{"id":3921,"date":"2026-04-28T15:16:12","date_gmt":"2026-04-28T18:16:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/?p=3921"},"modified":"2026-04-28T15:16:13","modified_gmt":"2026-04-28T18:16:13","slug":"o-acaso-e-o-inferno-em-rodas-dentadas-1927","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/o-acaso-e-o-inferno-em-rodas-dentadas-1927\/","title":{"rendered":"O acaso e o inferno em Rodas Dentadas (1927)"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Por Rafael de Campos<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em <em>Romancista Como Voca\u00e7\u00e3o <\/em>(Alfaguara, 2017<em>)<\/em>, colet\u00e2nea de ensaios nos quais Haruki Murakami aborda sua descoberta como escritor e particularidades do of\u00edcio da escrita, chama aten\u00e7\u00e3o a recorr\u00eancia com que expressa certo descontentamento com uma tradicional honraria liter\u00e1ria que nunca o reconheceu, o Pr\u00eamio Akutagawa. \u00c9 verdade que a estrutura descont\u00ednua dos textos favorece a repeti\u00e7\u00e3o de temas, mas a insist\u00eancia de Murakami em afirmar que o pr\u00eamio nunca lhe fez falta e que jamais ficou incomodado com tal rejei\u00e7\u00e3o passa a sensa\u00e7\u00e3o de um ressentimento oculto, que na sedimenta\u00e7\u00e3o entre os textos toma a forma de um gigantesco \u201c<em>nem queria mesmo!<\/em>\u201d. Consciente ou n\u00e3o, o fato \u00e9 que a carreira de Murakami n\u00e3o parece ter sido nada afetada, visto o estrondoso sucesso que o escritor, hoje beirando os 80 anos, ainda experimenta.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Muito diferente foi a hist\u00f3ria do homem que d\u00e1 nome ao pr\u00eamio. Ryunosuke Akutagawa teve uma curta vida repleta de infort\u00fanios cru\u00e9is que provavelmente nenhuma premia\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria teria impedido um destino como o de sua abrevia\u00e7\u00e3o em 1927, aos 35 anos. Mas apesar da juventude e dos problemas familiares, f\u00edsicos e mentais, Akutagawa tornou-se um dos principais contistas do Jap\u00e3o. Tanto que em 1950 o cineasta Akira Kurosawa atinge um de seus maiores sucessos de p\u00fablico e cr\u00edtica ao dirigir <em>Rashomon<\/em>, adapta\u00e7\u00e3o de um dos contos de Akutagawa, <em>No Matagal.<\/em> Estava em busca principalmente desse texto quando decidi ler a principal edi\u00e7\u00e3o de contos do escritor lan\u00e7ada no Brasil, sob o t\u00edtulo <em>Kappa e o levante imagin\u00e1rio<\/em> (Esta\u00e7\u00e3o Liberdade, 2012).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">T\u00e3o logo passei os olhos pelo sum\u00e1rio, outro t\u00edtulo me intrigou: <em>Rodas Dentadas<\/em>. N\u00e3o s\u00f3 por datar do ano de morte do escritor (teria sido seu \u00faltimo conto?), mas por se referir a um objeto t\u00e9cnico, remetendo aos componentes de uma engrenagem, um corpo estranho em meio a diversos t\u00edtulos de teor fant\u00e1stico ou medieval. Permaneci com essa inquieta\u00e7\u00e3o mental at\u00e9 chegar ao conto, quando tomei conhecimento de que \u201crodas dentadas\u201d \u00e9 a forma como o personagem-narrador nomeia as apari\u00e7\u00f5es luminosas da aura pr\u00e9-cefaleia:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o, objetos estranhos come\u00e7aram a surgir em meu campo visual. Objetos estranhos? Quero dizer&#8230; rodas dentadas, transl\u00facidas, girando sem cessar. Eu j\u00e1 passara por essa experi\u00eancia diversas vezes. As rodas dentadas aumentavam de quantidade aos poucos e me obstru\u00edam metade da vis\u00e3o, mas n\u00e3o por muito tempo. Desapareciam, para dar lugar \u00e0 cefaleia (Akutagawa, 2010, p. 283)<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Meu interesse pelo conto explodiu. Sofro dessa mesma condi\u00e7\u00e3o desde a adolesc\u00eancia e, pela primeira vez, encontrei uma obra de fic\u00e7\u00e3o que a tematizava. Mas por que evocar a figura de uma roda dentada? Sempre pensei nos \u201cescotomas\u201d como uma n\u00e9voa ou pequeno borr\u00e3o que se mant\u00e9m sobre qualquer superf\u00edcie que eu tente fixar a vis\u00e3o. Foi s\u00f3 quando recorri aos buscadores online que percebi que, para muitas pessoas, uma roda dentada seria a representa\u00e7\u00e3o mais precisa. Algo que pode ser constatado ao olhar para as diversas representa\u00e7\u00f5es da aura na arte ou em manuais de medicina.\u00a0<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/subjectivesensa00gowe_0032-1-1024x1024.png\" alt=\"\n\" class=\"wp-image-3924\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/subjectivesensa00gowe_0032-1-1024x1024.png 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/subjectivesensa00gowe_0032-1-300x300.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/subjectivesensa00gowe_0032-1-150x150.png 150w, https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/subjectivesensa00gowe_0032-1-768x768.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/subjectivesensa00gowe_0032-1-1140x1140.png 1140w, https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/subjectivesensa00gowe_0032-1-75x75.png 75w, https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/subjectivesensa00gowe_0032-1.png 1400w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Ilustra\u00e7\u00e3o de como um escotoma da aura interfere na vis\u00e3o durante a leitura.<br>Fonte: Subjective Sensations of Sight and Sound (1904), W. R. Gowers.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"820\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-1024x820.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-3928\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-1024x820.png 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-300x240.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-768x615.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-1140x913.png 1140w, https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image.png 1456w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Landscape with c-shape scotoma and missing vision<\/em>, 1980, autoria desconhecida [1].<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 digno de nota o fato de que os exemplares mais antigos dessas estruturas, ainda que possuam uma conota\u00e7\u00e3o fortemente industrial e t\u00e9cnica, n\u00e3o s\u00e3o cria\u00e7\u00f5es humanas. As engrenagens funcionais mais antigas seriam aquelas que se encontram nas patas traseiras do inseto Issus coleoptratus, esp\u00e9cie de cigarra da infraordem fulgoromorpha, auxiliando-os no salto e no equil\u00edbrio. Frente a isso, \u00e9 dif\u00edcil n\u00e3o tra\u00e7ar um paralelo com a fascina\u00e7\u00e3o do fil\u00f3sofo Gilbert Simondon (2020) com os cristais e sua cr\u00edtica a esquemas filos\u00f3ficos que hierarquizam humano e animal (Simondon, 2004). Simondon baseia-se na qu\u00edmica da forma\u00e7\u00e3o de cristais para formatar seu modelo de individua\u00e7\u00e3o, com destaque para o caso dos <em>quasicristais<\/em>, s\u00f3lidos descobertos na d\u00e9cada de 1980 que \u201cresolvem\u201d uma quest\u00e3o matem\u00e1tica complexa, pois constituem estruturas ordenadas n\u00e3o-peri\u00f3dicas. De forma semelhante, os fulgoroformos, muito antes da humanidade \u201cdescobrir\u201d as rodas dentadas, j\u00e1 as possu\u00eda em sua estrutura f\u00edsica. A aura pr\u00e9-cefaleia \u00e9 outro fen\u00f4meno remoto que envolve essas estruturas, e \u00e9 curioso pensar como elas j\u00e1 estavam presentes tanto na arquitetura corporal animal quanto em um sintoma humano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este movimento de analogia entre um sintoma f\u00edsico e um objeto t\u00e9cnico \u00e9 uma constante no pensamento de Simondon, visto que o fil\u00f3sofo franc\u00eas operava, em grande parte, por meio de um m\u00e9todo anal\u00f3gico (Heredia, 2019), efetuando acoplamentos&nbsp; entre formas de conhecimento d\u00edspares. Similarmente, a narrativa de Akutagawa no referido conto \u00e9 repleta de paralelos entre formas de conhecimento que apontam para uma tend\u00eancia anal\u00f3gica pass\u00edvel de assimila\u00e7\u00e3o a partir de uma lente simondoniana.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"611\" height=\"396\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/burrows2hr.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-3925\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/burrows2hr.png 611w, https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/burrows2hr-300x194.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 611px) 100vw, 611px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"625\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Planthopper_gears-1024x625.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3926\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Planthopper_gears-1024x625.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Planthopper_gears-300x183.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Planthopper_gears-768x469.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Planthopper_gears-1536x937.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Planthopper_gears-2048x1249.jpg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Planthopper_gears-1140x695.jpg 1140w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">O Issus coleoptratus e sua anatomia.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em <em>Rodas Dentadas<\/em>, um escritor[2] vai a um casamento em T\u00f3quio e permanece alguns dias na cidade visitando amigos e escrevendo. Nesse \u00ednterim, \u00e9 acometido por crises de cefaleia com aura e assombrado por fantasmas, que \u00e0s vezes tomam a forma de uma capa de chuva e em outras mant\u00e9m-se incorp\u00f3reos, como uma \u201cpresen\u00e7a misteriosa\u201d. A depress\u00e3o, o medo da loucura e a ang\u00fastia atormentam o personagem-narrador, que se desespera frente a uma s\u00e9rie de coincid\u00eancias bizarras que desafiam seu autodeclarado senso \u201cmaterialista\u201d da realidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Trata-se de um conto de 45 p\u00e1ginas dividido em seis partes, a primeira sem subt\u00edtulo e outras cinco intituladas da seguinte maneira: 2. Vingan\u00e7a; 3. Noite; 4. Ainda n\u00e3o?; 5. Luz Vermelha e 6. Avi\u00e3o. Logo na primeira p\u00e1gina, em um di\u00e1logo banal com um companheiro de t\u00e1xi, surge a imagem do fantasma.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Sabe de uma coisa estranha? Dizem que se v\u00ea fantasma na mans\u00e3o do Senhor X, mesmo de dia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Mesmo de dia, \u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Se bem que n\u00e3o em dias claros. Dizem que ele aparece mais nos dias chuvosos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Para se molhar, quem sabe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Brincadeira sua. Mas dizem que \u00e9 um fantasma com capa de Chuva. (Akutagawa, 2010, p. 280)<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao sair do t\u00e1xi, o protagonista esbarra em um homem vestindo uma capa de chuva. Coincid\u00eancia, destino ou acaso, esta ser\u00e1 a din\u00e2mica basilar do conto: assim que um novo elemento o perturba, continuar\u00e1 ressurgindo indefinidamente, e a trama \u00e9 operada justamente a partir da percep\u00e7\u00e3o que t\u00eam o escritor desses elementos e o modo como eles o afetam. A capa de chuva \u00e9 um bom exemplo: na primeira vez, acha gra\u00e7a no absurdo da coincid\u00eancia. Mas ela aparecer\u00e1 outras seis vezes, sempre corroendo um pouco mais sua j\u00e1 perturbada mente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m h\u00e1 diversos outros elementos, a grande maioria perturbadores (p) e alguns reconfortantes (r), que insistem em retornar de modo quase ordenado: pinheiros (r); espelhos (p); luzes (p); as cores amarelo (p) e verde (r) e, em menor medida, o vermelho (p) e o jogo entre preto e branco; o fogo (p); o inferno (p); uma \u201cpresen\u00e7a misteriosa\u201d (p), por vezes descrita como hostil ou sard\u00f4nica; a sensa\u00e7\u00e3o ef\u00eamera de paz (r); o destino (p); o antropomorfismo (p); a autocompara\u00e7\u00e3o (p); o pecado (p); a presen\u00e7a da l\u00edngua e do corpo estrangeiro (p), principalmente a l\u00edngua inglesa e turistas estadunidenses, e em menor medida o franc\u00eas e o sueco e as rela\u00e7\u00f5es com animais: pombos, corvos, toupeiras (p), ratos (p), galinhas, r\u00e9pteis e um c\u00e3o. Estes elementos surgem, cada um, ao menos tr\u00eas vezes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dentre os elementos perturbadores, o inferno \u00e9 o que mais se destaca, pois parece funcionar como um polo de atra\u00e7\u00e3o para os demais, que ao fim desembocam nele. Ainda que n\u00e3o seja o mais numeroso, a sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 de que o ac\u00famulo acidental dos outros elementos torna-se outra forma de fazer refer\u00eancia ao pr\u00f3prio inferno.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"600\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/2-akutagawaryunosuke-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3927\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/2-akutagawaryunosuke-1.jpg 800w, https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/2-akutagawaryunosuke-1-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/2-akutagawaryunosuke-1-768x576.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Ryunosuke Akutagawa (1892-1927)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O conceito de desadapta\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental para a compreens\u00e3o da no\u00e7\u00e3o de individua\u00e7\u00e3o elaborada por Gilbert Simondon (2020), que a entende n\u00e3o como uma mera incongru\u00eancia entre o indiv\u00edduo e seu meio, mas como uma das condi\u00e7\u00f5es de possibilidade da individua\u00e7\u00e3o. Quando trata de objetos t\u00e9cnicos, Simondon chega a falar em \u201ccrises de desadapta\u00e7\u00e3o a caminho de tra\u00e7ar um continuum entre varia\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas e varia\u00e7\u00f5es mentais.\u201d (Pereira, 2021, p. 52). A desadapta\u00e7\u00e3o atuaria na manuten\u00e7\u00e3o da metaestabilidade entre indiv\u00edduo e meio, possibilitando novas individua\u00e7\u00f5es. Seria poss\u00edvel, assim, a compreens\u00e3o da desadapta\u00e7\u00e3o como um processo produtivo, f\u00e9rtil, em rela\u00e7\u00e3o com o devir. Outro conceito importante para o pensamento simondonidano \u00e9 o de incompatibilidade, que designa o momento em que as tens\u00f5es entre indiv\u00edduo e meio n\u00e3o conseguem mais ser reguladas pelas estruturas existentes, constituindo um estado cr\u00edtico que pode exigir reestrutura\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas o que aconteceria com um sistema no qual n\u00e3o se consegue transduzir as tens\u00f5es em uma nova forma de exist\u00eancia? Quando o processo de individua\u00e7\u00e3o falha ou entra em repeti\u00e7\u00e3o indefinidamente? Parece ser uma problem\u00e1tica como esta a desenhada em <em>Rodas Dentadas<\/em>. Al\u00e9m das j\u00e1 mencionadas quest\u00f5es de incompatibilidade com o meio que o personagem-narrador enfrenta, h\u00e1 dois momentos em que s\u00e3o levantadas breves anedotas que evocam uma desadapta\u00e7\u00e3o que falha e se transforma num estado de permanente agonia e intoler\u00e2ncia total ao meio. A primeira \u00e9 uma par\u00e1bola cl\u00e1ssica:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Recordei-me de ter usado o pseud\u00f4nimo \u201cJuryo Yoshi\u201d, que se refere a uma par\u00e1bola do Hanfeisu: um jovem deixa a prov\u00edncia onde nascera para ir \u00e0 capital aprender como se anda na cidade, mas acaba regressando de gatinhas, pois al\u00e9m de n\u00e3o ter aprendido, se esqueceu at\u00e9 de como se andava na pr\u00f3pria terra. Hoje, aos olhos de qualquer pessoa, n\u00e3o passo de um Juryo Yoshi. (Akutagawa, 2010, p. 294)<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pr\u00f3ximo ao final do conto, surge outro exemplo:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Ser\u00e1 que esse avi\u00e3o n\u00e3o cai?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 N\u00e3o h\u00e1 perigo. Voc\u00ea sabe o que \u00e9 doen\u00e7a da avia\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acendi um cigarro e neguei com a cabe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Dizem que as pessoas que voam de avi\u00e3o se habituam ao ar das alturas e aos poucos v\u00e3o se desacostumando com o ar da superf\u00edcie da terra, acabando por n\u00e3o suport\u00e1-lo mais&nbsp; (Akutagawa, 2010, p. 314.)<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O protagonista mobiliza essas anedotas justamente pelo fato de se identificar com elas, mas a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de inferno \u00e9 retomada aqui, pois denota-se um estado de esp\u00edrito no qual a exist\u00eancia \u00e9 insuport\u00e1vel. No decorrer do conto, ser\u00e3o feitas nove men\u00e7\u00f5es diretas ao inferno, sendo invocadas das mais diversas maneiras: seja pela obra de Dante Alighieri, seja por associa\u00e7\u00f5es de ideias, como na aproxima\u00e7\u00e3o do fonema de uma palavra semelhante de outra l\u00edngua, ou na refer\u00eancia a um conto anterior do pr\u00f3prio Akutagawa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Juntos \u00e0s diversas men\u00e7\u00f5es ao fogo, fantasmas, loucura e tortura, o conto delineia algo como uma representa\u00e7\u00e3o do inferno na Terra. Inferno constru\u00eddo de forma inusual, pois seria an\u00e1logo \u00e0 uma experi\u00eancia de falha no processo de transdu\u00e7\u00e3o que impossibilita a individua\u00e7\u00e3o, gerando uma repeti\u00e7\u00e3o indefinida e perpetuamente falha do processo de desadapta\u00e7\u00e3o. \u00c9 como se o ser fosse jogado em um limbo no qual a individua\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode se efetuar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A contradi\u00e7\u00e3o \u00e9 outra forma pela qual essas quest\u00f5es aparecem no conto, a partir de um embate interno entre religi\u00e3o, ci\u00eancia e ceticismo. Em alguns momentos, o protagonista demonstra desd\u00e9m sobre aquilo que define como \u201cpensamento m\u00edstico\u201d, declarando inclusive uma idea\u00e7\u00e3o anti espiritual e apol\u00edtica: \u201cN\u00e3o tenho consci\u00eancia de qualquer esp\u00e9cie, nem mesmo art\u00edstica. Sensibilidade \u00e9 tudo que tenho.\u201d (Akutagawa, 2010, p. 289). Simondon aponta a afetividade como aquilo que regula a passagem da percep\u00e7\u00e3o \u00e0 a\u00e7\u00e3o, que modula o que percebemos e como reagimos, bem como a tens\u00e3o interna. Sendo assim, como se daria esse processo em um ser que \u00e9 pura sensa\u00e7\u00e3o, pura afec\u00e7\u00e3o, no qual n\u00e3o h\u00e1 passagem da percep\u00e7\u00e3o \u00e0 a\u00e7\u00e3o, em que h\u00e1 um choque que paralisa o transcurso das coisas?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas apesar desse discurso cr\u00edtico \u00e0 espiritualidade, o protagonista demonstra diversos ind\u00edcios de supersti\u00e7\u00e3o. Ele afirma n\u00e3o gostar de tomar t\u00e1xis amarelos, que lhe causariam acidentes, preferindo os verdes; outras vezes menciona estar sendo castigado por Deus ou pelo diabo, e parece se preocupar com a quest\u00e3o dos pecados \u2013 seus e daqueles \u00e0 sua volta. Ao mesmo tempo, menciona tr\u00eas vezes a no\u00e7\u00e3o de \u201catra\u00e7\u00e3o qu\u00edmica\u201d para falar das rela\u00e7\u00f5es entre os indiv\u00edduos, e um personagem utiliza uma analogia de f\u00edsica te\u00f3rica para descrev\u00ea-lo:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 \u00c0s vezes, pare\u00e7o uma boa pessoa, outras vezes maldoso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 N\u00e3o penso assim. \u00c9 algo muito mais antag\u00f4nico que bem e mal&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Quem sabe ent\u00e3o \u00e9 como se houvesse uma crian\u00e7a dentro do adulto?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Tamb\u00e9m n\u00e3o. N\u00e3o sei dizer direito&#8230; Algo semelhante \u00e0 polaridade el\u00e9trica, talvez. Voc\u00ea re\u00fane de alguma forma coisas antag\u00f4nicas (Akutagawa, 2010, p. 314).<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A analogia entre espiritualidade e ci\u00eancia constitui uma das principais engrenagens das opera\u00e7\u00f5es perceptivas do protagonista, mas tal refer\u00eancia \u00e0 polaridade el\u00e9trica traz novas complexidades \u00e0 formata\u00e7\u00e3o da trama. Se s\u00e3o justamente as cargas antag\u00f4nicas (positiva x negativa) que se atraem, o problema n\u00e3o \u00e9 o antagonismo dos elementos em si, mas a pr\u00f3pria incapacidade de articula\u00e7\u00e3o entre elas.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"769\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/GR_P_374_cover-1024x769.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3929\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/GR_P_374_cover-1024x769.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/GR_P_374_cover-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/GR_P_374_cover-768x577.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/GR_P_374_cover-1536x1154.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/GR_P_374_cover-2048x1538.jpg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/GR_P_374_cover-1140x856.jpg 1140w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Gerhard Richter, <em>Overpainted Photograph.<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As assombra\u00e7\u00f5es que formam o inferno de Akutagawa surgem do acaso, formando s\u00e9ries de coincid\u00eancias. Para Simondon, os acasos s\u00e3o formados por s\u00e9ries independentes que se encontram. Mas o que possibilita o choque entre essas s\u00e9ries de coincid\u00eancias \u00e9 o agu\u00e7ar da percep\u00e7\u00e3o do protagonista, que se revela excessivamente adaptada em captar todos os elementos que o perturbam. O dilema do narrador-personagem n\u00e3o \u00e9 da ordem sobrenatural, nem psicanal\u00edtica, mas sim perceptiva, como se houvesse uma hipertrofia cognitiva para a percep\u00e7\u00e3o de determinados elementos, junto a uma incapacidade existencial em integr\u00e1-las num processo de individua\u00e7\u00e3o. Todas essas cores, animais, objetos e demais fen\u00f4menos descritos n\u00e3o se apresentam como meros s\u00edmbolos, mas como vest\u00edgios de formas que n\u00e3o se estabilizam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Notas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">[1] \u00a0A pintura faz parte de uma competi\u00e7\u00e3o tem\u00e1tica sobre representa\u00e7\u00e3o da aura cefal\u00e9ica promovida pelo museu brit\u00e2nico Wellcome Collection. Por algum motivo, as obras est\u00e3o catalogadas de forma an\u00f4nima, sem dar cr\u00e9ditos aos autores. As demais pinturas podem ser vistas em <a href=\"https:\/\/wellcomecollection.org\/works\/caav4wtp\">https:\/\/wellcomecollection.org\/works\/caav4wtp<\/a> &#8211; acesso em 18 de abril de 2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">[2] \u00a0O conto \u00e9 fortemente autobiogr\u00e1fico, incluindo men\u00e7\u00f5es a entrevistas e obras precedentes do pr\u00f3prio Akutagawa, assim como as rela\u00e7\u00f5es familiares e problemas de sa\u00fade (como a pr\u00f3pria cefaleia com aura) retratados.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">AKUTAGAWA, Ry\u016bnosuke. <strong>Kappa e o levante imagin\u00e1rio<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Esta\u00e7\u00e3o Liberdade, 2010.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">HEREDIA, Juan Manuel. <strong>Simondon y el problema de la analog\u00eda<\/strong>. Ideas y Valores 68, n.\u00b0 171 (2019): 209-230.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MURAKAMI, Haruki. <strong>Romancista como voca\u00e7\u00e3o<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Alfaguara, 2017.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">PEREIRA, Dem\u00e9trio Rocha. <strong>Gilbert Simondon e a comunica\u00e7\u00e3o maqu\u00ednica<\/strong>. Tese (Doutorado em Comunica\u00e7\u00e3o). Porto Alegre: Faculdade de Biblioteconomia e Comunica\u00e7\u00e3o, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2021.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SIMONDON, Gilbert. <strong>A individua\u00e7\u00e3o \u00e0 luz das no\u00e7\u00f5es de forma e de informa\u00e7\u00e3o<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Editora 34, 2020.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SIMONDON, Gilbert. <strong>Deux le\u00e7ons sur l&#8217;animal et l&#8217;homme<\/strong>. Paris: Editions Ellipses, 2004.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Rafael de Campos Em Romancista Como Voca\u00e7\u00e3o (Alfaguara, 2017), colet\u00e2nea de ensaios nos quais Haruki Murakami aborda sua descoberta como escritor e particularidades do of\u00edcio da escrita, chama aten\u00e7\u00e3o a recorr\u00eancia com que expressa certo descontentamento com uma tradicional honraria liter\u00e1ria que nunca o reconheceu, o Pr\u00eamio Akutagawa. \u00c9 verdade que a estrutura descont\u00ednua dos textos favorece a repeti\u00e7\u00e3o de temas, mas a insist\u00eancia de Murakami em afirmar que o pr\u00eamio nunca lhe fez falta e que jamais ficou incomodado com tal rejei\u00e7\u00e3o passa a sensa\u00e7\u00e3o de um ressentimento oculto, que na sedimenta\u00e7\u00e3o entre os textos toma a forma de um gigantesco \u201cnem queria mesmo!\u201d. Consciente ou n\u00e3o, o fato \u00e9 que a carreira de Murakami n\u00e3o parece ter sido nada afetada, visto o estrondoso sucesso que o escritor, hoje beirando os 80 anos, ainda experimenta.&nbsp;&nbsp; Muito diferente foi a hist\u00f3ria do homem que d\u00e1 nome ao pr\u00eamio. Ryunosuke Akutagawa teve uma curta vida repleta de infort\u00fanios cru\u00e9is que provavelmente nenhuma premia\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria teria impedido um destino como o de sua abrevia\u00e7\u00e3o em 1927, aos 35 anos. Mas apesar da juventude e dos problemas familiares, f\u00edsicos e mentais, Akutagawa tornou-se um dos principais contistas do Jap\u00e3o. Tanto que em 1950 o cineasta Akira Kurosawa atinge um de seus maiores sucessos de p\u00fablico e cr\u00edtica ao dirigir Rashomon, adapta\u00e7\u00e3o de um dos contos de Akutagawa, No Matagal. Estava em busca principalmente desse texto quando decidi ler a principal edi\u00e7\u00e3o de contos do escritor lan\u00e7ada no Brasil, sob o t\u00edtulo Kappa e o levante imagin\u00e1rio (Esta\u00e7\u00e3o Liberdade, 2012).&nbsp; T\u00e3o logo passei os olhos pelo sum\u00e1rio, outro t\u00edtulo me intrigou: Rodas Dentadas. N\u00e3o s\u00f3 por datar do ano de morte do escritor (teria sido seu \u00faltimo conto?), mas por se referir a um objeto t\u00e9cnico, remetendo aos componentes de uma engrenagem, um corpo estranho em meio a diversos t\u00edtulos de teor fant\u00e1stico ou medieval. Permaneci com essa inquieta\u00e7\u00e3o mental at\u00e9 chegar ao conto, quando tomei conhecimento de que \u201crodas dentadas\u201d \u00e9 a forma como o personagem-narrador nomeia as apari\u00e7\u00f5es luminosas da aura pr\u00e9-cefaleia: Ent\u00e3o, objetos estranhos come\u00e7aram a surgir em meu campo visual. Objetos estranhos? Quero dizer&#8230; rodas dentadas, transl\u00facidas, girando sem cessar. Eu j\u00e1 passara por essa experi\u00eancia diversas vezes. As rodas dentadas aumentavam de quantidade aos poucos e me obstru\u00edam metade da vis\u00e3o, mas n\u00e3o por muito tempo. Desapareciam, para dar lugar \u00e0 cefaleia (Akutagawa, 2010, p. 283) Meu interesse pelo conto explodiu. Sofro dessa mesma condi\u00e7\u00e3o desde a adolesc\u00eancia e, pela primeira vez, encontrei uma obra de fic\u00e7\u00e3o que a tematizava. Mas por que evocar a figura de uma roda dentada? Sempre pensei nos \u201cescotomas\u201d como uma n\u00e9voa ou pequeno borr\u00e3o que se mant\u00e9m sobre qualquer superf\u00edcie que eu tente fixar a vis\u00e3o. Foi s\u00f3 quando recorri aos buscadores online que percebi que, para muitas pessoas, uma roda dentada seria a representa\u00e7\u00e3o mais precisa. Algo que pode ser constatado ao olhar para as diversas representa\u00e7\u00f5es da aura na arte ou em manuais de medicina.\u00a0 \u00c9 digno de nota o fato de que os exemplares mais antigos dessas estruturas, ainda que possuam uma conota\u00e7\u00e3o fortemente industrial e t\u00e9cnica, n\u00e3o s\u00e3o cria\u00e7\u00f5es humanas. As engrenagens funcionais mais antigas seriam aquelas que se encontram nas patas traseiras do inseto Issus coleoptratus, esp\u00e9cie de cigarra da infraordem fulgoromorpha, auxiliando-os no salto e no equil\u00edbrio. Frente a isso, \u00e9 dif\u00edcil n\u00e3o tra\u00e7ar um paralelo com a fascina\u00e7\u00e3o do fil\u00f3sofo Gilbert Simondon (2020) com os cristais e sua cr\u00edtica a esquemas filos\u00f3ficos que hierarquizam humano e animal (Simondon, 2004). Simondon baseia-se na qu\u00edmica da forma\u00e7\u00e3o de cristais para formatar seu modelo de individua\u00e7\u00e3o, com destaque para o caso dos quasicristais, s\u00f3lidos descobertos na d\u00e9cada de 1980 que \u201cresolvem\u201d uma quest\u00e3o matem\u00e1tica complexa, pois constituem estruturas ordenadas n\u00e3o-peri\u00f3dicas. De forma semelhante, os fulgoroformos, muito antes da humanidade \u201cdescobrir\u201d as rodas dentadas, j\u00e1 as possu\u00eda em sua estrutura f\u00edsica. A aura pr\u00e9-cefaleia \u00e9 outro fen\u00f4meno remoto que envolve essas estruturas, e \u00e9 curioso pensar como elas j\u00e1 estavam presentes tanto na arquitetura corporal animal quanto em um sintoma humano. Este movimento de analogia entre um sintoma f\u00edsico e um objeto t\u00e9cnico \u00e9 uma constante no pensamento de Simondon, visto que o fil\u00f3sofo franc\u00eas operava, em grande parte, por meio de um m\u00e9todo anal\u00f3gico (Heredia, 2019), efetuando acoplamentos&nbsp; entre formas de conhecimento d\u00edspares. Similarmente, a narrativa de Akutagawa no referido conto \u00e9 repleta de paralelos entre formas de conhecimento que apontam para uma tend\u00eancia anal\u00f3gica pass\u00edvel de assimila\u00e7\u00e3o a partir de uma lente simondoniana. Em Rodas Dentadas, um escritor[2] vai a um casamento em T\u00f3quio e permanece alguns dias na cidade visitando amigos e escrevendo. Nesse \u00ednterim, \u00e9 acometido por crises de cefaleia com aura e assombrado por fantasmas, que \u00e0s vezes tomam a forma de uma capa de chuva e em outras mant\u00e9m-se incorp\u00f3reos, como uma \u201cpresen\u00e7a misteriosa\u201d. A depress\u00e3o, o medo da loucura e a ang\u00fastia atormentam o personagem-narrador, que se desespera frente a uma s\u00e9rie de coincid\u00eancias bizarras que desafiam seu autodeclarado senso \u201cmaterialista\u201d da realidade. Trata-se de um conto de 45 p\u00e1ginas dividido em seis partes, a primeira sem subt\u00edtulo e outras cinco intituladas da seguinte maneira: 2. Vingan\u00e7a; 3. Noite; 4. Ainda n\u00e3o?; 5. Luz Vermelha e 6. Avi\u00e3o. Logo na primeira p\u00e1gina, em um di\u00e1logo banal com um companheiro de t\u00e1xi, surge a imagem do fantasma. \u2014 Sabe de uma coisa estranha? Dizem que se v\u00ea fantasma na mans\u00e3o do Senhor X, mesmo de dia. \u2014 Mesmo de dia, \u00e9? \u2014 Se bem que n\u00e3o em dias claros. Dizem que ele aparece mais nos dias chuvosos. \u2014 Para se molhar, quem sabe. \u2014 Brincadeira sua. Mas dizem que \u00e9 um fantasma com capa de Chuva. (Akutagawa, 2010, p. 280) Ao sair do t\u00e1xi, o protagonista esbarra em um homem vestindo uma capa de chuva. Coincid\u00eancia, destino ou acaso, esta ser\u00e1 a din\u00e2mica basilar do conto: assim que um novo elemento o perturba, continuar\u00e1 ressurgindo indefinidamente, e a trama \u00e9 operada justamente a partir da percep\u00e7\u00e3o que t\u00eam o escritor desses elementos e o modo como eles o afetam. A capa de chuva \u00e9 um bom exemplo: na primeira vez, acha gra\u00e7a no absurdo da coincid\u00eancia. Mas ela aparecer\u00e1 outras seis vezes, sempre corroendo um pouco mais sua j\u00e1 perturbada mente. Tamb\u00e9m h\u00e1 diversos outros elementos, a grande maioria perturbadores (p) e alguns reconfortantes (r), que insistem em retornar de modo quase ordenado: pinheiros (r); espelhos (p); luzes (p); as cores amarelo (p) e verde (r) e, em menor medida, o vermelho (p) e o jogo entre preto e branco; o fogo (p); o inferno (p); uma \u201cpresen\u00e7a misteriosa\u201d (p), por vezes descrita como hostil ou sard\u00f4nica; a sensa\u00e7\u00e3o ef\u00eamera de paz (r); o destino (p); o antropomorfismo (p); a autocompara\u00e7\u00e3o (p); o pecado (p); a presen\u00e7a da l\u00edngua e do corpo estrangeiro (p), principalmente a l\u00edngua inglesa e turistas estadunidenses, e em menor medida o franc\u00eas e o sueco e as rela\u00e7\u00f5es com animais: pombos, corvos, toupeiras (p), ratos (p), galinhas, r\u00e9pteis e um c\u00e3o. Estes elementos surgem, cada um, ao menos tr\u00eas vezes.&nbsp; Dentre os elementos perturbadores, o inferno \u00e9 o que mais se destaca, pois parece funcionar como um polo de atra\u00e7\u00e3o para os demais, que ao fim desembocam nele. Ainda que n\u00e3o seja o mais numeroso, a sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 de que o ac\u00famulo acidental dos outros elementos torna-se outra forma de fazer refer\u00eancia ao pr\u00f3prio inferno. O conceito de desadapta\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental para a compreens\u00e3o da no\u00e7\u00e3o de individua\u00e7\u00e3o elaborada por Gilbert Simondon (2020), que a entende n\u00e3o como uma mera incongru\u00eancia entre o indiv\u00edduo e seu meio, mas como uma das condi\u00e7\u00f5es de possibilidade da individua\u00e7\u00e3o. Quando trata de objetos t\u00e9cnicos, Simondon chega a falar em \u201ccrises de desadapta\u00e7\u00e3o a caminho de tra\u00e7ar um continuum entre varia\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas e varia\u00e7\u00f5es mentais.\u201d (Pereira, 2021, p. 52). A desadapta\u00e7\u00e3o atuaria na manuten\u00e7\u00e3o da metaestabilidade entre indiv\u00edduo e meio, possibilitando novas individua\u00e7\u00f5es. Seria poss\u00edvel, assim, a compreens\u00e3o da desadapta\u00e7\u00e3o como um processo produtivo, f\u00e9rtil, em rela\u00e7\u00e3o com o devir. Outro conceito importante para o pensamento simondonidano \u00e9 o de incompatibilidade, que designa o momento em que as tens\u00f5es entre indiv\u00edduo e meio n\u00e3o conseguem mais ser reguladas pelas estruturas existentes, constituindo um estado cr\u00edtico que pode exigir reestrutura\u00e7\u00e3o.&nbsp; Mas o que aconteceria com um sistema no qual n\u00e3o se consegue transduzir as tens\u00f5es em uma nova forma de exist\u00eancia? Quando o processo de individua\u00e7\u00e3o falha ou entra em repeti\u00e7\u00e3o indefinidamente? Parece ser uma problem\u00e1tica como esta a desenhada em Rodas Dentadas. Al\u00e9m das j\u00e1 mencionadas quest\u00f5es de incompatibilidade com o meio que o personagem-narrador enfrenta, h\u00e1 dois momentos em que s\u00e3o levantadas breves anedotas que evocam uma desadapta\u00e7\u00e3o que falha e se transforma num estado de permanente agonia e intoler\u00e2ncia total ao meio. A primeira \u00e9 uma par\u00e1bola cl\u00e1ssica: Recordei-me de ter usado o pseud\u00f4nimo \u201cJuryo Yoshi\u201d, que se refere a uma par\u00e1bola do Hanfeisu: um jovem deixa a prov\u00edncia onde nascera para ir \u00e0 capital aprender como se anda na cidade, mas acaba regressando de gatinhas, pois al\u00e9m de n\u00e3o ter aprendido, se esqueceu at\u00e9 de como se andava na pr\u00f3pria terra. Hoje, aos olhos de qualquer pessoa, n\u00e3o passo de um Juryo Yoshi. (Akutagawa, 2010, p. 294) Pr\u00f3ximo ao final do conto, surge outro exemplo: \u2014 Ser\u00e1 que esse avi\u00e3o n\u00e3o cai? \u2014 N\u00e3o h\u00e1 perigo. Voc\u00ea sabe o que \u00e9 doen\u00e7a da avia\u00e7\u00e3o? Acendi um cigarro e neguei com a cabe\u00e7a. \u2014 Dizem que as pessoas que voam de avi\u00e3o se habituam ao ar das alturas e aos poucos v\u00e3o se desacostumando com o ar da superf\u00edcie da terra, acabando por n\u00e3o suport\u00e1-lo mais&nbsp; (Akutagawa, 2010, p. 314.) O protagonista mobiliza essas anedotas justamente pelo fato de se identificar com elas, mas a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de inferno \u00e9 retomada aqui, pois denota-se um estado de esp\u00edrito no qual a exist\u00eancia \u00e9 insuport\u00e1vel. No decorrer do conto, ser\u00e3o feitas nove men\u00e7\u00f5es diretas ao inferno, sendo invocadas das mais diversas maneiras: seja pela obra de Dante Alighieri, seja por associa\u00e7\u00f5es de ideias, como na aproxima\u00e7\u00e3o do fonema de uma palavra semelhante de outra l\u00edngua, ou na refer\u00eancia a um conto anterior do pr\u00f3prio Akutagawa.&nbsp; Juntos \u00e0s diversas men\u00e7\u00f5es ao fogo, fantasmas, loucura e tortura, o conto delineia algo como uma representa\u00e7\u00e3o do inferno na Terra. Inferno constru\u00eddo de forma inusual, pois seria an\u00e1logo \u00e0 uma experi\u00eancia de falha no processo de transdu\u00e7\u00e3o que impossibilita a individua\u00e7\u00e3o, gerando uma repeti\u00e7\u00e3o indefinida e perpetuamente falha do processo de desadapta\u00e7\u00e3o. \u00c9 como se o ser fosse jogado em um limbo no qual a individua\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode se efetuar. A contradi\u00e7\u00e3o \u00e9 outra forma pela qual essas quest\u00f5es aparecem no conto, a partir de um embate interno entre religi\u00e3o, ci\u00eancia e ceticismo. Em alguns momentos, o protagonista demonstra desd\u00e9m sobre aquilo que define como \u201cpensamento m\u00edstico\u201d, declarando inclusive uma idea\u00e7\u00e3o anti espiritual e apol\u00edtica: \u201cN\u00e3o tenho consci\u00eancia de qualquer esp\u00e9cie, nem mesmo art\u00edstica. Sensibilidade \u00e9 tudo que tenho.\u201d (Akutagawa, 2010, p. 289). Simondon aponta a afetividade como aquilo que regula a passagem da percep\u00e7\u00e3o \u00e0 a\u00e7\u00e3o, que modula o que percebemos e como reagimos, bem como a tens\u00e3o interna. Sendo assim, como se daria esse processo em um ser que \u00e9 pura sensa\u00e7\u00e3o, pura afec\u00e7\u00e3o, no qual n\u00e3o h\u00e1 passagem da percep\u00e7\u00e3o \u00e0 a\u00e7\u00e3o, em que h\u00e1 um choque que paralisa o transcurso das coisas? Mas apesar desse discurso cr\u00edtico \u00e0 espiritualidade, o protagonista demonstra diversos ind\u00edcios de supersti\u00e7\u00e3o. Ele afirma n\u00e3o gostar de tomar t\u00e1xis amarelos, que lhe causariam acidentes, preferindo os verdes; outras vezes menciona estar sendo castigado por Deus ou pelo diabo, e parece se preocupar com a quest\u00e3o dos pecados \u2013 seus e daqueles \u00e0 sua volta. Ao mesmo tempo, menciona tr\u00eas vezes a no\u00e7\u00e3o de \u201catra\u00e7\u00e3o qu\u00edmica\u201d para falar das rela\u00e7\u00f5es entre os indiv\u00edduos, e um personagem utiliza uma analogia de f\u00edsica te\u00f3rica para descrev\u00ea-lo: \u2014 \u00c0s vezes, pare\u00e7o uma boa pessoa, outras vezes maldoso. \u2014 N\u00e3o penso assim. \u00c9 algo muito mais antag\u00f4nico que bem e mal&#8230; \u2014 Quem sabe ent\u00e3o \u00e9 como se houvesse uma crian\u00e7a dentro&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3929,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"[]"},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-3921","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>O acaso e o inferno em Rodas Dentadas (1927) - Corporalidades<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/o-acaso-e-o-inferno-em-rodas-dentadas-1927\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"en_US\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"O acaso e o inferno em Rodas Dentadas (1927) - Corporalidades\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Por Rafael de Campos Em Romancista Como Voca\u00e7\u00e3o (Alfaguara, 2017), colet\u00e2nea de ensaios nos quais Haruki Murakami aborda sua descoberta como escritor e particularidades do of\u00edcio da escrita, chama aten\u00e7\u00e3o a recorr\u00eancia com que expressa certo descontentamento com uma tradicional honraria liter\u00e1ria que nunca o reconheceu, o Pr\u00eamio Akutagawa. \u00c9 verdade que a estrutura descont\u00ednua dos textos favorece a repeti\u00e7\u00e3o de temas, mas a insist\u00eancia de Murakami em afirmar que o pr\u00eamio nunca lhe fez falta e que jamais ficou incomodado com tal rejei\u00e7\u00e3o passa a sensa\u00e7\u00e3o de um ressentimento oculto, que na sedimenta\u00e7\u00e3o entre os textos toma a forma de um gigantesco \u201cnem queria mesmo!\u201d. Consciente ou n\u00e3o, o fato \u00e9 que a carreira de Murakami n\u00e3o parece ter sido nada afetada, visto o estrondoso sucesso que o escritor, hoje beirando os 80 anos, ainda experimenta.&nbsp;&nbsp; Muito diferente foi a hist\u00f3ria do homem que d\u00e1 nome ao pr\u00eamio. Ryunosuke Akutagawa teve uma curta vida repleta de infort\u00fanios cru\u00e9is que provavelmente nenhuma premia\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria teria impedido um destino como o de sua abrevia\u00e7\u00e3o em 1927, aos 35 anos. Mas apesar da juventude e dos problemas familiares, f\u00edsicos e mentais, Akutagawa tornou-se um dos principais contistas do Jap\u00e3o. Tanto que em 1950 o cineasta Akira Kurosawa atinge um de seus maiores sucessos de p\u00fablico e cr\u00edtica ao dirigir Rashomon, adapta\u00e7\u00e3o de um dos contos de Akutagawa, No Matagal. Estava em busca principalmente desse texto quando decidi ler a principal edi\u00e7\u00e3o de contos do escritor lan\u00e7ada no Brasil, sob o t\u00edtulo Kappa e o levante imagin\u00e1rio (Esta\u00e7\u00e3o Liberdade, 2012).&nbsp; T\u00e3o logo passei os olhos pelo sum\u00e1rio, outro t\u00edtulo me intrigou: Rodas Dentadas. N\u00e3o s\u00f3 por datar do ano de morte do escritor (teria sido seu \u00faltimo conto?), mas por se referir a um objeto t\u00e9cnico, remetendo aos componentes de uma engrenagem, um corpo estranho em meio a diversos t\u00edtulos de teor fant\u00e1stico ou medieval. Permaneci com essa inquieta\u00e7\u00e3o mental at\u00e9 chegar ao conto, quando tomei conhecimento de que \u201crodas dentadas\u201d \u00e9 a forma como o personagem-narrador nomeia as apari\u00e7\u00f5es luminosas da aura pr\u00e9-cefaleia: Ent\u00e3o, objetos estranhos come\u00e7aram a surgir em meu campo visual. Objetos estranhos? Quero dizer&#8230; rodas dentadas, transl\u00facidas, girando sem cessar. Eu j\u00e1 passara por essa experi\u00eancia diversas vezes. As rodas dentadas aumentavam de quantidade aos poucos e me obstru\u00edam metade da vis\u00e3o, mas n\u00e3o por muito tempo. Desapareciam, para dar lugar \u00e0 cefaleia (Akutagawa, 2010, p. 283) Meu interesse pelo conto explodiu. Sofro dessa mesma condi\u00e7\u00e3o desde a adolesc\u00eancia e, pela primeira vez, encontrei uma obra de fic\u00e7\u00e3o que a tematizava. Mas por que evocar a figura de uma roda dentada? Sempre pensei nos \u201cescotomas\u201d como uma n\u00e9voa ou pequeno borr\u00e3o que se mant\u00e9m sobre qualquer superf\u00edcie que eu tente fixar a vis\u00e3o. Foi s\u00f3 quando recorri aos buscadores online que percebi que, para muitas pessoas, uma roda dentada seria a representa\u00e7\u00e3o mais precisa. Algo que pode ser constatado ao olhar para as diversas representa\u00e7\u00f5es da aura na arte ou em manuais de medicina.\u00a0 \u00c9 digno de nota o fato de que os exemplares mais antigos dessas estruturas, ainda que possuam uma conota\u00e7\u00e3o fortemente industrial e t\u00e9cnica, n\u00e3o s\u00e3o cria\u00e7\u00f5es humanas. As engrenagens funcionais mais antigas seriam aquelas que se encontram nas patas traseiras do inseto Issus coleoptratus, esp\u00e9cie de cigarra da infraordem fulgoromorpha, auxiliando-os no salto e no equil\u00edbrio. Frente a isso, \u00e9 dif\u00edcil n\u00e3o tra\u00e7ar um paralelo com a fascina\u00e7\u00e3o do fil\u00f3sofo Gilbert Simondon (2020) com os cristais e sua cr\u00edtica a esquemas filos\u00f3ficos que hierarquizam humano e animal (Simondon, 2004). Simondon baseia-se na qu\u00edmica da forma\u00e7\u00e3o de cristais para formatar seu modelo de individua\u00e7\u00e3o, com destaque para o caso dos quasicristais, s\u00f3lidos descobertos na d\u00e9cada de 1980 que \u201cresolvem\u201d uma quest\u00e3o matem\u00e1tica complexa, pois constituem estruturas ordenadas n\u00e3o-peri\u00f3dicas. De forma semelhante, os fulgoroformos, muito antes da humanidade \u201cdescobrir\u201d as rodas dentadas, j\u00e1 as possu\u00eda em sua estrutura f\u00edsica. A aura pr\u00e9-cefaleia \u00e9 outro fen\u00f4meno remoto que envolve essas estruturas, e \u00e9 curioso pensar como elas j\u00e1 estavam presentes tanto na arquitetura corporal animal quanto em um sintoma humano. Este movimento de analogia entre um sintoma f\u00edsico e um objeto t\u00e9cnico \u00e9 uma constante no pensamento de Simondon, visto que o fil\u00f3sofo franc\u00eas operava, em grande parte, por meio de um m\u00e9todo anal\u00f3gico (Heredia, 2019), efetuando acoplamentos&nbsp; entre formas de conhecimento d\u00edspares. Similarmente, a narrativa de Akutagawa no referido conto \u00e9 repleta de paralelos entre formas de conhecimento que apontam para uma tend\u00eancia anal\u00f3gica pass\u00edvel de assimila\u00e7\u00e3o a partir de uma lente simondoniana. Em Rodas Dentadas, um escritor[2] vai a um casamento em T\u00f3quio e permanece alguns dias na cidade visitando amigos e escrevendo. Nesse \u00ednterim, \u00e9 acometido por crises de cefaleia com aura e assombrado por fantasmas, que \u00e0s vezes tomam a forma de uma capa de chuva e em outras mant\u00e9m-se incorp\u00f3reos, como uma \u201cpresen\u00e7a misteriosa\u201d. A depress\u00e3o, o medo da loucura e a ang\u00fastia atormentam o personagem-narrador, que se desespera frente a uma s\u00e9rie de coincid\u00eancias bizarras que desafiam seu autodeclarado senso \u201cmaterialista\u201d da realidade. Trata-se de um conto de 45 p\u00e1ginas dividido em seis partes, a primeira sem subt\u00edtulo e outras cinco intituladas da seguinte maneira: 2. Vingan\u00e7a; 3. Noite; 4. Ainda n\u00e3o?; 5. Luz Vermelha e 6. Avi\u00e3o. Logo na primeira p\u00e1gina, em um di\u00e1logo banal com um companheiro de t\u00e1xi, surge a imagem do fantasma. \u2014 Sabe de uma coisa estranha? Dizem que se v\u00ea fantasma na mans\u00e3o do Senhor X, mesmo de dia. \u2014 Mesmo de dia, \u00e9? \u2014 Se bem que n\u00e3o em dias claros. Dizem que ele aparece mais nos dias chuvosos. \u2014 Para se molhar, quem sabe. \u2014 Brincadeira sua. Mas dizem que \u00e9 um fantasma com capa de Chuva. (Akutagawa, 2010, p. 280) Ao sair do t\u00e1xi, o protagonista esbarra em um homem vestindo uma capa de chuva. Coincid\u00eancia, destino ou acaso, esta ser\u00e1 a din\u00e2mica basilar do conto: assim que um novo elemento o perturba, continuar\u00e1 ressurgindo indefinidamente, e a trama \u00e9 operada justamente a partir da percep\u00e7\u00e3o que t\u00eam o escritor desses elementos e o modo como eles o afetam. A capa de chuva \u00e9 um bom exemplo: na primeira vez, acha gra\u00e7a no absurdo da coincid\u00eancia. Mas ela aparecer\u00e1 outras seis vezes, sempre corroendo um pouco mais sua j\u00e1 perturbada mente. Tamb\u00e9m h\u00e1 diversos outros elementos, a grande maioria perturbadores (p) e alguns reconfortantes (r), que insistem em retornar de modo quase ordenado: pinheiros (r); espelhos (p); luzes (p); as cores amarelo (p) e verde (r) e, em menor medida, o vermelho (p) e o jogo entre preto e branco; o fogo (p); o inferno (p); uma \u201cpresen\u00e7a misteriosa\u201d (p), por vezes descrita como hostil ou sard\u00f4nica; a sensa\u00e7\u00e3o ef\u00eamera de paz (r); o destino (p); o antropomorfismo (p); a autocompara\u00e7\u00e3o (p); o pecado (p); a presen\u00e7a da l\u00edngua e do corpo estrangeiro (p), principalmente a l\u00edngua inglesa e turistas estadunidenses, e em menor medida o franc\u00eas e o sueco e as rela\u00e7\u00f5es com animais: pombos, corvos, toupeiras (p), ratos (p), galinhas, r\u00e9pteis e um c\u00e3o. Estes elementos surgem, cada um, ao menos tr\u00eas vezes.&nbsp; Dentre os elementos perturbadores, o inferno \u00e9 o que mais se destaca, pois parece funcionar como um polo de atra\u00e7\u00e3o para os demais, que ao fim desembocam nele. Ainda que n\u00e3o seja o mais numeroso, a sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 de que o ac\u00famulo acidental dos outros elementos torna-se outra forma de fazer refer\u00eancia ao pr\u00f3prio inferno. O conceito de desadapta\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental para a compreens\u00e3o da no\u00e7\u00e3o de individua\u00e7\u00e3o elaborada por Gilbert Simondon (2020), que a entende n\u00e3o como uma mera incongru\u00eancia entre o indiv\u00edduo e seu meio, mas como uma das condi\u00e7\u00f5es de possibilidade da individua\u00e7\u00e3o. Quando trata de objetos t\u00e9cnicos, Simondon chega a falar em \u201ccrises de desadapta\u00e7\u00e3o a caminho de tra\u00e7ar um continuum entre varia\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas e varia\u00e7\u00f5es mentais.\u201d (Pereira, 2021, p. 52). A desadapta\u00e7\u00e3o atuaria na manuten\u00e7\u00e3o da metaestabilidade entre indiv\u00edduo e meio, possibilitando novas individua\u00e7\u00f5es. Seria poss\u00edvel, assim, a compreens\u00e3o da desadapta\u00e7\u00e3o como um processo produtivo, f\u00e9rtil, em rela\u00e7\u00e3o com o devir. Outro conceito importante para o pensamento simondonidano \u00e9 o de incompatibilidade, que designa o momento em que as tens\u00f5es entre indiv\u00edduo e meio n\u00e3o conseguem mais ser reguladas pelas estruturas existentes, constituindo um estado cr\u00edtico que pode exigir reestrutura\u00e7\u00e3o.&nbsp; Mas o que aconteceria com um sistema no qual n\u00e3o se consegue transduzir as tens\u00f5es em uma nova forma de exist\u00eancia? Quando o processo de individua\u00e7\u00e3o falha ou entra em repeti\u00e7\u00e3o indefinidamente? Parece ser uma problem\u00e1tica como esta a desenhada em Rodas Dentadas. Al\u00e9m das j\u00e1 mencionadas quest\u00f5es de incompatibilidade com o meio que o personagem-narrador enfrenta, h\u00e1 dois momentos em que s\u00e3o levantadas breves anedotas que evocam uma desadapta\u00e7\u00e3o que falha e se transforma num estado de permanente agonia e intoler\u00e2ncia total ao meio. A primeira \u00e9 uma par\u00e1bola cl\u00e1ssica: Recordei-me de ter usado o pseud\u00f4nimo \u201cJuryo Yoshi\u201d, que se refere a uma par\u00e1bola do Hanfeisu: um jovem deixa a prov\u00edncia onde nascera para ir \u00e0 capital aprender como se anda na cidade, mas acaba regressando de gatinhas, pois al\u00e9m de n\u00e3o ter aprendido, se esqueceu at\u00e9 de como se andava na pr\u00f3pria terra. Hoje, aos olhos de qualquer pessoa, n\u00e3o passo de um Juryo Yoshi. (Akutagawa, 2010, p. 294) Pr\u00f3ximo ao final do conto, surge outro exemplo: \u2014 Ser\u00e1 que esse avi\u00e3o n\u00e3o cai? \u2014 N\u00e3o h\u00e1 perigo. Voc\u00ea sabe o que \u00e9 doen\u00e7a da avia\u00e7\u00e3o? Acendi um cigarro e neguei com a cabe\u00e7a. \u2014 Dizem que as pessoas que voam de avi\u00e3o se habituam ao ar das alturas e aos poucos v\u00e3o se desacostumando com o ar da superf\u00edcie da terra, acabando por n\u00e3o suport\u00e1-lo mais&nbsp; (Akutagawa, 2010, p. 314.) O protagonista mobiliza essas anedotas justamente pelo fato de se identificar com elas, mas a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de inferno \u00e9 retomada aqui, pois denota-se um estado de esp\u00edrito no qual a exist\u00eancia \u00e9 insuport\u00e1vel. No decorrer do conto, ser\u00e3o feitas nove men\u00e7\u00f5es diretas ao inferno, sendo invocadas das mais diversas maneiras: seja pela obra de Dante Alighieri, seja por associa\u00e7\u00f5es de ideias, como na aproxima\u00e7\u00e3o do fonema de uma palavra semelhante de outra l\u00edngua, ou na refer\u00eancia a um conto anterior do pr\u00f3prio Akutagawa.&nbsp; Juntos \u00e0s diversas men\u00e7\u00f5es ao fogo, fantasmas, loucura e tortura, o conto delineia algo como uma representa\u00e7\u00e3o do inferno na Terra. Inferno constru\u00eddo de forma inusual, pois seria an\u00e1logo \u00e0 uma experi\u00eancia de falha no processo de transdu\u00e7\u00e3o que impossibilita a individua\u00e7\u00e3o, gerando uma repeti\u00e7\u00e3o indefinida e perpetuamente falha do processo de desadapta\u00e7\u00e3o. \u00c9 como se o ser fosse jogado em um limbo no qual a individua\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode se efetuar. A contradi\u00e7\u00e3o \u00e9 outra forma pela qual essas quest\u00f5es aparecem no conto, a partir de um embate interno entre religi\u00e3o, ci\u00eancia e ceticismo. Em alguns momentos, o protagonista demonstra desd\u00e9m sobre aquilo que define como \u201cpensamento m\u00edstico\u201d, declarando inclusive uma idea\u00e7\u00e3o anti espiritual e apol\u00edtica: \u201cN\u00e3o tenho consci\u00eancia de qualquer esp\u00e9cie, nem mesmo art\u00edstica. Sensibilidade \u00e9 tudo que tenho.\u201d (Akutagawa, 2010, p. 289). Simondon aponta a afetividade como aquilo que regula a passagem da percep\u00e7\u00e3o \u00e0 a\u00e7\u00e3o, que modula o que percebemos e como reagimos, bem como a tens\u00e3o interna. Sendo assim, como se daria esse processo em um ser que \u00e9 pura sensa\u00e7\u00e3o, pura afec\u00e7\u00e3o, no qual n\u00e3o h\u00e1 passagem da percep\u00e7\u00e3o \u00e0 a\u00e7\u00e3o, em que h\u00e1 um choque que paralisa o transcurso das coisas? Mas apesar desse discurso cr\u00edtico \u00e0 espiritualidade, o protagonista demonstra diversos ind\u00edcios de supersti\u00e7\u00e3o. Ele afirma n\u00e3o gostar de tomar t\u00e1xis amarelos, que lhe causariam acidentes, preferindo os verdes; outras vezes menciona estar sendo castigado por Deus ou pelo diabo, e parece se preocupar com a quest\u00e3o dos pecados \u2013 seus e daqueles \u00e0 sua volta. Ao mesmo tempo, menciona tr\u00eas vezes a no\u00e7\u00e3o de \u201catra\u00e7\u00e3o qu\u00edmica\u201d para falar das rela\u00e7\u00f5es entre os indiv\u00edduos, e um personagem utiliza uma analogia de f\u00edsica te\u00f3rica para descrev\u00ea-lo: \u2014 \u00c0s vezes, pare\u00e7o uma boa pessoa, outras vezes maldoso. \u2014 N\u00e3o penso assim. \u00c9 algo muito mais antag\u00f4nico que bem e mal&#8230; \u2014 Quem sabe ent\u00e3o \u00e9 como se houvesse uma crian\u00e7a dentro...\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/o-acaso-e-o-inferno-em-rodas-dentadas-1927\/\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Corporalidades\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2026-04-28T18:16:12+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2026-04-28T18:16:13+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/GR_P_374_cover-scaled.jpg\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:width\" content=\"2560\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:height\" content=\"1923\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:type\" content=\"image\/jpeg\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"gerente\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Written by\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"gerente\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. reading time\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"11 minutes\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.ufrgs.br\\\/corporalidades\\\/o-acaso-e-o-inferno-em-rodas-dentadas-1927\\\/#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.ufrgs.br\\\/corporalidades\\\/o-acaso-e-o-inferno-em-rodas-dentadas-1927\\\/\"},\"author\":{\"name\":\"gerente\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.ufrgs.br\\\/corporalidades\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/e18ecb8063c1f965a031341c25460e43\"},\"headline\":\"O acaso e o inferno em Rodas Dentadas (1927)\",\"datePublished\":\"2026-04-28T18:16:12+00:00\",\"dateModified\":\"2026-04-28T18:16:13+00:00\",\"mainEntityOfPage\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.ufrgs.br\\\/corporalidades\\\/o-acaso-e-o-inferno-em-rodas-dentadas-1927\\\/\"},\"wordCount\":2689,\"commentCount\":0,\"image\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.ufrgs.br\\\/corporalidades\\\/o-acaso-e-o-inferno-em-rodas-dentadas-1927\\\/#primaryimage\"},\"thumbnailUrl\":\"https:\\\/\\\/www.ufrgs.br\\\/corporalidades\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2026\\\/04\\\/GR_P_374_cover-scaled.jpg\",\"articleSection\":[\"Blog\"],\"inLanguage\":\"en-US\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"CommentAction\",\"name\":\"Comment\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/www.ufrgs.br\\\/corporalidades\\\/o-acaso-e-o-inferno-em-rodas-dentadas-1927\\\/#respond\"]}]},{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.ufrgs.br\\\/corporalidades\\\/o-acaso-e-o-inferno-em-rodas-dentadas-1927\\\/\",\"url\":\"https:\\\/\\\/www.ufrgs.br\\\/corporalidades\\\/o-acaso-e-o-inferno-em-rodas-dentadas-1927\\\/\",\"name\":\"O acaso e o inferno em Rodas Dentadas (1927) - 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Consciente ou n\u00e3o, o fato \u00e9 que a carreira de Murakami n\u00e3o parece ter sido nada afetada, visto o estrondoso sucesso que o escritor, hoje beirando os 80 anos, ainda experimenta.&nbsp;&nbsp; Muito diferente foi a hist\u00f3ria do homem que d\u00e1 nome ao pr\u00eamio. Ryunosuke Akutagawa teve uma curta vida repleta de infort\u00fanios cru\u00e9is que provavelmente nenhuma premia\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria teria impedido um destino como o de sua abrevia\u00e7\u00e3o em 1927, aos 35 anos. Mas apesar da juventude e dos problemas familiares, f\u00edsicos e mentais, Akutagawa tornou-se um dos principais contistas do Jap\u00e3o. Tanto que em 1950 o cineasta Akira Kurosawa atinge um de seus maiores sucessos de p\u00fablico e cr\u00edtica ao dirigir Rashomon, adapta\u00e7\u00e3o de um dos contos de Akutagawa, No Matagal. Estava em busca principalmente desse texto quando decidi ler a principal edi\u00e7\u00e3o de contos do escritor lan\u00e7ada no Brasil, sob o t\u00edtulo Kappa e o levante imagin\u00e1rio (Esta\u00e7\u00e3o Liberdade, 2012).&nbsp; T\u00e3o logo passei os olhos pelo sum\u00e1rio, outro t\u00edtulo me intrigou: Rodas Dentadas. N\u00e3o s\u00f3 por datar do ano de morte do escritor (teria sido seu \u00faltimo conto?), mas por se referir a um objeto t\u00e9cnico, remetendo aos componentes de uma engrenagem, um corpo estranho em meio a diversos t\u00edtulos de teor fant\u00e1stico ou medieval. Permaneci com essa inquieta\u00e7\u00e3o mental at\u00e9 chegar ao conto, quando tomei conhecimento de que \u201crodas dentadas\u201d \u00e9 a forma como o personagem-narrador nomeia as apari\u00e7\u00f5es luminosas da aura pr\u00e9-cefaleia: Ent\u00e3o, objetos estranhos come\u00e7aram a surgir em meu campo visual. Objetos estranhos? Quero dizer&#8230; rodas dentadas, transl\u00facidas, girando sem cessar. Eu j\u00e1 passara por essa experi\u00eancia diversas vezes. As rodas dentadas aumentavam de quantidade aos poucos e me obstru\u00edam metade da vis\u00e3o, mas n\u00e3o por muito tempo. Desapareciam, para dar lugar \u00e0 cefaleia (Akutagawa, 2010, p. 283) Meu interesse pelo conto explodiu. Sofro dessa mesma condi\u00e7\u00e3o desde a adolesc\u00eancia e, pela primeira vez, encontrei uma obra de fic\u00e7\u00e3o que a tematizava. Mas por que evocar a figura de uma roda dentada? Sempre pensei nos \u201cescotomas\u201d como uma n\u00e9voa ou pequeno borr\u00e3o que se mant\u00e9m sobre qualquer superf\u00edcie que eu tente fixar a vis\u00e3o. Foi s\u00f3 quando recorri aos buscadores online que percebi que, para muitas pessoas, uma roda dentada seria a representa\u00e7\u00e3o mais precisa. Algo que pode ser constatado ao olhar para as diversas representa\u00e7\u00f5es da aura na arte ou em manuais de medicina.\u00a0 \u00c9 digno de nota o fato de que os exemplares mais antigos dessas estruturas, ainda que possuam uma conota\u00e7\u00e3o fortemente industrial e t\u00e9cnica, n\u00e3o s\u00e3o cria\u00e7\u00f5es humanas. As engrenagens funcionais mais antigas seriam aquelas que se encontram nas patas traseiras do inseto Issus coleoptratus, esp\u00e9cie de cigarra da infraordem fulgoromorpha, auxiliando-os no salto e no equil\u00edbrio. Frente a isso, \u00e9 dif\u00edcil n\u00e3o tra\u00e7ar um paralelo com a fascina\u00e7\u00e3o do fil\u00f3sofo Gilbert Simondon (2020) com os cristais e sua cr\u00edtica a esquemas filos\u00f3ficos que hierarquizam humano e animal (Simondon, 2004). Simondon baseia-se na qu\u00edmica da forma\u00e7\u00e3o de cristais para formatar seu modelo de individua\u00e7\u00e3o, com destaque para o caso dos quasicristais, s\u00f3lidos descobertos na d\u00e9cada de 1980 que \u201cresolvem\u201d uma quest\u00e3o matem\u00e1tica complexa, pois constituem estruturas ordenadas n\u00e3o-peri\u00f3dicas. De forma semelhante, os fulgoroformos, muito antes da humanidade \u201cdescobrir\u201d as rodas dentadas, j\u00e1 as possu\u00eda em sua estrutura f\u00edsica. A aura pr\u00e9-cefaleia \u00e9 outro fen\u00f4meno remoto que envolve essas estruturas, e \u00e9 curioso pensar como elas j\u00e1 estavam presentes tanto na arquitetura corporal animal quanto em um sintoma humano. Este movimento de analogia entre um sintoma f\u00edsico e um objeto t\u00e9cnico \u00e9 uma constante no pensamento de Simondon, visto que o fil\u00f3sofo franc\u00eas operava, em grande parte, por meio de um m\u00e9todo anal\u00f3gico (Heredia, 2019), efetuando acoplamentos&nbsp; entre formas de conhecimento d\u00edspares. Similarmente, a narrativa de Akutagawa no referido conto \u00e9 repleta de paralelos entre formas de conhecimento que apontam para uma tend\u00eancia anal\u00f3gica pass\u00edvel de assimila\u00e7\u00e3o a partir de uma lente simondoniana. Em Rodas Dentadas, um escritor[2] vai a um casamento em T\u00f3quio e permanece alguns dias na cidade visitando amigos e escrevendo. Nesse \u00ednterim, \u00e9 acometido por crises de cefaleia com aura e assombrado por fantasmas, que \u00e0s vezes tomam a forma de uma capa de chuva e em outras mant\u00e9m-se incorp\u00f3reos, como uma \u201cpresen\u00e7a misteriosa\u201d. A depress\u00e3o, o medo da loucura e a ang\u00fastia atormentam o personagem-narrador, que se desespera frente a uma s\u00e9rie de coincid\u00eancias bizarras que desafiam seu autodeclarado senso \u201cmaterialista\u201d da realidade. Trata-se de um conto de 45 p\u00e1ginas dividido em seis partes, a primeira sem subt\u00edtulo e outras cinco intituladas da seguinte maneira: 2. Vingan\u00e7a; 3. Noite; 4. Ainda n\u00e3o?; 5. Luz Vermelha e 6. Avi\u00e3o. Logo na primeira p\u00e1gina, em um di\u00e1logo banal com um companheiro de t\u00e1xi, surge a imagem do fantasma. \u2014 Sabe de uma coisa estranha? Dizem que se v\u00ea fantasma na mans\u00e3o do Senhor X, mesmo de dia. \u2014 Mesmo de dia, \u00e9? \u2014 Se bem que n\u00e3o em dias claros. Dizem que ele aparece mais nos dias chuvosos. \u2014 Para se molhar, quem sabe. \u2014 Brincadeira sua. Mas dizem que \u00e9 um fantasma com capa de Chuva. (Akutagawa, 2010, p. 280) Ao sair do t\u00e1xi, o protagonista esbarra em um homem vestindo uma capa de chuva. Coincid\u00eancia, destino ou acaso, esta ser\u00e1 a din\u00e2mica basilar do conto: assim que um novo elemento o perturba, continuar\u00e1 ressurgindo indefinidamente, e a trama \u00e9 operada justamente a partir da percep\u00e7\u00e3o que t\u00eam o escritor desses elementos e o modo como eles o afetam. A capa de chuva \u00e9 um bom exemplo: na primeira vez, acha gra\u00e7a no absurdo da coincid\u00eancia. Mas ela aparecer\u00e1 outras seis vezes, sempre corroendo um pouco mais sua j\u00e1 perturbada mente. Tamb\u00e9m h\u00e1 diversos outros elementos, a grande maioria perturbadores (p) e alguns reconfortantes (r), que insistem em retornar de modo quase ordenado: pinheiros (r); espelhos (p); luzes (p); as cores amarelo (p) e verde (r) e, em menor medida, o vermelho (p) e o jogo entre preto e branco; o fogo (p); o inferno (p); uma \u201cpresen\u00e7a misteriosa\u201d (p), por vezes descrita como hostil ou sard\u00f4nica; a sensa\u00e7\u00e3o ef\u00eamera de paz (r); o destino (p); o antropomorfismo (p); a autocompara\u00e7\u00e3o (p); o pecado (p); a presen\u00e7a da l\u00edngua e do corpo estrangeiro (p), principalmente a l\u00edngua inglesa e turistas estadunidenses, e em menor medida o franc\u00eas e o sueco e as rela\u00e7\u00f5es com animais: pombos, corvos, toupeiras (p), ratos (p), galinhas, r\u00e9pteis e um c\u00e3o. Estes elementos surgem, cada um, ao menos tr\u00eas vezes.&nbsp; Dentre os elementos perturbadores, o inferno \u00e9 o que mais se destaca, pois parece funcionar como um polo de atra\u00e7\u00e3o para os demais, que ao fim desembocam nele. Ainda que n\u00e3o seja o mais numeroso, a sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 de que o ac\u00famulo acidental dos outros elementos torna-se outra forma de fazer refer\u00eancia ao pr\u00f3prio inferno. O conceito de desadapta\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental para a compreens\u00e3o da no\u00e7\u00e3o de individua\u00e7\u00e3o elaborada por Gilbert Simondon (2020), que a entende n\u00e3o como uma mera incongru\u00eancia entre o indiv\u00edduo e seu meio, mas como uma das condi\u00e7\u00f5es de possibilidade da individua\u00e7\u00e3o. Quando trata de objetos t\u00e9cnicos, Simondon chega a falar em \u201ccrises de desadapta\u00e7\u00e3o a caminho de tra\u00e7ar um continuum entre varia\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas e varia\u00e7\u00f5es mentais.\u201d (Pereira, 2021, p. 52). A desadapta\u00e7\u00e3o atuaria na manuten\u00e7\u00e3o da metaestabilidade entre indiv\u00edduo e meio, possibilitando novas individua\u00e7\u00f5es. Seria poss\u00edvel, assim, a compreens\u00e3o da desadapta\u00e7\u00e3o como um processo produtivo, f\u00e9rtil, em rela\u00e7\u00e3o com o devir. Outro conceito importante para o pensamento simondonidano \u00e9 o de incompatibilidade, que designa o momento em que as tens\u00f5es entre indiv\u00edduo e meio n\u00e3o conseguem mais ser reguladas pelas estruturas existentes, constituindo um estado cr\u00edtico que pode exigir reestrutura\u00e7\u00e3o.&nbsp; Mas o que aconteceria com um sistema no qual n\u00e3o se consegue transduzir as tens\u00f5es em uma nova forma de exist\u00eancia? Quando o processo de individua\u00e7\u00e3o falha ou entra em repeti\u00e7\u00e3o indefinidamente? Parece ser uma problem\u00e1tica como esta a desenhada em Rodas Dentadas. Al\u00e9m das j\u00e1 mencionadas quest\u00f5es de incompatibilidade com o meio que o personagem-narrador enfrenta, h\u00e1 dois momentos em que s\u00e3o levantadas breves anedotas que evocam uma desadapta\u00e7\u00e3o que falha e se transforma num estado de permanente agonia e intoler\u00e2ncia total ao meio. A primeira \u00e9 uma par\u00e1bola cl\u00e1ssica: Recordei-me de ter usado o pseud\u00f4nimo \u201cJuryo Yoshi\u201d, que se refere a uma par\u00e1bola do Hanfeisu: um jovem deixa a prov\u00edncia onde nascera para ir \u00e0 capital aprender como se anda na cidade, mas acaba regressando de gatinhas, pois al\u00e9m de n\u00e3o ter aprendido, se esqueceu at\u00e9 de como se andava na pr\u00f3pria terra. Hoje, aos olhos de qualquer pessoa, n\u00e3o passo de um Juryo Yoshi. (Akutagawa, 2010, p. 294) Pr\u00f3ximo ao final do conto, surge outro exemplo: \u2014 Ser\u00e1 que esse avi\u00e3o n\u00e3o cai? \u2014 N\u00e3o h\u00e1 perigo. Voc\u00ea sabe o que \u00e9 doen\u00e7a da avia\u00e7\u00e3o? Acendi um cigarro e neguei com a cabe\u00e7a. \u2014 Dizem que as pessoas que voam de avi\u00e3o se habituam ao ar das alturas e aos poucos v\u00e3o se desacostumando com o ar da superf\u00edcie da terra, acabando por n\u00e3o suport\u00e1-lo mais&nbsp; (Akutagawa, 2010, p. 314.) O protagonista mobiliza essas anedotas justamente pelo fato de se identificar com elas, mas a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de inferno \u00e9 retomada aqui, pois denota-se um estado de esp\u00edrito no qual a exist\u00eancia \u00e9 insuport\u00e1vel. No decorrer do conto, ser\u00e3o feitas nove men\u00e7\u00f5es diretas ao inferno, sendo invocadas das mais diversas maneiras: seja pela obra de Dante Alighieri, seja por associa\u00e7\u00f5es de ideias, como na aproxima\u00e7\u00e3o do fonema de uma palavra semelhante de outra l\u00edngua, ou na refer\u00eancia a um conto anterior do pr\u00f3prio Akutagawa.&nbsp; Juntos \u00e0s diversas men\u00e7\u00f5es ao fogo, fantasmas, loucura e tortura, o conto delineia algo como uma representa\u00e7\u00e3o do inferno na Terra. Inferno constru\u00eddo de forma inusual, pois seria an\u00e1logo \u00e0 uma experi\u00eancia de falha no processo de transdu\u00e7\u00e3o que impossibilita a individua\u00e7\u00e3o, gerando uma repeti\u00e7\u00e3o indefinida e perpetuamente falha do processo de desadapta\u00e7\u00e3o. \u00c9 como se o ser fosse jogado em um limbo no qual a individua\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode se efetuar. A contradi\u00e7\u00e3o \u00e9 outra forma pela qual essas quest\u00f5es aparecem no conto, a partir de um embate interno entre religi\u00e3o, ci\u00eancia e ceticismo. Em alguns momentos, o protagonista demonstra desd\u00e9m sobre aquilo que define como \u201cpensamento m\u00edstico\u201d, declarando inclusive uma idea\u00e7\u00e3o anti espiritual e apol\u00edtica: \u201cN\u00e3o tenho consci\u00eancia de qualquer esp\u00e9cie, nem mesmo art\u00edstica. Sensibilidade \u00e9 tudo que tenho.\u201d (Akutagawa, 2010, p. 289). Simondon aponta a afetividade como aquilo que regula a passagem da percep\u00e7\u00e3o \u00e0 a\u00e7\u00e3o, que modula o que percebemos e como reagimos, bem como a tens\u00e3o interna. Sendo assim, como se daria esse processo em um ser que \u00e9 pura sensa\u00e7\u00e3o, pura afec\u00e7\u00e3o, no qual n\u00e3o h\u00e1 passagem da percep\u00e7\u00e3o \u00e0 a\u00e7\u00e3o, em que h\u00e1 um choque que paralisa o transcurso das coisas? Mas apesar desse discurso cr\u00edtico \u00e0 espiritualidade, o protagonista demonstra diversos ind\u00edcios de supersti\u00e7\u00e3o. Ele afirma n\u00e3o gostar de tomar t\u00e1xis amarelos, que lhe causariam acidentes, preferindo os verdes; outras vezes menciona estar sendo castigado por Deus ou pelo diabo, e parece se preocupar com a quest\u00e3o dos pecados \u2013 seus e daqueles \u00e0 sua volta. Ao mesmo tempo, menciona tr\u00eas vezes a no\u00e7\u00e3o de \u201catra\u00e7\u00e3o qu\u00edmica\u201d para falar das rela\u00e7\u00f5es entre os indiv\u00edduos, e um personagem utiliza uma analogia de f\u00edsica te\u00f3rica para descrev\u00ea-lo: \u2014 \u00c0s vezes, pare\u00e7o uma boa pessoa, outras vezes maldoso. \u2014 N\u00e3o penso assim. \u00c9 algo muito mais antag\u00f4nico que bem e mal&#8230; \u2014 Quem sabe ent\u00e3o \u00e9 como se houvesse uma crian\u00e7a dentro...","og_url":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/o-acaso-e-o-inferno-em-rodas-dentadas-1927\/","og_site_name":"Corporalidades","article_published_time":"2026-04-28T18:16:12+00:00","article_modified_time":"2026-04-28T18:16:13+00:00","og_image":[{"width":2560,"height":1923,"url":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/GR_P_374_cover-scaled.jpg","type":"image\/jpeg"}],"author":"gerente","twitter_card":"summary_large_image","twitter_misc":{"Written by":"gerente","Est. reading time":"11 minutes"},"schema":{"@context":"https:\/\/schema.org","@graph":[{"@type":"Article","@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/o-acaso-e-o-inferno-em-rodas-dentadas-1927\/#article","isPartOf":{"@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/o-acaso-e-o-inferno-em-rodas-dentadas-1927\/"},"author":{"name":"gerente","@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/#\/schema\/person\/e18ecb8063c1f965a031341c25460e43"},"headline":"O acaso e o inferno em Rodas Dentadas (1927)","datePublished":"2026-04-28T18:16:12+00:00","dateModified":"2026-04-28T18:16:13+00:00","mainEntityOfPage":{"@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/o-acaso-e-o-inferno-em-rodas-dentadas-1927\/"},"wordCount":2689,"commentCount":0,"image":{"@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/o-acaso-e-o-inferno-em-rodas-dentadas-1927\/#primaryimage"},"thumbnailUrl":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/GR_P_374_cover-scaled.jpg","articleSection":["Blog"],"inLanguage":"en-US","potentialAction":[{"@type":"CommentAction","name":"Comment","target":["https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/o-acaso-e-o-inferno-em-rodas-dentadas-1927\/#respond"]}]},{"@type":"WebPage","@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/o-acaso-e-o-inferno-em-rodas-dentadas-1927\/","url":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/o-acaso-e-o-inferno-em-rodas-dentadas-1927\/","name":"O acaso e o inferno em Rodas Dentadas (1927) - 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