{"id":3747,"date":"2025-06-27T11:30:20","date_gmt":"2025-06-27T14:30:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/?p=3747"},"modified":"2025-06-27T11:30:21","modified_gmt":"2025-06-27T14:30:21","slug":"forias-de-genero-como-afetos-revolucionarios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/forias-de-genero-como-afetos-revolucionarios\/","title":{"rendered":"Forias de g\u00eanero como afetos revolucion\u00e1rios"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Por Ta\u00eds Severo:<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O diagn\u00f3stico da disforia de g\u00eanero \u00e9 um olhar microc\u00f3smico sobre taxonomias e crit\u00e9rios usados para construir e restringir o g\u00eanero (Stone, 2014). Seus protocolos m\u00e9dicos, em desuso, mas com presen\u00e7a espectral, procuram atentar para quaisquer incongru\u00eancias que compliquem a f\u00e1bula \u201cverdadeiramente A em pris\u00e3o no corpo de um B\u201d. Assim, \u00e9 preciso apresentar uma narrativa linear, disposta a dobrar-se \u00e0 norma, confessando uma anatomia errada e insuport\u00e1vel, e testemunhando sofrimentos que assolam desde a inf\u00e2ncia e levam a idea\u00e7\u00f5es suicidas. Sem espa\u00e7os para sutilezas ou nuances: h\u00e1 apenas um roteiro r\u00edgido envolvendo uma s\u00e9rie de atores. N\u00e3o \u00e9 permitido que se coloque em risco \u201ca causalidade entre sexo\/g\u00eanero\/desejo\u201d e desnude \u201cos limites de um sistema bin\u00e1rio assentado no corpo sexuado (o corpo-homem e o corpo-mulher)\u201d (Bento, 2012, p. 21).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Descrita, de forma geral, como um desconforto ou sofrimento causados pela incongru\u00eancia entre o g\u00eanero atribu\u00eddo ao nascimento e o g\u00eanero experimentado pelo indiv\u00edduo, a disforia preconiza o acesso aos tratamentos de sa\u00fade que integram a transi\u00e7\u00e3o cl\u00ednica. O modelo estadunidense de protocolos psiqui\u00e1tricos de transi\u00e7\u00e3o de g\u00eanero foi rapidamente exportado para pa\u00edses de todo o mundo, e integra o Cat\u00e1logo Internacional de Doen\u00e7as, publicado pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade e adotado, inclusive, pelo Sistema \u00danico de Sa\u00fade no Brasil. Nesses sistemas classificat\u00f3rios r\u00edgidos, a disforia se torna um fator de higieniza\u00e7\u00e3o do g\u00eanero, e a transi\u00e7\u00e3o assume o prop\u00f3sito de apagar as diferen\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas a observa\u00e7\u00e3o de disforias como operadores amplos, e acionados nas margens, pode ser um caminho prol\u00edfico. Gayle Rubin (2011) defende os sentimentos disf\u00f3ricos como pot\u00eancia de alian\u00e7as entre feministas e pessoas trans, incluindo homens trans e feministas l\u00e9sbicas. H\u00e1 distin\u00e7\u00f5es claras entre disforias trans, <em>butch<\/em> e l\u00e9sbicas, mas tamb\u00e9m conex\u00f5es: para que se torne um espa\u00e7o de coaliz\u00f5es, a disforia de g\u00eanero deve se libertar do uso cl\u00ednico, e ter ampliado seu sentido de indicar sentimentos generificados em disputa com identidades designadas e\/ou corpos f\u00edsicos. Como exemplo, a autora indica que mulheres l\u00e9sbicas \u2013 sejam femininas ou masculinas, cis ou trans \u2013 sentem disforia de g\u00eanero em graus diversos e, quanto maior a masculinidade <em>butch<\/em>, maior a disforia. Disforia extrema pode levar \u00e0 transi\u00e7\u00e3o, mas o sintoma j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais restrito a estas pessoas. Materializado, mas fora da patologia, o sentimento deixa de ser diagn\u00f3stico, ou um carimbo que marca corpos como trans, e se torna possibilidade de mudan\u00e7a. Ele n\u00e3o mais separa, mas une, e sua import\u00e2ncia \u00e9 ressaltada ao demonstrar uma posi\u00e7\u00e3o subjetiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Paul Preciado (2022), em <em>Dysphoria Mundi<\/em>, coloca o fen\u00f4meno no centro de um amplo pacto antinormativo. Para o autor, deslocar e ressignificar a disforia permite compreender o mundo contempor\u00e2neo, as brechas epistemol\u00f3gicas e pol\u00edticas, a tens\u00e3o entre as for\u00e7as emancipadoras, e as resist\u00eancias conservadoras do presente: \u201cE se a \u2018disforia de g\u00eanero\u2019 n\u00e3o fosse um transtorno mental, mas uma inadequa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e est\u00e9tica de nossas formas de subjetiva\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao regime normativo da diferen\u00e7a sexual e de g\u00eanero?\u201d (Preciado, 2022, p. 14). A <em>dysphoria mundi<\/em>, enquanto conceito, \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o epist\u00eamica generalizada dos corpos subalternizados, e a resist\u00eancia de todo um planeta vivo a ser reificado como mercadoria neocapitalista. Em tal configura\u00e7\u00e3o, ela pode deixar de designar patologias psiqui\u00e1tricas a serem curadas atrav\u00e9s das ind\u00fastrias m\u00e9dicas e farmac\u00eauticas, se liberta de posi\u00e7\u00f5es naturalistas que preveem o retorno ou a reuni\u00e3o com uma forma idealizada, e n\u00e3o pode ser reduzida somente ao seu aspecto de preconceito social e cultural. Retirada das ci\u00eancias psiqui\u00e1tricas, e movida para a arte, a filosofia e o ativismo, a disforia demonstra como o g\u00eanero tem potencial para ser uma plataforma revolucion\u00e1ria. Para o autor, o g\u00eanero deve transicionar da mesma forma que o planeta: novos regimes de saber devem ser adotados, rejeitando o capitalismo predat\u00f3rio e a explora\u00e7\u00e3o do lucro atrav\u00e9s de artefatos humanos, corporais e ecol\u00f3gicos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 um projeto vigoroso. A disforia social, que \u00e9 causada pela cultura, j\u00e1 n\u00e3o nega a disforia corporal: ela passa a ser, em seu todo, uma modalidade de manifesta\u00e7\u00e3o do real, e uma condi\u00e7\u00e3o somatopol\u00edtica geral. \u00c9 a \u201cdor produzida pela gest\u00e3o necropol\u00edtica da subjetividade\u201d, mas tamb\u00e9m \u201ca pot\u00eancia dos corpos vivos do planeta (inclu\u00eddo o pr\u00f3prio planeta como corpo vivo) para extrair-se da genealogia capitalista, patriarcal e colonial\u201d (Preciado, 2022, p. 19). Mudan\u00e7a e sobreviv\u00eancia podem ser articuladas a partir da admiss\u00e3o, do conhecimento e do estudo da disforia; para o autor, os saberes que brotam de trauma, viol\u00eancia, vergonha, dor, inadequa\u00e7\u00e3o e anormalidade formam um arquivo coletivo de insatisfa\u00e7\u00f5es, que pode gerar escrituras e hist\u00f3rias mais justas e est\u00e9ticas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, destacamos que a euforia de g\u00eanero tamb\u00e9m deve ser admitida como material revolucion\u00e1rio. Retiremos ambas de seu arranjo sem\u00e2ntico dualista e oposicional para observar suas pot\u00eancias correlatas: disforia e euforia convivem e ambas podem ser ressignificadas na comunica\u00e7\u00e3o interna e externa do g\u00eanero. Bettcher (2025) prop\u00f5e que deixemos ambos termos de lado e utilizemos, de forma geral, \u201cforias\u201d negativas e positivas. A primeira m\u00f3i a subjetividade com almofariz e pil\u00e3o, macerando atrav\u00e9s do atrito, e significando atrav\u00e9s da repeti\u00e7\u00e3o exaustiva. A segunda \u00e9 uma lufada fresca, que revitaliza em brilho cognitivo inesquiv\u00e1vel. Acenar ao foco no prazer, na alegria e na euforia abre possibilidades de alian\u00e7as, e pode ser art\u00edfice do desenvolvimento de uma vis\u00e3o profundamente pol\u00edtica. \u00c9 preciso, ent\u00e3o, amplificar as hist\u00f3rias compartilhadas que unem n\u00e3o s\u00f3 pela dor, mas tamb\u00e9m pela realiza\u00e7\u00e3o subjetiva do desejo, destacando a empatia como for\u00e7a agregadora. A euforia, recompensa neurol\u00f3gica e subjetiva que tamb\u00e9m pode ser experienciada atrav\u00e9s da m\u00fasica, da dan\u00e7a, de exerc\u00edcios f\u00edsicos, do sexo, de atividades sociais e de subst\u00e2ncias psicotr\u00f3picas, carrega a pot\u00eancia de auxiliar na forma\u00e7\u00e3o de novos horizontes sociossemi\u00f3ticos de g\u00eanero.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ressaltamos que a euforia e o prazer relacionados ao g\u00eanero n\u00e3o s\u00e3o exclusivos \u00e0 disforia, mas aspectos constitutivos, multidimensionais e caleidosc\u00f3picos que merecem aten\u00e7\u00e3o. Como apontam Johnson e Lemaster (2020), o prazer \u00e9 um v\u00e1cuo epistemol\u00f3gico nas pesquisas sobre pessoas trans. Tais investiga\u00e7\u00f5es focam na disforia, na dor, na vergonha, no medo \u2013 mas ignoram, grosso modo, as possibilidades generificadas dos corpos que ousam ser guiados pelo desejo. Olhar al\u00e9m da polariza\u00e7\u00e3o entre masculino e feminino, e ater-se ao que tem potencial prazeroso para guiar experimentos e investidas, abre novos potenciais para a liberdade \u2013 uma vez que levam ao questionamento das normas de g\u00eanero, incutidas desde sempre em todas as pessoas. Embora o desconforto seja um mobilizador, a tenta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m pode s\u00ea-lo. \u00c9 um aceno a sentidos vilificados: o paradigma transg\u00eanero, para desestigmatizar a caracteriza\u00e7\u00e3o do fen\u00f4meno trans pela atra\u00e7\u00e3o sexual de ser o \u201coutro\u201d g\u00eanero (transexual enquanto prolongamento de homossexual ou autogin\u00e9filo, ambas sendo parafilias), afastou a sexualidade dessa discuss\u00e3o. Mas o er\u00f3tico est\u00e1 ao lado do desejo e do prazer, tanto como fim quanto como consequ\u00eancia. A busca por legitimidade acaba higienizando as pr\u00e1ticas sexuais e consolida a heterossexualidade colonial e compuls\u00f3ria. Ousar a erotiza\u00e7\u00e3o e o prazer ser\u00e1 entendido ora como privil\u00e9gio, ora como desvio, mas \u00e9 um caminho que deve ser explorado. Assim, \u00e9 bastante claro que o ataque normativo \u00e0queles que testemunham desejo e prazer \u2013 notadamente as individualidades transformistas, <em>crossdressers<\/em>, <em>drag queens<\/em>\/<em>kings<\/em> e travestis que s\u00e3o reduzidas a met\u00e1foras do rid\u00edculo e da sujeira (Barbosa, 2013) \u2013 \u00e9 um preconceito de base lingu\u00edstica que busca condenar e ofuscar a pot\u00eancia dessas experi\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 um qu\u00ea de reacionarismo nas narrativas das dores trans: qualquer tentativa de complexific\u00e1-las torna-se, rapidamente, raz\u00e3o para indigna\u00e7\u00e3o \u2013 o que compreendemos como um trauma social, um gato escaldado que coloca as orelhas para tr\u00e1s t\u00e3o logo algu\u00e9m questione a temperatura da \u00e1gua. \u00c9 sintom\u00e1tico que a pesquisa sobre euforias de g\u00eanero seja min\u00fascula, como demonstra o levantamento de Jones (2023). \u00c9 preciso abrir caminhos mais m\u00faltiplos, para que as experi\u00eancias discriminat\u00f3rias \u2013 essas sim, provocadas pela fervura do caldo sociocultural \u2013 deixem de ser definidoras, ainda que se mantenham componentes, das experi\u00eancias trans. Como aponta Butler (1995), reconhecer os aspectos melanc\u00f3licos do g\u00eanero \u00e9 \u00fatil quando ressalta que n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para continuarmos apoiados em sistemas onde uma identidade compuls\u00f3ria se forma na oposi\u00e7\u00e3o ao desejo, ou para que o desejo seja alimentado pelo rep\u00fadio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para tanto, euforias e disforias de g\u00eanero devem ser vistas em termos de m\u00e1quinas semi\u00f3ticas, que podem dar conta das consist\u00eancias enunciativas espec\u00edficas das coletividades e seus indiv\u00edduos; deixar as dimens\u00f5es maqu\u00ednicas de lado \u00e9 perder uma parte fundamental da constitui\u00e7\u00e3o do real (GPESC, 2020). Os processos materiais e semi\u00f3ticos, inclusive aqueles assignificantes \u2013 que v\u00e3o al\u00e9m, mas est\u00e3o conectados a seus aspectos sem\u00e2nticos e estruturais \u2013 demonstram como as signific\u00e2ncias agem diretamente sobre a realidade concreta, em formas produtivas e pragm\u00e1ticas da linguagem. Propomos que as disforias, sozinhas, s\u00e3o insuficientes para produzir uma epistemologia unificadora do g\u00eanero. Som\u00e1-las \u00e0s euforias, e inscrev\u00ea-las como componentes de um g\u00eanero comunicacional, permite articula\u00e7\u00f5es semi\u00f3ticas cr\u00edticas e que acarretam potencialidades.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><strong>Imagem<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cr\u00e9dito: Norbu Gyachung\/Unsplash.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BARBOSA, Bruno. Doidas e putas: usos das categorias travesti e transexual. <strong>Sexualidad, Salud y Sociedad<\/strong>, n. 14, p. 352-379, 2013.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BENTO, Berenice. <strong>O que \u00e9 transexualidade<\/strong>. 2. ed. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 2012.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BETTCHER, Talia. <strong>Beyond Personhood<\/strong>: An Essay in Trans Philosophy. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2025.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BUTLER, Judith. Melancholy Gender \u2013 Refused Identification. <strong>Psychoanalytic Dialogues<\/strong>, v. 5, n. 2, p. 165-180, 1995.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">GPESC. <strong>Semi\u00f3tica cr\u00edtica e as materialidades da comunica\u00e7\u00e3o<\/strong>. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2020.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">JOHNSON, Amber; LEMASTER, Benny. Gender Futurity: A Plea for Pleasure. In: <strong>__<\/strong> (eds.). <strong>Gender Futurity, Intersectional Autoethnography<\/strong>: Embodied Theorizing from the Margins. New York: Routledge, 2020.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">JONES, Tiffany. <strong>Euphorias in Gender, Sex and Sexuality Variations<\/strong>: Positive Experiences. New York: Palgrave Macmillan, 2023.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">PRECIADO, Paul. <strong>Dysphoria Mundi<\/strong>. Rio de Janeiro: Zahar, 2022.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">RUBIN, Gayle. <strong>Deviations<\/strong>. Durham: Duke University Press, 2011.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">STONE, Sandy. <strong>The Empire Strikes Back<\/strong>: A Posttranssexual Manifesto. 2014. Dispon\u00edvel em: http:\/\/sandystone.com\/empire-strikes-back.pdf . Acesso em: 20 de mai. de 2025.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Ta\u00eds Severo: O diagn\u00f3stico da disforia de g\u00eanero \u00e9 um olhar microc\u00f3smico sobre taxonomias e crit\u00e9rios usados para construir e restringir o g\u00eanero (Stone, 2014). Seus protocolos m\u00e9dicos, em desuso, mas com presen\u00e7a espectral, procuram atentar para quaisquer incongru\u00eancias que compliquem a f\u00e1bula \u201cverdadeiramente A em pris\u00e3o no corpo de um B\u201d. Assim, \u00e9 preciso apresentar uma narrativa linear, disposta a dobrar-se \u00e0 norma, confessando uma anatomia errada e insuport\u00e1vel, e testemunhando sofrimentos que assolam desde a inf\u00e2ncia e levam a idea\u00e7\u00f5es suicidas. Sem espa\u00e7os para sutilezas ou nuances: h\u00e1 apenas um roteiro r\u00edgido envolvendo uma s\u00e9rie de atores. 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Nesses sistemas classificat\u00f3rios r\u00edgidos, a disforia se torna um fator de higieniza\u00e7\u00e3o do g\u00eanero, e a transi\u00e7\u00e3o assume o prop\u00f3sito de apagar as diferen\u00e7as. Mas a observa\u00e7\u00e3o de disforias como operadores amplos, e acionados nas margens, pode ser um caminho prol\u00edfico. Gayle Rubin (2011) defende os sentimentos disf\u00f3ricos como pot\u00eancia de alian\u00e7as entre feministas e pessoas trans, incluindo homens trans e feministas l\u00e9sbicas. H\u00e1 distin\u00e7\u00f5es claras entre disforias trans, butch e l\u00e9sbicas, mas tamb\u00e9m conex\u00f5es: para que se torne um espa\u00e7o de coaliz\u00f5es, a disforia de g\u00eanero deve se libertar do uso cl\u00ednico, e ter ampliado seu sentido de indicar sentimentos generificados em disputa com identidades designadas e\/ou corpos f\u00edsicos. Como exemplo, a autora indica que mulheres l\u00e9sbicas \u2013 sejam femininas ou masculinas, cis ou trans \u2013 sentem disforia de g\u00eanero em graus diversos e, quanto maior a masculinidade butch, maior a disforia. Disforia extrema pode levar \u00e0 transi\u00e7\u00e3o, mas o sintoma j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais restrito a estas pessoas. Materializado, mas fora da patologia, o sentimento deixa de ser diagn\u00f3stico, ou um carimbo que marca corpos como trans, e se torna possibilidade de mudan\u00e7a. Ele n\u00e3o mais separa, mas une, e sua import\u00e2ncia \u00e9 ressaltada ao demonstrar uma posi\u00e7\u00e3o subjetiva. Paul Preciado (2022), em Dysphoria Mundi, coloca o fen\u00f4meno no centro de um amplo pacto antinormativo. 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A disforia social, que \u00e9 causada pela cultura, j\u00e1 n\u00e3o nega a disforia corporal: ela passa a ser, em seu todo, uma modalidade de manifesta\u00e7\u00e3o do real, e uma condi\u00e7\u00e3o somatopol\u00edtica geral. \u00c9 a \u201cdor produzida pela gest\u00e3o necropol\u00edtica da subjetividade\u201d, mas tamb\u00e9m \u201ca pot\u00eancia dos corpos vivos do planeta (inclu\u00eddo o pr\u00f3prio planeta como corpo vivo) para extrair-se da genealogia capitalista, patriarcal e colonial\u201d (Preciado, 2022, p. 19). Mudan\u00e7a e sobreviv\u00eancia podem ser articuladas a partir da admiss\u00e3o, do conhecimento e do estudo da disforia; para o autor, os saberes que brotam de trauma, viol\u00eancia, vergonha, dor, inadequa\u00e7\u00e3o e anormalidade formam um arquivo coletivo de insatisfa\u00e7\u00f5es, que pode gerar escrituras e hist\u00f3rias mais justas e est\u00e9ticas. No entanto, destacamos que a euforia de g\u00eanero tamb\u00e9m deve ser admitida como material revolucion\u00e1rio. Retiremos ambas de seu arranjo sem\u00e2ntico dualista e oposicional para observar suas pot\u00eancias correlatas: disforia e euforia convivem e ambas podem ser ressignificadas na comunica\u00e7\u00e3o interna e externa do g\u00eanero. Bettcher (2025) prop\u00f5e que deixemos ambos termos de lado e utilizemos, de forma geral, \u201cforias\u201d negativas e positivas. A primeira m\u00f3i a subjetividade com almofariz e pil\u00e3o, macerando atrav\u00e9s do atrito, e significando atrav\u00e9s da repeti\u00e7\u00e3o exaustiva. A segunda \u00e9 uma lufada fresca, que revitaliza em brilho cognitivo inesquiv\u00e1vel. Acenar ao foco no prazer, na alegria e na euforia abre possibilidades de alian\u00e7as, e pode ser art\u00edfice do desenvolvimento de uma vis\u00e3o profundamente pol\u00edtica. \u00c9 preciso, ent\u00e3o, amplificar as hist\u00f3rias compartilhadas que unem n\u00e3o s\u00f3 pela dor, mas tamb\u00e9m pela realiza\u00e7\u00e3o subjetiva do desejo, destacando a empatia como for\u00e7a agregadora. A euforia, recompensa neurol\u00f3gica e subjetiva que tamb\u00e9m pode ser experienciada atrav\u00e9s da m\u00fasica, da dan\u00e7a, de exerc\u00edcios f\u00edsicos, do sexo, de atividades sociais e de subst\u00e2ncias psicotr\u00f3picas, carrega a pot\u00eancia de auxiliar na forma\u00e7\u00e3o de novos horizontes sociossemi\u00f3ticos de g\u00eanero. Ressaltamos que a euforia e o prazer relacionados ao g\u00eanero n\u00e3o s\u00e3o exclusivos \u00e0 disforia, mas aspectos constitutivos, multidimensionais e caleidosc\u00f3picos que merecem aten\u00e7\u00e3o. Como apontam Johnson e Lemaster (2020), o prazer \u00e9 um v\u00e1cuo epistemol\u00f3gico nas pesquisas sobre pessoas trans. Tais investiga\u00e7\u00f5es focam na disforia, na dor, na vergonha, no medo \u2013 mas ignoram, grosso modo, as possibilidades generificadas dos corpos que ousam ser guiados pelo desejo. Olhar al\u00e9m da polariza\u00e7\u00e3o entre masculino e feminino, e ater-se ao que tem potencial prazeroso para guiar experimentos e investidas, abre novos potenciais para a liberdade \u2013 uma vez que levam ao questionamento das normas de g\u00eanero, incutidas desde sempre em todas as pessoas. Embora o desconforto seja um mobilizador, a tenta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m pode s\u00ea-lo. \u00c9 um aceno a sentidos vilificados: o paradigma transg\u00eanero, para desestigmatizar a caracteriza\u00e7\u00e3o do fen\u00f4meno trans pela atra\u00e7\u00e3o sexual de ser o \u201coutro\u201d g\u00eanero (transexual enquanto prolongamento de homossexual ou autogin\u00e9filo, ambas sendo parafilias), afastou a sexualidade dessa discuss\u00e3o. Mas o er\u00f3tico est\u00e1 ao lado do desejo e do prazer, tanto como fim quanto como consequ\u00eancia. A busca por legitimidade acaba higienizando as pr\u00e1ticas sexuais e consolida a heterossexualidade colonial e compuls\u00f3ria. Ousar a erotiza\u00e7\u00e3o e o prazer ser\u00e1 entendido ora como privil\u00e9gio, ora como desvio, mas \u00e9 um caminho que deve ser explorado. Assim, \u00e9 bastante claro que o ataque normativo \u00e0queles que testemunham desejo e prazer \u2013 notadamente as individualidades transformistas, crossdressers, drag queens\/kings e travestis que s\u00e3o reduzidas a met\u00e1foras do rid\u00edculo e da sujeira (Barbosa, 2013) \u2013 \u00e9 um preconceito de base lingu\u00edstica que busca condenar e ofuscar a pot\u00eancia dessas experi\u00eancias. H\u00e1 um qu\u00ea de reacionarismo nas narrativas das dores trans: qualquer tentativa de complexific\u00e1-las torna-se, rapidamente, raz\u00e3o para indigna\u00e7\u00e3o \u2013 o que compreendemos como um trauma social, um gato escaldado que coloca as orelhas para tr\u00e1s t\u00e3o logo algu\u00e9m questione a temperatura da \u00e1gua. \u00c9 sintom\u00e1tico que a pesquisa sobre euforias de g\u00eanero seja min\u00fascula, como demonstra o levantamento de Jones (2023). \u00c9 preciso abrir caminhos mais m\u00faltiplos, para que as experi\u00eancias discriminat\u00f3rias \u2013 essas sim, provocadas pela fervura do caldo sociocultural \u2013 deixem de ser definidoras, ainda que se mantenham componentes, das experi\u00eancias trans. Como aponta Butler (1995), reconhecer os aspectos melanc\u00f3licos do g\u00eanero \u00e9 \u00fatil quando ressalta que n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para continuarmos apoiados em sistemas onde uma identidade compuls\u00f3ria se forma na oposi\u00e7\u00e3o ao desejo, ou para que o desejo seja alimentado pelo rep\u00fadio. Para tanto, euforias e disforias de g\u00eanero devem ser vistas em termos de m\u00e1quinas semi\u00f3ticas, que podem dar conta das consist\u00eancias enunciativas espec\u00edficas das coletividades e seus indiv\u00edduos; deixar as dimens\u00f5es maqu\u00ednicas de lado \u00e9 perder uma parte fundamental da constitui\u00e7\u00e3o do real (GPESC, 2020). Os processos materiais e semi\u00f3ticos, inclusive aqueles assignificantes \u2013 que v\u00e3o al\u00e9m, mas est\u00e3o conectados a seus aspectos sem\u00e2nticos e estruturais \u2013 demonstram como as signific\u00e2ncias agem diretamente sobre a realidade concreta, em formas produtivas e pragm\u00e1ticas da linguagem. Propomos que as disforias, sozinhas, s\u00e3o insuficientes para produzir uma epistemologia unificadora do g\u00eanero. Som\u00e1-las \u00e0s euforias, e inscrev\u00ea-las como componentes de um g\u00eanero comunicacional, permite articula\u00e7\u00f5es semi\u00f3ticas cr\u00edticas e que acarretam potencialidades. Imagem Cr\u00e9dito: Norbu Gyachung\/Unsplash. Refer\u00eancias BARBOSA, Bruno. Doidas e putas: usos das categorias travesti e transexual. Sexualidad, Salud y Sociedad, n. 14, p. 352-379, 2013. BENTO, Berenice. O que \u00e9 transexualidade. 2. ed. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 2012. BETTCHER, Talia. Beyond Personhood: An Essay in Trans Philosophy. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2025. BUTLER, Judith. Melancholy Gender \u2013 Refused Identification. Psychoanalytic Dialogues, v. 5, n. 2, p. 165-180, 1995. GPESC. Semi\u00f3tica cr\u00edtica e as materialidades da comunica\u00e7\u00e3o. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2020. JOHNSON, Amber; LEMASTER, Benny. Gender Futurity: A Plea for Pleasure. In: __ (eds.). Gender Futurity, Intersectional Autoethnography: Embodied Theorizing from the Margins. New York: Routledge, 2020. JONES, Tiffany. Euphorias in Gender, Sex and Sexuality Variations: Positive Experiences. New York: Palgrave Macmillan, 2023. PRECIADO, Paul. Dysphoria Mundi. Rio de Janeiro: Zahar, 2022. RUBIN, Gayle. Deviations. Durham: Duke University Press, 2011. STONE, Sandy. The Empire Strikes Back: A Posttranssexual Manifesto. 2014. Dispon\u00edvel em: http:\/\/sandystone.com\/empire-strikes-back.pdf . Acesso em: 20 de mai. de 2025.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3748,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[181,379],"class_list":["post-3747","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-comunicacao","tag-genero"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Forias de g\u00eanero como afetos revolucion\u00e1rios - Corporalidades<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/forias-de-genero-como-afetos-revolucionarios\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"en_US\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Forias de g\u00eanero como afetos revolucion\u00e1rios - Corporalidades\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Por Ta\u00eds Severo: O diagn\u00f3stico da disforia de g\u00eanero \u00e9 um olhar microc\u00f3smico sobre taxonomias e crit\u00e9rios usados para construir e restringir o g\u00eanero (Stone, 2014). Seus protocolos m\u00e9dicos, em desuso, mas com presen\u00e7a espectral, procuram atentar para quaisquer incongru\u00eancias que compliquem a f\u00e1bula \u201cverdadeiramente A em pris\u00e3o no corpo de um B\u201d. Assim, \u00e9 preciso apresentar uma narrativa linear, disposta a dobrar-se \u00e0 norma, confessando uma anatomia errada e insuport\u00e1vel, e testemunhando sofrimentos que assolam desde a inf\u00e2ncia e levam a idea\u00e7\u00f5es suicidas. Sem espa\u00e7os para sutilezas ou nuances: h\u00e1 apenas um roteiro r\u00edgido envolvendo uma s\u00e9rie de atores. N\u00e3o \u00e9 permitido que se coloque em risco \u201ca causalidade entre sexo\/g\u00eanero\/desejo\u201d e desnude \u201cos limites de um sistema bin\u00e1rio assentado no corpo sexuado (o corpo-homem e o corpo-mulher)\u201d (Bento, 2012, p. 21). Descrita, de forma geral, como um desconforto ou sofrimento causados pela incongru\u00eancia entre o g\u00eanero atribu\u00eddo ao nascimento e o g\u00eanero experimentado pelo indiv\u00edduo, a disforia preconiza o acesso aos tratamentos de sa\u00fade que integram a transi\u00e7\u00e3o cl\u00ednica. O modelo estadunidense de protocolos psiqui\u00e1tricos de transi\u00e7\u00e3o de g\u00eanero foi rapidamente exportado para pa\u00edses de todo o mundo, e integra o Cat\u00e1logo Internacional de Doen\u00e7as, publicado pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade e adotado, inclusive, pelo Sistema \u00danico de Sa\u00fade no Brasil. Nesses sistemas classificat\u00f3rios r\u00edgidos, a disforia se torna um fator de higieniza\u00e7\u00e3o do g\u00eanero, e a transi\u00e7\u00e3o assume o prop\u00f3sito de apagar as diferen\u00e7as. Mas a observa\u00e7\u00e3o de disforias como operadores amplos, e acionados nas margens, pode ser um caminho prol\u00edfico. Gayle Rubin (2011) defende os sentimentos disf\u00f3ricos como pot\u00eancia de alian\u00e7as entre feministas e pessoas trans, incluindo homens trans e feministas l\u00e9sbicas. H\u00e1 distin\u00e7\u00f5es claras entre disforias trans, butch e l\u00e9sbicas, mas tamb\u00e9m conex\u00f5es: para que se torne um espa\u00e7o de coaliz\u00f5es, a disforia de g\u00eanero deve se libertar do uso cl\u00ednico, e ter ampliado seu sentido de indicar sentimentos generificados em disputa com identidades designadas e\/ou corpos f\u00edsicos. Como exemplo, a autora indica que mulheres l\u00e9sbicas \u2013 sejam femininas ou masculinas, cis ou trans \u2013 sentem disforia de g\u00eanero em graus diversos e, quanto maior a masculinidade butch, maior a disforia. Disforia extrema pode levar \u00e0 transi\u00e7\u00e3o, mas o sintoma j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais restrito a estas pessoas. Materializado, mas fora da patologia, o sentimento deixa de ser diagn\u00f3stico, ou um carimbo que marca corpos como trans, e se torna possibilidade de mudan\u00e7a. Ele n\u00e3o mais separa, mas une, e sua import\u00e2ncia \u00e9 ressaltada ao demonstrar uma posi\u00e7\u00e3o subjetiva. Paul Preciado (2022), em Dysphoria Mundi, coloca o fen\u00f4meno no centro de um amplo pacto antinormativo. Para o autor, deslocar e ressignificar a disforia permite compreender o mundo contempor\u00e2neo, as brechas epistemol\u00f3gicas e pol\u00edticas, a tens\u00e3o entre as for\u00e7as emancipadoras, e as resist\u00eancias conservadoras do presente: \u201cE se a \u2018disforia de g\u00eanero\u2019 n\u00e3o fosse um transtorno mental, mas uma inadequa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e est\u00e9tica de nossas formas de subjetiva\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao regime normativo da diferen\u00e7a sexual e de g\u00eanero?\u201d (Preciado, 2022, p. 14). A dysphoria mundi, enquanto conceito, \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o epist\u00eamica generalizada dos corpos subalternizados, e a resist\u00eancia de todo um planeta vivo a ser reificado como mercadoria neocapitalista. Em tal configura\u00e7\u00e3o, ela pode deixar de designar patologias psiqui\u00e1tricas a serem curadas atrav\u00e9s das ind\u00fastrias m\u00e9dicas e farmac\u00eauticas, se liberta de posi\u00e7\u00f5es naturalistas que preveem o retorno ou a reuni\u00e3o com uma forma idealizada, e n\u00e3o pode ser reduzida somente ao seu aspecto de preconceito social e cultural. Retirada das ci\u00eancias psiqui\u00e1tricas, e movida para a arte, a filosofia e o ativismo, a disforia demonstra como o g\u00eanero tem potencial para ser uma plataforma revolucion\u00e1ria. Para o autor, o g\u00eanero deve transicionar da mesma forma que o planeta: novos regimes de saber devem ser adotados, rejeitando o capitalismo predat\u00f3rio e a explora\u00e7\u00e3o do lucro atrav\u00e9s de artefatos humanos, corporais e ecol\u00f3gicos. \u00c9 um projeto vigoroso. A disforia social, que \u00e9 causada pela cultura, j\u00e1 n\u00e3o nega a disforia corporal: ela passa a ser, em seu todo, uma modalidade de manifesta\u00e7\u00e3o do real, e uma condi\u00e7\u00e3o somatopol\u00edtica geral. \u00c9 a \u201cdor produzida pela gest\u00e3o necropol\u00edtica da subjetividade\u201d, mas tamb\u00e9m \u201ca pot\u00eancia dos corpos vivos do planeta (inclu\u00eddo o pr\u00f3prio planeta como corpo vivo) para extrair-se da genealogia capitalista, patriarcal e colonial\u201d (Preciado, 2022, p. 19). Mudan\u00e7a e sobreviv\u00eancia podem ser articuladas a partir da admiss\u00e3o, do conhecimento e do estudo da disforia; para o autor, os saberes que brotam de trauma, viol\u00eancia, vergonha, dor, inadequa\u00e7\u00e3o e anormalidade formam um arquivo coletivo de insatisfa\u00e7\u00f5es, que pode gerar escrituras e hist\u00f3rias mais justas e est\u00e9ticas. No entanto, destacamos que a euforia de g\u00eanero tamb\u00e9m deve ser admitida como material revolucion\u00e1rio. Retiremos ambas de seu arranjo sem\u00e2ntico dualista e oposicional para observar suas pot\u00eancias correlatas: disforia e euforia convivem e ambas podem ser ressignificadas na comunica\u00e7\u00e3o interna e externa do g\u00eanero. Bettcher (2025) prop\u00f5e que deixemos ambos termos de lado e utilizemos, de forma geral, \u201cforias\u201d negativas e positivas. A primeira m\u00f3i a subjetividade com almofariz e pil\u00e3o, macerando atrav\u00e9s do atrito, e significando atrav\u00e9s da repeti\u00e7\u00e3o exaustiva. A segunda \u00e9 uma lufada fresca, que revitaliza em brilho cognitivo inesquiv\u00e1vel. Acenar ao foco no prazer, na alegria e na euforia abre possibilidades de alian\u00e7as, e pode ser art\u00edfice do desenvolvimento de uma vis\u00e3o profundamente pol\u00edtica. \u00c9 preciso, ent\u00e3o, amplificar as hist\u00f3rias compartilhadas que unem n\u00e3o s\u00f3 pela dor, mas tamb\u00e9m pela realiza\u00e7\u00e3o subjetiva do desejo, destacando a empatia como for\u00e7a agregadora. A euforia, recompensa neurol\u00f3gica e subjetiva que tamb\u00e9m pode ser experienciada atrav\u00e9s da m\u00fasica, da dan\u00e7a, de exerc\u00edcios f\u00edsicos, do sexo, de atividades sociais e de subst\u00e2ncias psicotr\u00f3picas, carrega a pot\u00eancia de auxiliar na forma\u00e7\u00e3o de novos horizontes sociossemi\u00f3ticos de g\u00eanero. Ressaltamos que a euforia e o prazer relacionados ao g\u00eanero n\u00e3o s\u00e3o exclusivos \u00e0 disforia, mas aspectos constitutivos, multidimensionais e caleidosc\u00f3picos que merecem aten\u00e7\u00e3o. Como apontam Johnson e Lemaster (2020), o prazer \u00e9 um v\u00e1cuo epistemol\u00f3gico nas pesquisas sobre pessoas trans. Tais investiga\u00e7\u00f5es focam na disforia, na dor, na vergonha, no medo \u2013 mas ignoram, grosso modo, as possibilidades generificadas dos corpos que ousam ser guiados pelo desejo. Olhar al\u00e9m da polariza\u00e7\u00e3o entre masculino e feminino, e ater-se ao que tem potencial prazeroso para guiar experimentos e investidas, abre novos potenciais para a liberdade \u2013 uma vez que levam ao questionamento das normas de g\u00eanero, incutidas desde sempre em todas as pessoas. Embora o desconforto seja um mobilizador, a tenta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m pode s\u00ea-lo. \u00c9 um aceno a sentidos vilificados: o paradigma transg\u00eanero, para desestigmatizar a caracteriza\u00e7\u00e3o do fen\u00f4meno trans pela atra\u00e7\u00e3o sexual de ser o \u201coutro\u201d g\u00eanero (transexual enquanto prolongamento de homossexual ou autogin\u00e9filo, ambas sendo parafilias), afastou a sexualidade dessa discuss\u00e3o. Mas o er\u00f3tico est\u00e1 ao lado do desejo e do prazer, tanto como fim quanto como consequ\u00eancia. A busca por legitimidade acaba higienizando as pr\u00e1ticas sexuais e consolida a heterossexualidade colonial e compuls\u00f3ria. Ousar a erotiza\u00e7\u00e3o e o prazer ser\u00e1 entendido ora como privil\u00e9gio, ora como desvio, mas \u00e9 um caminho que deve ser explorado. Assim, \u00e9 bastante claro que o ataque normativo \u00e0queles que testemunham desejo e prazer \u2013 notadamente as individualidades transformistas, crossdressers, drag queens\/kings e travestis que s\u00e3o reduzidas a met\u00e1foras do rid\u00edculo e da sujeira (Barbosa, 2013) \u2013 \u00e9 um preconceito de base lingu\u00edstica que busca condenar e ofuscar a pot\u00eancia dessas experi\u00eancias. H\u00e1 um qu\u00ea de reacionarismo nas narrativas das dores trans: qualquer tentativa de complexific\u00e1-las torna-se, rapidamente, raz\u00e3o para indigna\u00e7\u00e3o \u2013 o que compreendemos como um trauma social, um gato escaldado que coloca as orelhas para tr\u00e1s t\u00e3o logo algu\u00e9m questione a temperatura da \u00e1gua. \u00c9 sintom\u00e1tico que a pesquisa sobre euforias de g\u00eanero seja min\u00fascula, como demonstra o levantamento de Jones (2023). \u00c9 preciso abrir caminhos mais m\u00faltiplos, para que as experi\u00eancias discriminat\u00f3rias \u2013 essas sim, provocadas pela fervura do caldo sociocultural \u2013 deixem de ser definidoras, ainda que se mantenham componentes, das experi\u00eancias trans. Como aponta Butler (1995), reconhecer os aspectos melanc\u00f3licos do g\u00eanero \u00e9 \u00fatil quando ressalta que n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para continuarmos apoiados em sistemas onde uma identidade compuls\u00f3ria se forma na oposi\u00e7\u00e3o ao desejo, ou para que o desejo seja alimentado pelo rep\u00fadio. Para tanto, euforias e disforias de g\u00eanero devem ser vistas em termos de m\u00e1quinas semi\u00f3ticas, que podem dar conta das consist\u00eancias enunciativas espec\u00edficas das coletividades e seus indiv\u00edduos; deixar as dimens\u00f5es maqu\u00ednicas de lado \u00e9 perder uma parte fundamental da constitui\u00e7\u00e3o do real (GPESC, 2020). Os processos materiais e semi\u00f3ticos, inclusive aqueles assignificantes \u2013 que v\u00e3o al\u00e9m, mas est\u00e3o conectados a seus aspectos sem\u00e2nticos e estruturais \u2013 demonstram como as signific\u00e2ncias agem diretamente sobre a realidade concreta, em formas produtivas e pragm\u00e1ticas da linguagem. Propomos que as disforias, sozinhas, s\u00e3o insuficientes para produzir uma epistemologia unificadora do g\u00eanero. Som\u00e1-las \u00e0s euforias, e inscrev\u00ea-las como componentes de um g\u00eanero comunicacional, permite articula\u00e7\u00f5es semi\u00f3ticas cr\u00edticas e que acarretam potencialidades. Imagem Cr\u00e9dito: Norbu Gyachung\/Unsplash. Refer\u00eancias BARBOSA, Bruno. Doidas e putas: usos das categorias travesti e transexual. Sexualidad, Salud y Sociedad, n. 14, p. 352-379, 2013. BENTO, Berenice. O que \u00e9 transexualidade. 2. ed. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 2012. BETTCHER, Talia. Beyond Personhood: An Essay in Trans Philosophy. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2025. BUTLER, Judith. Melancholy Gender \u2013 Refused Identification. Psychoanalytic Dialogues, v. 5, n. 2, p. 165-180, 1995. GPESC. Semi\u00f3tica cr\u00edtica e as materialidades da comunica\u00e7\u00e3o. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2020. JOHNSON, Amber; LEMASTER, Benny. Gender Futurity: A Plea for Pleasure. In: __ (eds.). Gender Futurity, Intersectional Autoethnography: Embodied Theorizing from the Margins. New York: Routledge, 2020. JONES, Tiffany. Euphorias in Gender, Sex and Sexuality Variations: Positive Experiences. New York: Palgrave Macmillan, 2023. PRECIADO, Paul. Dysphoria Mundi. Rio de Janeiro: Zahar, 2022. RUBIN, Gayle. Deviations. Durham: Duke University Press, 2011. STONE, Sandy. The Empire Strikes Back: A Posttranssexual Manifesto. 2014. Dispon\u00edvel em: http:\/\/sandystone.com\/empire-strikes-back.pdf . Acesso em: 20 de mai. de 2025.\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/forias-de-genero-como-afetos-revolucionarios\/\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Corporalidades\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2025-06-27T14:30:20+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2025-06-27T14:30:21+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/norbu-gyachung-O2rFpJ_vbwk-unsplash-scaled.jpg\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:width\" content=\"2560\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:height\" content=\"1707\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:type\" content=\"image\/jpeg\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"gerente\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Written by\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"gerente\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. reading time\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"8 minutes\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.ufrgs.br\\\/corporalidades\\\/forias-de-genero-como-afetos-revolucionarios\\\/#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.ufrgs.br\\\/corporalidades\\\/forias-de-genero-como-afetos-revolucionarios\\\/\"},\"author\":{\"name\":\"gerente\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.ufrgs.br\\\/corporalidades\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/e18ecb8063c1f965a031341c25460e43\"},\"headline\":\"Forias de g\u00eanero como afetos revolucion\u00e1rios\",\"datePublished\":\"2025-06-27T14:30:20+00:00\",\"dateModified\":\"2025-06-27T14:30:21+00:00\",\"mainEntityOfPage\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.ufrgs.br\\\/corporalidades\\\/forias-de-genero-como-afetos-revolucionarios\\\/\"},\"wordCount\":1820,\"commentCount\":0,\"image\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.ufrgs.br\\\/corporalidades\\\/forias-de-genero-como-afetos-revolucionarios\\\/#primaryimage\"},\"thumbnailUrl\":\"https:\\\/\\\/www.ufrgs.br\\\/corporalidades\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2025\\\/06\\\/norbu-gyachung-O2rFpJ_vbwk-unsplash-scaled.jpg\",\"keywords\":[\"Comunica\u00e7\u00e3o\",\"g\u00eanero\"],\"articleSection\":[\"Blog\"],\"inLanguage\":\"en-US\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"CommentAction\",\"name\":\"Comment\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/www.ufrgs.br\\\/corporalidades\\\/forias-de-genero-como-afetos-revolucionarios\\\/#respond\"]}]},{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.ufrgs.br\\\/corporalidades\\\/forias-de-genero-como-afetos-revolucionarios\\\/\",\"url\":\"https:\\\/\\\/www.ufrgs.br\\\/corporalidades\\\/forias-de-genero-como-afetos-revolucionarios\\\/\",\"name\":\"Forias de g\u00eanero como afetos revolucion\u00e1rios - 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Seus protocolos m\u00e9dicos, em desuso, mas com presen\u00e7a espectral, procuram atentar para quaisquer incongru\u00eancias que compliquem a f\u00e1bula \u201cverdadeiramente A em pris\u00e3o no corpo de um B\u201d. Assim, \u00e9 preciso apresentar uma narrativa linear, disposta a dobrar-se \u00e0 norma, confessando uma anatomia errada e insuport\u00e1vel, e testemunhando sofrimentos que assolam desde a inf\u00e2ncia e levam a idea\u00e7\u00f5es suicidas. Sem espa\u00e7os para sutilezas ou nuances: h\u00e1 apenas um roteiro r\u00edgido envolvendo uma s\u00e9rie de atores. N\u00e3o \u00e9 permitido que se coloque em risco \u201ca causalidade entre sexo\/g\u00eanero\/desejo\u201d e desnude \u201cos limites de um sistema bin\u00e1rio assentado no corpo sexuado (o corpo-homem e o corpo-mulher)\u201d (Bento, 2012, p. 21). Descrita, de forma geral, como um desconforto ou sofrimento causados pela incongru\u00eancia entre o g\u00eanero atribu\u00eddo ao nascimento e o g\u00eanero experimentado pelo indiv\u00edduo, a disforia preconiza o acesso aos tratamentos de sa\u00fade que integram a transi\u00e7\u00e3o cl\u00ednica. O modelo estadunidense de protocolos psiqui\u00e1tricos de transi\u00e7\u00e3o de g\u00eanero foi rapidamente exportado para pa\u00edses de todo o mundo, e integra o Cat\u00e1logo Internacional de Doen\u00e7as, publicado pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade e adotado, inclusive, pelo Sistema \u00danico de Sa\u00fade no Brasil. Nesses sistemas classificat\u00f3rios r\u00edgidos, a disforia se torna um fator de higieniza\u00e7\u00e3o do g\u00eanero, e a transi\u00e7\u00e3o assume o prop\u00f3sito de apagar as diferen\u00e7as. Mas a observa\u00e7\u00e3o de disforias como operadores amplos, e acionados nas margens, pode ser um caminho prol\u00edfico. Gayle Rubin (2011) defende os sentimentos disf\u00f3ricos como pot\u00eancia de alian\u00e7as entre feministas e pessoas trans, incluindo homens trans e feministas l\u00e9sbicas. H\u00e1 distin\u00e7\u00f5es claras entre disforias trans, butch e l\u00e9sbicas, mas tamb\u00e9m conex\u00f5es: para que se torne um espa\u00e7o de coaliz\u00f5es, a disforia de g\u00eanero deve se libertar do uso cl\u00ednico, e ter ampliado seu sentido de indicar sentimentos generificados em disputa com identidades designadas e\/ou corpos f\u00edsicos. Como exemplo, a autora indica que mulheres l\u00e9sbicas \u2013 sejam femininas ou masculinas, cis ou trans \u2013 sentem disforia de g\u00eanero em graus diversos e, quanto maior a masculinidade butch, maior a disforia. Disforia extrema pode levar \u00e0 transi\u00e7\u00e3o, mas o sintoma j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais restrito a estas pessoas. Materializado, mas fora da patologia, o sentimento deixa de ser diagn\u00f3stico, ou um carimbo que marca corpos como trans, e se torna possibilidade de mudan\u00e7a. Ele n\u00e3o mais separa, mas une, e sua import\u00e2ncia \u00e9 ressaltada ao demonstrar uma posi\u00e7\u00e3o subjetiva. Paul Preciado (2022), em Dysphoria Mundi, coloca o fen\u00f4meno no centro de um amplo pacto antinormativo. Para o autor, deslocar e ressignificar a disforia permite compreender o mundo contempor\u00e2neo, as brechas epistemol\u00f3gicas e pol\u00edticas, a tens\u00e3o entre as for\u00e7as emancipadoras, e as resist\u00eancias conservadoras do presente: \u201cE se a \u2018disforia de g\u00eanero\u2019 n\u00e3o fosse um transtorno mental, mas uma inadequa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e est\u00e9tica de nossas formas de subjetiva\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao regime normativo da diferen\u00e7a sexual e de g\u00eanero?\u201d (Preciado, 2022, p. 14). A dysphoria mundi, enquanto conceito, \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o epist\u00eamica generalizada dos corpos subalternizados, e a resist\u00eancia de todo um planeta vivo a ser reificado como mercadoria neocapitalista. Em tal configura\u00e7\u00e3o, ela pode deixar de designar patologias psiqui\u00e1tricas a serem curadas atrav\u00e9s das ind\u00fastrias m\u00e9dicas e farmac\u00eauticas, se liberta de posi\u00e7\u00f5es naturalistas que preveem o retorno ou a reuni\u00e3o com uma forma idealizada, e n\u00e3o pode ser reduzida somente ao seu aspecto de preconceito social e cultural. Retirada das ci\u00eancias psiqui\u00e1tricas, e movida para a arte, a filosofia e o ativismo, a disforia demonstra como o g\u00eanero tem potencial para ser uma plataforma revolucion\u00e1ria. Para o autor, o g\u00eanero deve transicionar da mesma forma que o planeta: novos regimes de saber devem ser adotados, rejeitando o capitalismo predat\u00f3rio e a explora\u00e7\u00e3o do lucro atrav\u00e9s de artefatos humanos, corporais e ecol\u00f3gicos. \u00c9 um projeto vigoroso. A disforia social, que \u00e9 causada pela cultura, j\u00e1 n\u00e3o nega a disforia corporal: ela passa a ser, em seu todo, uma modalidade de manifesta\u00e7\u00e3o do real, e uma condi\u00e7\u00e3o somatopol\u00edtica geral. \u00c9 a \u201cdor produzida pela gest\u00e3o necropol\u00edtica da subjetividade\u201d, mas tamb\u00e9m \u201ca pot\u00eancia dos corpos vivos do planeta (inclu\u00eddo o pr\u00f3prio planeta como corpo vivo) para extrair-se da genealogia capitalista, patriarcal e colonial\u201d (Preciado, 2022, p. 19). Mudan\u00e7a e sobreviv\u00eancia podem ser articuladas a partir da admiss\u00e3o, do conhecimento e do estudo da disforia; para o autor, os saberes que brotam de trauma, viol\u00eancia, vergonha, dor, inadequa\u00e7\u00e3o e anormalidade formam um arquivo coletivo de insatisfa\u00e7\u00f5es, que pode gerar escrituras e hist\u00f3rias mais justas e est\u00e9ticas. No entanto, destacamos que a euforia de g\u00eanero tamb\u00e9m deve ser admitida como material revolucion\u00e1rio. Retiremos ambas de seu arranjo sem\u00e2ntico dualista e oposicional para observar suas pot\u00eancias correlatas: disforia e euforia convivem e ambas podem ser ressignificadas na comunica\u00e7\u00e3o interna e externa do g\u00eanero. Bettcher (2025) prop\u00f5e que deixemos ambos termos de lado e utilizemos, de forma geral, \u201cforias\u201d negativas e positivas. A primeira m\u00f3i a subjetividade com almofariz e pil\u00e3o, macerando atrav\u00e9s do atrito, e significando atrav\u00e9s da repeti\u00e7\u00e3o exaustiva. A segunda \u00e9 uma lufada fresca, que revitaliza em brilho cognitivo inesquiv\u00e1vel. Acenar ao foco no prazer, na alegria e na euforia abre possibilidades de alian\u00e7as, e pode ser art\u00edfice do desenvolvimento de uma vis\u00e3o profundamente pol\u00edtica. \u00c9 preciso, ent\u00e3o, amplificar as hist\u00f3rias compartilhadas que unem n\u00e3o s\u00f3 pela dor, mas tamb\u00e9m pela realiza\u00e7\u00e3o subjetiva do desejo, destacando a empatia como for\u00e7a agregadora. A euforia, recompensa neurol\u00f3gica e subjetiva que tamb\u00e9m pode ser experienciada atrav\u00e9s da m\u00fasica, da dan\u00e7a, de exerc\u00edcios f\u00edsicos, do sexo, de atividades sociais e de subst\u00e2ncias psicotr\u00f3picas, carrega a pot\u00eancia de auxiliar na forma\u00e7\u00e3o de novos horizontes sociossemi\u00f3ticos de g\u00eanero. Ressaltamos que a euforia e o prazer relacionados ao g\u00eanero n\u00e3o s\u00e3o exclusivos \u00e0 disforia, mas aspectos constitutivos, multidimensionais e caleidosc\u00f3picos que merecem aten\u00e7\u00e3o. Como apontam Johnson e Lemaster (2020), o prazer \u00e9 um v\u00e1cuo epistemol\u00f3gico nas pesquisas sobre pessoas trans. Tais investiga\u00e7\u00f5es focam na disforia, na dor, na vergonha, no medo \u2013 mas ignoram, grosso modo, as possibilidades generificadas dos corpos que ousam ser guiados pelo desejo. Olhar al\u00e9m da polariza\u00e7\u00e3o entre masculino e feminino, e ater-se ao que tem potencial prazeroso para guiar experimentos e investidas, abre novos potenciais para a liberdade \u2013 uma vez que levam ao questionamento das normas de g\u00eanero, incutidas desde sempre em todas as pessoas. Embora o desconforto seja um mobilizador, a tenta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m pode s\u00ea-lo. \u00c9 um aceno a sentidos vilificados: o paradigma transg\u00eanero, para desestigmatizar a caracteriza\u00e7\u00e3o do fen\u00f4meno trans pela atra\u00e7\u00e3o sexual de ser o \u201coutro\u201d g\u00eanero (transexual enquanto prolongamento de homossexual ou autogin\u00e9filo, ambas sendo parafilias), afastou a sexualidade dessa discuss\u00e3o. Mas o er\u00f3tico est\u00e1 ao lado do desejo e do prazer, tanto como fim quanto como consequ\u00eancia. A busca por legitimidade acaba higienizando as pr\u00e1ticas sexuais e consolida a heterossexualidade colonial e compuls\u00f3ria. Ousar a erotiza\u00e7\u00e3o e o prazer ser\u00e1 entendido ora como privil\u00e9gio, ora como desvio, mas \u00e9 um caminho que deve ser explorado. Assim, \u00e9 bastante claro que o ataque normativo \u00e0queles que testemunham desejo e prazer \u2013 notadamente as individualidades transformistas, crossdressers, drag queens\/kings e travestis que s\u00e3o reduzidas a met\u00e1foras do rid\u00edculo e da sujeira (Barbosa, 2013) \u2013 \u00e9 um preconceito de base lingu\u00edstica que busca condenar e ofuscar a pot\u00eancia dessas experi\u00eancias. H\u00e1 um qu\u00ea de reacionarismo nas narrativas das dores trans: qualquer tentativa de complexific\u00e1-las torna-se, rapidamente, raz\u00e3o para indigna\u00e7\u00e3o \u2013 o que compreendemos como um trauma social, um gato escaldado que coloca as orelhas para tr\u00e1s t\u00e3o logo algu\u00e9m questione a temperatura da \u00e1gua. \u00c9 sintom\u00e1tico que a pesquisa sobre euforias de g\u00eanero seja min\u00fascula, como demonstra o levantamento de Jones (2023). \u00c9 preciso abrir caminhos mais m\u00faltiplos, para que as experi\u00eancias discriminat\u00f3rias \u2013 essas sim, provocadas pela fervura do caldo sociocultural \u2013 deixem de ser definidoras, ainda que se mantenham componentes, das experi\u00eancias trans. Como aponta Butler (1995), reconhecer os aspectos melanc\u00f3licos do g\u00eanero \u00e9 \u00fatil quando ressalta que n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para continuarmos apoiados em sistemas onde uma identidade compuls\u00f3ria se forma na oposi\u00e7\u00e3o ao desejo, ou para que o desejo seja alimentado pelo rep\u00fadio. Para tanto, euforias e disforias de g\u00eanero devem ser vistas em termos de m\u00e1quinas semi\u00f3ticas, que podem dar conta das consist\u00eancias enunciativas espec\u00edficas das coletividades e seus indiv\u00edduos; deixar as dimens\u00f5es maqu\u00ednicas de lado \u00e9 perder uma parte fundamental da constitui\u00e7\u00e3o do real (GPESC, 2020). Os processos materiais e semi\u00f3ticos, inclusive aqueles assignificantes \u2013 que v\u00e3o al\u00e9m, mas est\u00e3o conectados a seus aspectos sem\u00e2nticos e estruturais \u2013 demonstram como as signific\u00e2ncias agem diretamente sobre a realidade concreta, em formas produtivas e pragm\u00e1ticas da linguagem. Propomos que as disforias, sozinhas, s\u00e3o insuficientes para produzir uma epistemologia unificadora do g\u00eanero. Som\u00e1-las \u00e0s euforias, e inscrev\u00ea-las como componentes de um g\u00eanero comunicacional, permite articula\u00e7\u00f5es semi\u00f3ticas cr\u00edticas e que acarretam potencialidades. Imagem Cr\u00e9dito: Norbu Gyachung\/Unsplash. Refer\u00eancias BARBOSA, Bruno. Doidas e putas: usos das categorias travesti e transexual. Sexualidad, Salud y Sociedad, n. 14, p. 352-379, 2013. BENTO, Berenice. O que \u00e9 transexualidade. 2. ed. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 2012. BETTCHER, Talia. Beyond Personhood: An Essay in Trans Philosophy. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2025. BUTLER, Judith. Melancholy Gender \u2013 Refused Identification. Psychoanalytic Dialogues, v. 5, n. 2, p. 165-180, 1995. GPESC. Semi\u00f3tica cr\u00edtica e as materialidades da comunica\u00e7\u00e3o. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2020. JOHNSON, Amber; LEMASTER, Benny. Gender Futurity: A Plea for Pleasure. In: __ (eds.). Gender Futurity, Intersectional Autoethnography: Embodied Theorizing from the Margins. New York: Routledge, 2020. JONES, Tiffany. Euphorias in Gender, Sex and Sexuality Variations: Positive Experiences. New York: Palgrave Macmillan, 2023. PRECIADO, Paul. Dysphoria Mundi. Rio de Janeiro: Zahar, 2022. RUBIN, Gayle. Deviations. Durham: Duke University Press, 2011. STONE, Sandy. The Empire Strikes Back: A Posttranssexual Manifesto. 2014. Dispon\u00edvel em: http:\/\/sandystone.com\/empire-strikes-back.pdf . Acesso em: 20 de mai. de 2025.","og_url":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/forias-de-genero-como-afetos-revolucionarios\/","og_site_name":"Corporalidades","article_published_time":"2025-06-27T14:30:20+00:00","article_modified_time":"2025-06-27T14:30:21+00:00","og_image":[{"width":2560,"height":1707,"url":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/norbu-gyachung-O2rFpJ_vbwk-unsplash-scaled.jpg","type":"image\/jpeg"}],"author":"gerente","twitter_card":"summary_large_image","twitter_misc":{"Written by":"gerente","Est. reading time":"8 minutes"},"schema":{"@context":"https:\/\/schema.org","@graph":[{"@type":"Article","@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/forias-de-genero-como-afetos-revolucionarios\/#article","isPartOf":{"@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/forias-de-genero-como-afetos-revolucionarios\/"},"author":{"name":"gerente","@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/#\/schema\/person\/e18ecb8063c1f965a031341c25460e43"},"headline":"Forias de g\u00eanero como afetos revolucion\u00e1rios","datePublished":"2025-06-27T14:30:20+00:00","dateModified":"2025-06-27T14:30:21+00:00","mainEntityOfPage":{"@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/forias-de-genero-como-afetos-revolucionarios\/"},"wordCount":1820,"commentCount":0,"image":{"@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/forias-de-genero-como-afetos-revolucionarios\/#primaryimage"},"thumbnailUrl":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/norbu-gyachung-O2rFpJ_vbwk-unsplash-scaled.jpg","keywords":["Comunica\u00e7\u00e3o","g\u00eanero"],"articleSection":["Blog"],"inLanguage":"en-US","potentialAction":[{"@type":"CommentAction","name":"Comment","target":["https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/forias-de-genero-como-afetos-revolucionarios\/#respond"]}]},{"@type":"WebPage","@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/forias-de-genero-como-afetos-revolucionarios\/","url":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/forias-de-genero-como-afetos-revolucionarios\/","name":"Forias de g\u00eanero como afetos revolucion\u00e1rios - 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