{"id":3907,"date":"2026-04-13T17:48:15","date_gmt":"2026-04-13T20:48:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/?p=3907"},"modified":"2026-04-13T17:48:16","modified_gmt":"2026-04-13T20:48:16","slug":"os-atores-do-processo-de-subjetivacao-e-singularizacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/os-atores-do-processo-de-subjetivacao-e-singularizacao\/","title":{"rendered":"Os atores do processo de subjetiva\u00e7\u00e3o e singulariza\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Por Jo\u00e3o Batista Nascimento dos Santos<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Guattari e Rolnik (2011), o sujeito nunca \u00e9 algo dado, mas constitu\u00eddo permanentemente pelos processos que vivencia no social. Pela \u00f3tica destes autores,&nbsp;a constru\u00e7\u00e3o da subjetividade transcende a esfera do indiv\u00edduo. Guattari e Rolnik (2011) postulam, desde o princ\u00edpio, que a subjetividade n\u00e3o deve ser concebida como um atributo intr\u00ednseco do indiv\u00edduo, mas sim como um processo de produ\u00e7\u00e3o cont\u00ednua que opera em grande medida externamente ao sujeito. Nesse sentido, a subjetividade seria resultado de um processo de produ\u00e7\u00e3o, sendo majoritariamente produzida e modelada no registro do social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o, como se d\u00e1 a produ\u00e7\u00e3o de subjetividade na compreens\u00e3o de Guattari e Rolnik (2011)? Esse processo se daria pela assimila\u00e7\u00e3o constante por parte dos sujeitos de recursos propiciados pelo meio social, a propaga\u00e7\u00e3o de tais recursos se sucede por meio de certas institui\u00e7\u00f5es, tais como a m\u00eddia, incluindo plataformas de redes sociais, a publicidade, os jornais e demais formas de comunica\u00e7\u00e3o, as religi\u00f5es, o mercado de trabalho, os governos bem como outros recursos do capitalismo, que para Guattari e Rolnik (2011), apresentam fun\u00e7\u00f5es que transcendem a simples transmiss\u00e3o de ideias e significa\u00e7\u00f5es. Em vez disso, estes desempenham uma fun\u00e7\u00e3o social preponderante ao operarem como verdadeiras m\u00e1quinas de produ\u00e7\u00e3o de subjetividade. Nessa concep\u00e7\u00e3o, o capitalismo gera a pr\u00f3pria subjetividade, dissociando-a de uma no\u00e7\u00e3o estritamente individualista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A subjetividade \u00e9 importante para o capitalismo, podemos perceber isso&nbsp;ao nos voltarmos para o projeto de implanta\u00e7\u00e3o do neoliberalismo, nesse momento houve a necessidade da cria\u00e7\u00e3o de um modelo de subjetividade que se adequasse a esse novo est\u00e1gio social. Nesse sentido, foi estabelecido o <em>ideal empresarial de si<\/em> como dispositivo disciplinar. O sucesso dessa empreitada dependia n\u00e3o somente de uma transforma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, mas tamb\u00e9m de uma mudan\u00e7a no \u00e2mbito dos afetos dos sujeitos. A fala de Margaret Thatcher recuperada por Safatle (2015) elucida a percep\u00e7\u00e3o da primeira-ministra inglesa sobre a relev\u00e2ncia da subjetividade. Thatcher proferiu o seguinte: a economia constitui o m\u00e9todo, mas o objetivo \u00faltimo reside na transforma\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o e da alma dos sujeitos. Isto demonstra que o neoliberalismo transcende sua defini\u00e7\u00e3o estrita como uma doutrina econ\u00f4mica fundamentada na maximiza\u00e7\u00e3o da concorr\u00eancia e na liberaliza\u00e7\u00e3o dos mercados. De modo mais abrangente, ele opera como um regime voltado para a gest\u00e3o da conduta social e para a constru\u00e7\u00e3o de formas de vida espec\u00edficas. Nesse sentido, ele engendra uma corporeidade pr\u00f3pria, uma corporeidade neoliberal (2015). Ou seja, sem um projeto de subjetividade pr\u00f3prio, a implanta\u00e7\u00e3o do neoliberalismo n\u00e3o teria \u00eaxito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Guattari e Ronilk (2011) contrap\u00f5em-se \u00e0 influente tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica que postula a exist\u00eancia de uma &#8216;natureza humana&#8217; a priori. Sob essa perspectiva essencialista, a mera perten\u00e7a \u00e0 esp\u00e9cie&nbsp;<em>Homo sapiens<\/em>&nbsp;conferiria ao indiv\u00edduo uma ess\u00eancia imut\u00e1vel. Essa concep\u00e7\u00e3o, argumenta-se, permeia profundamente o tecido social. Tal vis\u00e3o pode ser percebida, por exemplo, na compreens\u00e3o sobre a subjetividade manifestada por Woodward (2014). Na an\u00e1lise de Woodward (2014), os conceitos de identidade e subjetividade, embora por vezes utilizados de forma intercambi\u00e1vel, efetivamente se sobrep\u00f5em. A subjetividade refere-se ao entendimento que engendramos sobre o nosso eu, englobando os processos ps\u00edquicos \u2014 conscientes e inconscientes \u2014 que constituem nosso entendimento acerca de quem n\u00f3s somos. Contudo, essa esfera, mesmo envolvendo nossos pensamentos e sentimentos mais \u00edntimos, \u00e9 preciso&nbsp;que consideremos que nossa subjetividade \u00e9 vivenciada em um meio social no qual a linguagem e a cultura fornecem as matrizes de significado para a experi\u00eancia subjetiva. \u00c9 nesse terreno que a identidade emerge. O conceito de subjetividade \u00e9 analiticamente crucial por abarcar as dimens\u00f5es inconscientes, contradit\u00f3rias e afetivas racionais e irracionais. Ele permite investigar o&nbsp;investimento ps\u00edquico&nbsp;que fundamenta a ades\u00e3o a certas identidades em detrimento de outras, explicando por que determinadas posi\u00e7\u00f5es se tornam t\u00e3o centrais para os sujeitos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por sua vez em sua abordagem, Guattari e Rolnik (2011) postulam que a subjetividade possui um car\u00e1ter industrial e maqu\u00ednico. Esta, por sua vez, seria concebida como um produto fabricado, modelado e distribu\u00eddo para consumo. Tal perspectiva ilumina a l\u00f3gica do capitalismo contempor\u00e2neo, cujas for\u00e7as gestoras compreendem a produ\u00e7\u00e3o de subjetividade como uma atividade potencialmente mais relevante do que a produ\u00e7\u00e3o de qualquer outra coisa. As mudan\u00e7as na subjetividade nessa perspectiva n\u00e3o seriam efetivadas unicamente no campo ideol\u00f3gico, operando sim em um n\u00edvel mais profundo \u201cno pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos, em sua maneira de perceber o mundo, de se articular como tecido urbano, com os processos maqu\u00ednicos do trabalho, com a ordem social suporte dessas for\u00e7as produtivas\u201d (Guattari; Rolnik, 2011, p. 26), algo que est\u00e1 em certo sentido na mesma perspectiva do que foi exposto anteriormente sobre a abordagem de Safatle (2015).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A produ\u00e7\u00e3o de subjetividade<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Conforme a an\u00e1lise de Lazzarato (2014) sobre o pensamento de Guattari, a produ\u00e7\u00e3o de subjetividade emerge no ponto de articula\u00e7\u00e3o entre dois regimes distintos: os dispositivos de sujei\u00e7\u00e3o social e os de servid\u00e3o maqu\u00ednica. A sujei\u00e7\u00e3o social, por um lado, opera pela atribui\u00e7\u00e3o de uma identidade ao indiv\u00edduo, inscrevendo-o em fun\u00e7\u00f5es (profissionais, por exemplo). E, respondendo \u00e0s exig\u00eancias da divis\u00e3o social do trabalho, constitui sujeitos individuados, dotados de consci\u00eancia, representa\u00e7\u00f5es e comportamentos socialmente codificados. Em contraste, a servid\u00e3o maqu\u00ednica promove o desmantelamento dessa mesma individualidade. Esta atua sobre o sujeito, desconstruindo-o, afetando a sua consci\u00eancia e a as suas representa\u00e7\u00f5es, atuando sobre os n\u00edveis pr\u00e9-individual e supraindividual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A constitui\u00e7\u00e3o do sujeito, mediada por inst\u00e2ncias como a fam\u00edlia, a linguagem e os aparatos tecnol\u00f3gicos, transcende a mera transmiss\u00e3o de significa\u00e7\u00f5es com o uso de enunciados significantes, como tamb\u00e9m n\u00e3o se circunscreve a modelos identit\u00e1rios. Conforme Lazzarato (2014), esses fen\u00f4menos devem ser compreendidos como produtos diretos da subjetiva\u00e7\u00e3o capitalista. Segundo Guattari e Rolnik (2011), nesse contexto, certos agentes \u2014 como jornalistas, psicanalistas, educadores e, como se pode inferir, publicit\u00e1rios e outros operadores culturais \u2014 atuam como vetores na produ\u00e7\u00e3o de subjetividade por meio de agenciamentos de enuncia\u00e7\u00e3o. Os processos de subjetiva\u00e7\u00e3o e semiotiza\u00e7\u00e3o, que englobam a produ\u00e7\u00e3o de sentido dotada de efic\u00e1cia semi\u00f3tica, n\u00e3o s\u00e3o centralizados em agentes individuais ou grupais. Tais processos manifestam um duplo descentramento, sendo operados por m\u00e1quinas de express\u00e3o de natureza tanto extra pessoal quanto extra individual, sendo estes sistemas maqu\u00ednicos, econ\u00f4micos, sociais, tecnol\u00f3gicos, ic\u00f4nicos, ecol\u00f3gicos, etol\u00f3gicos, de m\u00eddia, enfim, sistemas que n\u00e3o s\u00e3o mais imediatamente antropol\u00f3gicos, quanto de natureza infra-humana, infraps\u00edquica, infrapessoal, sistemas de percep\u00e7\u00e3o, de sensibilidade, de afeto, de desejo, de representa\u00e7\u00e3o, de imagens, de valor, modos de memoriza\u00e7\u00e3o e de produ\u00e7\u00e3o ideica, sistemas de inibi\u00e7\u00e3o e de automatismos, sistemas corporais, org\u00e2nicos, biol\u00f3gicos, fisiol\u00f3gicos, etc. (Guattari; Rolnik, 2011, p. 31).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Construindo linhas de fuga dos processos de subjetiva\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Contudo, Guattari e Rolnik (2011) veem a possibilidade de produzir&nbsp;processos de subjetiva\u00e7\u00e3o singulares, que operem na contram\u00e3o da m\u00e1quina de produ\u00e7\u00e3o de subjetividade. Esses processos s\u00e3o, em sua ess\u00eancia,&nbsp;linhas de fuga&nbsp;que desterritorializam as codifica\u00e7\u00f5es identit\u00e1rias e os afetos padronizados. Ao rejeitar os modelos preexistentes, eles liberam&nbsp;fluxos de devir&nbsp;que permitem a composi\u00e7\u00e3o de novos territ\u00f3rios existenciais: novas sensibilidades, novas formas de sociabilidade e novos agenciamentos criativos. A singulariza\u00e7\u00e3o, portanto, n\u00e3o \u00e9 a busca por uma identidade &#8216;verdadeira&#8217;, mas um processo cont\u00ednuo de diferencia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma singulariza\u00e7\u00e3o existencial que coincida com um desejo, com um gosto de viver, com uma vontade de construir o mundo no qual nos encontramos, com a instaura\u00e7\u00e3o de dispositivos para mudar os tipos de sociedade, os tipos de valores que n\u00e3o s\u00e3o nossos. (Guattari; Rolnik, 2011, p. 23).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">GUATTARI, F.; ROLNIK, Sueli. <strong>Micropol\u00edtica:<\/strong> cartografias do desejo. Petr\u00f3polis: Vozes, 2011.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">LAZZARATO, Maurizio.&nbsp; <strong>Signos, m\u00e1quinas, subjetividades.<\/strong> S\u00e3o Paulo: N-1 Editora, 2014.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SAFATLE, Vladimir. <strong>O circuito dos afetos. <\/strong>S\u00e3o Paulo: Cosac &amp; Naify, 2015.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">WOODWARD, Kathryn. Identidade e diferen\u00e7a: uma introdu\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e conceitual. In: SILVA, Tomaz Tadeu da. (Org.); HALL, Stuart; WOODWARD, Kathryn. <strong>Identidade e diferen\u00e7a<\/strong><em>. <\/em>A perspectiva dos estudos culturais. Petr\u00f3polis\/RJ: Vozes, 2014.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Jo\u00e3o Batista Nascimento dos Santos Para Guattari e Rolnik (2011), o sujeito nunca \u00e9 algo dado, mas constitu\u00eddo permanentemente pelos processos que vivencia no social. Pela \u00f3tica destes autores,&nbsp;a constru\u00e7\u00e3o da subjetividade transcende a esfera do indiv\u00edduo. Guattari e Rolnik (2011) postulam, desde o princ\u00edpio, que a subjetividade n\u00e3o deve ser concebida como um atributo intr\u00ednseco do indiv\u00edduo, mas sim como um processo de produ\u00e7\u00e3o cont\u00ednua que opera em grande medida externamente ao sujeito. Nesse sentido, a subjetividade seria resultado de um processo de produ\u00e7\u00e3o, sendo majoritariamente produzida e modelada no registro do social. Ent\u00e3o, como se d\u00e1 a produ\u00e7\u00e3o de subjetividade na compreens\u00e3o de Guattari e Rolnik (2011)? Esse processo se daria pela assimila\u00e7\u00e3o constante por parte dos sujeitos de recursos propiciados pelo meio social, a propaga\u00e7\u00e3o de tais recursos se sucede por meio de certas institui\u00e7\u00f5es, tais como a m\u00eddia, incluindo plataformas de redes sociais, a publicidade, os jornais e demais formas de comunica\u00e7\u00e3o, as religi\u00f5es, o mercado de trabalho, os governos bem como outros recursos do capitalismo, que para Guattari e Rolnik (2011), apresentam fun\u00e7\u00f5es que transcendem a simples transmiss\u00e3o de ideias e significa\u00e7\u00f5es. Em vez disso, estes desempenham uma fun\u00e7\u00e3o social preponderante ao operarem como verdadeiras m\u00e1quinas de produ\u00e7\u00e3o de subjetividade. Nessa concep\u00e7\u00e3o, o capitalismo gera a pr\u00f3pria subjetividade, dissociando-a de uma no\u00e7\u00e3o estritamente individualista. A subjetividade \u00e9 importante para o capitalismo, podemos perceber isso&nbsp;ao nos voltarmos para o projeto de implanta\u00e7\u00e3o do neoliberalismo, nesse momento houve a necessidade da cria\u00e7\u00e3o de um modelo de subjetividade que se adequasse a esse novo est\u00e1gio social. Nesse sentido, foi estabelecido o ideal empresarial de si como dispositivo disciplinar. O sucesso dessa empreitada dependia n\u00e3o somente de uma transforma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, mas tamb\u00e9m de uma mudan\u00e7a no \u00e2mbito dos afetos dos sujeitos. A fala de Margaret Thatcher recuperada por Safatle (2015) elucida a percep\u00e7\u00e3o da primeira-ministra inglesa sobre a relev\u00e2ncia da subjetividade. Thatcher proferiu o seguinte: a economia constitui o m\u00e9todo, mas o objetivo \u00faltimo reside na transforma\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o e da alma dos sujeitos. Isto demonstra que o neoliberalismo transcende sua defini\u00e7\u00e3o estrita como uma doutrina econ\u00f4mica fundamentada na maximiza\u00e7\u00e3o da concorr\u00eancia e na liberaliza\u00e7\u00e3o dos mercados. De modo mais abrangente, ele opera como um regime voltado para a gest\u00e3o da conduta social e para a constru\u00e7\u00e3o de formas de vida espec\u00edficas. Nesse sentido, ele engendra uma corporeidade pr\u00f3pria, uma corporeidade neoliberal (2015). Ou seja, sem um projeto de subjetividade pr\u00f3prio, a implanta\u00e7\u00e3o do neoliberalismo n\u00e3o teria \u00eaxito. Guattari e Ronilk (2011) contrap\u00f5em-se \u00e0 influente tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica que postula a exist\u00eancia de uma &#8216;natureza humana&#8217; a priori. Sob essa perspectiva essencialista, a mera perten\u00e7a \u00e0 esp\u00e9cie&nbsp;Homo sapiens&nbsp;conferiria ao indiv\u00edduo uma ess\u00eancia imut\u00e1vel. Essa concep\u00e7\u00e3o, argumenta-se, permeia profundamente o tecido social. Tal vis\u00e3o pode ser percebida, por exemplo, na compreens\u00e3o sobre a subjetividade manifestada por Woodward (2014). Na an\u00e1lise de Woodward (2014), os conceitos de identidade e subjetividade, embora por vezes utilizados de forma intercambi\u00e1vel, efetivamente se sobrep\u00f5em. A subjetividade refere-se ao entendimento que engendramos sobre o nosso eu, englobando os processos ps\u00edquicos \u2014 conscientes e inconscientes \u2014 que constituem nosso entendimento acerca de quem n\u00f3s somos. Contudo, essa esfera, mesmo envolvendo nossos pensamentos e sentimentos mais \u00edntimos, \u00e9 preciso&nbsp;que consideremos que nossa subjetividade \u00e9 vivenciada em um meio social no qual a linguagem e a cultura fornecem as matrizes de significado para a experi\u00eancia subjetiva. \u00c9 nesse terreno que a identidade emerge. O conceito de subjetividade \u00e9 analiticamente crucial por abarcar as dimens\u00f5es inconscientes, contradit\u00f3rias e afetivas racionais e irracionais. Ele permite investigar o&nbsp;investimento ps\u00edquico&nbsp;que fundamenta a ades\u00e3o a certas identidades em detrimento de outras, explicando por que determinadas posi\u00e7\u00f5es se tornam t\u00e3o centrais para os sujeitos. Por sua vez em sua abordagem, Guattari e Rolnik (2011) postulam que a subjetividade possui um car\u00e1ter industrial e maqu\u00ednico. Esta, por sua vez, seria concebida como um produto fabricado, modelado e distribu\u00eddo para consumo. Tal perspectiva ilumina a l\u00f3gica do capitalismo contempor\u00e2neo, cujas for\u00e7as gestoras compreendem a produ\u00e7\u00e3o de subjetividade como uma atividade potencialmente mais relevante do que a produ\u00e7\u00e3o de qualquer outra coisa. As mudan\u00e7as na subjetividade nessa perspectiva n\u00e3o seriam efetivadas unicamente no campo ideol\u00f3gico, operando sim em um n\u00edvel mais profundo \u201cno pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos, em sua maneira de perceber o mundo, de se articular como tecido urbano, com os processos maqu\u00ednicos do trabalho, com a ordem social suporte dessas for\u00e7as produtivas\u201d (Guattari; Rolnik, 2011, p. 26), algo que est\u00e1 em certo sentido na mesma perspectiva do que foi exposto anteriormente sobre a abordagem de Safatle (2015). A produ\u00e7\u00e3o de subjetividade Conforme a an\u00e1lise de Lazzarato (2014) sobre o pensamento de Guattari, a produ\u00e7\u00e3o de subjetividade emerge no ponto de articula\u00e7\u00e3o entre dois regimes distintos: os dispositivos de sujei\u00e7\u00e3o social e os de servid\u00e3o maqu\u00ednica. A sujei\u00e7\u00e3o social, por um lado, opera pela atribui\u00e7\u00e3o de uma identidade ao indiv\u00edduo, inscrevendo-o em fun\u00e7\u00f5es (profissionais, por exemplo). E, respondendo \u00e0s exig\u00eancias da divis\u00e3o social do trabalho, constitui sujeitos individuados, dotados de consci\u00eancia, representa\u00e7\u00f5es e comportamentos socialmente codificados. Em contraste, a servid\u00e3o maqu\u00ednica promove o desmantelamento dessa mesma individualidade. Esta atua sobre o sujeito, desconstruindo-o, afetando a sua consci\u00eancia e a as suas representa\u00e7\u00f5es, atuando sobre os n\u00edveis pr\u00e9-individual e supraindividual. A constitui\u00e7\u00e3o do sujeito, mediada por inst\u00e2ncias como a fam\u00edlia, a linguagem e os aparatos tecnol\u00f3gicos, transcende a mera transmiss\u00e3o de significa\u00e7\u00f5es com o uso de enunciados significantes, como tamb\u00e9m n\u00e3o se circunscreve a modelos identit\u00e1rios. Conforme Lazzarato (2014), esses fen\u00f4menos devem ser compreendidos como produtos diretos da subjetiva\u00e7\u00e3o capitalista. Segundo Guattari e Rolnik (2011), nesse contexto, certos agentes \u2014 como jornalistas, psicanalistas, educadores e, como se pode inferir, publicit\u00e1rios e outros operadores culturais \u2014 atuam como vetores na produ\u00e7\u00e3o de subjetividade por meio de agenciamentos de enuncia\u00e7\u00e3o. Os processos de subjetiva\u00e7\u00e3o e semiotiza\u00e7\u00e3o, que englobam a produ\u00e7\u00e3o de sentido dotada de efic\u00e1cia semi\u00f3tica, n\u00e3o s\u00e3o centralizados em agentes individuais ou grupais. Tais processos manifestam um duplo descentramento, sendo operados por m\u00e1quinas de express\u00e3o de natureza tanto extra pessoal quanto extra individual, sendo estes sistemas maqu\u00ednicos, econ\u00f4micos, sociais, tecnol\u00f3gicos, ic\u00f4nicos, ecol\u00f3gicos, etol\u00f3gicos, de m\u00eddia, enfim, sistemas que n\u00e3o s\u00e3o mais imediatamente antropol\u00f3gicos, quanto de natureza infra-humana, infraps\u00edquica, infrapessoal, sistemas de percep\u00e7\u00e3o, de sensibilidade, de afeto, de desejo, de representa\u00e7\u00e3o, de imagens, de valor, modos de memoriza\u00e7\u00e3o e de produ\u00e7\u00e3o ideica, sistemas de inibi\u00e7\u00e3o e de automatismos, sistemas corporais, org\u00e2nicos, biol\u00f3gicos, fisiol\u00f3gicos, etc. (Guattari; Rolnik, 2011, p. 31). Construindo linhas de fuga dos processos de subjetiva\u00e7\u00e3o Contudo, Guattari e Rolnik (2011) veem a possibilidade de produzir&nbsp;processos de subjetiva\u00e7\u00e3o singulares, que operem na contram\u00e3o da m\u00e1quina de produ\u00e7\u00e3o de subjetividade. Esses processos s\u00e3o, em sua ess\u00eancia,&nbsp;linhas de fuga&nbsp;que desterritorializam as codifica\u00e7\u00f5es identit\u00e1rias e os afetos padronizados. Ao rejeitar os modelos preexistentes, eles liberam&nbsp;fluxos de devir&nbsp;que permitem a composi\u00e7\u00e3o de novos territ\u00f3rios existenciais: novas sensibilidades, novas formas de sociabilidade e novos agenciamentos criativos. A singulariza\u00e7\u00e3o, portanto, n\u00e3o \u00e9 a busca por uma identidade &#8216;verdadeira&#8217;, mas um processo cont\u00ednuo de diferencia\u00e7\u00e3o. Uma singulariza\u00e7\u00e3o existencial que coincida com um desejo, com um gosto de viver, com uma vontade de construir o mundo no qual nos encontramos, com a instaura\u00e7\u00e3o de dispositivos para mudar os tipos de sociedade, os tipos de valores que n\u00e3o s\u00e3o nossos. (Guattari; Rolnik, 2011, p. 23).&nbsp; Refer\u00eancias GUATTARI, F.; ROLNIK, Sueli. Micropol\u00edtica: cartografias do desejo. Petr\u00f3polis: Vozes, 2011. LAZZARATO, Maurizio.&nbsp; Signos, m\u00e1quinas, subjetividades. S\u00e3o Paulo: N-1 Editora, 2014. SAFATLE, Vladimir. O circuito dos afetos. S\u00e3o Paulo: Cosac &amp; Naify, 2015.&nbsp; WOODWARD, Kathryn. Identidade e diferen\u00e7a: uma introdu\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e conceitual. In: SILVA, Tomaz Tadeu da. (Org.); HALL, Stuart; WOODWARD, Kathryn. Identidade e diferen\u00e7a. A perspectiva dos estudos culturais. 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Pela \u00f3tica destes autores,&nbsp;a constru\u00e7\u00e3o da subjetividade transcende a esfera do indiv\u00edduo. Guattari e Rolnik (2011) postulam, desde o princ\u00edpio, que a subjetividade n\u00e3o deve ser concebida como um atributo intr\u00ednseco do indiv\u00edduo, mas sim como um processo de produ\u00e7\u00e3o cont\u00ednua que opera em grande medida externamente ao sujeito. Nesse sentido, a subjetividade seria resultado de um processo de produ\u00e7\u00e3o, sendo majoritariamente produzida e modelada no registro do social. Ent\u00e3o, como se d\u00e1 a produ\u00e7\u00e3o de subjetividade na compreens\u00e3o de Guattari e Rolnik (2011)? Esse processo se daria pela assimila\u00e7\u00e3o constante por parte dos sujeitos de recursos propiciados pelo meio social, a propaga\u00e7\u00e3o de tais recursos se sucede por meio de certas institui\u00e7\u00f5es, tais como a m\u00eddia, incluindo plataformas de redes sociais, a publicidade, os jornais e demais formas de comunica\u00e7\u00e3o, as religi\u00f5es, o mercado de trabalho, os governos bem como outros recursos do capitalismo, que para Guattari e Rolnik (2011), apresentam fun\u00e7\u00f5es que transcendem a simples transmiss\u00e3o de ideias e significa\u00e7\u00f5es. Em vez disso, estes desempenham uma fun\u00e7\u00e3o social preponderante ao operarem como verdadeiras m\u00e1quinas de produ\u00e7\u00e3o de subjetividade. Nessa concep\u00e7\u00e3o, o capitalismo gera a pr\u00f3pria subjetividade, dissociando-a de uma no\u00e7\u00e3o estritamente individualista. A subjetividade \u00e9 importante para o capitalismo, podemos perceber isso&nbsp;ao nos voltarmos para o projeto de implanta\u00e7\u00e3o do neoliberalismo, nesse momento houve a necessidade da cria\u00e7\u00e3o de um modelo de subjetividade que se adequasse a esse novo est\u00e1gio social. Nesse sentido, foi estabelecido o ideal empresarial de si como dispositivo disciplinar. O sucesso dessa empreitada dependia n\u00e3o somente de uma transforma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, mas tamb\u00e9m de uma mudan\u00e7a no \u00e2mbito dos afetos dos sujeitos. A fala de Margaret Thatcher recuperada por Safatle (2015) elucida a percep\u00e7\u00e3o da primeira-ministra inglesa sobre a relev\u00e2ncia da subjetividade. Thatcher proferiu o seguinte: a economia constitui o m\u00e9todo, mas o objetivo \u00faltimo reside na transforma\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o e da alma dos sujeitos. Isto demonstra que o neoliberalismo transcende sua defini\u00e7\u00e3o estrita como uma doutrina econ\u00f4mica fundamentada na maximiza\u00e7\u00e3o da concorr\u00eancia e na liberaliza\u00e7\u00e3o dos mercados. De modo mais abrangente, ele opera como um regime voltado para a gest\u00e3o da conduta social e para a constru\u00e7\u00e3o de formas de vida espec\u00edficas. Nesse sentido, ele engendra uma corporeidade pr\u00f3pria, uma corporeidade neoliberal (2015). Ou seja, sem um projeto de subjetividade pr\u00f3prio, a implanta\u00e7\u00e3o do neoliberalismo n\u00e3o teria \u00eaxito. Guattari e Ronilk (2011) contrap\u00f5em-se \u00e0 influente tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica que postula a exist\u00eancia de uma &#8216;natureza humana&#8217; a priori. Sob essa perspectiva essencialista, a mera perten\u00e7a \u00e0 esp\u00e9cie&nbsp;Homo sapiens&nbsp;conferiria ao indiv\u00edduo uma ess\u00eancia imut\u00e1vel. Essa concep\u00e7\u00e3o, argumenta-se, permeia profundamente o tecido social. Tal vis\u00e3o pode ser percebida, por exemplo, na compreens\u00e3o sobre a subjetividade manifestada por Woodward (2014). Na an\u00e1lise de Woodward (2014), os conceitos de identidade e subjetividade, embora por vezes utilizados de forma intercambi\u00e1vel, efetivamente se sobrep\u00f5em. A subjetividade refere-se ao entendimento que engendramos sobre o nosso eu, englobando os processos ps\u00edquicos \u2014 conscientes e inconscientes \u2014 que constituem nosso entendimento acerca de quem n\u00f3s somos. Contudo, essa esfera, mesmo envolvendo nossos pensamentos e sentimentos mais \u00edntimos, \u00e9 preciso&nbsp;que consideremos que nossa subjetividade \u00e9 vivenciada em um meio social no qual a linguagem e a cultura fornecem as matrizes de significado para a experi\u00eancia subjetiva. \u00c9 nesse terreno que a identidade emerge. O conceito de subjetividade \u00e9 analiticamente crucial por abarcar as dimens\u00f5es inconscientes, contradit\u00f3rias e afetivas racionais e irracionais. Ele permite investigar o&nbsp;investimento ps\u00edquico&nbsp;que fundamenta a ades\u00e3o a certas identidades em detrimento de outras, explicando por que determinadas posi\u00e7\u00f5es se tornam t\u00e3o centrais para os sujeitos. Por sua vez em sua abordagem, Guattari e Rolnik (2011) postulam que a subjetividade possui um car\u00e1ter industrial e maqu\u00ednico. Esta, por sua vez, seria concebida como um produto fabricado, modelado e distribu\u00eddo para consumo. Tal perspectiva ilumina a l\u00f3gica do capitalismo contempor\u00e2neo, cujas for\u00e7as gestoras compreendem a produ\u00e7\u00e3o de subjetividade como uma atividade potencialmente mais relevante do que a produ\u00e7\u00e3o de qualquer outra coisa. As mudan\u00e7as na subjetividade nessa perspectiva n\u00e3o seriam efetivadas unicamente no campo ideol\u00f3gico, operando sim em um n\u00edvel mais profundo \u201cno pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos, em sua maneira de perceber o mundo, de se articular como tecido urbano, com os processos maqu\u00ednicos do trabalho, com a ordem social suporte dessas for\u00e7as produtivas\u201d (Guattari; Rolnik, 2011, p. 26), algo que est\u00e1 em certo sentido na mesma perspectiva do que foi exposto anteriormente sobre a abordagem de Safatle (2015). A produ\u00e7\u00e3o de subjetividade Conforme a an\u00e1lise de Lazzarato (2014) sobre o pensamento de Guattari, a produ\u00e7\u00e3o de subjetividade emerge no ponto de articula\u00e7\u00e3o entre dois regimes distintos: os dispositivos de sujei\u00e7\u00e3o social e os de servid\u00e3o maqu\u00ednica. A sujei\u00e7\u00e3o social, por um lado, opera pela atribui\u00e7\u00e3o de uma identidade ao indiv\u00edduo, inscrevendo-o em fun\u00e7\u00f5es (profissionais, por exemplo). E, respondendo \u00e0s exig\u00eancias da divis\u00e3o social do trabalho, constitui sujeitos individuados, dotados de consci\u00eancia, representa\u00e7\u00f5es e comportamentos socialmente codificados. Em contraste, a servid\u00e3o maqu\u00ednica promove o desmantelamento dessa mesma individualidade. Esta atua sobre o sujeito, desconstruindo-o, afetando a sua consci\u00eancia e a as suas representa\u00e7\u00f5es, atuando sobre os n\u00edveis pr\u00e9-individual e supraindividual. A constitui\u00e7\u00e3o do sujeito, mediada por inst\u00e2ncias como a fam\u00edlia, a linguagem e os aparatos tecnol\u00f3gicos, transcende a mera transmiss\u00e3o de significa\u00e7\u00f5es com o uso de enunciados significantes, como tamb\u00e9m n\u00e3o se circunscreve a modelos identit\u00e1rios. Conforme Lazzarato (2014), esses fen\u00f4menos devem ser compreendidos como produtos diretos da subjetiva\u00e7\u00e3o capitalista. Segundo Guattari e Rolnik (2011), nesse contexto, certos agentes \u2014 como jornalistas, psicanalistas, educadores e, como se pode inferir, publicit\u00e1rios e outros operadores culturais \u2014 atuam como vetores na produ\u00e7\u00e3o de subjetividade por meio de agenciamentos de enuncia\u00e7\u00e3o. Os processos de subjetiva\u00e7\u00e3o e semiotiza\u00e7\u00e3o, que englobam a produ\u00e7\u00e3o de sentido dotada de efic\u00e1cia semi\u00f3tica, n\u00e3o s\u00e3o centralizados em agentes individuais ou grupais. Tais processos manifestam um duplo descentramento, sendo operados por m\u00e1quinas de express\u00e3o de natureza tanto extra pessoal quanto extra individual, sendo estes sistemas maqu\u00ednicos, econ\u00f4micos, sociais, tecnol\u00f3gicos, ic\u00f4nicos, ecol\u00f3gicos, etol\u00f3gicos, de m\u00eddia, enfim, sistemas que n\u00e3o s\u00e3o mais imediatamente antropol\u00f3gicos, quanto de natureza infra-humana, infraps\u00edquica, infrapessoal, sistemas de percep\u00e7\u00e3o, de sensibilidade, de afeto, de desejo, de representa\u00e7\u00e3o, de imagens, de valor, modos de memoriza\u00e7\u00e3o e de produ\u00e7\u00e3o ideica, sistemas de inibi\u00e7\u00e3o e de automatismos, sistemas corporais, org\u00e2nicos, biol\u00f3gicos, fisiol\u00f3gicos, etc. (Guattari; Rolnik, 2011, p. 31). Construindo linhas de fuga dos processos de subjetiva\u00e7\u00e3o Contudo, Guattari e Rolnik (2011) veem a possibilidade de produzir&nbsp;processos de subjetiva\u00e7\u00e3o singulares, que operem na contram\u00e3o da m\u00e1quina de produ\u00e7\u00e3o de subjetividade. Esses processos s\u00e3o, em sua ess\u00eancia,&nbsp;linhas de fuga&nbsp;que desterritorializam as codifica\u00e7\u00f5es identit\u00e1rias e os afetos padronizados. Ao rejeitar os modelos preexistentes, eles liberam&nbsp;fluxos de devir&nbsp;que permitem a composi\u00e7\u00e3o de novos territ\u00f3rios existenciais: novas sensibilidades, novas formas de sociabilidade e novos agenciamentos criativos. A singulariza\u00e7\u00e3o, portanto, n\u00e3o \u00e9 a busca por uma identidade &#8216;verdadeira&#8217;, mas um processo cont\u00ednuo de diferencia\u00e7\u00e3o. Uma singulariza\u00e7\u00e3o existencial que coincida com um desejo, com um gosto de viver, com uma vontade de construir o mundo no qual nos encontramos, com a instaura\u00e7\u00e3o de dispositivos para mudar os tipos de sociedade, os tipos de valores que n\u00e3o s\u00e3o nossos. (Guattari; Rolnik, 2011, p. 23).&nbsp; Refer\u00eancias GUATTARI, F.; ROLNIK, Sueli. Micropol\u00edtica: cartografias do desejo. Petr\u00f3polis: Vozes, 2011. LAZZARATO, Maurizio.&nbsp; Signos, m\u00e1quinas, subjetividades. S\u00e3o Paulo: N-1 Editora, 2014. SAFATLE, Vladimir. O circuito dos afetos. S\u00e3o Paulo: Cosac &amp; Naify, 2015.&nbsp; WOODWARD, Kathryn. Identidade e diferen\u00e7a: uma introdu\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e conceitual. In: SILVA, Tomaz Tadeu da. (Org.); HALL, Stuart; WOODWARD, Kathryn. Identidade e diferen\u00e7a. A perspectiva dos estudos culturais. 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Pela \u00f3tica destes autores,&nbsp;a constru\u00e7\u00e3o da subjetividade transcende a esfera do indiv\u00edduo. Guattari e Rolnik (2011) postulam, desde o princ\u00edpio, que a subjetividade n\u00e3o deve ser concebida como um atributo intr\u00ednseco do indiv\u00edduo, mas sim como um processo de produ\u00e7\u00e3o cont\u00ednua que opera em grande medida externamente ao sujeito. Nesse sentido, a subjetividade seria resultado de um processo de produ\u00e7\u00e3o, sendo majoritariamente produzida e modelada no registro do social. Ent\u00e3o, como se d\u00e1 a produ\u00e7\u00e3o de subjetividade na compreens\u00e3o de Guattari e Rolnik (2011)? Esse processo se daria pela assimila\u00e7\u00e3o constante por parte dos sujeitos de recursos propiciados pelo meio social, a propaga\u00e7\u00e3o de tais recursos se sucede por meio de certas institui\u00e7\u00f5es, tais como a m\u00eddia, incluindo plataformas de redes sociais, a publicidade, os jornais e demais formas de comunica\u00e7\u00e3o, as religi\u00f5es, o mercado de trabalho, os governos bem como outros recursos do capitalismo, que para Guattari e Rolnik (2011), apresentam fun\u00e7\u00f5es que transcendem a simples transmiss\u00e3o de ideias e significa\u00e7\u00f5es. Em vez disso, estes desempenham uma fun\u00e7\u00e3o social preponderante ao operarem como verdadeiras m\u00e1quinas de produ\u00e7\u00e3o de subjetividade. Nessa concep\u00e7\u00e3o, o capitalismo gera a pr\u00f3pria subjetividade, dissociando-a de uma no\u00e7\u00e3o estritamente individualista. A subjetividade \u00e9 importante para o capitalismo, podemos perceber isso&nbsp;ao nos voltarmos para o projeto de implanta\u00e7\u00e3o do neoliberalismo, nesse momento houve a necessidade da cria\u00e7\u00e3o de um modelo de subjetividade que se adequasse a esse novo est\u00e1gio social. Nesse sentido, foi estabelecido o ideal empresarial de si como dispositivo disciplinar. O sucesso dessa empreitada dependia n\u00e3o somente de uma transforma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, mas tamb\u00e9m de uma mudan\u00e7a no \u00e2mbito dos afetos dos sujeitos. A fala de Margaret Thatcher recuperada por Safatle (2015) elucida a percep\u00e7\u00e3o da primeira-ministra inglesa sobre a relev\u00e2ncia da subjetividade. Thatcher proferiu o seguinte: a economia constitui o m\u00e9todo, mas o objetivo \u00faltimo reside na transforma\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o e da alma dos sujeitos. Isto demonstra que o neoliberalismo transcende sua defini\u00e7\u00e3o estrita como uma doutrina econ\u00f4mica fundamentada na maximiza\u00e7\u00e3o da concorr\u00eancia e na liberaliza\u00e7\u00e3o dos mercados. De modo mais abrangente, ele opera como um regime voltado para a gest\u00e3o da conduta social e para a constru\u00e7\u00e3o de formas de vida espec\u00edficas. Nesse sentido, ele engendra uma corporeidade pr\u00f3pria, uma corporeidade neoliberal (2015). Ou seja, sem um projeto de subjetividade pr\u00f3prio, a implanta\u00e7\u00e3o do neoliberalismo n\u00e3o teria \u00eaxito. Guattari e Ronilk (2011) contrap\u00f5em-se \u00e0 influente tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica que postula a exist\u00eancia de uma &#8216;natureza humana&#8217; a priori. Sob essa perspectiva essencialista, a mera perten\u00e7a \u00e0 esp\u00e9cie&nbsp;Homo sapiens&nbsp;conferiria ao indiv\u00edduo uma ess\u00eancia imut\u00e1vel. Essa concep\u00e7\u00e3o, argumenta-se, permeia profundamente o tecido social. Tal vis\u00e3o pode ser percebida, por exemplo, na compreens\u00e3o sobre a subjetividade manifestada por Woodward (2014). Na an\u00e1lise de Woodward (2014), os conceitos de identidade e subjetividade, embora por vezes utilizados de forma intercambi\u00e1vel, efetivamente se sobrep\u00f5em. A subjetividade refere-se ao entendimento que engendramos sobre o nosso eu, englobando os processos ps\u00edquicos \u2014 conscientes e inconscientes \u2014 que constituem nosso entendimento acerca de quem n\u00f3s somos. Contudo, essa esfera, mesmo envolvendo nossos pensamentos e sentimentos mais \u00edntimos, \u00e9 preciso&nbsp;que consideremos que nossa subjetividade \u00e9 vivenciada em um meio social no qual a linguagem e a cultura fornecem as matrizes de significado para a experi\u00eancia subjetiva. \u00c9 nesse terreno que a identidade emerge. O conceito de subjetividade \u00e9 analiticamente crucial por abarcar as dimens\u00f5es inconscientes, contradit\u00f3rias e afetivas racionais e irracionais. Ele permite investigar o&nbsp;investimento ps\u00edquico&nbsp;que fundamenta a ades\u00e3o a certas identidades em detrimento de outras, explicando por que determinadas posi\u00e7\u00f5es se tornam t\u00e3o centrais para os sujeitos. Por sua vez em sua abordagem, Guattari e Rolnik (2011) postulam que a subjetividade possui um car\u00e1ter industrial e maqu\u00ednico. Esta, por sua vez, seria concebida como um produto fabricado, modelado e distribu\u00eddo para consumo. Tal perspectiva ilumina a l\u00f3gica do capitalismo contempor\u00e2neo, cujas for\u00e7as gestoras compreendem a produ\u00e7\u00e3o de subjetividade como uma atividade potencialmente mais relevante do que a produ\u00e7\u00e3o de qualquer outra coisa. As mudan\u00e7as na subjetividade nessa perspectiva n\u00e3o seriam efetivadas unicamente no campo ideol\u00f3gico, operando sim em um n\u00edvel mais profundo \u201cno pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos, em sua maneira de perceber o mundo, de se articular como tecido urbano, com os processos maqu\u00ednicos do trabalho, com a ordem social suporte dessas for\u00e7as produtivas\u201d (Guattari; Rolnik, 2011, p. 26), algo que est\u00e1 em certo sentido na mesma perspectiva do que foi exposto anteriormente sobre a abordagem de Safatle (2015). A produ\u00e7\u00e3o de subjetividade Conforme a an\u00e1lise de Lazzarato (2014) sobre o pensamento de Guattari, a produ\u00e7\u00e3o de subjetividade emerge no ponto de articula\u00e7\u00e3o entre dois regimes distintos: os dispositivos de sujei\u00e7\u00e3o social e os de servid\u00e3o maqu\u00ednica. A sujei\u00e7\u00e3o social, por um lado, opera pela atribui\u00e7\u00e3o de uma identidade ao indiv\u00edduo, inscrevendo-o em fun\u00e7\u00f5es (profissionais, por exemplo). E, respondendo \u00e0s exig\u00eancias da divis\u00e3o social do trabalho, constitui sujeitos individuados, dotados de consci\u00eancia, representa\u00e7\u00f5es e comportamentos socialmente codificados. Em contraste, a servid\u00e3o maqu\u00ednica promove o desmantelamento dessa mesma individualidade. Esta atua sobre o sujeito, desconstruindo-o, afetando a sua consci\u00eancia e a as suas representa\u00e7\u00f5es, atuando sobre os n\u00edveis pr\u00e9-individual e supraindividual. A constitui\u00e7\u00e3o do sujeito, mediada por inst\u00e2ncias como a fam\u00edlia, a linguagem e os aparatos tecnol\u00f3gicos, transcende a mera transmiss\u00e3o de significa\u00e7\u00f5es com o uso de enunciados significantes, como tamb\u00e9m n\u00e3o se circunscreve a modelos identit\u00e1rios. Conforme Lazzarato (2014), esses fen\u00f4menos devem ser compreendidos como produtos diretos da subjetiva\u00e7\u00e3o capitalista. Segundo Guattari e Rolnik (2011), nesse contexto, certos agentes \u2014 como jornalistas, psicanalistas, educadores e, como se pode inferir, publicit\u00e1rios e outros operadores culturais \u2014 atuam como vetores na produ\u00e7\u00e3o de subjetividade por meio de agenciamentos de enuncia\u00e7\u00e3o. Os processos de subjetiva\u00e7\u00e3o e semiotiza\u00e7\u00e3o, que englobam a produ\u00e7\u00e3o de sentido dotada de efic\u00e1cia semi\u00f3tica, n\u00e3o s\u00e3o centralizados em agentes individuais ou grupais. Tais processos manifestam um duplo descentramento, sendo operados por m\u00e1quinas de express\u00e3o de natureza tanto extra pessoal quanto extra individual, sendo estes sistemas maqu\u00ednicos, econ\u00f4micos, sociais, tecnol\u00f3gicos, ic\u00f4nicos, ecol\u00f3gicos, etol\u00f3gicos, de m\u00eddia, enfim, sistemas que n\u00e3o s\u00e3o mais imediatamente antropol\u00f3gicos, quanto de natureza infra-humana, infraps\u00edquica, infrapessoal, sistemas de percep\u00e7\u00e3o, de sensibilidade, de afeto, de desejo, de representa\u00e7\u00e3o, de imagens, de valor, modos de memoriza\u00e7\u00e3o e de produ\u00e7\u00e3o ideica, sistemas de inibi\u00e7\u00e3o e de automatismos, sistemas corporais, org\u00e2nicos, biol\u00f3gicos, fisiol\u00f3gicos, etc. (Guattari; Rolnik, 2011, p. 31). Construindo linhas de fuga dos processos de subjetiva\u00e7\u00e3o Contudo, Guattari e Rolnik (2011) veem a possibilidade de produzir&nbsp;processos de subjetiva\u00e7\u00e3o singulares, que operem na contram\u00e3o da m\u00e1quina de produ\u00e7\u00e3o de subjetividade. Esses processos s\u00e3o, em sua ess\u00eancia,&nbsp;linhas de fuga&nbsp;que desterritorializam as codifica\u00e7\u00f5es identit\u00e1rias e os afetos padronizados. Ao rejeitar os modelos preexistentes, eles liberam&nbsp;fluxos de devir&nbsp;que permitem a composi\u00e7\u00e3o de novos territ\u00f3rios existenciais: novas sensibilidades, novas formas de sociabilidade e novos agenciamentos criativos. A singulariza\u00e7\u00e3o, portanto, n\u00e3o \u00e9 a busca por uma identidade &#8216;verdadeira&#8217;, mas um processo cont\u00ednuo de diferencia\u00e7\u00e3o. Uma singulariza\u00e7\u00e3o existencial que coincida com um desejo, com um gosto de viver, com uma vontade de construir o mundo no qual nos encontramos, com a instaura\u00e7\u00e3o de dispositivos para mudar os tipos de sociedade, os tipos de valores que n\u00e3o s\u00e3o nossos. (Guattari; Rolnik, 2011, p. 23).&nbsp; Refer\u00eancias GUATTARI, F.; ROLNIK, Sueli. Micropol\u00edtica: cartografias do desejo. Petr\u00f3polis: Vozes, 2011. LAZZARATO, Maurizio.&nbsp; Signos, m\u00e1quinas, subjetividades. S\u00e3o Paulo: N-1 Editora, 2014. SAFATLE, Vladimir. O circuito dos afetos. S\u00e3o Paulo: Cosac &amp; Naify, 2015.&nbsp; WOODWARD, Kathryn. Identidade e diferen\u00e7a: uma introdu\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e conceitual. In: SILVA, Tomaz Tadeu da. (Org.); HALL, Stuart; WOODWARD, Kathryn. Identidade e diferen\u00e7a. A perspectiva dos estudos culturais. Petr\u00f3polis\/RJ: Vozes, 2014.&nbsp;","og_url":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/os-atores-do-processo-de-subjetivacao-e-singularizacao\/","og_site_name":"Corporalidades","article_published_time":"2026-04-13T20:48:15+00:00","article_modified_time":"2026-04-13T20:48:16+00:00","og_image":[{"width":1024,"height":573,"url":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Subjetivacao-1024x573.png","type":"image\/png"}],"author":"gerente","twitter_card":"summary_large_image","twitter_misc":{"Written by":"gerente","Est. reading time":"6 minutes"},"schema":{"@context":"https:\/\/schema.org","@graph":[{"@type":"Article","@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/os-atores-do-processo-de-subjetivacao-e-singularizacao\/#article","isPartOf":{"@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/os-atores-do-processo-de-subjetivacao-e-singularizacao\/"},"author":{"name":"gerente","@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/#\/schema\/person\/e18ecb8063c1f965a031341c25460e43"},"headline":"Os atores do processo de subjetiva\u00e7\u00e3o e singulariza\u00e7\u00e3o","datePublished":"2026-04-13T20:48:15+00:00","dateModified":"2026-04-13T20:48:16+00:00","mainEntityOfPage":{"@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/os-atores-do-processo-de-subjetivacao-e-singularizacao\/"},"wordCount":1451,"commentCount":0,"image":{"@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/os-atores-do-processo-de-subjetivacao-e-singularizacao\/#primaryimage"},"thumbnailUrl":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Subjetivacao-scaled.png","articleSection":["Blog","Sem categoria"],"inLanguage":"en-US","potentialAction":[{"@type":"CommentAction","name":"Comment","target":["https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/os-atores-do-processo-de-subjetivacao-e-singularizacao\/#respond"]}]},{"@type":"WebPage","@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/os-atores-do-processo-de-subjetivacao-e-singularizacao\/","url":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/os-atores-do-processo-de-subjetivacao-e-singularizacao\/","name":"Os atores do processo de subjetiva\u00e7\u00e3o e singulariza\u00e7\u00e3o - 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