{"id":3751,"date":"2025-09-08T19:34:07","date_gmt":"2025-09-08T22:34:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/?p=3751"},"modified":"2025-09-08T19:34:09","modified_gmt":"2025-09-08T22:34:09","slug":"sobre-uma-certa-estetica-institucional-em-documentarios-recentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/sobre-uma-certa-estetica-institucional-em-documentarios-recentes\/","title":{"rendered":"Sobre uma certa \u201cest\u00e9tica institucional\u201d em document\u00e1rios recentes"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Por Rafael de Campos:<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No primeiro semestre deste ano foram lan\u00e7ados dois document\u00e1rios sobre duas das mais importantes figuras da m\u00fasica brasileira: <em>Milton Bituca Nascimento<\/em>, dirigido por Fl\u00e1via Moraes, e <em>Ritas<\/em>, dirigido por Oswaldo Santana e Karen Harley. Ambos com inten\u00e7\u00f5es semelhantes, recorrentes em produ\u00e7\u00f5es desta categoria, ou seja, document\u00e1rios lan\u00e7ados no final da carreira ou pouco ap\u00f3s a morte de determinado artista e que buscam constituir um comp\u00eandio dos aspectos mais importantes de sua personalidade, trajet\u00f3ria, vida pessoal e\/ou evidenciar a relev\u00e2ncia de sua obra. Parece muita coisa para caber em um longa-metragem, e a capacidade de s\u00edntese tende a ser, justamente, um dos desafios desse tipo de document\u00e1rio. <em>Milton<\/em>\u2026 e <em>Ritas<\/em> lidam com este e outros desafios por meio de concep\u00e7\u00f5es formais muito diferentes, mas \u00e9 o primeiro que se mostra sintom\u00e1tico de algo que se tornou uma constante em diversos document\u00e1rios recentes: o emprego de uma linguagem padronizada, muito pr\u00f3xima do v\u00eddeo institucional publicit\u00e1rio t\u00edpico das redes sociais.<br><br><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/1-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-178\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br>\u00c9 dif\u00edcil encontrar algu\u00e9m que n\u00e3o goste de Milton Nascimento, e isso vale tanto para sua m\u00fasica quanto para sua persona: figura reservada, de uma serenidade t\u00edmida que \u00e9 ecoada perfeitamente na suavidade de sua voz, Milton sempre se manteve avesso a pol\u00eamicas da ind\u00fastria fonogr\u00e1fica, o que lhe conferiu uma aura quase imaculada neste meio. Somado a um incontest\u00e1vel talento, reconhecido mundialmente, a admira\u00e7\u00e3o por Milton \u00e9 de uma unanimidade pr\u00f3xima do absoluto. Consequentemente, parece uma tarefa dif\u00edcil tornar ruim um filme sobre ele, ainda mais quando se t\u00eam acesso \u00e0 sua intimidade, a entrevistas com diversas lendas da m\u00fasica e de outras \u00e1reas, e a uma produ\u00e7\u00e3o grandiosa, com direito a melhor qualidade de capta\u00e7\u00e3o e edi\u00e7\u00e3o de som e imagem. O modo pelo qual todos estes \u201cprivil\u00e9gios\u201d s\u00e3o aproveitados, no entanto, deflagra como a insist\u00eancia em certas recorr\u00eancias do cinema documental mais recente podem facilmente deixar impressa uma sensa\u00e7\u00e3o de padroniza\u00e7\u00e3o.<br><br><em>Milton\u2026<\/em> \u00e9 composto por diversas linhas narrativas que parecem almejar uma fuga de um arco cronol\u00f3gico estanque, mas ao inv\u00e9s de apresentar uma constru\u00e7\u00e3o efetivamente criativa, apenas se complica em abordar aquele que seria seu tema principal: a \u00faltima turn\u00ea de Milton Nascimento. Pouqu\u00edssimo \u00e9 mostrado sobre as derradeiras performances do artista, dos bastidores das viagens e das prepara\u00e7\u00f5es para os shows, e o que chega a aparecer no filme surge como pequenas p\u00edlulas em meio a uma torrente de depoimentos de diversos artistas que repetem, de maneiras n\u00e3o muito diferentes, sua admira\u00e7\u00e3o por Milton Nascimento. O problema n\u00e3o \u00e9 a reitera\u00e7\u00e3o dos elogios em si, mas o fato de o discurso n\u00e3o sair do lugar. Acaba-se com a sensa\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o se produz nada al\u00e9m de um intermin\u00e1vel recurso ao discurso de autoridade(s), principalmente estadunidenses &#8211; al\u00e9m das entrevistas com muitos dos principais representantes da MPB, como Gilberto Gil, Chico Buarque e Caetano Veloso, tamb\u00e9m participam Herbie Hancock, Quincy Jones, Pat Matheny, Spike Lee, entre outros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas essas entrevistas, os raros momentos da turn\u00ea e outras linhas narrativas s\u00e3o articulados por meio de uma est\u00e9tica que lembra muito o padr\u00e3o de dois formatos audiovisuais bastante demarcados: o trailer e o filme publicit\u00e1rio institucional. O ritmo da montagem, com um excesso de <em>fades<\/em>, bem como o teor excessivamente semelhante das entrevistas, passam a sensa\u00e7\u00e3o de que o filme est\u00e1 indicando algo por vir, assim como um trailer que, ao inv\u00e9s de revelar o essencial de determinado assunto, apenas levanta ganchos para atrair a curiosidade do espectador em potencial. Aos poucos, por\u00e9m, vai se percebendo que o filme nunca ir\u00e1 al\u00e9m de uma superf\u00edcie que parece prometer alguma coisa, nem ser\u00e1 capaz de produzir algo de interessante nessa mesma superf\u00edcie.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m h\u00e1 cenas em que um ator mirim interpreta Milton Nascimento na inf\u00e2ncia, encenando falas marcantes do cantor sobre essa fase de sua vida, como a sua rela\u00e7\u00e3o com as cavernas do interior de Minas Gerais, e visitas da equipe a cidades hist\u00f3ricas do estado, como Diamantina e Ouro Preto, e em cidades de outros pa\u00edses pelas quais a turn\u00ea passou, como Nova York. Mas tanto as reconstitui\u00e7\u00f5es quanto as excurs\u00f5es s\u00e3o filmadas de um modo muito semelhante a um filme institucional: uma profus\u00e3o de panor\u00e2micas circulares em <em>slow motion<\/em>, cores excessivamente contrastadas trazendo uma textura plastificada \u00e0s imagens e in\u00fameras tomadas a\u00e9reas de drones. A narra\u00e7\u00e3o de Fernanda Montenegro, infelizmente, tamb\u00e9m acaba contribuindo bastante para essa impress\u00e3o. A articula\u00e7\u00e3o de sua voz com planos dessa natureza parece ter ficado muito vinculada aos diversos comerciais em que participou nos \u00faltimos anos, e o texto que ela l\u00ea, de autoria do jornalista Marcelo Ferla, apenas corrobora essa impress\u00e3o: repleto de clich\u00eas, acaba buscando conceder uma esp\u00e9cie de guia desnecess\u00e1rio ao espectador, e al\u00e9m de participar do infind\u00e1vel coro \u00e0s reitera\u00e7\u00f5es elogiosas, ainda possui uma pretens\u00e3o po\u00e9tica que \u00e9 preenchida com diversos lugares-comuns, como a insist\u00eancia na ideia de um \u201cBrasil profundo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas h\u00e1 um desses aspectos t\u00e9cnicos mencionados acima que contribui especialmente para a impress\u00e3o de uma est\u00e9tica padronizada, que \u00e9 o modo como s\u00e3o usados os planos de drones. Artif\u00edcio cada vez mais adotado em document\u00e1rios recentes, geralmente como plano de estabelecimento descritivo e de transi\u00e7\u00e3o narrativa, essas tomadas a\u00e9reas parecem carregar em si uma camada conotativa muito forte, intrinsecamente relacionada \u00e0 no\u00e7\u00e3o de vigil\u00e2ncia, mas tamb\u00e9m de uma est\u00e9tica corporativa e publicit\u00e1ria. Este \u00e9 um dos elementos t\u00e9cnicos que aproximam o filme de Fl\u00e1via Moraes ao mais recente document\u00e1rio sobre Pepe Mujica, <em>Os Sonhos de Pepe &#8211; Movimento 2052<\/em> (Pablo Trobo, 2024). Neste filme, Trobo lida com privil\u00e9gios semelhantes aos de Moraes, como o acesso \u00e0 intimidade de uma figura popular e a possibilidade de acompanh\u00e1-lo em sua \u00faltima \u201cturn\u00ea\u201d, mas acaba produzindo efeitos parecidos, que o levam a mesma padroniza\u00e7\u00e3o est\u00e9tica: al\u00e9m da excessiva exalta\u00e7\u00e3o de seu personagem-t\u00edtulo, h\u00e1 a maneira como se apropria dos recursos t\u00e9cnicos, principalmente dos drones. As tomadas a\u00e9reas dos campos uruguaios e das diversas cidades que Mujica visita ao redor do mundo s\u00e3o muito semelhantes \u00e0quelas que Fl\u00e1via Moraes captura das cidades hist\u00f3ricas mineiras e de metr\u00f3poles internacionais. Se nos outros momentos a forma do filme se assemelha a um v\u00eddeo institucional de um banco, nesses somos transportados para um v\u00eddeo publicit\u00e1rio de uma ag\u00eancia de viagens.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De toda forma, h\u00e1 dois momentos captados pela equipe de <em>Milton\u2026<\/em> que se destacam: em um deles, \u00e9 registrado o \u00faltimo encontro de Milton Nascimento com Wayne Shorter, amigo e parceiro musical no \u00e1lbum <em>Native Dancer<\/em> (1975). Ambos muito longe das melhores condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas, principalmente Shorter, que viria a falecer pouco depois desse encontro. Naquele que talvez seja o plano mais comovente do filme, a c\u00e2mera, em um movimento tr\u00eamulo, registra um Milton que parece rejuvenescer pr\u00f3ximo a Shorter. J\u00e1 nos cr\u00e9ditos finais, h\u00e1 outra bela cena em que Milton, em um quarto de hotel, reage a um disco que toca a m\u00fasica <em>Babalu<\/em>, na voz de \u00c2ngela Maria. Dois momentos de espontaneidade e beleza, intrinsecamente ligados aos bastidores da turn\u00ea final, que destoam do restante do filme.<br><br><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/2-1024x559.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-179\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><em>Ritas<\/em> j\u00e1 indica no t\u00edtulo aquilo a que se prop\u00f5e: apresentar um panorama das m\u00faltiplas configura\u00e7\u00f5es incorporadas por Rita Lee ao longo da vida, tanto em sua obra quanto em sua personalidade. Concebido a partir da autobiografia da artista, este \u00e9, basicamente, um filme de arquivo. Para al\u00e9m de uma \u00fanica entrevista realizada com Rita Lee, a \u00faltima concedida oficialmente por ela, <em>Ritas<\/em> ser\u00e1 formado por sons e imagens coletados a partir de uma ampla pesquisa iconogr\u00e1fica que perpassa d\u00e9cadas da televis\u00e3o e da imprensa brasileira. Tamb\u00e9m comp\u00f5em o filme diversos v\u00eddeos caseiros gravados pela pr\u00f3pria Rita Lee com seu celular, de modo espont\u00e2neo e despretensioso, mostrando seus objetos preferidos, sua rela\u00e7\u00e3o com a casa, com o cotidiano e com a mem\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Oswaldo Santana e Karen Harley, que dividem a dire\u00e7\u00e3o, possuem amplas experi\u00eancias precedentes na montagem de filmes e s\u00e9ries &#8211; esta \u00e9, inclusive, a estreia de Santana na dire\u00e7\u00e3o -, o que certamente contribuiu para esta empreitada. Ao abdicar de narra\u00e7\u00e3o e textos explicativos, fica a cargo da montagem a articula\u00e7\u00e3o do discurso e dos arcos narrativos. Ainda que um tanto comportado na forma, o filme \u00e9 bem-sucedido em aproveitar o valioso material de arquivo, principalmente porque consegue dar conta das diversas linhas temporais sem tratar de maneira apressada as diferentes tem\u00e1ticas, dando a cada uma das Ritas sua devida dimens\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As diverg\u00eancias formais e de produ\u00e7\u00e3o mais aparentes entre <em>Milton Bituca Nascimento<\/em> e <em>Ritas<\/em> levantam tamb\u00e9m uma quest\u00e3o de emiss\u00e3o. \u00c9 claro que, como afirma Jean-Claude Bernardet (2003), sempre ser\u00e1 o(a) diretor(a) quem ter\u00e1 o poder sobre o que e como ser\u00e1 dito no filme, mas se pode pensar aqui, tamb\u00e9m, nas estrat\u00e9gias levadas a cabo para retratar o personagem-t\u00edtulo, quais as vozes s\u00e3o articuladas para isso. Se no filme de Fl\u00e1via Moraes se busca uma constru\u00e7\u00e3o acerca da figura de Milton Nascimento apoiando-se em depoimentos de terceiros, Santana e Harley optam por construir as diversas <em>Ritas<\/em> com base nos vest\u00edgios deixados por ela mesma. N\u00e3o \u00e9 que seja imposs\u00edvel fazer um bom document\u00e1rio biogr\u00e1fico centrado em vozes externas, mas, em <em>Milton\u2026<\/em>, fica aquela sensa\u00e7\u00e3o de quando se est\u00e1 falando de algu\u00e9m que se encontra na mesma sala, mas n\u00e3o se permite que fale por si.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><strong>Bibliografia<\/strong><br>BERNARDET, Jean-Claude. <strong>Cineastas e Imagens do Povo<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2003.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><strong>Imagens<\/strong><br>Fonte da imagem 1 &#8211; <a href=\"https:\/\/rollingstone.com.br\/cinema\/novo-documentario-sobre-milton-nascimento-e-tentativa-de-explicar-o-inexplicavel\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/rollingstone.com.br\/cinema\/novo-documentario-sobre-milton-nascimento-e-tentativa-de-explicar-o-inexplicavel\">Reprodu\u00e7\u00e3o\/Rolling Stone<\/a>.<br>Fonte da imagem 2 &#8211; <a href=\"https:\/\/revistaogrito.com\/documentario-ritas-com-ultima-entrevista-inedita-de-rita-lee-divulga-trailer-oficial\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/revistaogrito.com\/documentario-ritas-com-ultima-entrevista-inedita-de-rita-lee-divulga-trailer-oficial\">Reprodu\u00e7\u00e3o\/O Grito<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Rafael de Campos: No primeiro semestre deste ano foram lan\u00e7ados dois document\u00e1rios sobre duas das mais importantes figuras da m\u00fasica brasileira: Milton Bituca Nascimento, dirigido por Fl\u00e1via Moraes, e Ritas, dirigido por Oswaldo Santana e Karen Harley. Ambos com inten\u00e7\u00f5es semelhantes, recorrentes em produ\u00e7\u00f5es desta categoria, ou seja, document\u00e1rios lan\u00e7ados no final da carreira ou pouco ap\u00f3s a morte de determinado artista e que buscam constituir um comp\u00eandio dos aspectos mais importantes de sua personalidade, trajet\u00f3ria, vida pessoal e\/ou evidenciar a relev\u00e2ncia de sua obra. Parece muita coisa para caber em um longa-metragem, e a capacidade de s\u00edntese tende a ser, justamente, um dos desafios desse tipo de document\u00e1rio. Milton\u2026 e Ritas lidam com este e outros desafios por meio de concep\u00e7\u00f5es formais muito diferentes, mas \u00e9 o primeiro que se mostra sintom\u00e1tico de algo que se tornou uma constante em diversos document\u00e1rios recentes: o emprego de uma linguagem padronizada, muito pr\u00f3xima do v\u00eddeo institucional publicit\u00e1rio t\u00edpico das redes sociais. \u00c9 dif\u00edcil encontrar algu\u00e9m que n\u00e3o goste de Milton Nascimento, e isso vale tanto para sua m\u00fasica quanto para sua persona: figura reservada, de uma serenidade t\u00edmida que \u00e9 ecoada perfeitamente na suavidade de sua voz, Milton sempre se manteve avesso a pol\u00eamicas da ind\u00fastria fonogr\u00e1fica, o que lhe conferiu uma aura quase imaculada neste meio. Somado a um incontest\u00e1vel talento, reconhecido mundialmente, a admira\u00e7\u00e3o por Milton \u00e9 de uma unanimidade pr\u00f3xima do absoluto. Consequentemente, parece uma tarefa dif\u00edcil tornar ruim um filme sobre ele, ainda mais quando se t\u00eam acesso \u00e0 sua intimidade, a entrevistas com diversas lendas da m\u00fasica e de outras \u00e1reas, e a uma produ\u00e7\u00e3o grandiosa, com direito a melhor qualidade de capta\u00e7\u00e3o e edi\u00e7\u00e3o de som e imagem. O modo pelo qual todos estes \u201cprivil\u00e9gios\u201d s\u00e3o aproveitados, no entanto, deflagra como a insist\u00eancia em certas recorr\u00eancias do cinema documental mais recente podem facilmente deixar impressa uma sensa\u00e7\u00e3o de padroniza\u00e7\u00e3o. Milton\u2026 \u00e9 composto por diversas linhas narrativas que parecem almejar uma fuga de um arco cronol\u00f3gico estanque, mas ao inv\u00e9s de apresentar uma constru\u00e7\u00e3o efetivamente criativa, apenas se complica em abordar aquele que seria seu tema principal: a \u00faltima turn\u00ea de Milton Nascimento. Pouqu\u00edssimo \u00e9 mostrado sobre as derradeiras performances do artista, dos bastidores das viagens e das prepara\u00e7\u00f5es para os shows, e o que chega a aparecer no filme surge como pequenas p\u00edlulas em meio a uma torrente de depoimentos de diversos artistas que repetem, de maneiras n\u00e3o muito diferentes, sua admira\u00e7\u00e3o por Milton Nascimento. O problema n\u00e3o \u00e9 a reitera\u00e7\u00e3o dos elogios em si, mas o fato de o discurso n\u00e3o sair do lugar. Acaba-se com a sensa\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o se produz nada al\u00e9m de um intermin\u00e1vel recurso ao discurso de autoridade(s), principalmente estadunidenses &#8211; al\u00e9m das entrevistas com muitos dos principais representantes da MPB, como Gilberto Gil, Chico Buarque e Caetano Veloso, tamb\u00e9m participam Herbie Hancock, Quincy Jones, Pat Matheny, Spike Lee, entre outros. Mas essas entrevistas, os raros momentos da turn\u00ea e outras linhas narrativas s\u00e3o articulados por meio de uma est\u00e9tica que lembra muito o padr\u00e3o de dois formatos audiovisuais bastante demarcados: o trailer e o filme publicit\u00e1rio institucional. O ritmo da montagem, com um excesso de fades, bem como o teor excessivamente semelhante das entrevistas, passam a sensa\u00e7\u00e3o de que o filme est\u00e1 indicando algo por vir, assim como um trailer que, ao inv\u00e9s de revelar o essencial de determinado assunto, apenas levanta ganchos para atrair a curiosidade do espectador em potencial. Aos poucos, por\u00e9m, vai se percebendo que o filme nunca ir\u00e1 al\u00e9m de uma superf\u00edcie que parece prometer alguma coisa, nem ser\u00e1 capaz de produzir algo de interessante nessa mesma superf\u00edcie. Tamb\u00e9m h\u00e1 cenas em que um ator mirim interpreta Milton Nascimento na inf\u00e2ncia, encenando falas marcantes do cantor sobre essa fase de sua vida, como a sua rela\u00e7\u00e3o com as cavernas do interior de Minas Gerais, e visitas da equipe a cidades hist\u00f3ricas do estado, como Diamantina e Ouro Preto, e em cidades de outros pa\u00edses pelas quais a turn\u00ea passou, como Nova York. Mas tanto as reconstitui\u00e7\u00f5es quanto as excurs\u00f5es s\u00e3o filmadas de um modo muito semelhante a um filme institucional: uma profus\u00e3o de panor\u00e2micas circulares em slow motion, cores excessivamente contrastadas trazendo uma textura plastificada \u00e0s imagens e in\u00fameras tomadas a\u00e9reas de drones. A narra\u00e7\u00e3o de Fernanda Montenegro, infelizmente, tamb\u00e9m acaba contribuindo bastante para essa impress\u00e3o. A articula\u00e7\u00e3o de sua voz com planos dessa natureza parece ter ficado muito vinculada aos diversos comerciais em que participou nos \u00faltimos anos, e o texto que ela l\u00ea, de autoria do jornalista Marcelo Ferla, apenas corrobora essa impress\u00e3o: repleto de clich\u00eas, acaba buscando conceder uma esp\u00e9cie de guia desnecess\u00e1rio ao espectador, e al\u00e9m de participar do infind\u00e1vel coro \u00e0s reitera\u00e7\u00f5es elogiosas, ainda possui uma pretens\u00e3o po\u00e9tica que \u00e9 preenchida com diversos lugares-comuns, como a insist\u00eancia na ideia de um \u201cBrasil profundo\u201d. Mas h\u00e1 um desses aspectos t\u00e9cnicos mencionados acima que contribui especialmente para a impress\u00e3o de uma est\u00e9tica padronizada, que \u00e9 o modo como s\u00e3o usados os planos de drones. Artif\u00edcio cada vez mais adotado em document\u00e1rios recentes, geralmente como plano de estabelecimento descritivo e de transi\u00e7\u00e3o narrativa, essas tomadas a\u00e9reas parecem carregar em si uma camada conotativa muito forte, intrinsecamente relacionada \u00e0 no\u00e7\u00e3o de vigil\u00e2ncia, mas tamb\u00e9m de uma est\u00e9tica corporativa e publicit\u00e1ria. Este \u00e9 um dos elementos t\u00e9cnicos que aproximam o filme de Fl\u00e1via Moraes ao mais recente document\u00e1rio sobre Pepe Mujica, Os Sonhos de Pepe &#8211; Movimento 2052 (Pablo Trobo, 2024). Neste filme, Trobo lida com privil\u00e9gios semelhantes aos de Moraes, como o acesso \u00e0 intimidade de uma figura popular e a possibilidade de acompanh\u00e1-lo em sua \u00faltima \u201cturn\u00ea\u201d, mas acaba produzindo efeitos parecidos, que o levam a mesma padroniza\u00e7\u00e3o est\u00e9tica: al\u00e9m da excessiva exalta\u00e7\u00e3o de seu personagem-t\u00edtulo, h\u00e1 a maneira como se apropria dos recursos t\u00e9cnicos, principalmente dos drones. As tomadas a\u00e9reas dos campos uruguaios e das diversas cidades que Mujica visita ao redor do mundo s\u00e3o muito semelhantes \u00e0quelas que Fl\u00e1via Moraes captura das cidades hist\u00f3ricas mineiras e de metr\u00f3poles internacionais. Se nos outros momentos a forma do filme se assemelha a um v\u00eddeo institucional de um banco, nesses somos transportados para um v\u00eddeo publicit\u00e1rio de uma ag\u00eancia de viagens. De toda forma, h\u00e1 dois momentos captados pela equipe de Milton\u2026 que se destacam: em um deles, \u00e9 registrado o \u00faltimo encontro de Milton Nascimento com Wayne Shorter, amigo e parceiro musical no \u00e1lbum Native Dancer (1975). Ambos muito longe das melhores condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas, principalmente Shorter, que viria a falecer pouco depois desse encontro. Naquele que talvez seja o plano mais comovente do filme, a c\u00e2mera, em um movimento tr\u00eamulo, registra um Milton que parece rejuvenescer pr\u00f3ximo a Shorter. J\u00e1 nos cr\u00e9ditos finais, h\u00e1 outra bela cena em que Milton, em um quarto de hotel, reage a um disco que toca a m\u00fasica Babalu, na voz de \u00c2ngela Maria. Dois momentos de espontaneidade e beleza, intrinsecamente ligados aos bastidores da turn\u00ea final, que destoam do restante do filme. Ritas j\u00e1 indica no t\u00edtulo aquilo a que se prop\u00f5e: apresentar um panorama das m\u00faltiplas configura\u00e7\u00f5es incorporadas por Rita Lee ao longo da vida, tanto em sua obra quanto em sua personalidade. Concebido a partir da autobiografia da artista, este \u00e9, basicamente, um filme de arquivo. Para al\u00e9m de uma \u00fanica entrevista realizada com Rita Lee, a \u00faltima concedida oficialmente por ela, Ritas ser\u00e1 formado por sons e imagens coletados a partir de uma ampla pesquisa iconogr\u00e1fica que perpassa d\u00e9cadas da televis\u00e3o e da imprensa brasileira. Tamb\u00e9m comp\u00f5em o filme diversos v\u00eddeos caseiros gravados pela pr\u00f3pria Rita Lee com seu celular, de modo espont\u00e2neo e despretensioso, mostrando seus objetos preferidos, sua rela\u00e7\u00e3o com a casa, com o cotidiano e com a mem\u00f3ria. Oswaldo Santana e Karen Harley, que dividem a dire\u00e7\u00e3o, possuem amplas experi\u00eancias precedentes na montagem de filmes e s\u00e9ries &#8211; esta \u00e9, inclusive, a estreia de Santana na dire\u00e7\u00e3o -, o que certamente contribuiu para esta empreitada. Ao abdicar de narra\u00e7\u00e3o e textos explicativos, fica a cargo da montagem a articula\u00e7\u00e3o do discurso e dos arcos narrativos. Ainda que um tanto comportado na forma, o filme \u00e9 bem-sucedido em aproveitar o valioso material de arquivo, principalmente porque consegue dar conta das diversas linhas temporais sem tratar de maneira apressada as diferentes tem\u00e1ticas, dando a cada uma das Ritas sua devida dimens\u00e3o. As diverg\u00eancias formais e de produ\u00e7\u00e3o mais aparentes entre Milton Bituca Nascimento e Ritas levantam tamb\u00e9m uma quest\u00e3o de emiss\u00e3o. \u00c9 claro que, como afirma Jean-Claude Bernardet (2003), sempre ser\u00e1 o(a) diretor(a) quem ter\u00e1 o poder sobre o que e como ser\u00e1 dito no filme, mas se pode pensar aqui, tamb\u00e9m, nas estrat\u00e9gias levadas a cabo para retratar o personagem-t\u00edtulo, quais as vozes s\u00e3o articuladas para isso. Se no filme de Fl\u00e1via Moraes se busca uma constru\u00e7\u00e3o acerca da figura de Milton Nascimento apoiando-se em depoimentos de terceiros, Santana e Harley optam por construir as diversas Ritas com base nos vest\u00edgios deixados por ela mesma. 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Ambos com inten\u00e7\u00f5es semelhantes, recorrentes em produ\u00e7\u00f5es desta categoria, ou seja, document\u00e1rios lan\u00e7ados no final da carreira ou pouco ap\u00f3s a morte de determinado artista e que buscam constituir um comp\u00eandio dos aspectos mais importantes de sua personalidade, trajet\u00f3ria, vida pessoal e\/ou evidenciar a relev\u00e2ncia de sua obra. Parece muita coisa para caber em um longa-metragem, e a capacidade de s\u00edntese tende a ser, justamente, um dos desafios desse tipo de document\u00e1rio. Milton\u2026 e Ritas lidam com este e outros desafios por meio de concep\u00e7\u00f5es formais muito diferentes, mas \u00e9 o primeiro que se mostra sintom\u00e1tico de algo que se tornou uma constante em diversos document\u00e1rios recentes: o emprego de uma linguagem padronizada, muito pr\u00f3xima do v\u00eddeo institucional publicit\u00e1rio t\u00edpico das redes sociais. \u00c9 dif\u00edcil encontrar algu\u00e9m que n\u00e3o goste de Milton Nascimento, e isso vale tanto para sua m\u00fasica quanto para sua persona: figura reservada, de uma serenidade t\u00edmida que \u00e9 ecoada perfeitamente na suavidade de sua voz, Milton sempre se manteve avesso a pol\u00eamicas da ind\u00fastria fonogr\u00e1fica, o que lhe conferiu uma aura quase imaculada neste meio. Somado a um incontest\u00e1vel talento, reconhecido mundialmente, a admira\u00e7\u00e3o por Milton \u00e9 de uma unanimidade pr\u00f3xima do absoluto. Consequentemente, parece uma tarefa dif\u00edcil tornar ruim um filme sobre ele, ainda mais quando se t\u00eam acesso \u00e0 sua intimidade, a entrevistas com diversas lendas da m\u00fasica e de outras \u00e1reas, e a uma produ\u00e7\u00e3o grandiosa, com direito a melhor qualidade de capta\u00e7\u00e3o e edi\u00e7\u00e3o de som e imagem. O modo pelo qual todos estes \u201cprivil\u00e9gios\u201d s\u00e3o aproveitados, no entanto, deflagra como a insist\u00eancia em certas recorr\u00eancias do cinema documental mais recente podem facilmente deixar impressa uma sensa\u00e7\u00e3o de padroniza\u00e7\u00e3o. Milton\u2026 \u00e9 composto por diversas linhas narrativas que parecem almejar uma fuga de um arco cronol\u00f3gico estanque, mas ao inv\u00e9s de apresentar uma constru\u00e7\u00e3o efetivamente criativa, apenas se complica em abordar aquele que seria seu tema principal: a \u00faltima turn\u00ea de Milton Nascimento. Pouqu\u00edssimo \u00e9 mostrado sobre as derradeiras performances do artista, dos bastidores das viagens e das prepara\u00e7\u00f5es para os shows, e o que chega a aparecer no filme surge como pequenas p\u00edlulas em meio a uma torrente de depoimentos de diversos artistas que repetem, de maneiras n\u00e3o muito diferentes, sua admira\u00e7\u00e3o por Milton Nascimento. O problema n\u00e3o \u00e9 a reitera\u00e7\u00e3o dos elogios em si, mas o fato de o discurso n\u00e3o sair do lugar. Acaba-se com a sensa\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o se produz nada al\u00e9m de um intermin\u00e1vel recurso ao discurso de autoridade(s), principalmente estadunidenses &#8211; al\u00e9m das entrevistas com muitos dos principais representantes da MPB, como Gilberto Gil, Chico Buarque e Caetano Veloso, tamb\u00e9m participam Herbie Hancock, Quincy Jones, Pat Matheny, Spike Lee, entre outros. Mas essas entrevistas, os raros momentos da turn\u00ea e outras linhas narrativas s\u00e3o articulados por meio de uma est\u00e9tica que lembra muito o padr\u00e3o de dois formatos audiovisuais bastante demarcados: o trailer e o filme publicit\u00e1rio institucional. O ritmo da montagem, com um excesso de fades, bem como o teor excessivamente semelhante das entrevistas, passam a sensa\u00e7\u00e3o de que o filme est\u00e1 indicando algo por vir, assim como um trailer que, ao inv\u00e9s de revelar o essencial de determinado assunto, apenas levanta ganchos para atrair a curiosidade do espectador em potencial. Aos poucos, por\u00e9m, vai se percebendo que o filme nunca ir\u00e1 al\u00e9m de uma superf\u00edcie que parece prometer alguma coisa, nem ser\u00e1 capaz de produzir algo de interessante nessa mesma superf\u00edcie. Tamb\u00e9m h\u00e1 cenas em que um ator mirim interpreta Milton Nascimento na inf\u00e2ncia, encenando falas marcantes do cantor sobre essa fase de sua vida, como a sua rela\u00e7\u00e3o com as cavernas do interior de Minas Gerais, e visitas da equipe a cidades hist\u00f3ricas do estado, como Diamantina e Ouro Preto, e em cidades de outros pa\u00edses pelas quais a turn\u00ea passou, como Nova York. Mas tanto as reconstitui\u00e7\u00f5es quanto as excurs\u00f5es s\u00e3o filmadas de um modo muito semelhante a um filme institucional: uma profus\u00e3o de panor\u00e2micas circulares em slow motion, cores excessivamente contrastadas trazendo uma textura plastificada \u00e0s imagens e in\u00fameras tomadas a\u00e9reas de drones. A narra\u00e7\u00e3o de Fernanda Montenegro, infelizmente, tamb\u00e9m acaba contribuindo bastante para essa impress\u00e3o. A articula\u00e7\u00e3o de sua voz com planos dessa natureza parece ter ficado muito vinculada aos diversos comerciais em que participou nos \u00faltimos anos, e o texto que ela l\u00ea, de autoria do jornalista Marcelo Ferla, apenas corrobora essa impress\u00e3o: repleto de clich\u00eas, acaba buscando conceder uma esp\u00e9cie de guia desnecess\u00e1rio ao espectador, e al\u00e9m de participar do infind\u00e1vel coro \u00e0s reitera\u00e7\u00f5es elogiosas, ainda possui uma pretens\u00e3o po\u00e9tica que \u00e9 preenchida com diversos lugares-comuns, como a insist\u00eancia na ideia de um \u201cBrasil profundo\u201d. Mas h\u00e1 um desses aspectos t\u00e9cnicos mencionados acima que contribui especialmente para a impress\u00e3o de uma est\u00e9tica padronizada, que \u00e9 o modo como s\u00e3o usados os planos de drones. Artif\u00edcio cada vez mais adotado em document\u00e1rios recentes, geralmente como plano de estabelecimento descritivo e de transi\u00e7\u00e3o narrativa, essas tomadas a\u00e9reas parecem carregar em si uma camada conotativa muito forte, intrinsecamente relacionada \u00e0 no\u00e7\u00e3o de vigil\u00e2ncia, mas tamb\u00e9m de uma est\u00e9tica corporativa e publicit\u00e1ria. Este \u00e9 um dos elementos t\u00e9cnicos que aproximam o filme de Fl\u00e1via Moraes ao mais recente document\u00e1rio sobre Pepe Mujica, Os Sonhos de Pepe &#8211; Movimento 2052 (Pablo Trobo, 2024). Neste filme, Trobo lida com privil\u00e9gios semelhantes aos de Moraes, como o acesso \u00e0 intimidade de uma figura popular e a possibilidade de acompanh\u00e1-lo em sua \u00faltima \u201cturn\u00ea\u201d, mas acaba produzindo efeitos parecidos, que o levam a mesma padroniza\u00e7\u00e3o est\u00e9tica: al\u00e9m da excessiva exalta\u00e7\u00e3o de seu personagem-t\u00edtulo, h\u00e1 a maneira como se apropria dos recursos t\u00e9cnicos, principalmente dos drones. As tomadas a\u00e9reas dos campos uruguaios e das diversas cidades que Mujica visita ao redor do mundo s\u00e3o muito semelhantes \u00e0quelas que Fl\u00e1via Moraes captura das cidades hist\u00f3ricas mineiras e de metr\u00f3poles internacionais. Se nos outros momentos a forma do filme se assemelha a um v\u00eddeo institucional de um banco, nesses somos transportados para um v\u00eddeo publicit\u00e1rio de uma ag\u00eancia de viagens. De toda forma, h\u00e1 dois momentos captados pela equipe de Milton\u2026 que se destacam: em um deles, \u00e9 registrado o \u00faltimo encontro de Milton Nascimento com Wayne Shorter, amigo e parceiro musical no \u00e1lbum Native Dancer (1975). Ambos muito longe das melhores condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas, principalmente Shorter, que viria a falecer pouco depois desse encontro. Naquele que talvez seja o plano mais comovente do filme, a c\u00e2mera, em um movimento tr\u00eamulo, registra um Milton que parece rejuvenescer pr\u00f3ximo a Shorter. J\u00e1 nos cr\u00e9ditos finais, h\u00e1 outra bela cena em que Milton, em um quarto de hotel, reage a um disco que toca a m\u00fasica Babalu, na voz de \u00c2ngela Maria. Dois momentos de espontaneidade e beleza, intrinsecamente ligados aos bastidores da turn\u00ea final, que destoam do restante do filme. Ritas j\u00e1 indica no t\u00edtulo aquilo a que se prop\u00f5e: apresentar um panorama das m\u00faltiplas configura\u00e7\u00f5es incorporadas por Rita Lee ao longo da vida, tanto em sua obra quanto em sua personalidade. Concebido a partir da autobiografia da artista, este \u00e9, basicamente, um filme de arquivo. Para al\u00e9m de uma \u00fanica entrevista realizada com Rita Lee, a \u00faltima concedida oficialmente por ela, Ritas ser\u00e1 formado por sons e imagens coletados a partir de uma ampla pesquisa iconogr\u00e1fica que perpassa d\u00e9cadas da televis\u00e3o e da imprensa brasileira. Tamb\u00e9m comp\u00f5em o filme diversos v\u00eddeos caseiros gravados pela pr\u00f3pria Rita Lee com seu celular, de modo espont\u00e2neo e despretensioso, mostrando seus objetos preferidos, sua rela\u00e7\u00e3o com a casa, com o cotidiano e com a mem\u00f3ria. Oswaldo Santana e Karen Harley, que dividem a dire\u00e7\u00e3o, possuem amplas experi\u00eancias precedentes na montagem de filmes e s\u00e9ries &#8211; esta \u00e9, inclusive, a estreia de Santana na dire\u00e7\u00e3o -, o que certamente contribuiu para esta empreitada. Ao abdicar de narra\u00e7\u00e3o e textos explicativos, fica a cargo da montagem a articula\u00e7\u00e3o do discurso e dos arcos narrativos. Ainda que um tanto comportado na forma, o filme \u00e9 bem-sucedido em aproveitar o valioso material de arquivo, principalmente porque consegue dar conta das diversas linhas temporais sem tratar de maneira apressada as diferentes tem\u00e1ticas, dando a cada uma das Ritas sua devida dimens\u00e3o. As diverg\u00eancias formais e de produ\u00e7\u00e3o mais aparentes entre Milton Bituca Nascimento e Ritas levantam tamb\u00e9m uma quest\u00e3o de emiss\u00e3o. \u00c9 claro que, como afirma Jean-Claude Bernardet (2003), sempre ser\u00e1 o(a) diretor(a) quem ter\u00e1 o poder sobre o que e como ser\u00e1 dito no filme, mas se pode pensar aqui, tamb\u00e9m, nas estrat\u00e9gias levadas a cabo para retratar o personagem-t\u00edtulo, quais as vozes s\u00e3o articuladas para isso. Se no filme de Fl\u00e1via Moraes se busca uma constru\u00e7\u00e3o acerca da figura de Milton Nascimento apoiando-se em depoimentos de terceiros, Santana e Harley optam por construir as diversas Ritas com base nos vest\u00edgios deixados por ela mesma. N\u00e3o \u00e9 que seja imposs\u00edvel fazer um bom document\u00e1rio biogr\u00e1fico centrado em vozes externas, mas, em Milton\u2026, fica aquela sensa\u00e7\u00e3o de quando se est\u00e1 falando de algu\u00e9m que se encontra na mesma sala, mas n\u00e3o se permite que fale por si. BibliografiaBERNARDET, Jean-Claude. Cineastas e Imagens do Povo. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2003. 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Ambos com inten\u00e7\u00f5es semelhantes, recorrentes em produ\u00e7\u00f5es desta categoria, ou seja, document\u00e1rios lan\u00e7ados no final da carreira ou pouco ap\u00f3s a morte de determinado artista e que buscam constituir um comp\u00eandio dos aspectos mais importantes de sua personalidade, trajet\u00f3ria, vida pessoal e\/ou evidenciar a relev\u00e2ncia de sua obra. Parece muita coisa para caber em um longa-metragem, e a capacidade de s\u00edntese tende a ser, justamente, um dos desafios desse tipo de document\u00e1rio. Milton\u2026 e Ritas lidam com este e outros desafios por meio de concep\u00e7\u00f5es formais muito diferentes, mas \u00e9 o primeiro que se mostra sintom\u00e1tico de algo que se tornou uma constante em diversos document\u00e1rios recentes: o emprego de uma linguagem padronizada, muito pr\u00f3xima do v\u00eddeo institucional publicit\u00e1rio t\u00edpico das redes sociais. \u00c9 dif\u00edcil encontrar algu\u00e9m que n\u00e3o goste de Milton Nascimento, e isso vale tanto para sua m\u00fasica quanto para sua persona: figura reservada, de uma serenidade t\u00edmida que \u00e9 ecoada perfeitamente na suavidade de sua voz, Milton sempre se manteve avesso a pol\u00eamicas da ind\u00fastria fonogr\u00e1fica, o que lhe conferiu uma aura quase imaculada neste meio. Somado a um incontest\u00e1vel talento, reconhecido mundialmente, a admira\u00e7\u00e3o por Milton \u00e9 de uma unanimidade pr\u00f3xima do absoluto. Consequentemente, parece uma tarefa dif\u00edcil tornar ruim um filme sobre ele, ainda mais quando se t\u00eam acesso \u00e0 sua intimidade, a entrevistas com diversas lendas da m\u00fasica e de outras \u00e1reas, e a uma produ\u00e7\u00e3o grandiosa, com direito a melhor qualidade de capta\u00e7\u00e3o e edi\u00e7\u00e3o de som e imagem. O modo pelo qual todos estes \u201cprivil\u00e9gios\u201d s\u00e3o aproveitados, no entanto, deflagra como a insist\u00eancia em certas recorr\u00eancias do cinema documental mais recente podem facilmente deixar impressa uma sensa\u00e7\u00e3o de padroniza\u00e7\u00e3o. Milton\u2026 \u00e9 composto por diversas linhas narrativas que parecem almejar uma fuga de um arco cronol\u00f3gico estanque, mas ao inv\u00e9s de apresentar uma constru\u00e7\u00e3o efetivamente criativa, apenas se complica em abordar aquele que seria seu tema principal: a \u00faltima turn\u00ea de Milton Nascimento. Pouqu\u00edssimo \u00e9 mostrado sobre as derradeiras performances do artista, dos bastidores das viagens e das prepara\u00e7\u00f5es para os shows, e o que chega a aparecer no filme surge como pequenas p\u00edlulas em meio a uma torrente de depoimentos de diversos artistas que repetem, de maneiras n\u00e3o muito diferentes, sua admira\u00e7\u00e3o por Milton Nascimento. O problema n\u00e3o \u00e9 a reitera\u00e7\u00e3o dos elogios em si, mas o fato de o discurso n\u00e3o sair do lugar. Acaba-se com a sensa\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o se produz nada al\u00e9m de um intermin\u00e1vel recurso ao discurso de autoridade(s), principalmente estadunidenses &#8211; al\u00e9m das entrevistas com muitos dos principais representantes da MPB, como Gilberto Gil, Chico Buarque e Caetano Veloso, tamb\u00e9m participam Herbie Hancock, Quincy Jones, Pat Matheny, Spike Lee, entre outros. Mas essas entrevistas, os raros momentos da turn\u00ea e outras linhas narrativas s\u00e3o articulados por meio de uma est\u00e9tica que lembra muito o padr\u00e3o de dois formatos audiovisuais bastante demarcados: o trailer e o filme publicit\u00e1rio institucional. O ritmo da montagem, com um excesso de fades, bem como o teor excessivamente semelhante das entrevistas, passam a sensa\u00e7\u00e3o de que o filme est\u00e1 indicando algo por vir, assim como um trailer que, ao inv\u00e9s de revelar o essencial de determinado assunto, apenas levanta ganchos para atrair a curiosidade do espectador em potencial. Aos poucos, por\u00e9m, vai se percebendo que o filme nunca ir\u00e1 al\u00e9m de uma superf\u00edcie que parece prometer alguma coisa, nem ser\u00e1 capaz de produzir algo de interessante nessa mesma superf\u00edcie. Tamb\u00e9m h\u00e1 cenas em que um ator mirim interpreta Milton Nascimento na inf\u00e2ncia, encenando falas marcantes do cantor sobre essa fase de sua vida, como a sua rela\u00e7\u00e3o com as cavernas do interior de Minas Gerais, e visitas da equipe a cidades hist\u00f3ricas do estado, como Diamantina e Ouro Preto, e em cidades de outros pa\u00edses pelas quais a turn\u00ea passou, como Nova York. Mas tanto as reconstitui\u00e7\u00f5es quanto as excurs\u00f5es s\u00e3o filmadas de um modo muito semelhante a um filme institucional: uma profus\u00e3o de panor\u00e2micas circulares em slow motion, cores excessivamente contrastadas trazendo uma textura plastificada \u00e0s imagens e in\u00fameras tomadas a\u00e9reas de drones. A narra\u00e7\u00e3o de Fernanda Montenegro, infelizmente, tamb\u00e9m acaba contribuindo bastante para essa impress\u00e3o. A articula\u00e7\u00e3o de sua voz com planos dessa natureza parece ter ficado muito vinculada aos diversos comerciais em que participou nos \u00faltimos anos, e o texto que ela l\u00ea, de autoria do jornalista Marcelo Ferla, apenas corrobora essa impress\u00e3o: repleto de clich\u00eas, acaba buscando conceder uma esp\u00e9cie de guia desnecess\u00e1rio ao espectador, e al\u00e9m de participar do infind\u00e1vel coro \u00e0s reitera\u00e7\u00f5es elogiosas, ainda possui uma pretens\u00e3o po\u00e9tica que \u00e9 preenchida com diversos lugares-comuns, como a insist\u00eancia na ideia de um \u201cBrasil profundo\u201d. Mas h\u00e1 um desses aspectos t\u00e9cnicos mencionados acima que contribui especialmente para a impress\u00e3o de uma est\u00e9tica padronizada, que \u00e9 o modo como s\u00e3o usados os planos de drones. Artif\u00edcio cada vez mais adotado em document\u00e1rios recentes, geralmente como plano de estabelecimento descritivo e de transi\u00e7\u00e3o narrativa, essas tomadas a\u00e9reas parecem carregar em si uma camada conotativa muito forte, intrinsecamente relacionada \u00e0 no\u00e7\u00e3o de vigil\u00e2ncia, mas tamb\u00e9m de uma est\u00e9tica corporativa e publicit\u00e1ria. Este \u00e9 um dos elementos t\u00e9cnicos que aproximam o filme de Fl\u00e1via Moraes ao mais recente document\u00e1rio sobre Pepe Mujica, Os Sonhos de Pepe &#8211; Movimento 2052 (Pablo Trobo, 2024). Neste filme, Trobo lida com privil\u00e9gios semelhantes aos de Moraes, como o acesso \u00e0 intimidade de uma figura popular e a possibilidade de acompanh\u00e1-lo em sua \u00faltima \u201cturn\u00ea\u201d, mas acaba produzindo efeitos parecidos, que o levam a mesma padroniza\u00e7\u00e3o est\u00e9tica: al\u00e9m da excessiva exalta\u00e7\u00e3o de seu personagem-t\u00edtulo, h\u00e1 a maneira como se apropria dos recursos t\u00e9cnicos, principalmente dos drones. As tomadas a\u00e9reas dos campos uruguaios e das diversas cidades que Mujica visita ao redor do mundo s\u00e3o muito semelhantes \u00e0quelas que Fl\u00e1via Moraes captura das cidades hist\u00f3ricas mineiras e de metr\u00f3poles internacionais. Se nos outros momentos a forma do filme se assemelha a um v\u00eddeo institucional de um banco, nesses somos transportados para um v\u00eddeo publicit\u00e1rio de uma ag\u00eancia de viagens. De toda forma, h\u00e1 dois momentos captados pela equipe de Milton\u2026 que se destacam: em um deles, \u00e9 registrado o \u00faltimo encontro de Milton Nascimento com Wayne Shorter, amigo e parceiro musical no \u00e1lbum Native Dancer (1975). Ambos muito longe das melhores condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas, principalmente Shorter, que viria a falecer pouco depois desse encontro. Naquele que talvez seja o plano mais comovente do filme, a c\u00e2mera, em um movimento tr\u00eamulo, registra um Milton que parece rejuvenescer pr\u00f3ximo a Shorter. J\u00e1 nos cr\u00e9ditos finais, h\u00e1 outra bela cena em que Milton, em um quarto de hotel, reage a um disco que toca a m\u00fasica Babalu, na voz de \u00c2ngela Maria. Dois momentos de espontaneidade e beleza, intrinsecamente ligados aos bastidores da turn\u00ea final, que destoam do restante do filme. Ritas j\u00e1 indica no t\u00edtulo aquilo a que se prop\u00f5e: apresentar um panorama das m\u00faltiplas configura\u00e7\u00f5es incorporadas por Rita Lee ao longo da vida, tanto em sua obra quanto em sua personalidade. Concebido a partir da autobiografia da artista, este \u00e9, basicamente, um filme de arquivo. Para al\u00e9m de uma \u00fanica entrevista realizada com Rita Lee, a \u00faltima concedida oficialmente por ela, Ritas ser\u00e1 formado por sons e imagens coletados a partir de uma ampla pesquisa iconogr\u00e1fica que perpassa d\u00e9cadas da televis\u00e3o e da imprensa brasileira. Tamb\u00e9m comp\u00f5em o filme diversos v\u00eddeos caseiros gravados pela pr\u00f3pria Rita Lee com seu celular, de modo espont\u00e2neo e despretensioso, mostrando seus objetos preferidos, sua rela\u00e7\u00e3o com a casa, com o cotidiano e com a mem\u00f3ria. Oswaldo Santana e Karen Harley, que dividem a dire\u00e7\u00e3o, possuem amplas experi\u00eancias precedentes na montagem de filmes e s\u00e9ries &#8211; esta \u00e9, inclusive, a estreia de Santana na dire\u00e7\u00e3o -, o que certamente contribuiu para esta empreitada. Ao abdicar de narra\u00e7\u00e3o e textos explicativos, fica a cargo da montagem a articula\u00e7\u00e3o do discurso e dos arcos narrativos. Ainda que um tanto comportado na forma, o filme \u00e9 bem-sucedido em aproveitar o valioso material de arquivo, principalmente porque consegue dar conta das diversas linhas temporais sem tratar de maneira apressada as diferentes tem\u00e1ticas, dando a cada uma das Ritas sua devida dimens\u00e3o. As diverg\u00eancias formais e de produ\u00e7\u00e3o mais aparentes entre Milton Bituca Nascimento e Ritas levantam tamb\u00e9m uma quest\u00e3o de emiss\u00e3o. \u00c9 claro que, como afirma Jean-Claude Bernardet (2003), sempre ser\u00e1 o(a) diretor(a) quem ter\u00e1 o poder sobre o que e como ser\u00e1 dito no filme, mas se pode pensar aqui, tamb\u00e9m, nas estrat\u00e9gias levadas a cabo para retratar o personagem-t\u00edtulo, quais as vozes s\u00e3o articuladas para isso. Se no filme de Fl\u00e1via Moraes se busca uma constru\u00e7\u00e3o acerca da figura de Milton Nascimento apoiando-se em depoimentos de terceiros, Santana e Harley optam por construir as diversas Ritas com base nos vest\u00edgios deixados por ela mesma. N\u00e3o \u00e9 que seja imposs\u00edvel fazer um bom document\u00e1rio biogr\u00e1fico centrado em vozes externas, mas, em Milton\u2026, fica aquela sensa\u00e7\u00e3o de quando se est\u00e1 falando de algu\u00e9m que se encontra na mesma sala, mas n\u00e3o se permite que fale por si. BibliografiaBERNARDET, Jean-Claude. Cineastas e Imagens do Povo. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2003. ImagensFonte da imagem 1 &#8211; Reprodu\u00e7\u00e3o\/Rolling Stone.Fonte da imagem 2 &#8211; Reprodu\u00e7\u00e3o\/O Grito.","og_url":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/sobre-uma-certa-estetica-institucional-em-documentarios-recentes\/","og_site_name":"Corporalidades","article_published_time":"2025-09-08T22:34:07+00:00","article_modified_time":"2025-09-08T22:34:09+00:00","og_image":[{"width":1919,"height":1280,"url":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/1.jpg","type":"image\/jpeg"}],"author":"gerente","twitter_card":"summary_large_image","twitter_misc":{"Written by":"gerente","Est. reading time":"8 minutes"},"schema":{"@context":"https:\/\/schema.org","@graph":[{"@type":"Article","@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/sobre-uma-certa-estetica-institucional-em-documentarios-recentes\/#article","isPartOf":{"@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/sobre-uma-certa-estetica-institucional-em-documentarios-recentes\/"},"author":{"name":"gerente","@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/#\/schema\/person\/e18ecb8063c1f965a031341c25460e43"},"headline":"Sobre uma certa \u201cest\u00e9tica institucional\u201d em document\u00e1rios recentes","datePublished":"2025-09-08T22:34:07+00:00","dateModified":"2025-09-08T22:34:09+00:00","mainEntityOfPage":{"@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/sobre-uma-certa-estetica-institucional-em-documentarios-recentes\/"},"wordCount":1727,"commentCount":0,"image":{"@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/sobre-uma-certa-estetica-institucional-em-documentarios-recentes\/#primaryimage"},"thumbnailUrl":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/1.jpg","keywords":["cinema","Comunica\u00e7\u00e3o","Document\u00e1rio","M\u00fasica"],"articleSection":["Blog"],"inLanguage":"en-US","potentialAction":[{"@type":"CommentAction","name":"Comment","target":["https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/sobre-uma-certa-estetica-institucional-em-documentarios-recentes\/#respond"]}]},{"@type":"WebPage","@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/sobre-uma-certa-estetica-institucional-em-documentarios-recentes\/","url":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/sobre-uma-certa-estetica-institucional-em-documentarios-recentes\/","name":"Sobre uma certa \u201cest\u00e9tica institucional\u201d em document\u00e1rios recentes - 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