o \u00e9 esse o cerne da quest\u00e3o j\u00e1 que, embora tirassem proveito do sucesso que a imagem das transformistas fazia na televis\u00e3o, esses programas tamb\u00e9m inspiraram muitas outras artistas Brasil afora. O estranhamento que agita o corpo, faz-se em sil\u00eancio entre perguntas e respostas. Em meio aos aplausos, risos e elogios tortos, percebo certa tens\u00e3o. A primeira pergunta direcionada por Silvio Santos \u00e0 P\u00e2mela Costa depois das performances apresentadas passa longe da quest\u00e3o art\u00edstica. \u201c\u00c9 do sexo masculino?\u201d. Da\u00ed se segue a inquisi\u00e7\u00e3o, digo, inquiri\u00e7\u00e3o. Embora n\u00e3o pare\u00e7a visivelmente desconfort\u00e1vel, a artista responde as perguntas de forma curta. Entre sins e n\u00e3os, ela deixa-se conduzir. Em um primeiro momento, o apresentador parecer averiguar a legitimidade dos c\u00f3digos de feminilidade expressos pela artista. Ele a olha de cima a baixo, avaliando: \u201cE quando vai \u00e0 praia (\u2026) fica de biqu\u00edni?\u201d; \u201cE o seu cabelo \u00e9 natural? (\u2026) N\u00e3o \u00e9 posti\u00e7o?\u201d; \u201cE seus olhos, s\u00e3o seus mesmo?\u201d; \u201cDentes perfeitos?\u201d; \u201cBusto bonito. Corpo bem delineado\u201d. Manifesta\u00e7\u00e3o explicita do \u201cmale gaze\u201d, t\u00edpica da posi\u00e7\u00e3o de masculinidade hegem\u00f4nica que se autoriza a olhar e avaliar corpos femininos. Ao falar do conceito de interpela\u00e7\u00e3o proposto por Althusser, Judith Butler (2018) aborda o car\u00e1ter constitutivo dos chamados da lei. Isso porque, quando interpelado pela lei, o sujeito \u00e9 convocado a responder a partir do enquadre normativo e, ao mesmo tempo, \u00e9 reconhecido como sujeito segundo os par\u00e2metros estabelecidos por tal enquadre. Em vista disso, pode-se dizer que os enunciados proferidas por Silvio Santos conferem legitimidade ao corpo de P\u00e2mela, tendo como base os par\u00e2metros bin\u00e1rios de g\u00eanero e os ideais estritos de beleza impostos aos corpos femininos. Trata-se de uma legitimidade restrita \u00e0 epistemologia bin\u00e1ria de g\u00eanero, a qual opera atrav\u00e9s da fixa\u00e7\u00e3o dos corpos em um dos polos \u2013 masculino ou feminino. Contudo, na continuidade do di\u00e1logo o apresentador localiza um elemento que supostamente n\u00e3o se ad\u00e9qua aos ideais de feminilidade vigentes naquele contexto. Ele pergunta: \u201cAgora, por que essa tatuagem aqui no seio? (\u2026) Voc\u00ea serviu ao ex\u00e9rcito? Esteve na marinha? Pilotou avi\u00f5es na aeron\u00e1utica? Esteve na guerra?\u201d. A artista responde reiteradamente: \u201cN\u00e3o\u201d. Ao que Silvio insiste: \u201cE por que a tatuagem?\u201d. Tais afirma\u00e7\u00f5es cobram a coer\u00eancia de uma identidade feminina ideal, a qual segundo as normas sociais cisheterocentradas n\u00e3o se adequa ao contexto da guerra e, portanto, n\u00e3o deve ter tatuagens. Nessa cadeia de signos, a tatuagem aparece como um c\u00f3digo masculino, sendo tido como apropriada aos homens que j\u00e1 estiveram \u201cno ex\u00e9rcito, na marinha, na aeron\u00e1utica, na guerra\u201d. Aqui se encontra uma primeira camada que comp\u00f5e o inc\u00f4modo que sinto ao me deparar com esse v\u00eddeo. As interpela\u00e7\u00f5es de Silvio operam em conformidade com o enquadramento bin\u00e1rio de g\u00eanero. Ao tratar sobre o reconhecimento dos corpos a partir de enquadramentos normativos, Butler (2016, p. 85, grifo nosso) sugere que O corpo, na minha opini\u00e3o, \u00e9 onde encontramos uma variedade de perspectivas que podem ou n\u00e3o ser as nossas. O modo como sou apreendido, e como sou mantido, depende fundamentalmente das redes sociais e pol\u00edticas em que esse corpo vive, de como sou considerado e tratado, de como essa considera\u00e7\u00e3o e esse tratamento possibilitam essa vida ou n\u00e3o tornam essa vida viv\u00edvel. Assim, as normas de g\u00eanero mediante as quais compreendo a mim mesma e a minha capacidade de sobreviv\u00eancia n\u00e3o s\u00e3o estipuladas unicamente por mim. J\u00e1 estou nas m\u00e3os do outro quando tento avaliar quem sou. J\u00e1 estou me opondo a um mundo que nunca escolho quando exer\u00e7o minha ag\u00eancia. Infere-se da\u00ed que certos tipos de corpos parecer\u00e3o mais precariamente que outros, dependendo de que vers\u00f5es de corpo, ou da morfologia em geral, apoiam ou endossam a ideia de vida humana digna de prote\u00e7\u00e3o, amparo, subsist\u00eancia e luto. Esses enquadramentos normativos estabelecem de antem\u00e3o que tipo de vida ser\u00e1 digna de ser vivida, que vida ser\u00e1 digna de ser preservada e que vida ser\u00e1 digna de ser lamentada. Nesse sentido, o enquadramento discursivo que d\u00e1 base \u00e0s interpela\u00e7\u00f5es de Silvio Santos demarca as posi\u00e7\u00f5es de g\u00eanero como polos opostos, sustentando rela\u00e7\u00f5es hier\u00e1rquicas entre elas. Entretanto, esse movimento de reconhecimento da feminilidade expressa por P\u00e2mela, que emerge em meio \u00e0s cobran\u00e7as pelos ideais de bin\u00e1rios g\u00eanero, n\u00e3o se sustenta por muito tempo. Ao longo do v\u00eddeo, d\u00e1-se a ver um segundo movimento que coexiste com o primeiro, o de nega\u00e7\u00e3o da viv\u00eancia trans como um modo de vida poss\u00edvel, tendo como base os pr\u00f3prios par\u00e2metros bin\u00e1rios de g\u00eanero que foram reafirmados na inquisi\u00e7\u00e3o de P\u00e2mela. Silvio reconhece os c\u00f3digos de feminilidade corporificados por P\u00e2mela, para logo em seguida negar a possibilidade dessa exist\u00eancia, demarcando tais express\u00f5es como \u201cimita\u00e7\u00e3o de mulher\u201d e, consequentemente, restringindo-as ao trabalho art\u00edstico como transformista. Ele pergunta: \u201cQuando trabalha como artista, qual \u00e9 o seu nome art\u00edstico?\u201d. A artista responde: \u201cP\u00e2mela Costa\u201d. Ele prossegue: \u201cE quando n\u00e3o \u00e9 artista? Quando \u00e9 de segunda-feira, ter\u00e7a-feira, quarta-feira?\u201d. Ela reafirma o mesmo nome, ao que ele questiona: \u201cMas anda de mulher?\u201d. Ela confirma e Silvio pergunta se na profiss\u00e3o dela como \u201ccabeleireiro\u201d as pessoas sabem que ela \u201cde dia, \u00e9 homem e de noite, \u00e9 mulher\u201d. P\u00e2mela refor\u00e7a que \u00e9 mulher 24 horas por dia, n\u00e3o se restringindo apenas ao trabalho como artista transformista. A conversa se segue e parece que o apresentador n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de escutar sua entrevistada, o esquema interpretativo corporificado por ele parece n\u00e3o registrar o que \u00e9 dito pela artista. Ele continua chamando P\u00e2mela com pronomes masculinos, fazendo valer o enquadramento bin\u00e1rio de g\u00eanero em perspectiva cisheterocentrada. Silvio Santos encerra a conversa com P\u00e2mela e inicia o assunto com Cristiane. Os pronomes de tratamento continuam no masculino, mas, diferente de P\u00e2mela, Cristiane n\u00e3o s\u00f3 responde ao que \u00e9 perguntada. Ela desafia as interpela\u00e7\u00f5es, reafirmando-se a cada enunciado com pronomes femininos. Em seus estudos, Butler (2018) questiona o poder supostamente unilateral da interpela\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que para ela \u00e9 poss\u00edvel recusar uma lei, rompendo com ela atrav\u00e9s de articula\u00e7\u00f5es que permitam se virar contra a autoridade da pr\u00f3pria lei. Nesse sentido, a fil\u00f3sofa sugere que a interpela\u00e7\u00e3o perde seu status de um simples performativo no sentido de que al\u00e9m de criar aquilo a que se refere, ela cria um excesso em rela\u00e7\u00e3o a qualquer referente. Portanto, existe uma falha constitutiva no pr\u00f3prio performativo, a qual d\u00e1 a ver a possibilidade de um deslize entre o comando discursivo e a sua apropria\u00e7\u00e3o, criando-se uma abertura para a desobedi\u00eancia. Isso pode ser localizado no confrontamento expl\u00edcito de Cristiane em rela\u00e7\u00e3o aos pressupostos levantados por Silvio em rela\u00e7\u00e3o a ela. Quando o apresentador sugere que Cristiane poderia se interessar por Jorge Lafond, conhecido tamb\u00e9m como Vera Ver\u00e3o, Jorge responde que n\u00e3o combinaria: \u201cIr\u00edamos sair de bra\u00e7os dados para procurar um rapaz l\u00e1 embaixo no cal\u00e7ad\u00e3o\u201d. Silvio diz que n\u00e3o acredita; para ele, tanto Cristiane quanto Lafond estariam a mentir. Cristiane rebate: \u201cPor que mentindo?\u201d. Silvio responde: \u201cPorque n\u00e3o creio que sejam f\u00e3s de rapazes\u201d. A artista, indignada, afirma: \u201cSe eu n\u00e3o fosse f\u00e3 de rapaz, eu n\u00e3o tinha a forma feminina, eu era masculina e estava casada com uma mulher\u201d. O apresentador muda o tom, ao inv\u00e9s de validar a posi\u00e7\u00e3o enunciada, ele a questiona: \u201cMas voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 homem?\u201d. Ele usa o nome de Cristiane que fora designado no nascimento como forma de impor sua verdade. A artista \u201cn\u00e3o deita\u201d, ela responde que seu nome dado no nascimento \u201ctomou um veneno e morreu. A\u00ed, recebi o esp\u00edrito da Cristiane e ficou\u201d. O apresentador muda de assunto, ele recome\u00e7a a averigua\u00e7\u00e3o dos c\u00f3digos de feminilidade perguntando se o cabelo dela \u00e9 dela mesmo. Nisso, o movimento de legitimar a conformidade de tal corpo em rela\u00e7\u00e3o aos par\u00e2metros vigentes \u00e9 reinstaurado. Silvio elogia o cabelo de Cristiane, comparando-a comparando-a com Bo Derek no filme Mulher Nota 10 (1979). Os pronomes vacilam nos enunciados que se seguem: \u201cMas voc\u00ea \u00e9 uma mo\u00e7a muito expansiva, \u00e9 um rapaz muito expansivo, n\u00e9?\u201d. Os limites do paradigma bin\u00e1rio de g\u00eanero s\u00e3o expostos e a desobedi\u00eancia de Cristiane \u00e9 marcada pelo adjetivo \u201cexpansiva\u201d. O inc\u00f4modo que me percorre se faz a partir desse duplo movimento. Por um lado, h\u00e1 uma concess\u00e3o de reconhecimento dos corpos de P\u00e2mela e Cristiane como poss\u00edveis, segundo os limites muito estritos dos ideais de feminilidade heterociscentrados. Por outro lado, esse reconhecimento m\u00ednimo, que se d\u00e1 atrav\u00e9s de coment\u00e1rios machistas engendrados por hierarquias entre as posi\u00e7\u00f5es de homens e mulheres, \u00e9 negado em prol da estabiliza\u00e7\u00e3o do paradigma bin\u00e1rio cisheterocentrado. Essa tens\u00e3o que permeia as perguntas, respostas, aplausos e risos pode ser lida a partir do que Paul B. Preciado (2022) localiza como um choque entre duas epistemologias de g\u00eanero \u2013 uma epistemologia bin\u00e1ria e uma epistemologia dissidente que afirma a multiplicidade dos corpos. De acordo com o fil\u00f3sofo, a epistemologia bin\u00e1ria que sustenta o regime da diferen\u00e7a sexual e de g\u00eanero est\u00e1 em crise desde os anos 1940, quando surgem novas t\u00e9cnicas de representa\u00e7\u00e3o e manipula\u00e7\u00e3o dos corpos. Al\u00e9m disso, Preciado destaca que \u00e9 a partir desse per\u00edodo que os movimentos feministas, homossexuais e trans ganham for\u00e7a, contestando o sistema de sexo-g\u00eanero bin\u00e1rio. No v\u00eddeo aqui em quest\u00e3o, essa tens\u00e3o fecha um curto-circuito, as interpela\u00e7\u00f5es de Silvio Santos resvalam de longe quest\u00f5es art\u00edsticas sobre os trabalhos delas, caindo nesse \u00e2mbito, n\u00e3o por acaso, apenas quando P\u00e2mela e Cristiane se afirmam como mulheres para al\u00e9m dos palcos. Quando as respostas arriscam desestabilizar o enquadramento bin\u00e1rio cisheteronormativo, ent\u00e3o, o apresentador resgata o tema da imita\u00e7\u00e3o, como se para tais corpos a feminilidade fosse poss\u00edvel apenas nesse \u00e2mbito. Trata-se de um discurso que opera no limite, reconhece a proximidade da feminilidade corporeada pelas artistas com os ideais normativos vigentes, mas nega a viabilidade de tais viv\u00eancias no cotidiano. Imagem Cr\u00e9dito: Arquivo Transformista\/YouTube. Refer\u00eancias BUTLER, Judith. Corpos que importam: Os limites discursivos do \u201csexo\u201d. S\u00e3o Paulo: n-1 edi\u00e7\u00f5es, 2019.BUTLER, Judith. Quadros de guerra: quando a vida \u00e9 pass\u00edvel de luto? Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2016.PRECIADO, Paul B. Dysphoria Mundi: O som do mundo desmoronando. Rio de Janeiro: Zahar, 2023.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3709,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[16,181,179],"class_list":["post-3704","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-audiovisual","tag-comunicacao","tag-corpo"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Transformistas no &quot;Show de Calouros&quot;: Interpela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero e desobedi\u00eancia - Corporalidades<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/transformistas-no-show-de-calouros-interpelacoes-de-genero-e-desobediencia\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"en_US\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Transformistas no &quot;Show de Calouros&quot;: Interpela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero e desobedi\u00eancia - Corporalidades\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Por Douglas Ostruca: Quando comecei a pesquisar a cena transformista, h\u00e1 7 anos, encontrei no YouTube um fragmento do Show de Calouros, no qual as transformistas P\u00e2mela Costa e Cristiane s\u00e3o entrevistadas pelo apresentador Silvio Santos ap\u00f3s realizarem suas dublagens. Esse v\u00eddeo me retorna desde ent\u00e3o, junto de um inc\u00f4modo, um estranhamento que se faz no corpo. Neste ensaio, tatearei essa percep\u00e7\u00e3o de estranhamento, tentando localizar o ru\u00eddo estridente que ou\u00e7o em meio as perguntas feitas pelo apresentador \u00e0s artistas. O Show de Calouros foi apresentado por Silvio Santos entre 1977 e 1996 no SBT. Por dar espa\u00e7o \u00e0s transformistas, ainda na d\u00e9cada de 1980, Silvio \u00e9 reconhecido como precursor, sendo precedido apenas pelo quadro Eles e Elas, no Clube do Bolinha, exibido na Rede Bandeirantes entre 1974 e 1994. O paralelo localizado nas datas em que tais programas foram ao ar \u00e9 um indicador da disputa pela audi\u00eancia. Se, por um lado, tais programas s\u00e3o um marco na visibilidade da arte transformista em territ\u00f3rio nacional, ampliando a alcance dessas artistas para al\u00e9m das cenas locais. Por outro lado, \u00e9 evidente que a disputa pelos pontos de Ibope tamb\u00e9m est\u00e1 em jogo. Mas bem a dizer, n\u00e3o \u00e9 esse o cerne da quest\u00e3o j\u00e1 que, embora tirassem proveito do sucesso que a imagem das transformistas fazia na televis\u00e3o, esses programas tamb\u00e9m inspiraram muitas outras artistas Brasil afora. O estranhamento que agita o corpo, faz-se em sil\u00eancio entre perguntas e respostas. Em meio aos aplausos, risos e elogios tortos, percebo certa tens\u00e3o. A primeira pergunta direcionada por Silvio Santos \u00e0 P\u00e2mela Costa depois das performances apresentadas passa longe da quest\u00e3o art\u00edstica. \u201c\u00c9 do sexo masculino?\u201d. Da\u00ed se segue a inquisi\u00e7\u00e3o, digo, inquiri\u00e7\u00e3o. Embora n\u00e3o pare\u00e7a visivelmente desconfort\u00e1vel, a artista responde as perguntas de forma curta. Entre sins e n\u00e3os, ela deixa-se conduzir. Em um primeiro momento, o apresentador parecer averiguar a legitimidade dos c\u00f3digos de feminilidade expressos pela artista. Ele a olha de cima a baixo, avaliando: \u201cE quando vai \u00e0 praia (\u2026) fica de biqu\u00edni?\u201d; \u201cE o seu cabelo \u00e9 natural? (\u2026) N\u00e3o \u00e9 posti\u00e7o?\u201d; \u201cE seus olhos, s\u00e3o seus mesmo?\u201d; \u201cDentes perfeitos?\u201d; \u201cBusto bonito. Corpo bem delineado\u201d. Manifesta\u00e7\u00e3o explicita do \u201cmale gaze\u201d, t\u00edpica da posi\u00e7\u00e3o de masculinidade hegem\u00f4nica que se autoriza a olhar e avaliar corpos femininos. Ao falar do conceito de interpela\u00e7\u00e3o proposto por Althusser, Judith Butler (2018) aborda o car\u00e1ter constitutivo dos chamados da lei. Isso porque, quando interpelado pela lei, o sujeito \u00e9 convocado a responder a partir do enquadre normativo e, ao mesmo tempo, \u00e9 reconhecido como sujeito segundo os par\u00e2metros estabelecidos por tal enquadre. Em vista disso, pode-se dizer que os enunciados proferidas por Silvio Santos conferem legitimidade ao corpo de P\u00e2mela, tendo como base os par\u00e2metros bin\u00e1rios de g\u00eanero e os ideais estritos de beleza impostos aos corpos femininos. Trata-se de uma legitimidade restrita \u00e0 epistemologia bin\u00e1ria de g\u00eanero, a qual opera atrav\u00e9s da fixa\u00e7\u00e3o dos corpos em um dos polos \u2013 masculino ou feminino. Contudo, na continuidade do di\u00e1logo o apresentador localiza um elemento que supostamente n\u00e3o se ad\u00e9qua aos ideais de feminilidade vigentes naquele contexto. Ele pergunta: \u201cAgora, por que essa tatuagem aqui no seio? (\u2026) Voc\u00ea serviu ao ex\u00e9rcito? Esteve na marinha? Pilotou avi\u00f5es na aeron\u00e1utica? Esteve na guerra?\u201d. A artista responde reiteradamente: \u201cN\u00e3o\u201d. Ao que Silvio insiste: \u201cE por que a tatuagem?\u201d. Tais afirma\u00e7\u00f5es cobram a coer\u00eancia de uma identidade feminina ideal, a qual segundo as normas sociais cisheterocentradas n\u00e3o se adequa ao contexto da guerra e, portanto, n\u00e3o deve ter tatuagens. Nessa cadeia de signos, a tatuagem aparece como um c\u00f3digo masculino, sendo tido como apropriada aos homens que j\u00e1 estiveram \u201cno ex\u00e9rcito, na marinha, na aeron\u00e1utica, na guerra\u201d. Aqui se encontra uma primeira camada que comp\u00f5e o inc\u00f4modo que sinto ao me deparar com esse v\u00eddeo. As interpela\u00e7\u00f5es de Silvio operam em conformidade com o enquadramento bin\u00e1rio de g\u00eanero. Ao tratar sobre o reconhecimento dos corpos a partir de enquadramentos normativos, Butler (2016, p. 85, grifo nosso) sugere que O corpo, na minha opini\u00e3o, \u00e9 onde encontramos uma variedade de perspectivas que podem ou n\u00e3o ser as nossas. O modo como sou apreendido, e como sou mantido, depende fundamentalmente das redes sociais e pol\u00edticas em que esse corpo vive, de como sou considerado e tratado, de como essa considera\u00e7\u00e3o e esse tratamento possibilitam essa vida ou n\u00e3o tornam essa vida viv\u00edvel. Assim, as normas de g\u00eanero mediante as quais compreendo a mim mesma e a minha capacidade de sobreviv\u00eancia n\u00e3o s\u00e3o estipuladas unicamente por mim. J\u00e1 estou nas m\u00e3os do outro quando tento avaliar quem sou. J\u00e1 estou me opondo a um mundo que nunca escolho quando exer\u00e7o minha ag\u00eancia. Infere-se da\u00ed que certos tipos de corpos parecer\u00e3o mais precariamente que outros, dependendo de que vers\u00f5es de corpo, ou da morfologia em geral, apoiam ou endossam a ideia de vida humana digna de prote\u00e7\u00e3o, amparo, subsist\u00eancia e luto. Esses enquadramentos normativos estabelecem de antem\u00e3o que tipo de vida ser\u00e1 digna de ser vivida, que vida ser\u00e1 digna de ser preservada e que vida ser\u00e1 digna de ser lamentada. Nesse sentido, o enquadramento discursivo que d\u00e1 base \u00e0s interpela\u00e7\u00f5es de Silvio Santos demarca as posi\u00e7\u00f5es de g\u00eanero como polos opostos, sustentando rela\u00e7\u00f5es hier\u00e1rquicas entre elas. Entretanto, esse movimento de reconhecimento da feminilidade expressa por P\u00e2mela, que emerge em meio \u00e0s cobran\u00e7as pelos ideais de bin\u00e1rios g\u00eanero, n\u00e3o se sustenta por muito tempo. Ao longo do v\u00eddeo, d\u00e1-se a ver um segundo movimento que coexiste com o primeiro, o de nega\u00e7\u00e3o da viv\u00eancia trans como um modo de vida poss\u00edvel, tendo como base os pr\u00f3prios par\u00e2metros bin\u00e1rios de g\u00eanero que foram reafirmados na inquisi\u00e7\u00e3o de P\u00e2mela. Silvio reconhece os c\u00f3digos de feminilidade corporificados por P\u00e2mela, para logo em seguida negar a possibilidade dessa exist\u00eancia, demarcando tais express\u00f5es como \u201cimita\u00e7\u00e3o de mulher\u201d e, consequentemente, restringindo-as ao trabalho art\u00edstico como transformista. Ele pergunta: \u201cQuando trabalha como artista, qual \u00e9 o seu nome art\u00edstico?\u201d. A artista responde: \u201cP\u00e2mela Costa\u201d. Ele prossegue: \u201cE quando n\u00e3o \u00e9 artista? Quando \u00e9 de segunda-feira, ter\u00e7a-feira, quarta-feira?\u201d. Ela reafirma o mesmo nome, ao que ele questiona: \u201cMas anda de mulher?\u201d. Ela confirma e Silvio pergunta se na profiss\u00e3o dela como \u201ccabeleireiro\u201d as pessoas sabem que ela \u201cde dia, \u00e9 homem e de noite, \u00e9 mulher\u201d. P\u00e2mela refor\u00e7a que \u00e9 mulher 24 horas por dia, n\u00e3o se restringindo apenas ao trabalho como artista transformista. A conversa se segue e parece que o apresentador n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de escutar sua entrevistada, o esquema interpretativo corporificado por ele parece n\u00e3o registrar o que \u00e9 dito pela artista. Ele continua chamando P\u00e2mela com pronomes masculinos, fazendo valer o enquadramento bin\u00e1rio de g\u00eanero em perspectiva cisheterocentrada. Silvio Santos encerra a conversa com P\u00e2mela e inicia o assunto com Cristiane. Os pronomes de tratamento continuam no masculino, mas, diferente de P\u00e2mela, Cristiane n\u00e3o s\u00f3 responde ao que \u00e9 perguntada. Ela desafia as interpela\u00e7\u00f5es, reafirmando-se a cada enunciado com pronomes femininos. Em seus estudos, Butler (2018) questiona o poder supostamente unilateral da interpela\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que para ela \u00e9 poss\u00edvel recusar uma lei, rompendo com ela atrav\u00e9s de articula\u00e7\u00f5es que permitam se virar contra a autoridade da pr\u00f3pria lei. Nesse sentido, a fil\u00f3sofa sugere que a interpela\u00e7\u00e3o perde seu status de um simples performativo no sentido de que al\u00e9m de criar aquilo a que se refere, ela cria um excesso em rela\u00e7\u00e3o a qualquer referente. Portanto, existe uma falha constitutiva no pr\u00f3prio performativo, a qual d\u00e1 a ver a possibilidade de um deslize entre o comando discursivo e a sua apropria\u00e7\u00e3o, criando-se uma abertura para a desobedi\u00eancia. Isso pode ser localizado no confrontamento expl\u00edcito de Cristiane em rela\u00e7\u00e3o aos pressupostos levantados por Silvio em rela\u00e7\u00e3o a ela. Quando o apresentador sugere que Cristiane poderia se interessar por Jorge Lafond, conhecido tamb\u00e9m como Vera Ver\u00e3o, Jorge responde que n\u00e3o combinaria: \u201cIr\u00edamos sair de bra\u00e7os dados para procurar um rapaz l\u00e1 embaixo no cal\u00e7ad\u00e3o\u201d. Silvio diz que n\u00e3o acredita; para ele, tanto Cristiane quanto Lafond estariam a mentir. Cristiane rebate: \u201cPor que mentindo?\u201d. Silvio responde: \u201cPorque n\u00e3o creio que sejam f\u00e3s de rapazes\u201d. A artista, indignada, afirma: \u201cSe eu n\u00e3o fosse f\u00e3 de rapaz, eu n\u00e3o tinha a forma feminina, eu era masculina e estava casada com uma mulher\u201d. O apresentador muda o tom, ao inv\u00e9s de validar a posi\u00e7\u00e3o enunciada, ele a questiona: \u201cMas voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 homem?\u201d. Ele usa o nome de Cristiane que fora designado no nascimento como forma de impor sua verdade. A artista \u201cn\u00e3o deita\u201d, ela responde que seu nome dado no nascimento \u201ctomou um veneno e morreu. A\u00ed, recebi o esp\u00edrito da Cristiane e ficou\u201d. O apresentador muda de assunto, ele recome\u00e7a a averigua\u00e7\u00e3o dos c\u00f3digos de feminilidade perguntando se o cabelo dela \u00e9 dela mesmo. Nisso, o movimento de legitimar a conformidade de tal corpo em rela\u00e7\u00e3o aos par\u00e2metros vigentes \u00e9 reinstaurado. Silvio elogia o cabelo de Cristiane, comparando-a comparando-a com Bo Derek no filme Mulher Nota 10 (1979). Os pronomes vacilam nos enunciados que se seguem: \u201cMas voc\u00ea \u00e9 uma mo\u00e7a muito expansiva, \u00e9 um rapaz muito expansivo, n\u00e9?\u201d. Os limites do paradigma bin\u00e1rio de g\u00eanero s\u00e3o expostos e a desobedi\u00eancia de Cristiane \u00e9 marcada pelo adjetivo \u201cexpansiva\u201d. O inc\u00f4modo que me percorre se faz a partir desse duplo movimento. Por um lado, h\u00e1 uma concess\u00e3o de reconhecimento dos corpos de P\u00e2mela e Cristiane como poss\u00edveis, segundo os limites muito estritos dos ideais de feminilidade heterociscentrados. Por outro lado, esse reconhecimento m\u00ednimo, que se d\u00e1 atrav\u00e9s de coment\u00e1rios machistas engendrados por hierarquias entre as posi\u00e7\u00f5es de homens e mulheres, \u00e9 negado em prol da estabiliza\u00e7\u00e3o do paradigma bin\u00e1rio cisheterocentrado. Essa tens\u00e3o que permeia as perguntas, respostas, aplausos e risos pode ser lida a partir do que Paul B. Preciado (2022) localiza como um choque entre duas epistemologias de g\u00eanero \u2013 uma epistemologia bin\u00e1ria e uma epistemologia dissidente que afirma a multiplicidade dos corpos. De acordo com o fil\u00f3sofo, a epistemologia bin\u00e1ria que sustenta o regime da diferen\u00e7a sexual e de g\u00eanero est\u00e1 em crise desde os anos 1940, quando surgem novas t\u00e9cnicas de representa\u00e7\u00e3o e manipula\u00e7\u00e3o dos corpos. Al\u00e9m disso, Preciado destaca que \u00e9 a partir desse per\u00edodo que os movimentos feministas, homossexuais e trans ganham for\u00e7a, contestando o sistema de sexo-g\u00eanero bin\u00e1rio. No v\u00eddeo aqui em quest\u00e3o, essa tens\u00e3o fecha um curto-circuito, as interpela\u00e7\u00f5es de Silvio Santos resvalam de longe quest\u00f5es art\u00edsticas sobre os trabalhos delas, caindo nesse \u00e2mbito, n\u00e3o por acaso, apenas quando P\u00e2mela e Cristiane se afirmam como mulheres para al\u00e9m dos palcos. Quando as respostas arriscam desestabilizar o enquadramento bin\u00e1rio cisheteronormativo, ent\u00e3o, o apresentador resgata o tema da imita\u00e7\u00e3o, como se para tais corpos a feminilidade fosse poss\u00edvel apenas nesse \u00e2mbito. Trata-se de um discurso que opera no limite, reconhece a proximidade da feminilidade corporeada pelas artistas com os ideais normativos vigentes, mas nega a viabilidade de tais viv\u00eancias no cotidiano. Imagem Cr\u00e9dito: Arquivo Transformista\/YouTube. Refer\u00eancias BUTLER, Judith. Corpos que importam: Os limites discursivos do \u201csexo\u201d. S\u00e3o Paulo: n-1 edi\u00e7\u00f5es, 2019.BUTLER, Judith. Quadros de guerra: quando a vida \u00e9 pass\u00edvel de luto? Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2016.PRECIADO, Paul B. Dysphoria Mundi: O som do mundo desmoronando. Rio de Janeiro: Zahar, 2023.\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/transformistas-no-show-de-calouros-interpelacoes-de-genero-e-desobediencia\/\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Corporalidades\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2025-05-16T14:45:36+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2025-05-16T14:45:37+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Pamela-Costa-e-Cristiane-Show-calouros-1.png\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:width\" content=\"1412\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:height\" content=\"941\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:type\" content=\"image\/png\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"gerente\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Written by\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"gerente\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. reading time\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"8 minutes\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.ufrgs.br\\\/corporalidades\\\/transformistas-no-show-de-calouros-interpelacoes-de-genero-e-desobediencia\\\/#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.ufrgs.br\\\/corporalidades\\\/transformistas-no-show-de-calouros-interpelacoes-de-genero-e-desobediencia\\\/\"},\"author\":{\"name\":\"gerente\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.ufrgs.br\\\/corporalidades\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/e18ecb8063c1f965a031341c25460e43\"},\"headline\":\"Transformistas no &#8220;Show de Calouros&#8221;: Interpela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero e desobedi\u00eancia\",\"datePublished\":\"2025-05-16T14:45:36+00:00\",\"dateModified\":\"2025-05-16T14:45:37+00:00\",\"mainEntityOfPage\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.ufrgs.br\\\/corporalidades\\\/transformistas-no-show-de-calouros-interpelacoes-de-genero-e-desobediencia\\\/\"},\"wordCount\":2030,\"commentCount\":0,\"image\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.ufrgs.br\\\/corporalidades\\\/transformistas-no-show-de-calouros-interpelacoes-de-genero-e-desobediencia\\\/#primaryimage\"},\"thumbnailUrl\":\"https:\\\/\\\/www.ufrgs.br\\\/corporalidades\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2025\\\/05\\\/Pamela-Costa-e-Cristiane-Show-calouros-1.png\",\"keywords\":[\"Audiovisual\",\"Comunica\u00e7\u00e3o\",\"Corpo\"],\"articleSection\":[\"Blog\"],\"inLanguage\":\"en-US\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"CommentAction\",\"name\":\"Comment\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/www.ufrgs.br\\\/corporalidades\\\/transformistas-no-show-de-calouros-interpelacoes-de-genero-e-desobediencia\\\/#respond\"]}]},{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.ufrgs.br\\\/corporalidades\\\/transformistas-no-show-de-calouros-interpelacoes-de-genero-e-desobediencia\\\/\",\"url\":\"https:\\\/\\\/www.ufrgs.br\\\/corporalidades\\\/transformistas-no-show-de-calouros-interpelacoes-de-genero-e-desobediencia\\\/\",\"name\":\"Transformistas no \\\"Show de Calouros\\\": Interpela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero e desobedi\u00eancia - 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Esse v\u00eddeo me retorna desde ent\u00e3o, junto de um inc\u00f4modo, um estranhamento que se faz no corpo. Neste ensaio, tatearei essa percep\u00e7\u00e3o de estranhamento, tentando localizar o ru\u00eddo estridente que ou\u00e7o em meio as perguntas feitas pelo apresentador \u00e0s artistas. O Show de Calouros foi apresentado por Silvio Santos entre 1977 e 1996 no SBT. Por dar espa\u00e7o \u00e0s transformistas, ainda na d\u00e9cada de 1980, Silvio \u00e9 reconhecido como precursor, sendo precedido apenas pelo quadro Eles e Elas, no Clube do Bolinha, exibido na Rede Bandeirantes entre 1974 e 1994. O paralelo localizado nas datas em que tais programas foram ao ar \u00e9 um indicador da disputa pela audi\u00eancia. Se, por um lado, tais programas s\u00e3o um marco na visibilidade da arte transformista em territ\u00f3rio nacional, ampliando a alcance dessas artistas para al\u00e9m das cenas locais. Por outro lado, \u00e9 evidente que a disputa pelos pontos de Ibope tamb\u00e9m est\u00e1 em jogo. Mas bem a dizer, n\u00e3o \u00e9 esse o cerne da quest\u00e3o j\u00e1 que, embora tirassem proveito do sucesso que a imagem das transformistas fazia na televis\u00e3o, esses programas tamb\u00e9m inspiraram muitas outras artistas Brasil afora. O estranhamento que agita o corpo, faz-se em sil\u00eancio entre perguntas e respostas. Em meio aos aplausos, risos e elogios tortos, percebo certa tens\u00e3o. A primeira pergunta direcionada por Silvio Santos \u00e0 P\u00e2mela Costa depois das performances apresentadas passa longe da quest\u00e3o art\u00edstica. \u201c\u00c9 do sexo masculino?\u201d. Da\u00ed se segue a inquisi\u00e7\u00e3o, digo, inquiri\u00e7\u00e3o. Embora n\u00e3o pare\u00e7a visivelmente desconfort\u00e1vel, a artista responde as perguntas de forma curta. Entre sins e n\u00e3os, ela deixa-se conduzir. Em um primeiro momento, o apresentador parecer averiguar a legitimidade dos c\u00f3digos de feminilidade expressos pela artista. Ele a olha de cima a baixo, avaliando: \u201cE quando vai \u00e0 praia (\u2026) fica de biqu\u00edni?\u201d; \u201cE o seu cabelo \u00e9 natural? (\u2026) N\u00e3o \u00e9 posti\u00e7o?\u201d; \u201cE seus olhos, s\u00e3o seus mesmo?\u201d; \u201cDentes perfeitos?\u201d; \u201cBusto bonito. Corpo bem delineado\u201d. Manifesta\u00e7\u00e3o explicita do \u201cmale gaze\u201d, t\u00edpica da posi\u00e7\u00e3o de masculinidade hegem\u00f4nica que se autoriza a olhar e avaliar corpos femininos. Ao falar do conceito de interpela\u00e7\u00e3o proposto por Althusser, Judith Butler (2018) aborda o car\u00e1ter constitutivo dos chamados da lei. Isso porque, quando interpelado pela lei, o sujeito \u00e9 convocado a responder a partir do enquadre normativo e, ao mesmo tempo, \u00e9 reconhecido como sujeito segundo os par\u00e2metros estabelecidos por tal enquadre. Em vista disso, pode-se dizer que os enunciados proferidas por Silvio Santos conferem legitimidade ao corpo de P\u00e2mela, tendo como base os par\u00e2metros bin\u00e1rios de g\u00eanero e os ideais estritos de beleza impostos aos corpos femininos. Trata-se de uma legitimidade restrita \u00e0 epistemologia bin\u00e1ria de g\u00eanero, a qual opera atrav\u00e9s da fixa\u00e7\u00e3o dos corpos em um dos polos \u2013 masculino ou feminino. Contudo, na continuidade do di\u00e1logo o apresentador localiza um elemento que supostamente n\u00e3o se ad\u00e9qua aos ideais de feminilidade vigentes naquele contexto. Ele pergunta: \u201cAgora, por que essa tatuagem aqui no seio? (\u2026) Voc\u00ea serviu ao ex\u00e9rcito? Esteve na marinha? Pilotou avi\u00f5es na aeron\u00e1utica? Esteve na guerra?\u201d. A artista responde reiteradamente: \u201cN\u00e3o\u201d. Ao que Silvio insiste: \u201cE por que a tatuagem?\u201d. Tais afirma\u00e7\u00f5es cobram a coer\u00eancia de uma identidade feminina ideal, a qual segundo as normas sociais cisheterocentradas n\u00e3o se adequa ao contexto da guerra e, portanto, n\u00e3o deve ter tatuagens. Nessa cadeia de signos, a tatuagem aparece como um c\u00f3digo masculino, sendo tido como apropriada aos homens que j\u00e1 estiveram \u201cno ex\u00e9rcito, na marinha, na aeron\u00e1utica, na guerra\u201d. Aqui se encontra uma primeira camada que comp\u00f5e o inc\u00f4modo que sinto ao me deparar com esse v\u00eddeo. As interpela\u00e7\u00f5es de Silvio operam em conformidade com o enquadramento bin\u00e1rio de g\u00eanero. Ao tratar sobre o reconhecimento dos corpos a partir de enquadramentos normativos, Butler (2016, p. 85, grifo nosso) sugere que O corpo, na minha opini\u00e3o, \u00e9 onde encontramos uma variedade de perspectivas que podem ou n\u00e3o ser as nossas. O modo como sou apreendido, e como sou mantido, depende fundamentalmente das redes sociais e pol\u00edticas em que esse corpo vive, de como sou considerado e tratado, de como essa considera\u00e7\u00e3o e esse tratamento possibilitam essa vida ou n\u00e3o tornam essa vida viv\u00edvel. Assim, as normas de g\u00eanero mediante as quais compreendo a mim mesma e a minha capacidade de sobreviv\u00eancia n\u00e3o s\u00e3o estipuladas unicamente por mim. J\u00e1 estou nas m\u00e3os do outro quando tento avaliar quem sou. J\u00e1 estou me opondo a um mundo que nunca escolho quando exer\u00e7o minha ag\u00eancia. Infere-se da\u00ed que certos tipos de corpos parecer\u00e3o mais precariamente que outros, dependendo de que vers\u00f5es de corpo, ou da morfologia em geral, apoiam ou endossam a ideia de vida humana digna de prote\u00e7\u00e3o, amparo, subsist\u00eancia e luto. Esses enquadramentos normativos estabelecem de antem\u00e3o que tipo de vida ser\u00e1 digna de ser vivida, que vida ser\u00e1 digna de ser preservada e que vida ser\u00e1 digna de ser lamentada. Nesse sentido, o enquadramento discursivo que d\u00e1 base \u00e0s interpela\u00e7\u00f5es de Silvio Santos demarca as posi\u00e7\u00f5es de g\u00eanero como polos opostos, sustentando rela\u00e7\u00f5es hier\u00e1rquicas entre elas. Entretanto, esse movimento de reconhecimento da feminilidade expressa por P\u00e2mela, que emerge em meio \u00e0s cobran\u00e7as pelos ideais de bin\u00e1rios g\u00eanero, n\u00e3o se sustenta por muito tempo. Ao longo do v\u00eddeo, d\u00e1-se a ver um segundo movimento que coexiste com o primeiro, o de nega\u00e7\u00e3o da viv\u00eancia trans como um modo de vida poss\u00edvel, tendo como base os pr\u00f3prios par\u00e2metros bin\u00e1rios de g\u00eanero que foram reafirmados na inquisi\u00e7\u00e3o de P\u00e2mela. Silvio reconhece os c\u00f3digos de feminilidade corporificados por P\u00e2mela, para logo em seguida negar a possibilidade dessa exist\u00eancia, demarcando tais express\u00f5es como \u201cimita\u00e7\u00e3o de mulher\u201d e, consequentemente, restringindo-as ao trabalho art\u00edstico como transformista. Ele pergunta: \u201cQuando trabalha como artista, qual \u00e9 o seu nome art\u00edstico?\u201d. A artista responde: \u201cP\u00e2mela Costa\u201d. Ele prossegue: \u201cE quando n\u00e3o \u00e9 artista? Quando \u00e9 de segunda-feira, ter\u00e7a-feira, quarta-feira?\u201d. Ela reafirma o mesmo nome, ao que ele questiona: \u201cMas anda de mulher?\u201d. Ela confirma e Silvio pergunta se na profiss\u00e3o dela como \u201ccabeleireiro\u201d as pessoas sabem que ela \u201cde dia, \u00e9 homem e de noite, \u00e9 mulher\u201d. P\u00e2mela refor\u00e7a que \u00e9 mulher 24 horas por dia, n\u00e3o se restringindo apenas ao trabalho como artista transformista. A conversa se segue e parece que o apresentador n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de escutar sua entrevistada, o esquema interpretativo corporificado por ele parece n\u00e3o registrar o que \u00e9 dito pela artista. Ele continua chamando P\u00e2mela com pronomes masculinos, fazendo valer o enquadramento bin\u00e1rio de g\u00eanero em perspectiva cisheterocentrada. Silvio Santos encerra a conversa com P\u00e2mela e inicia o assunto com Cristiane. Os pronomes de tratamento continuam no masculino, mas, diferente de P\u00e2mela, Cristiane n\u00e3o s\u00f3 responde ao que \u00e9 perguntada. Ela desafia as interpela\u00e7\u00f5es, reafirmando-se a cada enunciado com pronomes femininos. Em seus estudos, Butler (2018) questiona o poder supostamente unilateral da interpela\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que para ela \u00e9 poss\u00edvel recusar uma lei, rompendo com ela atrav\u00e9s de articula\u00e7\u00f5es que permitam se virar contra a autoridade da pr\u00f3pria lei. Nesse sentido, a fil\u00f3sofa sugere que a interpela\u00e7\u00e3o perde seu status de um simples performativo no sentido de que al\u00e9m de criar aquilo a que se refere, ela cria um excesso em rela\u00e7\u00e3o a qualquer referente. Portanto, existe uma falha constitutiva no pr\u00f3prio performativo, a qual d\u00e1 a ver a possibilidade de um deslize entre o comando discursivo e a sua apropria\u00e7\u00e3o, criando-se uma abertura para a desobedi\u00eancia. Isso pode ser localizado no confrontamento expl\u00edcito de Cristiane em rela\u00e7\u00e3o aos pressupostos levantados por Silvio em rela\u00e7\u00e3o a ela. Quando o apresentador sugere que Cristiane poderia se interessar por Jorge Lafond, conhecido tamb\u00e9m como Vera Ver\u00e3o, Jorge responde que n\u00e3o combinaria: \u201cIr\u00edamos sair de bra\u00e7os dados para procurar um rapaz l\u00e1 embaixo no cal\u00e7ad\u00e3o\u201d. Silvio diz que n\u00e3o acredita; para ele, tanto Cristiane quanto Lafond estariam a mentir. Cristiane rebate: \u201cPor que mentindo?\u201d. Silvio responde: \u201cPorque n\u00e3o creio que sejam f\u00e3s de rapazes\u201d. A artista, indignada, afirma: \u201cSe eu n\u00e3o fosse f\u00e3 de rapaz, eu n\u00e3o tinha a forma feminina, eu era masculina e estava casada com uma mulher\u201d. O apresentador muda o tom, ao inv\u00e9s de validar a posi\u00e7\u00e3o enunciada, ele a questiona: \u201cMas voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 homem?\u201d. Ele usa o nome de Cristiane que fora designado no nascimento como forma de impor sua verdade. A artista \u201cn\u00e3o deita\u201d, ela responde que seu nome dado no nascimento \u201ctomou um veneno e morreu. A\u00ed, recebi o esp\u00edrito da Cristiane e ficou\u201d. O apresentador muda de assunto, ele recome\u00e7a a averigua\u00e7\u00e3o dos c\u00f3digos de feminilidade perguntando se o cabelo dela \u00e9 dela mesmo. Nisso, o movimento de legitimar a conformidade de tal corpo em rela\u00e7\u00e3o aos par\u00e2metros vigentes \u00e9 reinstaurado. Silvio elogia o cabelo de Cristiane, comparando-a comparando-a com Bo Derek no filme Mulher Nota 10 (1979). Os pronomes vacilam nos enunciados que se seguem: \u201cMas voc\u00ea \u00e9 uma mo\u00e7a muito expansiva, \u00e9 um rapaz muito expansivo, n\u00e9?\u201d. Os limites do paradigma bin\u00e1rio de g\u00eanero s\u00e3o expostos e a desobedi\u00eancia de Cristiane \u00e9 marcada pelo adjetivo \u201cexpansiva\u201d. O inc\u00f4modo que me percorre se faz a partir desse duplo movimento. Por um lado, h\u00e1 uma concess\u00e3o de reconhecimento dos corpos de P\u00e2mela e Cristiane como poss\u00edveis, segundo os limites muito estritos dos ideais de feminilidade heterociscentrados. Por outro lado, esse reconhecimento m\u00ednimo, que se d\u00e1 atrav\u00e9s de coment\u00e1rios machistas engendrados por hierarquias entre as posi\u00e7\u00f5es de homens e mulheres, \u00e9 negado em prol da estabiliza\u00e7\u00e3o do paradigma bin\u00e1rio cisheterocentrado. Essa tens\u00e3o que permeia as perguntas, respostas, aplausos e risos pode ser lida a partir do que Paul B. Preciado (2022) localiza como um choque entre duas epistemologias de g\u00eanero \u2013 uma epistemologia bin\u00e1ria e uma epistemologia dissidente que afirma a multiplicidade dos corpos. De acordo com o fil\u00f3sofo, a epistemologia bin\u00e1ria que sustenta o regime da diferen\u00e7a sexual e de g\u00eanero est\u00e1 em crise desde os anos 1940, quando surgem novas t\u00e9cnicas de representa\u00e7\u00e3o e manipula\u00e7\u00e3o dos corpos. Al\u00e9m disso, Preciado destaca que \u00e9 a partir desse per\u00edodo que os movimentos feministas, homossexuais e trans ganham for\u00e7a, contestando o sistema de sexo-g\u00eanero bin\u00e1rio. No v\u00eddeo aqui em quest\u00e3o, essa tens\u00e3o fecha um curto-circuito, as interpela\u00e7\u00f5es de Silvio Santos resvalam de longe quest\u00f5es art\u00edsticas sobre os trabalhos delas, caindo nesse \u00e2mbito, n\u00e3o por acaso, apenas quando P\u00e2mela e Cristiane se afirmam como mulheres para al\u00e9m dos palcos. Quando as respostas arriscam desestabilizar o enquadramento bin\u00e1rio cisheteronormativo, ent\u00e3o, o apresentador resgata o tema da imita\u00e7\u00e3o, como se para tais corpos a feminilidade fosse poss\u00edvel apenas nesse \u00e2mbito. Trata-se de um discurso que opera no limite, reconhece a proximidade da feminilidade corporeada pelas artistas com os ideais normativos vigentes, mas nega a viabilidade de tais viv\u00eancias no cotidiano. Imagem Cr\u00e9dito: Arquivo Transformista\/YouTube. Refer\u00eancias BUTLER, Judith. Corpos que importam: Os limites discursivos do \u201csexo\u201d. S\u00e3o Paulo: n-1 edi\u00e7\u00f5es, 2019.BUTLER, Judith. Quadros de guerra: quando a vida \u00e9 pass\u00edvel de luto? Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2016.PRECIADO, Paul B. Dysphoria Mundi: O som do mundo desmoronando. Rio de Janeiro: Zahar, 2023.","og_url":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/transformistas-no-show-de-calouros-interpelacoes-de-genero-e-desobediencia\/","og_site_name":"Corporalidades","article_published_time":"2025-05-16T14:45:36+00:00","article_modified_time":"2025-05-16T14:45:37+00:00","og_image":[{"width":1412,"height":941,"url":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Pamela-Costa-e-Cristiane-Show-calouros-1.png","type":"image\/png"}],"author":"gerente","twitter_card":"summary_large_image","twitter_misc":{"Written by":"gerente","Est. reading time":"8 minutes"},"schema":{"@context":"https:\/\/schema.org","@graph":[{"@type":"Article","@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/transformistas-no-show-de-calouros-interpelacoes-de-genero-e-desobediencia\/#article","isPartOf":{"@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/transformistas-no-show-de-calouros-interpelacoes-de-genero-e-desobediencia\/"},"author":{"name":"gerente","@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/#\/schema\/person\/e18ecb8063c1f965a031341c25460e43"},"headline":"Transformistas no &#8220;Show de Calouros&#8221;: Interpela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero e desobedi\u00eancia","datePublished":"2025-05-16T14:45:36+00:00","dateModified":"2025-05-16T14:45:37+00:00","mainEntityOfPage":{"@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/transformistas-no-show-de-calouros-interpelacoes-de-genero-e-desobediencia\/"},"wordCount":2030,"commentCount":0,"image":{"@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/transformistas-no-show-de-calouros-interpelacoes-de-genero-e-desobediencia\/#primaryimage"},"thumbnailUrl":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Pamela-Costa-e-Cristiane-Show-calouros-1.png","keywords":["Audiovisual","Comunica\u00e7\u00e3o","Corpo"],"articleSection":["Blog"],"inLanguage":"en-US","potentialAction":[{"@type":"CommentAction","name":"Comment","target":["https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/transformistas-no-show-de-calouros-interpelacoes-de-genero-e-desobediencia\/#respond"]}]},{"@type":"WebPage","@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/transformistas-no-show-de-calouros-interpelacoes-de-genero-e-desobediencia\/","url":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/transformistas-no-show-de-calouros-interpelacoes-de-genero-e-desobediencia\/","name":"Transformistas no \"Show de Calouros\": Interpela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero e desobedi\u00eancia - 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