{"id":3755,"date":"2025-09-29T18:14:30","date_gmt":"2025-09-29T21:14:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/?p=3755"},"modified":"2025-09-29T18:14:32","modified_gmt":"2025-09-29T21:14:32","slug":"a-seducao-como-procedimento-da-comunicacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/a-seducao-como-procedimento-da-comunicacao\/","title":{"rendered":"A SEDU\u00c7\u00c3O COMO PROCEDIMENTO DA COMUNICA\u00c7\u00c3O"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por\u00a0<em>N\u00edsia Martins do Ros\u00e1rio<\/em>:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em outro texto, neste blog, escrevi sobre o jogo na comunica\u00e7\u00e3o. Desta vez, passo a explorar a sedu\u00e7\u00e3o, outro procedimento comunicativo que funciona a partir de estrat\u00e9gias pr\u00f3prias. Antes de aprofundar essas quest\u00f5es, entretanto, \u00e9 necess\u00e1rio abordar os sentidos atribu\u00eddos \u00e0 sedu\u00e7\u00e3o, que se manifestam, muitas vezes, de forma imprecisa, confusa e contradit\u00f3ria. Por isso, talvez, o mais conveniente seja, inicialmente, reportar-se \u00e0s suas origens etimol\u00f3gicas. \u201cSedu\u00e7\u00e3o\u201d vem do latim&nbsp;<em>seduco<\/em>&nbsp;(<em>se<\/em>,&nbsp;<em>duco<\/em>). O radical&nbsp;<em>duco<\/em>&nbsp;(<em>ducere<\/em>), em sua acep\u00e7\u00e3o mais geral, significa conduzir, comandar, ir \u00e0 frente (Ferreira, s\/d). O prefixo \u2018<em>se\u2019<\/em>&nbsp;indica partilha, separa\u00e7\u00e3o, afastamento, divis\u00e3o, desvio. Assim, sedu\u00e7\u00e3o, inicialmente, designa a divis\u00e3o ou a partilha de comando, de condu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Buscando despir a sedu\u00e7\u00e3o de sentidos moralistas ou profanos, o termo pode ser tratado como uma a\u00e7\u00e3o exercida sobre outra pessoa por meio de sugest\u00e3o, buscando direcionar determinadas condutas. A sedu\u00e7\u00e3o, portanto, pode ser entendida como um procedimento da comunica\u00e7\u00e3o aplicado em todas as ordem da vida, valendo-se tanto de sinceridade, como do engano e da ambiguidade. Nessa via, a sedu\u00e7\u00e3o pode tanto partilhar, argumentar, entreter, ensinar, quanto manipular, ludibriar e enganar, desde que a manifesta\u00e7\u00e3o desses modos de a\u00e7\u00e3o n\u00e3o se constitua em uma forma clara de controle e\/ou imposi\u00e7\u00e3o, mas, sim, como convencimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A sedu\u00e7\u00e3o funda sua forma de convencimento na paix\u00e3o, no interesse, no \u00edmpeto. Oferece como finalidade o prazer, pressupondo um discurso dial\u00f3gico e, por conta disso, a intera\u00e7\u00e3o entre os sujeitos. O sedutor, portanto, tem que encantar e, para isso, pode mentir sobre si mesmo e para si mesmo, \u201cpois o sedutor, n\u00e3o se esque\u00e7am (\u2026), \u00e9 aquele que passou a vida renunciando a ser, em troca de parecer\u201d (Kehl, 1988, p. 422). Por sua vez, \u201co seduzido n\u00e3o sabe onde pisa \u2013 e pensa que o sedutor sabe. Antecipa prazer e dor, pois, ao mesmo tempo que espera o gozo prometido pelo sedutor, j\u00e1 sabe que se aproxima a cat\u00e1strofe\u201d (Kehl, 1988, p. 411).<br><br><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/seducao_1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-190\"\/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><br>Outra caracter\u00edstica importante da sedu\u00e7\u00e3o \u00e9 que ela se sustenta e se utiliza da fantasia, permitindo que a fronteira da realidade seja ultrapassada, mas jamais deve ser confrontada com o real. A fantasia responde a certos vazios do sujeito; \u00e9 cria\u00e7\u00e3o que visa preencher a ruptura, a fenda do ser e do desejo inconsciente. N\u00e3o se pode jamais admitir que ela seja capaz de seduzir, pois isso a destruiria \u2013 pode-se apenas aceitar que a fantasia se constitua a partir de um ato de sedu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O desejo tamb\u00e9m anda sempre rodeando a sedu\u00e7\u00e3o, \u00e9 o respons\u00e1vel por arrancar o sujeito do lugar comum, separ\u00e1-lo dele mesmo para confront\u00e1-lo com aquilo que lhe falta. O discurso se presta bem para alavancar esse desmantelamento, articulando estrat\u00e9gias sedutoras, assim como mantendo aberto o canal que permite reativar constantemente a incita\u00e7\u00e3o do desejo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O segredo do discurso sedutor, ali\u00e1s, \u00e9 desviar-se da verdade \u2013 que o destruiria \u2013 e constituir-se na apar\u00eancia, na simula\u00e7\u00e3o, sem tornar-se totalmente mentiroso. Construir-se como excesso, como falta, como superficialidade, como ritualidade, mas nunca como sentido profundo e \u00fanico, nunca como interpreta\u00e7\u00e3o completa. Observe-se que o discurso sedutor opera sobre o reverso, sobre o mascaramento dos sentidos. Dessa forma, \u00e9 c\u00famplice de um encantamento pr\u00f3prio. Esse \u00e9 tamb\u00e9m o material do discurso midi\u00e1tico \u2013\u00a0<em>a priori<\/em>\u00a0em todos os seus g\u00eaneros \u2013 que toma o signo como meio de se concretizar. Os signos, afinal, est\u00e3o ligados \u00e0 representa\u00e7\u00e3o e \u00e0 apar\u00eancia e, portanto, sempre propensos \u00e0 sedu\u00e7\u00e3o. Ora, o signo s\u00f3 se constitui como tal ao separar-se do objeto, ao separar-se do original \u2013 s\u00f3 assim \u00e9 signo de alguma coisa. Ele seduz porque, na verdade, ele \u00e9 a apar\u00eancia daquilo que representa.<br><br><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/seducao_2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-191\"\/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><br>De forma geral, a comunica\u00e7\u00e3o, especialmente as midi\u00e1ticas, come\u00e7a a seduzir atrav\u00e9s de um convite: para que seus conte\u00fados sejam vistos, observados, apreciados ou at\u00e9 mesmo criticados. E, como quem convida tem algo a oferecer, \u00e9 preciso que ela se utilize dos recursos da tenta\u00e7\u00e3o, da exibi\u00e7\u00e3o, da aposta, do prazer, do desejo. O \u00eaxito do convite vale-se muito do fasc\u00ednio do p\u00fablico pelo mundo oferecido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A simula\u00e7\u00e3o \u00e9 outro recurso potente da sedu\u00e7\u00e3o, consubstanciada n\u00e3o apenas como representa\u00e7\u00e3o, mas como simulacro, como apar\u00eancia sem realidade. Ela, afinal, encanta e presenteia com o sonho e com a fantasia. A simula\u00e7\u00e3o permite tudo, ou quase tudo. Atrav\u00e9s da viola\u00e7\u00e3o da fronteira da realidade, \u00e9 poss\u00edvel mais do que representar, do que \u201cfazer-de-conta\u201d: \u00e9 poss\u00edvel quase vivenciar aquilo que n\u00e3o tem exist\u00eancia. Dessa maneira, o p\u00fablico midi\u00e1tico \u00e9 estimulado a recorrer a sua capacidade de fantasiar, de preencher vazios de sentidos com desejos e prazeres, de preencher os tristes vazios do mundo com sonhos encantados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O procedimento da sedu\u00e7\u00e3o, contudo, precisa se valer tamb\u00e9m do efeito de realidade para, nesse cen\u00e1rio, motivar o espectador a se integrar ao discurso. O efeito de realidade \u00e9 sutil, aplica pequenas ou grandes doses de realismo, de naturalidade, de lei para compensar as altas doses de apar\u00eancia, de simula\u00e7\u00e3o e de fantasia do processo sedutor. O efeito de realidade perpassa todos os conte\u00fados midi\u00e1ticos. Afinal, alguma verossimilhan\u00e7a \u00e9 necess\u00e1ria, e \u00e9 por essa via que se cria familiaridade com os p\u00fablicos. Ela se infiltra com tanta naturalidade que se confunde com o p\u00fablico, ambos fazem parte um do outro. Sua presen\u00e7a \u00e9 end\u00eamica, como diz Baudrillard (1991).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As formas constru\u00eddas na apar\u00eancia, no exterior, na superf\u00edcie t\u00eam, assim, uma fun\u00e7\u00e3o ineg\u00e1vel e sua efic\u00e1cia est\u00e1 em mostrar a efervesc\u00eancia cont\u00ednua da vida social. N\u00e3o se pode negar, entretanto, que o tra\u00e7o da apar\u00eancia, inserido no procedimento da sedu\u00e7\u00e3o, pode se conformar num elemento alienante (\u00e9, por assim dizer, o que G. Debord chamou de\u00a0<em>Sociedade do espet\u00e1culo<\/em>). Os \u00eddolos criados e articulados pela tela seduzem, justamente, pelo uso da apar\u00eancia \u2013 para a aliena\u00e7\u00e3o ou para a resist\u00eancia \u2013, uma vez que seu poder est\u00e1 justamente na imagem que eles conseguem engendrar. Assim, cada parte do seu corpo n\u00e3o \u00e9 seu reflexo verdadeiro, mas o reflexo de uma encena\u00e7\u00e3o ritualizada. Baudrillard (1991b, p.108) afirma que os \u00eddolos s\u00e3o \u201c\u2026 a \u00fanica grande constela\u00e7\u00e3o coletiva da sedu\u00e7\u00e3o que os tempos modernos produziram\u201d.<br><br><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/seducao_3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-192\"\/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><br>Sinteticamente, sugiro quatro estrat\u00e9gias da sedu\u00e7\u00e3o, come\u00e7ando pelo encantamento. Dessa forma, torna-se pressuposto que a sedu\u00e7\u00e3o se constr\u00f3i na comunica\u00e7\u00e3o de forma mais convincente quando sua meta \u00e9 o encantamento. Seja atrav\u00e9s do simb\u00f3lico, do artificial, da reversibilidade, do ritual, do desafio, do engodo, da simula\u00e7\u00e3o, da fantasia, o encantador tem o papel de maravilhar o outro e faz\u00ea-lo aceitar ser enfeiti\u00e7ado. Assim, a sedu\u00e7\u00e3o empresta \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o um car\u00e1ter um tanto m\u00e1gico, conseguindo perpassar as esferas de a\u00e7\u00f5es midi\u00e1ticas, adequando seus percursos, cen\u00e1rios e estrat\u00e9gias de acordo com as necessidades que se apresentam. Essa \u00e9 a estrat\u00e9gia da ilus\u00e3o consentida e solicitada; ilus\u00e3o que se vale de uma certa dose de ignor\u00e2ncia do encantado e de outra dose de mist\u00e9rio jogada nos meandros do discurso. \u00c9 a vers\u00e3o mais doce do engano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A sedu\u00e7\u00e3o opera, tamb\u00e9m, com a cria\u00e7\u00e3o de identidades, exigindo sempre reciprocidade e, dessa forma, permitindo que o sujeito se reproduza no outro, encontrando nele partes de si mesmo. \u00c9 nesse quadro \u2013 em que se projetam os reflexos de identifica\u00e7\u00e3o \u2013 que se constitui a estrat\u00e9gia da reflexividade, ativando n\u00e3o somente o imagin\u00e1rio, mas, ainda, a constru\u00e7\u00e3o dos sentidos. A reflexividade carrega elementos latentes dos sujeitos envolvidos no processo comunicativo e, ao projetar luz sobre esses elementos, consegue ativar a a\u00e7\u00e3o de resposta. Nos reflexos dos corpos que aparecem na tela se configuram signos capazes de sustentar o desafio de manter o p\u00fablico em conex\u00e3o. Contudo, as identidades geradas nesse processo devem se submeter, tamb\u00e9m, \u00e0s diferen\u00e7as, com o prop\u00f3sito de que nenhuma delas seja unicamente sustent\u00e1vel. A estrat\u00e9gia da reflexividade, portanto, se articula, tamb\u00e9m, pelas diferen\u00e7as, considerando a identidade imposs\u00edvel \u2013 para que a sedu\u00e7\u00e3o n\u00e3o se esvane\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma das estrat\u00e9gias fundamentais da sedu\u00e7\u00e3o, capaz de sustentar seu desenvolvimento, \u00e9 o segredo. Quando a a\u00e7\u00e3o de \u201csegredar\u201d \u00e9 implantada, mais importante do que omitir aspectos da verdade, \u00e9 fazer com que o outro saiba que h\u00e1 algo sigiloso, cujo acesso lhe \u00e9 negado total ou parcialmente. Por outras palavras, seduzir pelo segredo \u00e9 construir uma aura de mist\u00e9rio, apresentar um simulacro sobre um \u201cn\u00e3o contado\u201d ou um \u201cn\u00e3o cont\u00e1vel\u201d, gerando o suspense e despertando a curiosidade. O segredo tem a aura do enigma e da cumplicidade. Exige confian\u00e7a, reciprocidade, por isso, faz-se sedu\u00e7\u00e3o. Na vis\u00e3o de Baudrillard (1991), seduzir \u00e9 desviar (o outro) da verdade e, assim, a verdade se torna um segredo, porque escapa desse outro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os conte\u00fados constru\u00eddos sobre a ambiguidade permitem sempre que mais de um sentido seja detectado para o mesmo signo e que o percurso de significa\u00e7\u00e3o seja revertido no decorrer do processo. Nessa estrat\u00e9gia, s\u00e3o elementos cruciais: a simula\u00e7\u00e3o e a constru\u00e7\u00e3o da apar\u00eancia, bem como a polissemia. Uma vez alcan\u00e7ado o prazer da constru\u00e7\u00e3o de sentidos simulados, atingido o imagin\u00e1rio e a fantasia, \u00e9 poss\u00edvel retornar a outra apar\u00eancia, a outra simula\u00e7\u00e3o e, portanto, a outro significante. Dessa forma, a ambiguidade torna-se pe\u00e7a chave nos significados dos corpos, uma vez que utiliza-se da flutua\u00e7\u00e3o e da metamorfose dos significantes e dos significados, podendo criar o que Sodr\u00e9 (1996) chama de identidades comut\u00e1veis ou alternativas.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BAUDRILLARD, Jean.&nbsp;<strong>Da sedu\u00e7\u00e3o<\/strong>. Campinas: Papirus, 1991.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BAUDRILLARD, Jean.&nbsp;<strong>Simulacros e simula\u00e7\u00f5es<\/strong>. Lisboa: Rel\u00f3gio D\u2019\u00c1gua, 1991b.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">FERREIRA, Antonio Gomes.&nbsp;<strong>Dicion\u00e1rio de latim portugu\u00eas<\/strong>. Porto: Porto Editora, s.d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">KEHL, Maria Rita. Masculino\/feminino: o olhar da sedu\u00e7\u00e3o. In: NOVAES, Adauto&nbsp;<em>et al<\/em>.&nbsp;<strong>O olhar<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 1988, p.411-23.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SIBONY, Daniel.\u00a0<strong>Sedu\u00e7\u00e3o<\/strong> \u2013 amor inconsciente. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 1991.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SODRE, Muniz.&nbsp;<strong>Reinventando a cultura<\/strong>: a comunica\u00e7\u00e3o e seus produtos. Petr\u00f3polis: Vozes, 1996. p.169-79.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por\u00a0N\u00edsia Martins do Ros\u00e1rio: Em outro texto, neste blog, escrevi sobre o jogo na comunica\u00e7\u00e3o. Desta vez, passo a explorar a sedu\u00e7\u00e3o, outro procedimento comunicativo que funciona a partir de estrat\u00e9gias pr\u00f3prias. Antes de aprofundar essas quest\u00f5es, entretanto, \u00e9 necess\u00e1rio abordar os sentidos atribu\u00eddos \u00e0 sedu\u00e7\u00e3o, que se manifestam, muitas vezes, de forma imprecisa, confusa e contradit\u00f3ria. Por isso, talvez, o mais conveniente seja, inicialmente, reportar-se \u00e0s suas origens etimol\u00f3gicas. \u201cSedu\u00e7\u00e3o\u201d vem do latim&nbsp;seduco&nbsp;(se,&nbsp;duco). O radical&nbsp;duco&nbsp;(ducere), em sua acep\u00e7\u00e3o mais geral, significa conduzir, comandar, ir \u00e0 frente (Ferreira, s\/d). O prefixo \u2018se\u2019&nbsp;indica partilha, separa\u00e7\u00e3o, afastamento, divis\u00e3o, desvio. Assim, sedu\u00e7\u00e3o, inicialmente, designa a divis\u00e3o ou a partilha de comando, de condu\u00e7\u00e3o. Buscando despir a sedu\u00e7\u00e3o de sentidos moralistas ou profanos, o termo pode ser tratado como uma a\u00e7\u00e3o exercida sobre outra pessoa por meio de sugest\u00e3o, buscando direcionar determinadas condutas. A sedu\u00e7\u00e3o, portanto, pode ser entendida como um procedimento da comunica\u00e7\u00e3o aplicado em todas as ordem da vida, valendo-se tanto de sinceridade, como do engano e da ambiguidade. Nessa via, a sedu\u00e7\u00e3o pode tanto partilhar, argumentar, entreter, ensinar, quanto manipular, ludibriar e enganar, desde que a manifesta\u00e7\u00e3o desses modos de a\u00e7\u00e3o n\u00e3o se constitua em uma forma clara de controle e\/ou imposi\u00e7\u00e3o, mas, sim, como convencimento. A sedu\u00e7\u00e3o funda sua forma de convencimento na paix\u00e3o, no interesse, no \u00edmpeto. Oferece como finalidade o prazer, pressupondo um discurso dial\u00f3gico e, por conta disso, a intera\u00e7\u00e3o entre os sujeitos. O sedutor, portanto, tem que encantar e, para isso, pode mentir sobre si mesmo e para si mesmo, \u201cpois o sedutor, n\u00e3o se esque\u00e7am (\u2026), \u00e9 aquele que passou a vida renunciando a ser, em troca de parecer\u201d (Kehl, 1988, p. 422). Por sua vez, \u201co seduzido n\u00e3o sabe onde pisa \u2013 e pensa que o sedutor sabe. Antecipa prazer e dor, pois, ao mesmo tempo que espera o gozo prometido pelo sedutor, j\u00e1 sabe que se aproxima a cat\u00e1strofe\u201d (Kehl, 1988, p. 411). Outra caracter\u00edstica importante da sedu\u00e7\u00e3o \u00e9 que ela se sustenta e se utiliza da fantasia, permitindo que a fronteira da realidade seja ultrapassada, mas jamais deve ser confrontada com o real. A fantasia responde a certos vazios do sujeito; \u00e9 cria\u00e7\u00e3o que visa preencher a ruptura, a fenda do ser e do desejo inconsciente. N\u00e3o se pode jamais admitir que ela seja capaz de seduzir, pois isso a destruiria \u2013 pode-se apenas aceitar que a fantasia se constitua a partir de um ato de sedu\u00e7\u00e3o. O desejo tamb\u00e9m anda sempre rodeando a sedu\u00e7\u00e3o, \u00e9 o respons\u00e1vel por arrancar o sujeito do lugar comum, separ\u00e1-lo dele mesmo para confront\u00e1-lo com aquilo que lhe falta. O discurso se presta bem para alavancar esse desmantelamento, articulando estrat\u00e9gias sedutoras, assim como mantendo aberto o canal que permite reativar constantemente a incita\u00e7\u00e3o do desejo. O segredo do discurso sedutor, ali\u00e1s, \u00e9 desviar-se da verdade \u2013 que o destruiria \u2013 e constituir-se na apar\u00eancia, na simula\u00e7\u00e3o, sem tornar-se totalmente mentiroso. Construir-se como excesso, como falta, como superficialidade, como ritualidade, mas nunca como sentido profundo e \u00fanico, nunca como interpreta\u00e7\u00e3o completa. Observe-se que o discurso sedutor opera sobre o reverso, sobre o mascaramento dos sentidos. Dessa forma, \u00e9 c\u00famplice de um encantamento pr\u00f3prio. Esse \u00e9 tamb\u00e9m o material do discurso midi\u00e1tico \u2013\u00a0a priori\u00a0em todos os seus g\u00eaneros \u2013 que toma o signo como meio de se concretizar. Os signos, afinal, est\u00e3o ligados \u00e0 representa\u00e7\u00e3o e \u00e0 apar\u00eancia e, portanto, sempre propensos \u00e0 sedu\u00e7\u00e3o. Ora, o signo s\u00f3 se constitui como tal ao separar-se do objeto, ao separar-se do original \u2013 s\u00f3 assim \u00e9 signo de alguma coisa. Ele seduz porque, na verdade, ele \u00e9 a apar\u00eancia daquilo que representa. De forma geral, a comunica\u00e7\u00e3o, especialmente as midi\u00e1ticas, come\u00e7a a seduzir atrav\u00e9s de um convite: para que seus conte\u00fados sejam vistos, observados, apreciados ou at\u00e9 mesmo criticados. E, como quem convida tem algo a oferecer, \u00e9 preciso que ela se utilize dos recursos da tenta\u00e7\u00e3o, da exibi\u00e7\u00e3o, da aposta, do prazer, do desejo. O \u00eaxito do convite vale-se muito do fasc\u00ednio do p\u00fablico pelo mundo oferecido. A simula\u00e7\u00e3o \u00e9 outro recurso potente da sedu\u00e7\u00e3o, consubstanciada n\u00e3o apenas como representa\u00e7\u00e3o, mas como simulacro, como apar\u00eancia sem realidade. Ela, afinal, encanta e presenteia com o sonho e com a fantasia. A simula\u00e7\u00e3o permite tudo, ou quase tudo. Atrav\u00e9s da viola\u00e7\u00e3o da fronteira da realidade, \u00e9 poss\u00edvel mais do que representar, do que \u201cfazer-de-conta\u201d: \u00e9 poss\u00edvel quase vivenciar aquilo que n\u00e3o tem exist\u00eancia. Dessa maneira, o p\u00fablico midi\u00e1tico \u00e9 estimulado a recorrer a sua capacidade de fantasiar, de preencher vazios de sentidos com desejos e prazeres, de preencher os tristes vazios do mundo com sonhos encantados. O procedimento da sedu\u00e7\u00e3o, contudo, precisa se valer tamb\u00e9m do efeito de realidade para, nesse cen\u00e1rio, motivar o espectador a se integrar ao discurso. O efeito de realidade \u00e9 sutil, aplica pequenas ou grandes doses de realismo, de naturalidade, de lei para compensar as altas doses de apar\u00eancia, de simula\u00e7\u00e3o e de fantasia do processo sedutor. O efeito de realidade perpassa todos os conte\u00fados midi\u00e1ticos. Afinal, alguma verossimilhan\u00e7a \u00e9 necess\u00e1ria, e \u00e9 por essa via que se cria familiaridade com os p\u00fablicos. Ela se infiltra com tanta naturalidade que se confunde com o p\u00fablico, ambos fazem parte um do outro. Sua presen\u00e7a \u00e9 end\u00eamica, como diz Baudrillard (1991). As formas constru\u00eddas na apar\u00eancia, no exterior, na superf\u00edcie t\u00eam, assim, uma fun\u00e7\u00e3o ineg\u00e1vel e sua efic\u00e1cia est\u00e1 em mostrar a efervesc\u00eancia cont\u00ednua da vida social. N\u00e3o se pode negar, entretanto, que o tra\u00e7o da apar\u00eancia, inserido no procedimento da sedu\u00e7\u00e3o, pode se conformar num elemento alienante (\u00e9, por assim dizer, o que G. Debord chamou de\u00a0Sociedade do espet\u00e1culo). Os \u00eddolos criados e articulados pela tela seduzem, justamente, pelo uso da apar\u00eancia \u2013 para a aliena\u00e7\u00e3o ou para a resist\u00eancia \u2013, uma vez que seu poder est\u00e1 justamente na imagem que eles conseguem engendrar. Assim, cada parte do seu corpo n\u00e3o \u00e9 seu reflexo verdadeiro, mas o reflexo de uma encena\u00e7\u00e3o ritualizada. Baudrillard (1991b, p.108) afirma que os \u00eddolos s\u00e3o \u201c\u2026 a \u00fanica grande constela\u00e7\u00e3o coletiva da sedu\u00e7\u00e3o que os tempos modernos produziram\u201d. Sinteticamente, sugiro quatro estrat\u00e9gias da sedu\u00e7\u00e3o, come\u00e7ando pelo encantamento. Dessa forma, torna-se pressuposto que a sedu\u00e7\u00e3o se constr\u00f3i na comunica\u00e7\u00e3o de forma mais convincente quando sua meta \u00e9 o encantamento. Seja atrav\u00e9s do simb\u00f3lico, do artificial, da reversibilidade, do ritual, do desafio, do engodo, da simula\u00e7\u00e3o, da fantasia, o encantador tem o papel de maravilhar o outro e faz\u00ea-lo aceitar ser enfeiti\u00e7ado. Assim, a sedu\u00e7\u00e3o empresta \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o um car\u00e1ter um tanto m\u00e1gico, conseguindo perpassar as esferas de a\u00e7\u00f5es midi\u00e1ticas, adequando seus percursos, cen\u00e1rios e estrat\u00e9gias de acordo com as necessidades que se apresentam. Essa \u00e9 a estrat\u00e9gia da ilus\u00e3o consentida e solicitada; ilus\u00e3o que se vale de uma certa dose de ignor\u00e2ncia do encantado e de outra dose de mist\u00e9rio jogada nos meandros do discurso. \u00c9 a vers\u00e3o mais doce do engano. A sedu\u00e7\u00e3o opera, tamb\u00e9m, com a cria\u00e7\u00e3o de identidades, exigindo sempre reciprocidade e, dessa forma, permitindo que o sujeito se reproduza no outro, encontrando nele partes de si mesmo. \u00c9 nesse quadro \u2013 em que se projetam os reflexos de identifica\u00e7\u00e3o \u2013 que se constitui a estrat\u00e9gia da reflexividade, ativando n\u00e3o somente o imagin\u00e1rio, mas, ainda, a constru\u00e7\u00e3o dos sentidos. A reflexividade carrega elementos latentes dos sujeitos envolvidos no processo comunicativo e, ao projetar luz sobre esses elementos, consegue ativar a a\u00e7\u00e3o de resposta. Nos reflexos dos corpos que aparecem na tela se configuram signos capazes de sustentar o desafio de manter o p\u00fablico em conex\u00e3o. Contudo, as identidades geradas nesse processo devem se submeter, tamb\u00e9m, \u00e0s diferen\u00e7as, com o prop\u00f3sito de que nenhuma delas seja unicamente sustent\u00e1vel. A estrat\u00e9gia da reflexividade, portanto, se articula, tamb\u00e9m, pelas diferen\u00e7as, considerando a identidade imposs\u00edvel \u2013 para que a sedu\u00e7\u00e3o n\u00e3o se esvane\u00e7a. Uma das estrat\u00e9gias fundamentais da sedu\u00e7\u00e3o, capaz de sustentar seu desenvolvimento, \u00e9 o segredo. Quando a a\u00e7\u00e3o de \u201csegredar\u201d \u00e9 implantada, mais importante do que omitir aspectos da verdade, \u00e9 fazer com que o outro saiba que h\u00e1 algo sigiloso, cujo acesso lhe \u00e9 negado total ou parcialmente. Por outras palavras, seduzir pelo segredo \u00e9 construir uma aura de mist\u00e9rio, apresentar um simulacro sobre um \u201cn\u00e3o contado\u201d ou um \u201cn\u00e3o cont\u00e1vel\u201d, gerando o suspense e despertando a curiosidade. O segredo tem a aura do enigma e da cumplicidade. Exige confian\u00e7a, reciprocidade, por isso, faz-se sedu\u00e7\u00e3o. Na vis\u00e3o de Baudrillard (1991), seduzir \u00e9 desviar (o outro) da verdade e, assim, a verdade se torna um segredo, porque escapa desse outro. Os conte\u00fados constru\u00eddos sobre a ambiguidade permitem sempre que mais de um sentido seja detectado para o mesmo signo e que o percurso de significa\u00e7\u00e3o seja revertido no decorrer do processo. Nessa estrat\u00e9gia, s\u00e3o elementos cruciais: a simula\u00e7\u00e3o e a constru\u00e7\u00e3o da apar\u00eancia, bem como a polissemia. Uma vez alcan\u00e7ado o prazer da constru\u00e7\u00e3o de sentidos simulados, atingido o imagin\u00e1rio e a fantasia, \u00e9 poss\u00edvel retornar a outra apar\u00eancia, a outra simula\u00e7\u00e3o e, portanto, a outro significante. Dessa forma, a ambiguidade torna-se pe\u00e7a chave nos significados dos corpos, uma vez que utiliza-se da flutua\u00e7\u00e3o e da metamorfose dos significantes e dos significados, podendo criar o que Sodr\u00e9 (1996) chama de identidades comut\u00e1veis ou alternativas. Refer\u00eancias BAUDRILLARD, Jean.&nbsp;Da sedu\u00e7\u00e3o. Campinas: Papirus, 1991. BAUDRILLARD, Jean.&nbsp;Simulacros e simula\u00e7\u00f5es. Lisboa: Rel\u00f3gio D\u2019\u00c1gua, 1991b. FERREIRA, Antonio Gomes.&nbsp;Dicion\u00e1rio de latim portugu\u00eas. Porto: Porto Editora, s.d. KEHL, Maria Rita. Masculino\/feminino: o olhar da sedu\u00e7\u00e3o. In: NOVAES, Adauto&nbsp;et al.&nbsp;O olhar. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 1988, p.411-23. SIBONY, Daniel.\u00a0Sedu\u00e7\u00e3o \u2013 amor inconsciente. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 1991. SODRE, Muniz.&nbsp;Reinventando a cultura: a comunica\u00e7\u00e3o e seus produtos. Petr\u00f3polis: Vozes, 1996. p.169-79.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3756,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[181],"class_list":["post-3755","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-comunicacao"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.8 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>A SEDU\u00c7\u00c3O COMO PROCEDIMENTO DA COMUNICA\u00c7\u00c3O - Corporalidades<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/a-seducao-como-procedimento-da-comunicacao\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"en_US\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"A SEDU\u00c7\u00c3O COMO PROCEDIMENTO DA COMUNICA\u00c7\u00c3O - Corporalidades\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Por\u00a0N\u00edsia Martins do Ros\u00e1rio: Em outro texto, neste blog, escrevi sobre o jogo na comunica\u00e7\u00e3o. Desta vez, passo a explorar a sedu\u00e7\u00e3o, outro procedimento comunicativo que funciona a partir de estrat\u00e9gias pr\u00f3prias. Antes de aprofundar essas quest\u00f5es, entretanto, \u00e9 necess\u00e1rio abordar os sentidos atribu\u00eddos \u00e0 sedu\u00e7\u00e3o, que se manifestam, muitas vezes, de forma imprecisa, confusa e contradit\u00f3ria. Por isso, talvez, o mais conveniente seja, inicialmente, reportar-se \u00e0s suas origens etimol\u00f3gicas. \u201cSedu\u00e7\u00e3o\u201d vem do latim&nbsp;seduco&nbsp;(se,&nbsp;duco). O radical&nbsp;duco&nbsp;(ducere), em sua acep\u00e7\u00e3o mais geral, significa conduzir, comandar, ir \u00e0 frente (Ferreira, s\/d). O prefixo \u2018se\u2019&nbsp;indica partilha, separa\u00e7\u00e3o, afastamento, divis\u00e3o, desvio. Assim, sedu\u00e7\u00e3o, inicialmente, designa a divis\u00e3o ou a partilha de comando, de condu\u00e7\u00e3o. Buscando despir a sedu\u00e7\u00e3o de sentidos moralistas ou profanos, o termo pode ser tratado como uma a\u00e7\u00e3o exercida sobre outra pessoa por meio de sugest\u00e3o, buscando direcionar determinadas condutas. A sedu\u00e7\u00e3o, portanto, pode ser entendida como um procedimento da comunica\u00e7\u00e3o aplicado em todas as ordem da vida, valendo-se tanto de sinceridade, como do engano e da ambiguidade. Nessa via, a sedu\u00e7\u00e3o pode tanto partilhar, argumentar, entreter, ensinar, quanto manipular, ludibriar e enganar, desde que a manifesta\u00e7\u00e3o desses modos de a\u00e7\u00e3o n\u00e3o se constitua em uma forma clara de controle e\/ou imposi\u00e7\u00e3o, mas, sim, como convencimento. A sedu\u00e7\u00e3o funda sua forma de convencimento na paix\u00e3o, no interesse, no \u00edmpeto. Oferece como finalidade o prazer, pressupondo um discurso dial\u00f3gico e, por conta disso, a intera\u00e7\u00e3o entre os sujeitos. O sedutor, portanto, tem que encantar e, para isso, pode mentir sobre si mesmo e para si mesmo, \u201cpois o sedutor, n\u00e3o se esque\u00e7am (\u2026), \u00e9 aquele que passou a vida renunciando a ser, em troca de parecer\u201d (Kehl, 1988, p. 422). Por sua vez, \u201co seduzido n\u00e3o sabe onde pisa \u2013 e pensa que o sedutor sabe. Antecipa prazer e dor, pois, ao mesmo tempo que espera o gozo prometido pelo sedutor, j\u00e1 sabe que se aproxima a cat\u00e1strofe\u201d (Kehl, 1988, p. 411). Outra caracter\u00edstica importante da sedu\u00e7\u00e3o \u00e9 que ela se sustenta e se utiliza da fantasia, permitindo que a fronteira da realidade seja ultrapassada, mas jamais deve ser confrontada com o real. A fantasia responde a certos vazios do sujeito; \u00e9 cria\u00e7\u00e3o que visa preencher a ruptura, a fenda do ser e do desejo inconsciente. N\u00e3o se pode jamais admitir que ela seja capaz de seduzir, pois isso a destruiria \u2013 pode-se apenas aceitar que a fantasia se constitua a partir de um ato de sedu\u00e7\u00e3o. O desejo tamb\u00e9m anda sempre rodeando a sedu\u00e7\u00e3o, \u00e9 o respons\u00e1vel por arrancar o sujeito do lugar comum, separ\u00e1-lo dele mesmo para confront\u00e1-lo com aquilo que lhe falta. O discurso se presta bem para alavancar esse desmantelamento, articulando estrat\u00e9gias sedutoras, assim como mantendo aberto o canal que permite reativar constantemente a incita\u00e7\u00e3o do desejo. O segredo do discurso sedutor, ali\u00e1s, \u00e9 desviar-se da verdade \u2013 que o destruiria \u2013 e constituir-se na apar\u00eancia, na simula\u00e7\u00e3o, sem tornar-se totalmente mentiroso. Construir-se como excesso, como falta, como superficialidade, como ritualidade, mas nunca como sentido profundo e \u00fanico, nunca como interpreta\u00e7\u00e3o completa. Observe-se que o discurso sedutor opera sobre o reverso, sobre o mascaramento dos sentidos. Dessa forma, \u00e9 c\u00famplice de um encantamento pr\u00f3prio. Esse \u00e9 tamb\u00e9m o material do discurso midi\u00e1tico \u2013\u00a0a priori\u00a0em todos os seus g\u00eaneros \u2013 que toma o signo como meio de se concretizar. Os signos, afinal, est\u00e3o ligados \u00e0 representa\u00e7\u00e3o e \u00e0 apar\u00eancia e, portanto, sempre propensos \u00e0 sedu\u00e7\u00e3o. Ora, o signo s\u00f3 se constitui como tal ao separar-se do objeto, ao separar-se do original \u2013 s\u00f3 assim \u00e9 signo de alguma coisa. Ele seduz porque, na verdade, ele \u00e9 a apar\u00eancia daquilo que representa. De forma geral, a comunica\u00e7\u00e3o, especialmente as midi\u00e1ticas, come\u00e7a a seduzir atrav\u00e9s de um convite: para que seus conte\u00fados sejam vistos, observados, apreciados ou at\u00e9 mesmo criticados. E, como quem convida tem algo a oferecer, \u00e9 preciso que ela se utilize dos recursos da tenta\u00e7\u00e3o, da exibi\u00e7\u00e3o, da aposta, do prazer, do desejo. O \u00eaxito do convite vale-se muito do fasc\u00ednio do p\u00fablico pelo mundo oferecido. A simula\u00e7\u00e3o \u00e9 outro recurso potente da sedu\u00e7\u00e3o, consubstanciada n\u00e3o apenas como representa\u00e7\u00e3o, mas como simulacro, como apar\u00eancia sem realidade. Ela, afinal, encanta e presenteia com o sonho e com a fantasia. A simula\u00e7\u00e3o permite tudo, ou quase tudo. Atrav\u00e9s da viola\u00e7\u00e3o da fronteira da realidade, \u00e9 poss\u00edvel mais do que representar, do que \u201cfazer-de-conta\u201d: \u00e9 poss\u00edvel quase vivenciar aquilo que n\u00e3o tem exist\u00eancia. Dessa maneira, o p\u00fablico midi\u00e1tico \u00e9 estimulado a recorrer a sua capacidade de fantasiar, de preencher vazios de sentidos com desejos e prazeres, de preencher os tristes vazios do mundo com sonhos encantados. O procedimento da sedu\u00e7\u00e3o, contudo, precisa se valer tamb\u00e9m do efeito de realidade para, nesse cen\u00e1rio, motivar o espectador a se integrar ao discurso. O efeito de realidade \u00e9 sutil, aplica pequenas ou grandes doses de realismo, de naturalidade, de lei para compensar as altas doses de apar\u00eancia, de simula\u00e7\u00e3o e de fantasia do processo sedutor. O efeito de realidade perpassa todos os conte\u00fados midi\u00e1ticos. Afinal, alguma verossimilhan\u00e7a \u00e9 necess\u00e1ria, e \u00e9 por essa via que se cria familiaridade com os p\u00fablicos. Ela se infiltra com tanta naturalidade que se confunde com o p\u00fablico, ambos fazem parte um do outro. Sua presen\u00e7a \u00e9 end\u00eamica, como diz Baudrillard (1991). As formas constru\u00eddas na apar\u00eancia, no exterior, na superf\u00edcie t\u00eam, assim, uma fun\u00e7\u00e3o ineg\u00e1vel e sua efic\u00e1cia est\u00e1 em mostrar a efervesc\u00eancia cont\u00ednua da vida social. N\u00e3o se pode negar, entretanto, que o tra\u00e7o da apar\u00eancia, inserido no procedimento da sedu\u00e7\u00e3o, pode se conformar num elemento alienante (\u00e9, por assim dizer, o que G. Debord chamou de\u00a0Sociedade do espet\u00e1culo). Os \u00eddolos criados e articulados pela tela seduzem, justamente, pelo uso da apar\u00eancia \u2013 para a aliena\u00e7\u00e3o ou para a resist\u00eancia \u2013, uma vez que seu poder est\u00e1 justamente na imagem que eles conseguem engendrar. Assim, cada parte do seu corpo n\u00e3o \u00e9 seu reflexo verdadeiro, mas o reflexo de uma encena\u00e7\u00e3o ritualizada. Baudrillard (1991b, p.108) afirma que os \u00eddolos s\u00e3o \u201c\u2026 a \u00fanica grande constela\u00e7\u00e3o coletiva da sedu\u00e7\u00e3o que os tempos modernos produziram\u201d. Sinteticamente, sugiro quatro estrat\u00e9gias da sedu\u00e7\u00e3o, come\u00e7ando pelo encantamento. Dessa forma, torna-se pressuposto que a sedu\u00e7\u00e3o se constr\u00f3i na comunica\u00e7\u00e3o de forma mais convincente quando sua meta \u00e9 o encantamento. Seja atrav\u00e9s do simb\u00f3lico, do artificial, da reversibilidade, do ritual, do desafio, do engodo, da simula\u00e7\u00e3o, da fantasia, o encantador tem o papel de maravilhar o outro e faz\u00ea-lo aceitar ser enfeiti\u00e7ado. Assim, a sedu\u00e7\u00e3o empresta \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o um car\u00e1ter um tanto m\u00e1gico, conseguindo perpassar as esferas de a\u00e7\u00f5es midi\u00e1ticas, adequando seus percursos, cen\u00e1rios e estrat\u00e9gias de acordo com as necessidades que se apresentam. Essa \u00e9 a estrat\u00e9gia da ilus\u00e3o consentida e solicitada; ilus\u00e3o que se vale de uma certa dose de ignor\u00e2ncia do encantado e de outra dose de mist\u00e9rio jogada nos meandros do discurso. \u00c9 a vers\u00e3o mais doce do engano. A sedu\u00e7\u00e3o opera, tamb\u00e9m, com a cria\u00e7\u00e3o de identidades, exigindo sempre reciprocidade e, dessa forma, permitindo que o sujeito se reproduza no outro, encontrando nele partes de si mesmo. \u00c9 nesse quadro \u2013 em que se projetam os reflexos de identifica\u00e7\u00e3o \u2013 que se constitui a estrat\u00e9gia da reflexividade, ativando n\u00e3o somente o imagin\u00e1rio, mas, ainda, a constru\u00e7\u00e3o dos sentidos. A reflexividade carrega elementos latentes dos sujeitos envolvidos no processo comunicativo e, ao projetar luz sobre esses elementos, consegue ativar a a\u00e7\u00e3o de resposta. Nos reflexos dos corpos que aparecem na tela se configuram signos capazes de sustentar o desafio de manter o p\u00fablico em conex\u00e3o. Contudo, as identidades geradas nesse processo devem se submeter, tamb\u00e9m, \u00e0s diferen\u00e7as, com o prop\u00f3sito de que nenhuma delas seja unicamente sustent\u00e1vel. A estrat\u00e9gia da reflexividade, portanto, se articula, tamb\u00e9m, pelas diferen\u00e7as, considerando a identidade imposs\u00edvel \u2013 para que a sedu\u00e7\u00e3o n\u00e3o se esvane\u00e7a. Uma das estrat\u00e9gias fundamentais da sedu\u00e7\u00e3o, capaz de sustentar seu desenvolvimento, \u00e9 o segredo. Quando a a\u00e7\u00e3o de \u201csegredar\u201d \u00e9 implantada, mais importante do que omitir aspectos da verdade, \u00e9 fazer com que o outro saiba que h\u00e1 algo sigiloso, cujo acesso lhe \u00e9 negado total ou parcialmente. Por outras palavras, seduzir pelo segredo \u00e9 construir uma aura de mist\u00e9rio, apresentar um simulacro sobre um \u201cn\u00e3o contado\u201d ou um \u201cn\u00e3o cont\u00e1vel\u201d, gerando o suspense e despertando a curiosidade. O segredo tem a aura do enigma e da cumplicidade. Exige confian\u00e7a, reciprocidade, por isso, faz-se sedu\u00e7\u00e3o. Na vis\u00e3o de Baudrillard (1991), seduzir \u00e9 desviar (o outro) da verdade e, assim, a verdade se torna um segredo, porque escapa desse outro. Os conte\u00fados constru\u00eddos sobre a ambiguidade permitem sempre que mais de um sentido seja detectado para o mesmo signo e que o percurso de significa\u00e7\u00e3o seja revertido no decorrer do processo. Nessa estrat\u00e9gia, s\u00e3o elementos cruciais: a simula\u00e7\u00e3o e a constru\u00e7\u00e3o da apar\u00eancia, bem como a polissemia. Uma vez alcan\u00e7ado o prazer da constru\u00e7\u00e3o de sentidos simulados, atingido o imagin\u00e1rio e a fantasia, \u00e9 poss\u00edvel retornar a outra apar\u00eancia, a outra simula\u00e7\u00e3o e, portanto, a outro significante. Dessa forma, a ambiguidade torna-se pe\u00e7a chave nos significados dos corpos, uma vez que utiliza-se da flutua\u00e7\u00e3o e da metamorfose dos significantes e dos significados, podendo criar o que Sodr\u00e9 (1996) chama de identidades comut\u00e1veis ou alternativas. Refer\u00eancias BAUDRILLARD, Jean.&nbsp;Da sedu\u00e7\u00e3o. Campinas: Papirus, 1991. BAUDRILLARD, Jean.&nbsp;Simulacros e simula\u00e7\u00f5es. Lisboa: Rel\u00f3gio D\u2019\u00c1gua, 1991b. FERREIRA, Antonio Gomes.&nbsp;Dicion\u00e1rio de latim portugu\u00eas. Porto: Porto Editora, s.d. KEHL, Maria Rita. Masculino\/feminino: o olhar da sedu\u00e7\u00e3o. In: NOVAES, Adauto&nbsp;et al.&nbsp;O olhar. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 1988, p.411-23. SIBONY, Daniel.\u00a0Sedu\u00e7\u00e3o \u2013 amor inconsciente. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 1991. SODRE, Muniz.&nbsp;Reinventando a cultura: a comunica\u00e7\u00e3o e seus produtos. Petr\u00f3polis: Vozes, 1996. p.169-79.\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/a-seducao-como-procedimento-da-comunicacao\/\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Corporalidades\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2025-09-29T21:14:30+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2025-09-29T21:14:32+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/seducao_3.jpg\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:width\" content=\"1300\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:height\" content=\"866\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:type\" content=\"image\/jpeg\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"gerente\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Written by\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"gerente\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. reading time\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"8 minutes\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.ufrgs.br\\\/corporalidades\\\/a-seducao-como-procedimento-da-comunicacao\\\/#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.ufrgs.br\\\/corporalidades\\\/a-seducao-como-procedimento-da-comunicacao\\\/\"},\"author\":{\"name\":\"gerente\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.ufrgs.br\\\/corporalidades\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/e18ecb8063c1f965a031341c25460e43\"},\"headline\":\"A SEDU\u00c7\u00c3O COMO PROCEDIMENTO DA COMUNICA\u00c7\u00c3O\",\"datePublished\":\"2025-09-29T21:14:30+00:00\",\"dateModified\":\"2025-09-29T21:14:32+00:00\",\"mainEntityOfPage\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.ufrgs.br\\\/corporalidades\\\/a-seducao-como-procedimento-da-comunicacao\\\/\"},\"wordCount\":1776,\"commentCount\":0,\"image\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.ufrgs.br\\\/corporalidades\\\/a-seducao-como-procedimento-da-comunicacao\\\/#primaryimage\"},\"thumbnailUrl\":\"https:\\\/\\\/www.ufrgs.br\\\/corporalidades\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2025\\\/09\\\/seducao_3.jpg\",\"keywords\":[\"Comunica\u00e7\u00e3o\"],\"articleSection\":[\"Blog\"],\"inLanguage\":\"en-US\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"CommentAction\",\"name\":\"Comment\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/www.ufrgs.br\\\/corporalidades\\\/a-seducao-como-procedimento-da-comunicacao\\\/#respond\"]}]},{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.ufrgs.br\\\/corporalidades\\\/a-seducao-como-procedimento-da-comunicacao\\\/\",\"url\":\"https:\\\/\\\/www.ufrgs.br\\\/corporalidades\\\/a-seducao-como-procedimento-da-comunicacao\\\/\",\"name\":\"A SEDU\u00c7\u00c3O COMO PROCEDIMENTO DA COMUNICA\u00c7\u00c3O - 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Desta vez, passo a explorar a sedu\u00e7\u00e3o, outro procedimento comunicativo que funciona a partir de estrat\u00e9gias pr\u00f3prias. Antes de aprofundar essas quest\u00f5es, entretanto, \u00e9 necess\u00e1rio abordar os sentidos atribu\u00eddos \u00e0 sedu\u00e7\u00e3o, que se manifestam, muitas vezes, de forma imprecisa, confusa e contradit\u00f3ria. Por isso, talvez, o mais conveniente seja, inicialmente, reportar-se \u00e0s suas origens etimol\u00f3gicas. \u201cSedu\u00e7\u00e3o\u201d vem do latim&nbsp;seduco&nbsp;(se,&nbsp;duco). O radical&nbsp;duco&nbsp;(ducere), em sua acep\u00e7\u00e3o mais geral, significa conduzir, comandar, ir \u00e0 frente (Ferreira, s\/d). O prefixo \u2018se\u2019&nbsp;indica partilha, separa\u00e7\u00e3o, afastamento, divis\u00e3o, desvio. Assim, sedu\u00e7\u00e3o, inicialmente, designa a divis\u00e3o ou a partilha de comando, de condu\u00e7\u00e3o. Buscando despir a sedu\u00e7\u00e3o de sentidos moralistas ou profanos, o termo pode ser tratado como uma a\u00e7\u00e3o exercida sobre outra pessoa por meio de sugest\u00e3o, buscando direcionar determinadas condutas. A sedu\u00e7\u00e3o, portanto, pode ser entendida como um procedimento da comunica\u00e7\u00e3o aplicado em todas as ordem da vida, valendo-se tanto de sinceridade, como do engano e da ambiguidade. Nessa via, a sedu\u00e7\u00e3o pode tanto partilhar, argumentar, entreter, ensinar, quanto manipular, ludibriar e enganar, desde que a manifesta\u00e7\u00e3o desses modos de a\u00e7\u00e3o n\u00e3o se constitua em uma forma clara de controle e\/ou imposi\u00e7\u00e3o, mas, sim, como convencimento. A sedu\u00e7\u00e3o funda sua forma de convencimento na paix\u00e3o, no interesse, no \u00edmpeto. Oferece como finalidade o prazer, pressupondo um discurso dial\u00f3gico e, por conta disso, a intera\u00e7\u00e3o entre os sujeitos. O sedutor, portanto, tem que encantar e, para isso, pode mentir sobre si mesmo e para si mesmo, \u201cpois o sedutor, n\u00e3o se esque\u00e7am (\u2026), \u00e9 aquele que passou a vida renunciando a ser, em troca de parecer\u201d (Kehl, 1988, p. 422). Por sua vez, \u201co seduzido n\u00e3o sabe onde pisa \u2013 e pensa que o sedutor sabe. Antecipa prazer e dor, pois, ao mesmo tempo que espera o gozo prometido pelo sedutor, j\u00e1 sabe que se aproxima a cat\u00e1strofe\u201d (Kehl, 1988, p. 411). Outra caracter\u00edstica importante da sedu\u00e7\u00e3o \u00e9 que ela se sustenta e se utiliza da fantasia, permitindo que a fronteira da realidade seja ultrapassada, mas jamais deve ser confrontada com o real. A fantasia responde a certos vazios do sujeito; \u00e9 cria\u00e7\u00e3o que visa preencher a ruptura, a fenda do ser e do desejo inconsciente. N\u00e3o se pode jamais admitir que ela seja capaz de seduzir, pois isso a destruiria \u2013 pode-se apenas aceitar que a fantasia se constitua a partir de um ato de sedu\u00e7\u00e3o. O desejo tamb\u00e9m anda sempre rodeando a sedu\u00e7\u00e3o, \u00e9 o respons\u00e1vel por arrancar o sujeito do lugar comum, separ\u00e1-lo dele mesmo para confront\u00e1-lo com aquilo que lhe falta. O discurso se presta bem para alavancar esse desmantelamento, articulando estrat\u00e9gias sedutoras, assim como mantendo aberto o canal que permite reativar constantemente a incita\u00e7\u00e3o do desejo. O segredo do discurso sedutor, ali\u00e1s, \u00e9 desviar-se da verdade \u2013 que o destruiria \u2013 e constituir-se na apar\u00eancia, na simula\u00e7\u00e3o, sem tornar-se totalmente mentiroso. Construir-se como excesso, como falta, como superficialidade, como ritualidade, mas nunca como sentido profundo e \u00fanico, nunca como interpreta\u00e7\u00e3o completa. Observe-se que o discurso sedutor opera sobre o reverso, sobre o mascaramento dos sentidos. Dessa forma, \u00e9 c\u00famplice de um encantamento pr\u00f3prio. Esse \u00e9 tamb\u00e9m o material do discurso midi\u00e1tico \u2013\u00a0a priori\u00a0em todos os seus g\u00eaneros \u2013 que toma o signo como meio de se concretizar. Os signos, afinal, est\u00e3o ligados \u00e0 representa\u00e7\u00e3o e \u00e0 apar\u00eancia e, portanto, sempre propensos \u00e0 sedu\u00e7\u00e3o. Ora, o signo s\u00f3 se constitui como tal ao separar-se do objeto, ao separar-se do original \u2013 s\u00f3 assim \u00e9 signo de alguma coisa. Ele seduz porque, na verdade, ele \u00e9 a apar\u00eancia daquilo que representa. De forma geral, a comunica\u00e7\u00e3o, especialmente as midi\u00e1ticas, come\u00e7a a seduzir atrav\u00e9s de um convite: para que seus conte\u00fados sejam vistos, observados, apreciados ou at\u00e9 mesmo criticados. E, como quem convida tem algo a oferecer, \u00e9 preciso que ela se utilize dos recursos da tenta\u00e7\u00e3o, da exibi\u00e7\u00e3o, da aposta, do prazer, do desejo. O \u00eaxito do convite vale-se muito do fasc\u00ednio do p\u00fablico pelo mundo oferecido. A simula\u00e7\u00e3o \u00e9 outro recurso potente da sedu\u00e7\u00e3o, consubstanciada n\u00e3o apenas como representa\u00e7\u00e3o, mas como simulacro, como apar\u00eancia sem realidade. Ela, afinal, encanta e presenteia com o sonho e com a fantasia. A simula\u00e7\u00e3o permite tudo, ou quase tudo. Atrav\u00e9s da viola\u00e7\u00e3o da fronteira da realidade, \u00e9 poss\u00edvel mais do que representar, do que \u201cfazer-de-conta\u201d: \u00e9 poss\u00edvel quase vivenciar aquilo que n\u00e3o tem exist\u00eancia. Dessa maneira, o p\u00fablico midi\u00e1tico \u00e9 estimulado a recorrer a sua capacidade de fantasiar, de preencher vazios de sentidos com desejos e prazeres, de preencher os tristes vazios do mundo com sonhos encantados. O procedimento da sedu\u00e7\u00e3o, contudo, precisa se valer tamb\u00e9m do efeito de realidade para, nesse cen\u00e1rio, motivar o espectador a se integrar ao discurso. O efeito de realidade \u00e9 sutil, aplica pequenas ou grandes doses de realismo, de naturalidade, de lei para compensar as altas doses de apar\u00eancia, de simula\u00e7\u00e3o e de fantasia do processo sedutor. O efeito de realidade perpassa todos os conte\u00fados midi\u00e1ticos. Afinal, alguma verossimilhan\u00e7a \u00e9 necess\u00e1ria, e \u00e9 por essa via que se cria familiaridade com os p\u00fablicos. Ela se infiltra com tanta naturalidade que se confunde com o p\u00fablico, ambos fazem parte um do outro. Sua presen\u00e7a \u00e9 end\u00eamica, como diz Baudrillard (1991). As formas constru\u00eddas na apar\u00eancia, no exterior, na superf\u00edcie t\u00eam, assim, uma fun\u00e7\u00e3o ineg\u00e1vel e sua efic\u00e1cia est\u00e1 em mostrar a efervesc\u00eancia cont\u00ednua da vida social. N\u00e3o se pode negar, entretanto, que o tra\u00e7o da apar\u00eancia, inserido no procedimento da sedu\u00e7\u00e3o, pode se conformar num elemento alienante (\u00e9, por assim dizer, o que G. Debord chamou de\u00a0Sociedade do espet\u00e1culo). Os \u00eddolos criados e articulados pela tela seduzem, justamente, pelo uso da apar\u00eancia \u2013 para a aliena\u00e7\u00e3o ou para a resist\u00eancia \u2013, uma vez que seu poder est\u00e1 justamente na imagem que eles conseguem engendrar. Assim, cada parte do seu corpo n\u00e3o \u00e9 seu reflexo verdadeiro, mas o reflexo de uma encena\u00e7\u00e3o ritualizada. Baudrillard (1991b, p.108) afirma que os \u00eddolos s\u00e3o \u201c\u2026 a \u00fanica grande constela\u00e7\u00e3o coletiva da sedu\u00e7\u00e3o que os tempos modernos produziram\u201d. Sinteticamente, sugiro quatro estrat\u00e9gias da sedu\u00e7\u00e3o, come\u00e7ando pelo encantamento. Dessa forma, torna-se pressuposto que a sedu\u00e7\u00e3o se constr\u00f3i na comunica\u00e7\u00e3o de forma mais convincente quando sua meta \u00e9 o encantamento. Seja atrav\u00e9s do simb\u00f3lico, do artificial, da reversibilidade, do ritual, do desafio, do engodo, da simula\u00e7\u00e3o, da fantasia, o encantador tem o papel de maravilhar o outro e faz\u00ea-lo aceitar ser enfeiti\u00e7ado. Assim, a sedu\u00e7\u00e3o empresta \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o um car\u00e1ter um tanto m\u00e1gico, conseguindo perpassar as esferas de a\u00e7\u00f5es midi\u00e1ticas, adequando seus percursos, cen\u00e1rios e estrat\u00e9gias de acordo com as necessidades que se apresentam. Essa \u00e9 a estrat\u00e9gia da ilus\u00e3o consentida e solicitada; ilus\u00e3o que se vale de uma certa dose de ignor\u00e2ncia do encantado e de outra dose de mist\u00e9rio jogada nos meandros do discurso. \u00c9 a vers\u00e3o mais doce do engano. A sedu\u00e7\u00e3o opera, tamb\u00e9m, com a cria\u00e7\u00e3o de identidades, exigindo sempre reciprocidade e, dessa forma, permitindo que o sujeito se reproduza no outro, encontrando nele partes de si mesmo. \u00c9 nesse quadro \u2013 em que se projetam os reflexos de identifica\u00e7\u00e3o \u2013 que se constitui a estrat\u00e9gia da reflexividade, ativando n\u00e3o somente o imagin\u00e1rio, mas, ainda, a constru\u00e7\u00e3o dos sentidos. A reflexividade carrega elementos latentes dos sujeitos envolvidos no processo comunicativo e, ao projetar luz sobre esses elementos, consegue ativar a a\u00e7\u00e3o de resposta. Nos reflexos dos corpos que aparecem na tela se configuram signos capazes de sustentar o desafio de manter o p\u00fablico em conex\u00e3o. Contudo, as identidades geradas nesse processo devem se submeter, tamb\u00e9m, \u00e0s diferen\u00e7as, com o prop\u00f3sito de que nenhuma delas seja unicamente sustent\u00e1vel. A estrat\u00e9gia da reflexividade, portanto, se articula, tamb\u00e9m, pelas diferen\u00e7as, considerando a identidade imposs\u00edvel \u2013 para que a sedu\u00e7\u00e3o n\u00e3o se esvane\u00e7a. Uma das estrat\u00e9gias fundamentais da sedu\u00e7\u00e3o, capaz de sustentar seu desenvolvimento, \u00e9 o segredo. Quando a a\u00e7\u00e3o de \u201csegredar\u201d \u00e9 implantada, mais importante do que omitir aspectos da verdade, \u00e9 fazer com que o outro saiba que h\u00e1 algo sigiloso, cujo acesso lhe \u00e9 negado total ou parcialmente. Por outras palavras, seduzir pelo segredo \u00e9 construir uma aura de mist\u00e9rio, apresentar um simulacro sobre um \u201cn\u00e3o contado\u201d ou um \u201cn\u00e3o cont\u00e1vel\u201d, gerando o suspense e despertando a curiosidade. O segredo tem a aura do enigma e da cumplicidade. Exige confian\u00e7a, reciprocidade, por isso, faz-se sedu\u00e7\u00e3o. Na vis\u00e3o de Baudrillard (1991), seduzir \u00e9 desviar (o outro) da verdade e, assim, a verdade se torna um segredo, porque escapa desse outro. Os conte\u00fados constru\u00eddos sobre a ambiguidade permitem sempre que mais de um sentido seja detectado para o mesmo signo e que o percurso de significa\u00e7\u00e3o seja revertido no decorrer do processo. Nessa estrat\u00e9gia, s\u00e3o elementos cruciais: a simula\u00e7\u00e3o e a constru\u00e7\u00e3o da apar\u00eancia, bem como a polissemia. Uma vez alcan\u00e7ado o prazer da constru\u00e7\u00e3o de sentidos simulados, atingido o imagin\u00e1rio e a fantasia, \u00e9 poss\u00edvel retornar a outra apar\u00eancia, a outra simula\u00e7\u00e3o e, portanto, a outro significante. Dessa forma, a ambiguidade torna-se pe\u00e7a chave nos significados dos corpos, uma vez que utiliza-se da flutua\u00e7\u00e3o e da metamorfose dos significantes e dos significados, podendo criar o que Sodr\u00e9 (1996) chama de identidades comut\u00e1veis ou alternativas. Refer\u00eancias BAUDRILLARD, Jean.&nbsp;Da sedu\u00e7\u00e3o. Campinas: Papirus, 1991. BAUDRILLARD, Jean.&nbsp;Simulacros e simula\u00e7\u00f5es. Lisboa: Rel\u00f3gio D\u2019\u00c1gua, 1991b. FERREIRA, Antonio Gomes.&nbsp;Dicion\u00e1rio de latim portugu\u00eas. Porto: Porto Editora, s.d. KEHL, Maria Rita. Masculino\/feminino: o olhar da sedu\u00e7\u00e3o. In: NOVAES, Adauto&nbsp;et al.&nbsp;O olhar. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 1988, p.411-23. SIBONY, Daniel.\u00a0Sedu\u00e7\u00e3o \u2013 amor inconsciente. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 1991. SODRE, Muniz.&nbsp;Reinventando a cultura: a comunica\u00e7\u00e3o e seus produtos. Petr\u00f3polis: Vozes, 1996. p.169-79.","og_url":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/a-seducao-como-procedimento-da-comunicacao\/","og_site_name":"Corporalidades","article_published_time":"2025-09-29T21:14:30+00:00","article_modified_time":"2025-09-29T21:14:32+00:00","og_image":[{"width":1300,"height":866,"url":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/seducao_3.jpg","type":"image\/jpeg"}],"author":"gerente","twitter_card":"summary_large_image","twitter_misc":{"Written by":"gerente","Est. reading time":"8 minutes"},"schema":{"@context":"https:\/\/schema.org","@graph":[{"@type":"Article","@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/a-seducao-como-procedimento-da-comunicacao\/#article","isPartOf":{"@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/a-seducao-como-procedimento-da-comunicacao\/"},"author":{"name":"gerente","@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/#\/schema\/person\/e18ecb8063c1f965a031341c25460e43"},"headline":"A SEDU\u00c7\u00c3O COMO PROCEDIMENTO DA COMUNICA\u00c7\u00c3O","datePublished":"2025-09-29T21:14:30+00:00","dateModified":"2025-09-29T21:14:32+00:00","mainEntityOfPage":{"@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/a-seducao-como-procedimento-da-comunicacao\/"},"wordCount":1776,"commentCount":0,"image":{"@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/a-seducao-como-procedimento-da-comunicacao\/#primaryimage"},"thumbnailUrl":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/seducao_3.jpg","keywords":["Comunica\u00e7\u00e3o"],"articleSection":["Blog"],"inLanguage":"en-US","potentialAction":[{"@type":"CommentAction","name":"Comment","target":["https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/a-seducao-como-procedimento-da-comunicacao\/#respond"]}]},{"@type":"WebPage","@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/a-seducao-como-procedimento-da-comunicacao\/","url":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/a-seducao-como-procedimento-da-comunicacao\/","name":"A SEDU\u00c7\u00c3O COMO PROCEDIMENTO DA COMUNICA\u00c7\u00c3O - 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