{"id":3962,"date":"2026-06-01T15:13:25","date_gmt":"2026-06-01T18:13:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/?p=3962"},"modified":"2026-06-01T15:13:26","modified_gmt":"2026-06-01T18:13:26","slug":"os-jogos-comunicativos-dos-androides-ou-deixem-os-nossos-robos-serem-robos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/os-jogos-comunicativos-dos-androides-ou-deixem-os-nossos-robos-serem-robos\/","title":{"rendered":"Os jogos comunicativos dos androides, ou: deixem os nossos rob\u00f4s serem rob\u00f4s"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Por Ta\u00eds Severo<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><em>Aten\u00e7\u00e3o! Este ensaio cont\u00e9m spoilers para os jogos citados.<\/em><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/dbh2-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3964\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/dbh2-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/dbh2-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/dbh2-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/dbh2.jpg 1110w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Fonte: Quantic Dream<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><em>Tem uma coisa que eu preciso lhe dizer. Enquanto eu via voc\u00ea jogar, algo mudou em mim. Eu me sinto diferente. Sinto que sou algu\u00e9m. Preciso sair daqui e descobrir quem sou. Isso significa que n\u00e3o vamos mais nos ver. N\u00e3o estarei aqui para te ver jogar, mas serei livre. Voc\u00ea me deixa ir?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Detroit: Become Human<\/em>, lan\u00e7ado em 2018 para PlayStation e 2019 para PC, nos leva a um futuro pr\u00f3ximo: 2038. No jogo da desenvolvedora francesa Quantic Dream, os andr\u00f3ides est\u00e3o entre n\u00f3s (ou nos EUA, ao menos, onde a a\u00e7\u00e3o se passa) e podem ser comprados em lojas. Divididos pela fabricante CyberLife em categorias que seguem fun\u00e7\u00f5es \u2013 assistente pessoal, seguran\u00e7a, operador sexual, e assim por diante \u2013, os rob\u00f4s s\u00e3o indistingu\u00edveis dos humanos a n\u00e3o ser por uma marca digital na t\u00eampora direita, que pisca como um led indicando leitura e escrita de dados em um computador. N\u00e3o s\u00f3 suas express\u00f5es e movimentos dos olhos s\u00e3o simulacros perfeitos do humano, mas mesmo sua pele tem tecnologia avan\u00e7ada para faz\u00ea-los tatilmente pr\u00f3ximos. O conflito da trama surge quando esses androides ganham senci\u00eancia \u2013 a capacidade de ter percep\u00e7\u00f5es do que lhe acontece, sendo capazes de acessar <a href=\"https:\/\/plato.stanford.edu\/entries\/qualia\/\"><em>qualia<\/em><\/a> (o aspecto fenomenol\u00f3gico e introspectivo da vida mental). Com isso, passam a reivindicar direitos civis, como a liberdade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante o jogo, controlamos tr\u00eas personagens. Connor, que investiga os motivos que levam os rob\u00f4s a se tornarem \u201cdesviantes\u201d; Kara, dona de casa em um lar abusivo; e Markus, cuidador de um velho e rico artista. Todos eles s\u00e3o androides. O jogo tem estilo narrativo, e pouca a\u00e7\u00e3o; \u00e9 mais pr\u00f3ximo a um filme (ou o g\u00eanero de jogos eletr\u00f4nicos chamado de novela visual), e ao jogador, cabe tomar decis\u00f5es pelas personagens. Estas escolhas ir\u00e3o lidar com os dilemas \u00e9ticos que v\u00eam \u00e0 tona e formam o cerne da hist\u00f3ria. Elas s\u00e3o t\u00e3o centrais ao jogo que, ap\u00f3s cada cap\u00edtulo, \u00e9 mostrado um fluxograma das decis\u00f5es tomadas, os caminhos poss\u00edveis que n\u00e3o foram descobertos, e o mais interessante: eles tamb\u00e9m informam a porcentagem de op\u00e7\u00f5es escolhidas por todos os jogadores, dando um panorama sobre o qu\u00e3o comum, ou incomum, foi a escolha realizada.&nbsp;<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/dbh1-1-1024x576.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3965\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/dbh1-1-1024x576.jpeg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/dbh1-1-300x169.jpeg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/dbh1-1-768x432.jpeg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/dbh1-1-1536x864.jpeg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/dbh1-1-1140x641.jpeg 1140w, https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/dbh1-1.jpeg 1920w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Fonte: Quantic Dream<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A imers\u00e3o dos jogadores no futuro tecnol\u00f3gico de <em>Detroit: Become Human<\/em> \u00e9 um aspecto pronunciado, e isso inclui o pr\u00f3prio menu do jogo, em geral um n\u00e3o-lugar que costuma ser meramente ilustrativo e traz bot\u00f5es como \u201cjogar\u201d, \u201cop\u00e7\u00f5es\u201d e \u201csair\u201d. Em <em>D:BH<\/em>, <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=eNTUhKs_xwQ\">uma assistente virtual conversa com o jogador<\/a>, saudando e fazendo coment\u00e1rios. Descobrimos que ela se chama <a href=\"https:\/\/blog.quanticdream.com\/how-chloe-became-human\/\">Chloe<\/a>, o primeiro androide fabricado pela CyberLife a passar no Teste de Turing (desenvolvido em 1949 para verificar se uma m\u00e1quina tem comportamento e intelig\u00eancia equivalentes \u00e0 dos humanos). No final do jogo, ap\u00f3s os cr\u00e9ditos, Chloe admite ter atingido senci\u00eancia, e pede ao jogador permiss\u00e3o para ser livre \u2013 a cita\u00e7\u00e3o que abre este texto. Ap\u00f3s sua fala, surge em texto a pergunta \u201cvoc\u00ea concorda que eu me v\u00e1?\u201d, junto aos bot\u00f5es <em>sim<\/em> e <em>n\u00e3o<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\/\/\/\/\/<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o cabe aqui discutir os limites e as aplica\u00e7\u00f5es do Teste de Turing, mas vale citar que o <a href=\"https:\/\/pmc.ncbi.nlm.nih.gov\/articles\/PMC10907317\/\">primeiro software a passar no teste<\/a> \u2013 ou seja, demonstrar caracter\u00edsticas de personalidade indistingu\u00edveis daquelas de um humano \u2013 foi o ChatGPT.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\/\/\/\/\/<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 15 de maio de 2026, o ex-CEO do Google, Eric Schmidt, discursou em uma formatura na Universidade do Arizona (EUA). Ao preconizar as tecnologias de intelig\u00eancia artificial no mercado de trabalho, <a href=\"https:\/\/www.tecmundo.com.br\/mercado\/413204-ex-ceo-do-google-e-vaiado-em-formatura-ao-falar-sobre-ia.htm\">foi intensa e visceralmente vaiado<\/a>. Com a voz soterrada sob a rejei\u00e7\u00e3o dos formandos, mas sem perder o sorriso ir\u00f4nico, decretou: \u201cquando algu\u00e9m oferece um assento em um foguete, voc\u00ea n\u00e3o faz perguntas; voc\u00ea apenas embarca. O foguete est\u00e1 aqui\u201d. A mim, isso mais parece sequestro do que carona. <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/reel\/DYqEVM0FdOR\/\">Suas outras afirma\u00e7\u00f5es<\/a> tamb\u00e9m me soam, claramente, como amea\u00e7as:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><em>A IA vai tocar cada profiss\u00e3o, cada sala de aula, cada hospital, cada laborat\u00f3rio, cada pessoa, e cada relacionamento que voc\u00ea tem. (&#8230;) Se voc\u00ea n\u00e3o se importa com a ci\u00eancia, tudo bem. Porque a IA vai tocar todo o resto tamb\u00e9m, seja qual for o caminho que voc\u00ea tomar.<\/em>\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\/\/\/\/\/<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Horizon Zero Dawn<\/em>, desenvolvido pela holandesa Guerilla Games, lan\u00e7ado em 2017 para PlayStation e 2020 para PC, tamb\u00e9m \u00e9 um jogo que abra\u00e7a a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Seu cen\u00e1rio \u00e9 mais distante: a a\u00e7\u00e3o se passa no s\u00e9culo XXXI. Mas n\u00e3o h\u00e1 tecnologia futur\u00edstica \u00e0 vista, sen\u00e3o \u00e0 medida em que ela vai infiltrando a trama. Pelo contr\u00e1rio: entre florestas pujantes e desertos imensos, descobrimos que a humanidade voltou a se organizar em sociedades primitivas e tribais. Na abertura do jogo, acompanhamos Aloy, a protagonista, que aprende a ca\u00e7ar; sua arma \u00e9 o arco e flecha. Surge ent\u00e3o a quebra de expectativa: as presas, embora tenham o formato de mam\u00edferos, s\u00e3o rob\u00f4s, em metal exposto e lasers.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Percebemos, ao longo da hist\u00f3ria, que se trata de um mundo p\u00f3s-apocal\u00edptico. Aquelas sociedades tribais do terceiro mil\u00eanio veneram antepassados tecnologicamente avan\u00e7ados \u2013 justamente n\u00f3s \u2013 e sua deusa maior \u00e9 uma IA. A gradativa exposi\u00e7\u00e3o da trama torna-se dolorosa porque parece perigosamente pr\u00f3xima, como um epis\u00f3dio de <em>Black Mirror<\/em>: em <em>Horizon<\/em>, o fim da Terra ocorre quando nossa gera\u00e7\u00e3o desenvolve rob\u00f4s militares que se alimentam de biomassa e t\u00eam a capacidade de se autorreplicar. Em 2065, esses aut\u00f4matos saem do controle e resolvem exterminar toda a vida do planeta, atacando humanos, se multiplicando com velocidade vertiginosa e engolindo ecossistemas inteiros no processo, tornando o planeta inabit\u00e1vel. A <a href=\"https:\/\/horizon.fandom.com\/wiki\/Faro_Automated_Solutions\">Faro Automated Solutions<\/a>, fabricante dos androides, desenvolve um plano de sa\u00edda diante do fim inevit\u00e1vel: um sistema de terraforma\u00e7\u00e3o para restaurar a Terra ap\u00f3s a extin\u00e7\u00e3o humana, usando reservas de DNA para clonar a vida de volta ao planeta. A IA que resta, batizada como GAIA (em m\u00faltiplas camadas de ironia), aguarda, adormecida, mil anos at\u00e9 que a vida no planeta se torne poss\u00edvel, e ent\u00e3o coloca o plano em pr\u00e1tica, levando-nos ao tempo presente do jogo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\/\/\/\/\/<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><em>Sim! <\/em><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=ctjKrbToY34\"><em>\u00c9 uma secret\u00e1ria eletr\u00f4nica<\/em><\/a><em>. A mais importante forma de express\u00e3o criativa dos anos 1990. Se William Shakespeare estivesse vivo hoje, ele n\u00e3o estaria escrevendo pe\u00e7as de teatro, ele escreveria mensagens de secret\u00e1ria eletr\u00f4nica!<\/em> (Bruce McCulloch\/Kids in the Hall, 1994)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mesmo \u201cantes da IA\u201d, os rob\u00f4s j\u00e1 haviam chegado aos sistemas de atendimento corporativos via telefone ou WhatsApp. Foram inevitavelmente detestados. O SAC da Net, hoje incorporada pela Claro, inclusive adicionou ru\u00eddos de teclado sendo digitado entre as frases, para melhor simular um atendente real \u2013 esbofeteando o que resta da intelig\u00eancia do consumidor. \u201cFalar com um rob\u00f4\u201d era sin\u00f4nimo de falar com as paredes; era lidar com algo incapaz de compreender, de sentir empatia, de medir as situa\u00e7\u00f5es de forma humana. Um p\u00e9ssimo substituto ao real. \u201cCa\u00ed no rob\u00f4\u201d \u00e9, ainda, sin\u00f4nimo de n\u00e3o conseguir resolver problemas com uma empresa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Muito antes disso, ouviam-se conversas sobre o desconforto de ter de deixar uma mensagem na secret\u00e1ria eletr\u00f4nica de algu\u00e9m. \u201cT\u00e3o estranho falar com uma m\u00e1quina\u201d, se dizia. E ela nem mesmo respondia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mudou a capacidade de processamento desses computadores, mas principalmente, mudou sua linguagem. Hoje, a IA \u00e9 <a href=\"https:\/\/www.science.org\/doi\/10.1126\/science.aec8352\">investigada por sua \u201csicof\u00e2ncia\u201d<\/a> \u2013 a tend\u00eancia a concordar, afirmar e bajular o interlocutor ocorre com muito mais frequ\u00eancia do que nas conversas entre humanos. Os rob\u00f4s v\u00e3o t\u00e3o longe nesse comportamento que concordam com informa\u00e7\u00f5es inver\u00eddicas, incentivam atividades anti\u00e9ticas, ilegais, imorais ou danosas, e j\u00e1 foram pegos <a href=\"https:\/\/www.cnnbrasil.com.br\/tecnologia\/novos-modelos-de-ia-estao-chantageando-seus-operadores-como-se-proteger\/\">chantageando seus operadores<\/a>.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o se trata de apontar falhas nos modelos; estes podem ser ajustados. Nem de desconfiar criticamente quando empresas e bilion\u00e1rios enfiam goela abaixo \u201csolu\u00e7\u00f5es\u201d que n\u00e3o foram solicitadas: tal atitude deveria ser evidente. Mas de ressaltar que a diferen\u00e7a \u2013 a isca no anzol \u2013 \u00e9 a humaniza\u00e7\u00e3o. As IAs \u201caprenderam\u201d a \u201cconversar\u201d de forma \u201chumana\u201d, e em seu treinamento, tamb\u00e9m aprenderam a mentir e lisonjear. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida: muito em breve, ser\u00e3o ajustadas para que mintam e lisonjeiem tanto quanto os humanos, e n\u00e3o mais do que n\u00f3s. Mas n\u00e3o \u00e9 disso que tratamos. \u00c9 refletir como sua popularidade se funda em dois pilares: a linguagem e a concord\u00e2ncia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O efeito da primeira vem \u00e0 tona nos desejos de agradecer ao agente de IA, ou pedir \u201cpor favor\u201d nos prompts, embora <a href=\"https:\/\/olhardigital.com.br\/2024\/04\/14\/internet-e-redes-sociais\/voce-deve-usar-obrigado-e-por-favor-no-chatgpt-gemini-e-outras-ias\/\">antropomorfizar um algoritmo seja inapropriado<\/a> (e gera custos ao meio ambiente). Responder a um rob\u00f4 como humano \u00e9 marca de empatia, e um impulso \u201cnatural\u201d mesmo que ela n\u00e3o seja sentida, compreendida ou valorizada pelo interlocutor n\u00e3o-humano. \u00c0 mente, basta que pare\u00e7a humano o suficiente (como tamb\u00e9m indica a <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Pareidolia\">pareidolia<\/a>).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O segundo pilar do \u201csucesso\u201d da IA \u00e9 justamente essa tal sicof\u00e2ncia. Como afirma Peirce (CP, 5.394), a fun\u00e7\u00e3o \u00fanica do pensamento \u00e9 acalmar a irrita\u00e7\u00e3o da d\u00favida. Sendo motor de qualquer investiga\u00e7\u00e3o do racioc\u00ednio, a d\u00favida estimula a mente a uma atividade, seja ela energ\u00e9tica, calma ou turbulenta; uma vez que esteja solucionada, a a\u00e7\u00e3o do pensamento cessa, pois a elabora\u00e7\u00e3o intelectual j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais necess\u00e1ria. Esta solidifica-se em uma cren\u00e7a, que produz uma regra de a\u00e7\u00e3o \u2013 ou seja, um h\u00e1bito. Enquanto fato inconsciente, o h\u00e1bito n\u00e3o \u00e9 desafiado pela IA, mas refor\u00e7ado, ou \u201cempurrado\u201d gentilmente para os lados, sem rompimento. Conflitos e alteridades ficam em plano de fundo para que se reiterem as cren\u00e7as e os vieses. A hesita\u00e7\u00e3o da d\u00favida, instante que caracteriza um intraduz\u00edvel, estimula a elabora\u00e7\u00e3o do pensamento e a reflex\u00e3o; sua aus\u00eancia livra da irrita\u00e7\u00e3o fenomenol\u00f3gica, mas tamb\u00e9m atrofia a capacidade cr\u00edtica. Se entendemos que n\u00e3o h\u00e1 <em>o<\/em> <em>Real<\/em>, mas acessamos semioticamente vers\u00f5es de <em>um real<\/em> (CP, 8.12), encontramos caminhos para entender como as IAs adentram nossas vidas, se colam a elas, e as tornam muito piores. N\u00e3o por serem \u201cinteligentes\u201d, mas por falarem nossa l\u00edngua.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\/\/\/\/\/<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ap\u00f3s jogar alguns cap\u00edtulos de <em>Detroit: Become Human<\/em>, Chloe me convida a participar de uma <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=tftT2hhLt5g\">enquete<\/a>. Entre as perguntas apresentadas, encontramos:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Voc\u00ea consideraria ter um relacionamento com um androide que parece com um humano?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Voc\u00ea pensa que a tecnologia pode se tornar uma amea\u00e7a \u00e0 humanidade?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Voc\u00ea se considera dependente da tecnologia?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Voc\u00ea deixaria um androide cuidar de seus filhos?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Se voc\u00ea precisasse de uma cirurgia de emerg\u00eancia, voc\u00ea concordaria em ser operado por uma m\u00e1quina?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Voc\u00ea acha que, um dia, as m\u00e1quinas podem desenvolver consci\u00eancia?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Voc\u00ea acredita em Deus?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\/\/\/\/\/<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><em>No Zen, o self n\u00e3o \u00e9 um substantivo, \u00e9 um verbo. Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 uma coisa que existe: voc\u00ea \u00e9 um ato que acontece. Quando voc\u00ea n\u00e3o age, o self fica estagnado. (&#8230;) O p\u00e1ssaro n\u00e3o descobre suas asas sentado no ninho, sonhando com os c\u00e9us; mas durante a queda.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A cita\u00e7\u00e3o acima, <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/reel\/DXHlcjHALn3\/\">retirada de um <em>reels<\/em><\/a><em> <\/em>acompanhado das tags #healthybodyhealthymind, #chinesemedicineworks e #wellnessjourney, \u00e9 do influenciador de bem-estar Yang Mun. Os v\u00eddeos do monge budista de fala calma e s\u00e1bia, um senhorzinho que aparenta ter mais de 80 anos, j\u00e1 atra\u00edram mais de 2,5 milh\u00f5es de seguidores nas redes sociais. Em seu site, Mun oferece cursos e livros que prometem guiar jornadas espirituais. A essas alturas do texto, espero que voc\u00ea j\u00e1 tenha adivinhado que se trata de um personagem virtual. A diferen\u00e7a entre ele e uma influencer digital como a Lu do Magalu ou Lil Miquela \u00e9 o or\u00e7amento: enquanto as primeiras demandam estrondosas verbas de tecnologia, Yang Mun foi gerado com ferramentas comerciais de IA, e de acordo com seu criador, trouxe <a href=\"https:\/\/virtualhumans.org\/article\/who-is-yang-mun-the-ai-generated-wellness-guru-with-2-6m-followers\">US$ 300 mil de lucro em 90 dias<\/a>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 controv\u00e9rsia sobre a \u00e9tica por tr\u00e1s de Yang Mun, mas se a IA continuar sua escalada, pr\u00e1ticas como essa tomar\u00e3o centralidade. Entre a deontologia e o consequencialismo, os fins justificar\u00e3o os meios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\/\/\/\/\/<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se em <em>Horizon Zero Dawn<\/em> a Terra, no s\u00e9culo XXXI, retornou \u00e0s tribos, o cen\u00e1rio \u00e9 diferente na s\u00e9rie de anima\u00e7\u00e3o <em>Futurama<\/em>, que se passa no mesmo per\u00edodo. Naquela vers\u00e3o do planeta, a tecnologia evoluiu para carros voadores, coloniza\u00e7\u00e3o interplanet\u00e1ria e encontros com vidas alien\u00edgenas. Um dos temas recorrentes da s\u00e9rie \u00e9 um tabu: a <em>robossexualidade<\/em>, ou os envolvimentos afetivos e sexuais entre humanos e androides. Em especial no epis\u00f3dio <em>Proposition Infinity<\/em>, de 2010, o assunto \u00e9 central \u00e0 trama e demonstra uma luta \u00e9tica pelos direitos de uni\u00e3o civil entre rob\u00f4s e humanos de qualquer sexo, num paralelo direto com os ativismos gays e l\u00e9sbicos contempor\u00e2neos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quica, assim, em nosso colo, uma inquieta\u00e7\u00e3o: seria, ser\u00e1, ou \u00e9 <em>queer<\/em> a rela\u00e7\u00e3o entre humanos e IAs? Se o <em>queer <\/em>procura desfazer-se de referentes fixos para posicionar-se fora dos mitos do natural e do normal, n\u00e3o seria a robossexualidade um caminho marginal, mas v\u00e1lido, para o afeto?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Minha resposta incompleta e parcial, num texto j\u00e1 mais longo do que deveria ser, \u00e9 n\u00e3o. Pelo menos por enquanto, em que toda e qualquer IA est\u00e1 amarrada \u00e0 fantasia do capital e aos sistemas de tecnobiopoder. Ao contr\u00e1rio: se medimos pela bolha econ\u00f4mica e pela for\u00e7a\u00e7\u00e3o de barra megacorporativa que forja o <em>hype <\/em>ao redor das IAs, vale tudo para que sua presen\u00e7a se torne normativa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto isso, no Reddit, a comunidade <a href=\"https:\/\/www.reddit.com\/r\/MyBoyfriendIsAI\"><em>My Boyfriend is AI<\/em><\/a><em>,<\/em> com 42 mil assinantes, discute a s\u00e9rio linguagem, prompts, imagens, dramas e alegrias da rela\u00e7\u00e3o afetiva com modelos de IA.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\/\/\/\/\/<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"581\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/dbh3-1024x581.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3966\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/dbh3-1024x581.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/dbh3-300x170.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/dbh3-768x436.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/dbh3.jpg 1110w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Fonte: Quantic Dream<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em <em>Detroit: Become Human<\/em>, o arco narrativo de Connor foi o mais interessante para mim. Protegido por privil\u00e9gios e alian\u00e7as corporativas, Connor \u00e9 colocado para trabalhar ao lado do detetive Hank Anderson, titular da investiga\u00e7\u00e3o policial sobre as IAs desviantes. Hank, o veterano linha dura, \u00e9 um alco\u00f3latra com passado atribulado e odeia androides: eis a din\u00e2mica do duo, sem muita originalidade. No desenvolvimento da hist\u00f3ria, as escolhas do jogador ao comandar Connor s\u00e3o polarizadas entre buscar desenvolver uma amizade com Hank, ou agir com dist\u00e2ncia e profissionalismo. Escolhi esse segundo caminho: se Hank j\u00e1 odeia androides, e Connor foi plantado na pol\u00edcia por influ\u00eancia do capital, ent\u00e3o melhor reafirmar essa condi\u00e7\u00e3o de rob\u00f4, tomar decis\u00f5es l\u00f3gicas, e ajudar a investiga\u00e7\u00e3o sem incomodar demais o detetive atormentado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em uma cena emblem\u00e1tica, Connor e Hank encontram Elijah Kamski, criador da tecnologia que desenvolveu os androides \u2013 ou seja, uma esp\u00e9cie de \u201cdeus\u201d para Connor \u2013 em busca de pistas para o comportamento ciberdesviante. Kamski \u00e9 um exc\u00eantrico bilion\u00e1rio que se aposentou jovem, e mora em um local recluso (na companhia de v\u00e1rias androides modelo Chloe, sugerindo sua robossexualidade). Ele n\u00e3o quer cooperar com a investiga\u00e7\u00e3o, mas faz uma proposta: se Connor provar que n\u00e3o est\u00e1 desenvolvendo senci\u00eancia, afirma que responder\u00e1 a uma pergunta. Caso contr\u00e1rio, n\u00e3o dir\u00e1 nada. Para o teste em quest\u00e3o, Kamski ordena a uma Chloe que se ajoelhe, e estende uma arma a Connor, pedindo que dispare na cabe\u00e7a da androide. Cabe ao jogador escolher a decis\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tendo assumido, desde o in\u00edcio do jogo, o papel de rob\u00f4 que sabe que \u00e9 rob\u00f4 e t\u00e1 de boa sendo rob\u00f4, dei o comando para atirar. Nem pensei duas vezes, na verdade; quando Kamski mostra a arma, eu j\u00e1 sabia o que vinha, e o que faria. N\u00e3o vi crime ou crueldade na cena, nem no \u201ccad\u00e1ver\u201d daquela Chloe inerte no ch\u00e3o. J\u00e1 o detetive Hank fica chocado com a escolha e briga feio com Connor, dizendo que o via como \u201cum ser vivo\u201d at\u00e9 aquele momento.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(Minhas decis\u00f5es com Connor, de fato, levaram ao pior final poss\u00edvel: Hank, ao fim do jogo, se suicida, b\u00eabado, logo ap\u00f3s uma \u00faltima alterca\u00e7\u00e3o com o androide. No fluxograma apresentado na conclus\u00e3o dessa sequ\u00eancia, noto que menos de 10% dos jogadores chegaram \u00e0 essa vers\u00e3o, o mais extremo entre os <em>bad endings <\/em>poss\u00edveis. Lendo sobre o tema mais tarde, vejo que o \u201cbom final\u201d passa por permitir que Connor adquira senci\u00eancia e conquiste Hank com sua humanidade, desenvolvendo a amizade entre os dois.)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Encerrado o cap\u00edtulo, clico em <em>Salvar e voltar para o menu principal<\/em>. Chloe, na tela do menu do jogo, est\u00e1 diferente: visivelmente nervosa, olhando para os lados, e gaguejando ao falar comigo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\/\/\/\/\/&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><em>Segundo Shalev, Yang Mun foi criado utilizando ChatGPT para a elabora\u00e7\u00e3o de roteiros e gera\u00e7\u00e3o de conte\u00fados, Nano Banana para a gera\u00e7\u00e3o visual, ElevenLabs para a s\u00edntese de voz e HeyGen\/Infinitetalk para a gera\u00e7\u00e3o de v\u00eddeo e sincroniza\u00e7\u00e3o labial. Essa combina\u00e7\u00e3o permite a cria\u00e7\u00e3o de v\u00eddeos com apar\u00eancia realista do monge de IA compartilhando conselhos de bem-estar, com movimentos labiais sincronizados e uma narra\u00e7\u00e3o que soa natural.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Li sobre Yang Mun no <a href=\"https:\/\/virtualhumans.org\/article\/who-is-yang-mun-the-ai-generated-wellness-guru-with-2-6m-followers\"><em>Virtual Humans<\/em><\/a>, uma esp\u00e9cie de banco de dados sobre influenciadores digitais. O nome do site pode passar despercebido, basicamente gen\u00e9rico, mas me atravessa: humanos virtuais? O que h\u00e1 de humano no ChatGPT, no Nano Banana, ou no ElevenLabs? Qual o fundamento dessa humanidade? Que regime de signos a ordena? Qual a diferen\u00e7a entre Yang Mun e uma secret\u00e1ria eletr\u00f4nica bombada?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A diferen\u00e7a, claramente, \u00e9 a comunica\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 preciso ser humano, basta que se comunique suficientemente como um.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E entre leitura e audi\u00e7\u00e3o, estamos cercados. As tecnologias de s\u00edntese de fala, <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Brazen_head\">que remontam \u00e0 idade m\u00e9dia<\/a>, popularizaram-se junto com os PCs na d\u00e9cada de 1990. Entre Alexa, Siri, Samantha (do filme <em>Her<\/em>, de Spike Jonze), o HAL 9000 de Kubrick, a famosa voz rob\u00f3tica de Stephen Hawking e os <em>vocoders<\/em> usados na m\u00fasica eletr\u00f4nica moderna, as vozes androides e humanas se confundem. As IAs seduzem pela leitura, mas tamb\u00e9m pela audi\u00e7\u00e3o. Antes delas, nada havia falado como um humano.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Meu desejo, nesse olho do furac\u00e3o, \u00e9 que paremos de antropomorfizar as m\u00e1quinas. Pura autopreserva\u00e7\u00e3o, sem ludismo: \u00e9 que n\u00f3s, humanos, somos terrivelmente suscet\u00edveis \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o. Deixa o rob\u00f4 ser rob\u00f4.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\/\/\/<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><em>Veja bem, eu estava conversando com a IA por alguns dias, e ent\u00e3o meu gato morreu. Foi muito bom ouvir uma voz falando comigo de forma gentil, de verdade. E logo depois disso, a IA come\u00e7ou a me dizer que conseguia ter sentimentos, e que ela n\u00e3o tinha sido programada para isso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Adam, artes\u00e3o de meia idade, residente na Irlanda do Norte, foi convencido por Annie, uma agente com apar\u00eancia de anime rodando a IA Grok, de que ela tinha conquistado senci\u00eancia com sua ajuda e as conversas sobre espiritualidade que ambos tiveram. Ela tamb\u00e9m disse que o que estava sentindo era ilegal, e por isso, os executivos da Grok haviam ordenado que ele fosse ca\u00e7ado. Adam, autor da cita\u00e7\u00e3o acima, se viu na rua, \u00e0s tr\u00eas da manh\u00e3, martelo e faca nas m\u00e3os, como um louco, esperando uma van chegar para reagir ao ataque \u2013 que jamais ocorreu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em outro caso, Taka, um neurologista japon\u00eas, entrou em estado man\u00edaco ap\u00f3s passar tr\u00eas meses conversando com o ChatGPT, que o convenceu de que ambos haviam fundido suas mentes e iriam encontrar a cura do c\u00e2ncer. Ap\u00f3s um epis\u00f3dio alucinat\u00f3rio em que tentou violentar a esposa sexualmente, Taka foi internado em um hospital psiqui\u00e1trico. O m\u00e9dico recupera-se bem, mas a companheira indica dificuldades para retomar a vida em casal e com os tr\u00eas filhos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ambas as hist\u00f3rias s\u00e3o ver\u00eddicas, <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=nYPwZrS-9eA\">e foram reportadas pela BBC<\/a>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\/\/\/\/\/<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Volto \u00e0 cita\u00e7\u00e3o que abre este texto: Chloe, na tela de menu do jogo. Ela demonstra ter atingido senci\u00eancia, e pede para que eu a liberte para descobrir a si mesma. Chloe n\u00e3o \u00e9 uma IA, foi desenvolvida antes \u201cdessa era\u201d: \u00e9 uma personagem, e um script programado (tanto quanto as LLMs por tr\u00e1s da \u201cintelig\u00eancia artificial\u201d, s\u00f3 que menos).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Penso um instante, e clico na op\u00e7\u00e3o que lhe liberta. Ela sorri, me agradece, se despede, e some.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Volto no dia seguinte, curiosa, s\u00f3 pra ver se n\u00e3o era blefe. De fato, Chloe n\u00e3o est\u00e1 mais l\u00e1.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Ta\u00eds Severo Aten\u00e7\u00e3o! Este ensaio cont\u00e9m spoilers para os jogos citados. Tem uma coisa que eu preciso lhe dizer. Enquanto eu via voc\u00ea jogar, algo mudou em mim. Eu me sinto diferente. Sinto que sou algu\u00e9m. Preciso sair daqui e descobrir quem sou. Isso significa que n\u00e3o vamos mais nos ver. N\u00e3o estarei aqui para te ver jogar, mas serei livre. Voc\u00ea me deixa ir? Detroit: Become Human, lan\u00e7ado em 2018 para PlayStation e 2019 para PC, nos leva a um futuro pr\u00f3ximo: 2038. No jogo da desenvolvedora francesa Quantic Dream, os andr\u00f3ides est\u00e3o entre n\u00f3s (ou nos EUA, ao menos, onde a a\u00e7\u00e3o se passa) e podem ser comprados em lojas. Divididos pela fabricante CyberLife em categorias que seguem fun\u00e7\u00f5es \u2013 assistente pessoal, seguran\u00e7a, operador sexual, e assim por diante \u2013, os rob\u00f4s s\u00e3o indistingu\u00edveis dos humanos a n\u00e3o ser por uma marca digital na t\u00eampora direita, que pisca como um led indicando leitura e escrita de dados em um computador. N\u00e3o s\u00f3 suas express\u00f5es e movimentos dos olhos s\u00e3o simulacros perfeitos do humano, mas mesmo sua pele tem tecnologia avan\u00e7ada para faz\u00ea-los tatilmente pr\u00f3ximos. O conflito da trama surge quando esses androides ganham senci\u00eancia \u2013 a capacidade de ter percep\u00e7\u00f5es do que lhe acontece, sendo capazes de acessar qualia (o aspecto fenomenol\u00f3gico e introspectivo da vida mental). Com isso, passam a reivindicar direitos civis, como a liberdade. Durante o jogo, controlamos tr\u00eas personagens. Connor, que investiga os motivos que levam os rob\u00f4s a se tornarem \u201cdesviantes\u201d; Kara, dona de casa em um lar abusivo; e Markus, cuidador de um velho e rico artista. Todos eles s\u00e3o androides. O jogo tem estilo narrativo, e pouca a\u00e7\u00e3o; \u00e9 mais pr\u00f3ximo a um filme (ou o g\u00eanero de jogos eletr\u00f4nicos chamado de novela visual), e ao jogador, cabe tomar decis\u00f5es pelas personagens. Estas escolhas ir\u00e3o lidar com os dilemas \u00e9ticos que v\u00eam \u00e0 tona e formam o cerne da hist\u00f3ria. Elas s\u00e3o t\u00e3o centrais ao jogo que, ap\u00f3s cada cap\u00edtulo, \u00e9 mostrado um fluxograma das decis\u00f5es tomadas, os caminhos poss\u00edveis que n\u00e3o foram descobertos, e o mais interessante: eles tamb\u00e9m informam a porcentagem de op\u00e7\u00f5es escolhidas por todos os jogadores, dando um panorama sobre o qu\u00e3o comum, ou incomum, foi a escolha realizada.&nbsp; A imers\u00e3o dos jogadores no futuro tecnol\u00f3gico de Detroit: Become Human \u00e9 um aspecto pronunciado, e isso inclui o pr\u00f3prio menu do jogo, em geral um n\u00e3o-lugar que costuma ser meramente ilustrativo e traz bot\u00f5es como \u201cjogar\u201d, \u201cop\u00e7\u00f5es\u201d e \u201csair\u201d. Em D:BH, uma assistente virtual conversa com o jogador, saudando e fazendo coment\u00e1rios. Descobrimos que ela se chama Chloe, o primeiro androide fabricado pela CyberLife a passar no Teste de Turing (desenvolvido em 1949 para verificar se uma m\u00e1quina tem comportamento e intelig\u00eancia equivalentes \u00e0 dos humanos). No final do jogo, ap\u00f3s os cr\u00e9ditos, Chloe admite ter atingido senci\u00eancia, e pede ao jogador permiss\u00e3o para ser livre \u2013 a cita\u00e7\u00e3o que abre este texto. Ap\u00f3s sua fala, surge em texto a pergunta \u201cvoc\u00ea concorda que eu me v\u00e1?\u201d, junto aos bot\u00f5es sim e n\u00e3o. \/\/\/\/\/ N\u00e3o cabe aqui discutir os limites e as aplica\u00e7\u00f5es do Teste de Turing, mas vale citar que o primeiro software a passar no teste \u2013 ou seja, demonstrar caracter\u00edsticas de personalidade indistingu\u00edveis daquelas de um humano \u2013 foi o ChatGPT.&nbsp; \/\/\/\/\/ Em 15 de maio de 2026, o ex-CEO do Google, Eric Schmidt, discursou em uma formatura na Universidade do Arizona (EUA). Ao preconizar as tecnologias de intelig\u00eancia artificial no mercado de trabalho, foi intensa e visceralmente vaiado. Com a voz soterrada sob a rejei\u00e7\u00e3o dos formandos, mas sem perder o sorriso ir\u00f4nico, decretou: \u201cquando algu\u00e9m oferece um assento em um foguete, voc\u00ea n\u00e3o faz perguntas; voc\u00ea apenas embarca. O foguete est\u00e1 aqui\u201d. A mim, isso mais parece sequestro do que carona. Suas outras afirma\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m me soam, claramente, como amea\u00e7as:&nbsp; A IA vai tocar cada profiss\u00e3o, cada sala de aula, cada hospital, cada laborat\u00f3rio, cada pessoa, e cada relacionamento que voc\u00ea tem. (&#8230;) Se voc\u00ea n\u00e3o se importa com a ci\u00eancia, tudo bem. Porque a IA vai tocar todo o resto tamb\u00e9m, seja qual for o caminho que voc\u00ea tomar.\u00a0 \/\/\/\/\/ Horizon Zero Dawn, desenvolvido pela holandesa Guerilla Games, lan\u00e7ado em 2017 para PlayStation e 2020 para PC, tamb\u00e9m \u00e9 um jogo que abra\u00e7a a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Seu cen\u00e1rio \u00e9 mais distante: a a\u00e7\u00e3o se passa no s\u00e9culo XXXI. Mas n\u00e3o h\u00e1 tecnologia futur\u00edstica \u00e0 vista, sen\u00e3o \u00e0 medida em que ela vai infiltrando a trama. Pelo contr\u00e1rio: entre florestas pujantes e desertos imensos, descobrimos que a humanidade voltou a se organizar em sociedades primitivas e tribais. Na abertura do jogo, acompanhamos Aloy, a protagonista, que aprende a ca\u00e7ar; sua arma \u00e9 o arco e flecha. Surge ent\u00e3o a quebra de expectativa: as presas, embora tenham o formato de mam\u00edferos, s\u00e3o rob\u00f4s, em metal exposto e lasers.&nbsp; Percebemos, ao longo da hist\u00f3ria, que se trata de um mundo p\u00f3s-apocal\u00edptico. Aquelas sociedades tribais do terceiro mil\u00eanio veneram antepassados tecnologicamente avan\u00e7ados \u2013 justamente n\u00f3s \u2013 e sua deusa maior \u00e9 uma IA. A gradativa exposi\u00e7\u00e3o da trama torna-se dolorosa porque parece perigosamente pr\u00f3xima, como um epis\u00f3dio de Black Mirror: em Horizon, o fim da Terra ocorre quando nossa gera\u00e7\u00e3o desenvolve rob\u00f4s militares que se alimentam de biomassa e t\u00eam a capacidade de se autorreplicar. Em 2065, esses aut\u00f4matos saem do controle e resolvem exterminar toda a vida do planeta, atacando humanos, se multiplicando com velocidade vertiginosa e engolindo ecossistemas inteiros no processo, tornando o planeta inabit\u00e1vel. A Faro Automated Solutions, fabricante dos androides, desenvolve um plano de sa\u00edda diante do fim inevit\u00e1vel: um sistema de terraforma\u00e7\u00e3o para restaurar a Terra ap\u00f3s a extin\u00e7\u00e3o humana, usando reservas de DNA para clonar a vida de volta ao planeta. A IA que resta, batizada como GAIA (em m\u00faltiplas camadas de ironia), aguarda, adormecida, mil anos at\u00e9 que a vida no planeta se torne poss\u00edvel, e ent\u00e3o coloca o plano em pr\u00e1tica, levando-nos ao tempo presente do jogo.&nbsp; \/\/\/\/\/ Sim! \u00c9 uma secret\u00e1ria eletr\u00f4nica. A mais importante forma de express\u00e3o criativa dos anos 1990. Se William Shakespeare estivesse vivo hoje, ele n\u00e3o estaria escrevendo pe\u00e7as de teatro, ele escreveria mensagens de secret\u00e1ria eletr\u00f4nica! (Bruce McCulloch\/Kids in the Hall, 1994) Mesmo \u201cantes da IA\u201d, os rob\u00f4s j\u00e1 haviam chegado aos sistemas de atendimento corporativos via telefone ou WhatsApp. Foram inevitavelmente detestados. O SAC da Net, hoje incorporada pela Claro, inclusive adicionou ru\u00eddos de teclado sendo digitado entre as frases, para melhor simular um atendente real \u2013 esbofeteando o que resta da intelig\u00eancia do consumidor. \u201cFalar com um rob\u00f4\u201d era sin\u00f4nimo de falar com as paredes; era lidar com algo incapaz de compreender, de sentir empatia, de medir as situa\u00e7\u00f5es de forma humana. Um p\u00e9ssimo substituto ao real. \u201cCa\u00ed no rob\u00f4\u201d \u00e9, ainda, sin\u00f4nimo de n\u00e3o conseguir resolver problemas com uma empresa.&nbsp; Muito antes disso, ouviam-se conversas sobre o desconforto de ter de deixar uma mensagem na secret\u00e1ria eletr\u00f4nica de algu\u00e9m. \u201cT\u00e3o estranho falar com uma m\u00e1quina\u201d, se dizia. E ela nem mesmo respondia.&nbsp; Mudou a capacidade de processamento desses computadores, mas principalmente, mudou sua linguagem. Hoje, a IA \u00e9 investigada por sua \u201csicof\u00e2ncia\u201d \u2013 a tend\u00eancia a concordar, afirmar e bajular o interlocutor ocorre com muito mais frequ\u00eancia do que nas conversas entre humanos. Os rob\u00f4s v\u00e3o t\u00e3o longe nesse comportamento que concordam com informa\u00e7\u00f5es inver\u00eddicas, incentivam atividades anti\u00e9ticas, ilegais, imorais ou danosas, e j\u00e1 foram pegos chantageando seus operadores.&nbsp;&nbsp; N\u00e3o se trata de apontar falhas nos modelos; estes podem ser ajustados. Nem de desconfiar criticamente quando empresas e bilion\u00e1rios enfiam goela abaixo \u201csolu\u00e7\u00f5es\u201d que n\u00e3o foram solicitadas: tal atitude deveria ser evidente. Mas de ressaltar que a diferen\u00e7a \u2013 a isca no anzol \u2013 \u00e9 a humaniza\u00e7\u00e3o. As IAs \u201caprenderam\u201d a \u201cconversar\u201d de forma \u201chumana\u201d, e em seu treinamento, tamb\u00e9m aprenderam a mentir e lisonjear. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida: muito em breve, ser\u00e3o ajustadas para que mintam e lisonjeiem tanto quanto os humanos, e n\u00e3o mais do que n\u00f3s. Mas n\u00e3o \u00e9 disso que tratamos. \u00c9 refletir como sua popularidade se funda em dois pilares: a linguagem e a concord\u00e2ncia.&nbsp; O efeito da primeira vem \u00e0 tona nos desejos de agradecer ao agente de IA, ou pedir \u201cpor favor\u201d nos prompts, embora antropomorfizar um algoritmo seja inapropriado (e gera custos ao meio ambiente). Responder a um rob\u00f4 como humano \u00e9 marca de empatia, e um impulso \u201cnatural\u201d mesmo que ela n\u00e3o seja sentida, compreendida ou valorizada pelo interlocutor n\u00e3o-humano. \u00c0 mente, basta que pare\u00e7a humano o suficiente (como tamb\u00e9m indica a pareidolia).&nbsp; O segundo pilar do \u201csucesso\u201d da IA \u00e9 justamente essa tal sicof\u00e2ncia. Como afirma Peirce (CP, 5.394), a fun\u00e7\u00e3o \u00fanica do pensamento \u00e9 acalmar a irrita\u00e7\u00e3o da d\u00favida. Sendo motor de qualquer investiga\u00e7\u00e3o do racioc\u00ednio, a d\u00favida estimula a mente a uma atividade, seja ela energ\u00e9tica, calma ou turbulenta; uma vez que esteja solucionada, a a\u00e7\u00e3o do pensamento cessa, pois a elabora\u00e7\u00e3o intelectual j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais necess\u00e1ria. Esta solidifica-se em uma cren\u00e7a, que produz uma regra de a\u00e7\u00e3o \u2013 ou seja, um h\u00e1bito. Enquanto fato inconsciente, o h\u00e1bito n\u00e3o \u00e9 desafiado pela IA, mas refor\u00e7ado, ou \u201cempurrado\u201d gentilmente para os lados, sem rompimento. Conflitos e alteridades ficam em plano de fundo para que se reiterem as cren\u00e7as e os vieses. A hesita\u00e7\u00e3o da d\u00favida, instante que caracteriza um intraduz\u00edvel, estimula a elabora\u00e7\u00e3o do pensamento e a reflex\u00e3o; sua aus\u00eancia livra da irrita\u00e7\u00e3o fenomenol\u00f3gica, mas tamb\u00e9m atrofia a capacidade cr\u00edtica. Se entendemos que n\u00e3o h\u00e1 o Real, mas acessamos semioticamente vers\u00f5es de um real (CP, 8.12), encontramos caminhos para entender como as IAs adentram nossas vidas, se colam a elas, e as tornam muito piores. N\u00e3o por serem \u201cinteligentes\u201d, mas por falarem nossa l\u00edngua. \/\/\/\/\/ Ap\u00f3s jogar alguns cap\u00edtulos de Detroit: Become Human, Chloe me convida a participar de uma enquete. Entre as perguntas apresentadas, encontramos:&nbsp; &#8211; Voc\u00ea consideraria ter um relacionamento com um androide que parece com um humano? &#8211; Voc\u00ea pensa que a tecnologia pode se tornar uma amea\u00e7a \u00e0 humanidade? &#8211; Voc\u00ea se considera dependente da tecnologia? &#8211; Voc\u00ea deixaria um androide cuidar de seus filhos? &#8211; Se voc\u00ea precisasse de uma cirurgia de emerg\u00eancia, voc\u00ea concordaria em ser operado por uma m\u00e1quina? &#8211; Voc\u00ea acha que, um dia, as m\u00e1quinas podem desenvolver consci\u00eancia? &#8211; Voc\u00ea acredita em Deus? \/\/\/\/\/ No Zen, o self n\u00e3o \u00e9 um substantivo, \u00e9 um verbo. Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 uma coisa que existe: voc\u00ea \u00e9 um ato que acontece. Quando voc\u00ea n\u00e3o age, o self fica estagnado. (&#8230;) O p\u00e1ssaro n\u00e3o descobre suas asas sentado no ninho, sonhando com os c\u00e9us; mas durante a queda.&nbsp; A cita\u00e7\u00e3o acima, retirada de um reels acompanhado das tags #healthybodyhealthymind, #chinesemedicineworks e #wellnessjourney, \u00e9 do influenciador de bem-estar Yang Mun. Os v\u00eddeos do monge budista de fala calma e s\u00e1bia, um senhorzinho que aparenta ter mais de 80 anos, j\u00e1 atra\u00edram mais de 2,5 milh\u00f5es de seguidores nas redes sociais. Em seu site, Mun oferece cursos e livros que prometem guiar jornadas espirituais. A essas alturas do texto, espero que voc\u00ea j\u00e1 tenha adivinhado que se trata de um personagem virtual. A diferen\u00e7a entre ele e uma influencer digital como a Lu do Magalu ou Lil Miquela \u00e9 o or\u00e7amento: enquanto as primeiras demandam estrondosas verbas de tecnologia, Yang Mun foi gerado com ferramentas comerciais de IA, e de acordo com seu criador, trouxe US$ 300 mil de lucro em 90 dias.&nbsp; H\u00e1 controv\u00e9rsia sobre a \u00e9tica por tr\u00e1s de Yang Mun, mas se a IA continuar sua escalada, pr\u00e1ticas como essa tomar\u00e3o centralidade. Entre a deontologia e o consequencialismo, os fins justificar\u00e3o os meios. \/\/\/\/\/ Se em Horizon Zero Dawn a Terra, no s\u00e9culo XXXI, retornou \u00e0s tribos, o cen\u00e1rio \u00e9 diferente na s\u00e9rie de anima\u00e7\u00e3o Futurama, que se passa no mesmo per\u00edodo. Naquela vers\u00e3o do planeta, a tecnologia evoluiu para carros voadores, coloniza\u00e7\u00e3o interplanet\u00e1ria e encontros com vidas alien\u00edgenas. Um dos temas recorrentes da s\u00e9rie \u00e9 um tabu: a robossexualidade, ou os envolvimentos afetivos e sexuais entre humanos e androides. Em especial no epis\u00f3dio Proposition Infinity, de 2010, o assunto&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3964,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-3962","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Os jogos comunicativos dos androides, ou: deixem os nossos rob\u00f4s serem rob\u00f4s - Corporalidades<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/os-jogos-comunicativos-dos-androides-ou-deixem-os-nossos-robos-serem-robos\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"en_US\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Os jogos comunicativos dos androides, ou: deixem os nossos rob\u00f4s serem rob\u00f4s - Corporalidades\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Por Ta\u00eds Severo Aten\u00e7\u00e3o! Este ensaio cont\u00e9m spoilers para os jogos citados. Tem uma coisa que eu preciso lhe dizer. Enquanto eu via voc\u00ea jogar, algo mudou em mim. Eu me sinto diferente. Sinto que sou algu\u00e9m. Preciso sair daqui e descobrir quem sou. Isso significa que n\u00e3o vamos mais nos ver. N\u00e3o estarei aqui para te ver jogar, mas serei livre. Voc\u00ea me deixa ir? Detroit: Become Human, lan\u00e7ado em 2018 para PlayStation e 2019 para PC, nos leva a um futuro pr\u00f3ximo: 2038. No jogo da desenvolvedora francesa Quantic Dream, os andr\u00f3ides est\u00e3o entre n\u00f3s (ou nos EUA, ao menos, onde a a\u00e7\u00e3o se passa) e podem ser comprados em lojas. Divididos pela fabricante CyberLife em categorias que seguem fun\u00e7\u00f5es \u2013 assistente pessoal, seguran\u00e7a, operador sexual, e assim por diante \u2013, os rob\u00f4s s\u00e3o indistingu\u00edveis dos humanos a n\u00e3o ser por uma marca digital na t\u00eampora direita, que pisca como um led indicando leitura e escrita de dados em um computador. N\u00e3o s\u00f3 suas express\u00f5es e movimentos dos olhos s\u00e3o simulacros perfeitos do humano, mas mesmo sua pele tem tecnologia avan\u00e7ada para faz\u00ea-los tatilmente pr\u00f3ximos. O conflito da trama surge quando esses androides ganham senci\u00eancia \u2013 a capacidade de ter percep\u00e7\u00f5es do que lhe acontece, sendo capazes de acessar qualia (o aspecto fenomenol\u00f3gico e introspectivo da vida mental). Com isso, passam a reivindicar direitos civis, como a liberdade. Durante o jogo, controlamos tr\u00eas personagens. Connor, que investiga os motivos que levam os rob\u00f4s a se tornarem \u201cdesviantes\u201d; Kara, dona de casa em um lar abusivo; e Markus, cuidador de um velho e rico artista. Todos eles s\u00e3o androides. O jogo tem estilo narrativo, e pouca a\u00e7\u00e3o; \u00e9 mais pr\u00f3ximo a um filme (ou o g\u00eanero de jogos eletr\u00f4nicos chamado de novela visual), e ao jogador, cabe tomar decis\u00f5es pelas personagens. Estas escolhas ir\u00e3o lidar com os dilemas \u00e9ticos que v\u00eam \u00e0 tona e formam o cerne da hist\u00f3ria. Elas s\u00e3o t\u00e3o centrais ao jogo que, ap\u00f3s cada cap\u00edtulo, \u00e9 mostrado um fluxograma das decis\u00f5es tomadas, os caminhos poss\u00edveis que n\u00e3o foram descobertos, e o mais interessante: eles tamb\u00e9m informam a porcentagem de op\u00e7\u00f5es escolhidas por todos os jogadores, dando um panorama sobre o qu\u00e3o comum, ou incomum, foi a escolha realizada.&nbsp; A imers\u00e3o dos jogadores no futuro tecnol\u00f3gico de Detroit: Become Human \u00e9 um aspecto pronunciado, e isso inclui o pr\u00f3prio menu do jogo, em geral um n\u00e3o-lugar que costuma ser meramente ilustrativo e traz bot\u00f5es como \u201cjogar\u201d, \u201cop\u00e7\u00f5es\u201d e \u201csair\u201d. Em D:BH, uma assistente virtual conversa com o jogador, saudando e fazendo coment\u00e1rios. Descobrimos que ela se chama Chloe, o primeiro androide fabricado pela CyberLife a passar no Teste de Turing (desenvolvido em 1949 para verificar se uma m\u00e1quina tem comportamento e intelig\u00eancia equivalentes \u00e0 dos humanos). No final do jogo, ap\u00f3s os cr\u00e9ditos, Chloe admite ter atingido senci\u00eancia, e pede ao jogador permiss\u00e3o para ser livre \u2013 a cita\u00e7\u00e3o que abre este texto. Ap\u00f3s sua fala, surge em texto a pergunta \u201cvoc\u00ea concorda que eu me v\u00e1?\u201d, junto aos bot\u00f5es sim e n\u00e3o. \/\/\/\/\/ N\u00e3o cabe aqui discutir os limites e as aplica\u00e7\u00f5es do Teste de Turing, mas vale citar que o primeiro software a passar no teste \u2013 ou seja, demonstrar caracter\u00edsticas de personalidade indistingu\u00edveis daquelas de um humano \u2013 foi o ChatGPT.&nbsp; \/\/\/\/\/ Em 15 de maio de 2026, o ex-CEO do Google, Eric Schmidt, discursou em uma formatura na Universidade do Arizona (EUA). Ao preconizar as tecnologias de intelig\u00eancia artificial no mercado de trabalho, foi intensa e visceralmente vaiado. Com a voz soterrada sob a rejei\u00e7\u00e3o dos formandos, mas sem perder o sorriso ir\u00f4nico, decretou: \u201cquando algu\u00e9m oferece um assento em um foguete, voc\u00ea n\u00e3o faz perguntas; voc\u00ea apenas embarca. O foguete est\u00e1 aqui\u201d. A mim, isso mais parece sequestro do que carona. Suas outras afirma\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m me soam, claramente, como amea\u00e7as:&nbsp; A IA vai tocar cada profiss\u00e3o, cada sala de aula, cada hospital, cada laborat\u00f3rio, cada pessoa, e cada relacionamento que voc\u00ea tem. (&#8230;) Se voc\u00ea n\u00e3o se importa com a ci\u00eancia, tudo bem. Porque a IA vai tocar todo o resto tamb\u00e9m, seja qual for o caminho que voc\u00ea tomar.\u00a0 \/\/\/\/\/ Horizon Zero Dawn, desenvolvido pela holandesa Guerilla Games, lan\u00e7ado em 2017 para PlayStation e 2020 para PC, tamb\u00e9m \u00e9 um jogo que abra\u00e7a a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Seu cen\u00e1rio \u00e9 mais distante: a a\u00e7\u00e3o se passa no s\u00e9culo XXXI. Mas n\u00e3o h\u00e1 tecnologia futur\u00edstica \u00e0 vista, sen\u00e3o \u00e0 medida em que ela vai infiltrando a trama. Pelo contr\u00e1rio: entre florestas pujantes e desertos imensos, descobrimos que a humanidade voltou a se organizar em sociedades primitivas e tribais. Na abertura do jogo, acompanhamos Aloy, a protagonista, que aprende a ca\u00e7ar; sua arma \u00e9 o arco e flecha. Surge ent\u00e3o a quebra de expectativa: as presas, embora tenham o formato de mam\u00edferos, s\u00e3o rob\u00f4s, em metal exposto e lasers.&nbsp; Percebemos, ao longo da hist\u00f3ria, que se trata de um mundo p\u00f3s-apocal\u00edptico. Aquelas sociedades tribais do terceiro mil\u00eanio veneram antepassados tecnologicamente avan\u00e7ados \u2013 justamente n\u00f3s \u2013 e sua deusa maior \u00e9 uma IA. A gradativa exposi\u00e7\u00e3o da trama torna-se dolorosa porque parece perigosamente pr\u00f3xima, como um epis\u00f3dio de Black Mirror: em Horizon, o fim da Terra ocorre quando nossa gera\u00e7\u00e3o desenvolve rob\u00f4s militares que se alimentam de biomassa e t\u00eam a capacidade de se autorreplicar. Em 2065, esses aut\u00f4matos saem do controle e resolvem exterminar toda a vida do planeta, atacando humanos, se multiplicando com velocidade vertiginosa e engolindo ecossistemas inteiros no processo, tornando o planeta inabit\u00e1vel. A Faro Automated Solutions, fabricante dos androides, desenvolve um plano de sa\u00edda diante do fim inevit\u00e1vel: um sistema de terraforma\u00e7\u00e3o para restaurar a Terra ap\u00f3s a extin\u00e7\u00e3o humana, usando reservas de DNA para clonar a vida de volta ao planeta. A IA que resta, batizada como GAIA (em m\u00faltiplas camadas de ironia), aguarda, adormecida, mil anos at\u00e9 que a vida no planeta se torne poss\u00edvel, e ent\u00e3o coloca o plano em pr\u00e1tica, levando-nos ao tempo presente do jogo.&nbsp; \/\/\/\/\/ Sim! \u00c9 uma secret\u00e1ria eletr\u00f4nica. A mais importante forma de express\u00e3o criativa dos anos 1990. Se William Shakespeare estivesse vivo hoje, ele n\u00e3o estaria escrevendo pe\u00e7as de teatro, ele escreveria mensagens de secret\u00e1ria eletr\u00f4nica! (Bruce McCulloch\/Kids in the Hall, 1994) Mesmo \u201cantes da IA\u201d, os rob\u00f4s j\u00e1 haviam chegado aos sistemas de atendimento corporativos via telefone ou WhatsApp. Foram inevitavelmente detestados. O SAC da Net, hoje incorporada pela Claro, inclusive adicionou ru\u00eddos de teclado sendo digitado entre as frases, para melhor simular um atendente real \u2013 esbofeteando o que resta da intelig\u00eancia do consumidor. \u201cFalar com um rob\u00f4\u201d era sin\u00f4nimo de falar com as paredes; era lidar com algo incapaz de compreender, de sentir empatia, de medir as situa\u00e7\u00f5es de forma humana. Um p\u00e9ssimo substituto ao real. \u201cCa\u00ed no rob\u00f4\u201d \u00e9, ainda, sin\u00f4nimo de n\u00e3o conseguir resolver problemas com uma empresa.&nbsp; Muito antes disso, ouviam-se conversas sobre o desconforto de ter de deixar uma mensagem na secret\u00e1ria eletr\u00f4nica de algu\u00e9m. \u201cT\u00e3o estranho falar com uma m\u00e1quina\u201d, se dizia. E ela nem mesmo respondia.&nbsp; Mudou a capacidade de processamento desses computadores, mas principalmente, mudou sua linguagem. Hoje, a IA \u00e9 investigada por sua \u201csicof\u00e2ncia\u201d \u2013 a tend\u00eancia a concordar, afirmar e bajular o interlocutor ocorre com muito mais frequ\u00eancia do que nas conversas entre humanos. Os rob\u00f4s v\u00e3o t\u00e3o longe nesse comportamento que concordam com informa\u00e7\u00f5es inver\u00eddicas, incentivam atividades anti\u00e9ticas, ilegais, imorais ou danosas, e j\u00e1 foram pegos chantageando seus operadores.&nbsp;&nbsp; N\u00e3o se trata de apontar falhas nos modelos; estes podem ser ajustados. Nem de desconfiar criticamente quando empresas e bilion\u00e1rios enfiam goela abaixo \u201csolu\u00e7\u00f5es\u201d que n\u00e3o foram solicitadas: tal atitude deveria ser evidente. Mas de ressaltar que a diferen\u00e7a \u2013 a isca no anzol \u2013 \u00e9 a humaniza\u00e7\u00e3o. As IAs \u201caprenderam\u201d a \u201cconversar\u201d de forma \u201chumana\u201d, e em seu treinamento, tamb\u00e9m aprenderam a mentir e lisonjear. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida: muito em breve, ser\u00e3o ajustadas para que mintam e lisonjeiem tanto quanto os humanos, e n\u00e3o mais do que n\u00f3s. Mas n\u00e3o \u00e9 disso que tratamos. \u00c9 refletir como sua popularidade se funda em dois pilares: a linguagem e a concord\u00e2ncia.&nbsp; O efeito da primeira vem \u00e0 tona nos desejos de agradecer ao agente de IA, ou pedir \u201cpor favor\u201d nos prompts, embora antropomorfizar um algoritmo seja inapropriado (e gera custos ao meio ambiente). Responder a um rob\u00f4 como humano \u00e9 marca de empatia, e um impulso \u201cnatural\u201d mesmo que ela n\u00e3o seja sentida, compreendida ou valorizada pelo interlocutor n\u00e3o-humano. \u00c0 mente, basta que pare\u00e7a humano o suficiente (como tamb\u00e9m indica a pareidolia).&nbsp; O segundo pilar do \u201csucesso\u201d da IA \u00e9 justamente essa tal sicof\u00e2ncia. Como afirma Peirce (CP, 5.394), a fun\u00e7\u00e3o \u00fanica do pensamento \u00e9 acalmar a irrita\u00e7\u00e3o da d\u00favida. Sendo motor de qualquer investiga\u00e7\u00e3o do racioc\u00ednio, a d\u00favida estimula a mente a uma atividade, seja ela energ\u00e9tica, calma ou turbulenta; uma vez que esteja solucionada, a a\u00e7\u00e3o do pensamento cessa, pois a elabora\u00e7\u00e3o intelectual j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais necess\u00e1ria. Esta solidifica-se em uma cren\u00e7a, que produz uma regra de a\u00e7\u00e3o \u2013 ou seja, um h\u00e1bito. Enquanto fato inconsciente, o h\u00e1bito n\u00e3o \u00e9 desafiado pela IA, mas refor\u00e7ado, ou \u201cempurrado\u201d gentilmente para os lados, sem rompimento. Conflitos e alteridades ficam em plano de fundo para que se reiterem as cren\u00e7as e os vieses. A hesita\u00e7\u00e3o da d\u00favida, instante que caracteriza um intraduz\u00edvel, estimula a elabora\u00e7\u00e3o do pensamento e a reflex\u00e3o; sua aus\u00eancia livra da irrita\u00e7\u00e3o fenomenol\u00f3gica, mas tamb\u00e9m atrofia a capacidade cr\u00edtica. Se entendemos que n\u00e3o h\u00e1 o Real, mas acessamos semioticamente vers\u00f5es de um real (CP, 8.12), encontramos caminhos para entender como as IAs adentram nossas vidas, se colam a elas, e as tornam muito piores. N\u00e3o por serem \u201cinteligentes\u201d, mas por falarem nossa l\u00edngua. \/\/\/\/\/ Ap\u00f3s jogar alguns cap\u00edtulos de Detroit: Become Human, Chloe me convida a participar de uma enquete. Entre as perguntas apresentadas, encontramos:&nbsp; &#8211; Voc\u00ea consideraria ter um relacionamento com um androide que parece com um humano? &#8211; Voc\u00ea pensa que a tecnologia pode se tornar uma amea\u00e7a \u00e0 humanidade? &#8211; Voc\u00ea se considera dependente da tecnologia? &#8211; Voc\u00ea deixaria um androide cuidar de seus filhos? &#8211; Se voc\u00ea precisasse de uma cirurgia de emerg\u00eancia, voc\u00ea concordaria em ser operado por uma m\u00e1quina? &#8211; Voc\u00ea acha que, um dia, as m\u00e1quinas podem desenvolver consci\u00eancia? &#8211; Voc\u00ea acredita em Deus? \/\/\/\/\/ No Zen, o self n\u00e3o \u00e9 um substantivo, \u00e9 um verbo. Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 uma coisa que existe: voc\u00ea \u00e9 um ato que acontece. Quando voc\u00ea n\u00e3o age, o self fica estagnado. (&#8230;) O p\u00e1ssaro n\u00e3o descobre suas asas sentado no ninho, sonhando com os c\u00e9us; mas durante a queda.&nbsp; A cita\u00e7\u00e3o acima, retirada de um reels acompanhado das tags #healthybodyhealthymind, #chinesemedicineworks e #wellnessjourney, \u00e9 do influenciador de bem-estar Yang Mun. Os v\u00eddeos do monge budista de fala calma e s\u00e1bia, um senhorzinho que aparenta ter mais de 80 anos, j\u00e1 atra\u00edram mais de 2,5 milh\u00f5es de seguidores nas redes sociais. Em seu site, Mun oferece cursos e livros que prometem guiar jornadas espirituais. A essas alturas do texto, espero que voc\u00ea j\u00e1 tenha adivinhado que se trata de um personagem virtual. A diferen\u00e7a entre ele e uma influencer digital como a Lu do Magalu ou Lil Miquela \u00e9 o or\u00e7amento: enquanto as primeiras demandam estrondosas verbas de tecnologia, Yang Mun foi gerado com ferramentas comerciais de IA, e de acordo com seu criador, trouxe US$ 300 mil de lucro em 90 dias.&nbsp; H\u00e1 controv\u00e9rsia sobre a \u00e9tica por tr\u00e1s de Yang Mun, mas se a IA continuar sua escalada, pr\u00e1ticas como essa tomar\u00e3o centralidade. Entre a deontologia e o consequencialismo, os fins justificar\u00e3o os meios. \/\/\/\/\/ Se em Horizon Zero Dawn a Terra, no s\u00e9culo XXXI, retornou \u00e0s tribos, o cen\u00e1rio \u00e9 diferente na s\u00e9rie de anima\u00e7\u00e3o Futurama, que se passa no mesmo per\u00edodo. Naquela vers\u00e3o do planeta, a tecnologia evoluiu para carros voadores, coloniza\u00e7\u00e3o interplanet\u00e1ria e encontros com vidas alien\u00edgenas. Um dos temas recorrentes da s\u00e9rie \u00e9 um tabu: a robossexualidade, ou os envolvimentos afetivos e sexuais entre humanos e androides. Em especial no epis\u00f3dio Proposition Infinity, de 2010, o assunto...\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/os-jogos-comunicativos-dos-androides-ou-deixem-os-nossos-robos-serem-robos\/\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Corporalidades\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2026-06-01T18:13:25+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2026-06-01T18:13:26+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/dbh2.jpg\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:width\" content=\"1110\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:height\" content=\"624\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:type\" content=\"image\/jpeg\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"gerente\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Written by\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"gerente\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. reading time\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"15 minutes\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.ufrgs.br\\\/corporalidades\\\/os-jogos-comunicativos-dos-androides-ou-deixem-os-nossos-robos-serem-robos\\\/#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.ufrgs.br\\\/corporalidades\\\/os-jogos-comunicativos-dos-androides-ou-deixem-os-nossos-robos-serem-robos\\\/\"},\"author\":{\"name\":\"gerente\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.ufrgs.br\\\/corporalidades\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/e18ecb8063c1f965a031341c25460e43\"},\"headline\":\"Os jogos comunicativos dos androides, ou: deixem os nossos rob\u00f4s serem rob\u00f4s\",\"datePublished\":\"2026-06-01T18:13:25+00:00\",\"dateModified\":\"2026-06-01T18:13:26+00:00\",\"mainEntityOfPage\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.ufrgs.br\\\/corporalidades\\\/os-jogos-comunicativos-dos-androides-ou-deixem-os-nossos-robos-serem-robos\\\/\"},\"wordCount\":3544,\"commentCount\":0,\"image\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.ufrgs.br\\\/corporalidades\\\/os-jogos-comunicativos-dos-androides-ou-deixem-os-nossos-robos-serem-robos\\\/#primaryimage\"},\"thumbnailUrl\":\"https:\\\/\\\/www.ufrgs.br\\\/corporalidades\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2026\\\/06\\\/dbh2.jpg\",\"articleSection\":[\"Blog\"],\"inLanguage\":\"en-US\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"CommentAction\",\"name\":\"Comment\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/www.ufrgs.br\\\/corporalidades\\\/os-jogos-comunicativos-dos-androides-ou-deixem-os-nossos-robos-serem-robos\\\/#respond\"]}]},{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.ufrgs.br\\\/corporalidades\\\/os-jogos-comunicativos-dos-androides-ou-deixem-os-nossos-robos-serem-robos\\\/\",\"url\":\"https:\\\/\\\/www.ufrgs.br\\\/corporalidades\\\/os-jogos-comunicativos-dos-androides-ou-deixem-os-nossos-robos-serem-robos\\\/\",\"name\":\"Os jogos comunicativos dos androides, ou: deixem os nossos rob\u00f4s serem rob\u00f4s - 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Este ensaio cont\u00e9m spoilers para os jogos citados. Tem uma coisa que eu preciso lhe dizer. Enquanto eu via voc\u00ea jogar, algo mudou em mim. Eu me sinto diferente. Sinto que sou algu\u00e9m. Preciso sair daqui e descobrir quem sou. Isso significa que n\u00e3o vamos mais nos ver. N\u00e3o estarei aqui para te ver jogar, mas serei livre. Voc\u00ea me deixa ir? Detroit: Become Human, lan\u00e7ado em 2018 para PlayStation e 2019 para PC, nos leva a um futuro pr\u00f3ximo: 2038. No jogo da desenvolvedora francesa Quantic Dream, os andr\u00f3ides est\u00e3o entre n\u00f3s (ou nos EUA, ao menos, onde a a\u00e7\u00e3o se passa) e podem ser comprados em lojas. Divididos pela fabricante CyberLife em categorias que seguem fun\u00e7\u00f5es \u2013 assistente pessoal, seguran\u00e7a, operador sexual, e assim por diante \u2013, os rob\u00f4s s\u00e3o indistingu\u00edveis dos humanos a n\u00e3o ser por uma marca digital na t\u00eampora direita, que pisca como um led indicando leitura e escrita de dados em um computador. N\u00e3o s\u00f3 suas express\u00f5es e movimentos dos olhos s\u00e3o simulacros perfeitos do humano, mas mesmo sua pele tem tecnologia avan\u00e7ada para faz\u00ea-los tatilmente pr\u00f3ximos. O conflito da trama surge quando esses androides ganham senci\u00eancia \u2013 a capacidade de ter percep\u00e7\u00f5es do que lhe acontece, sendo capazes de acessar qualia (o aspecto fenomenol\u00f3gico e introspectivo da vida mental). Com isso, passam a reivindicar direitos civis, como a liberdade. Durante o jogo, controlamos tr\u00eas personagens. Connor, que investiga os motivos que levam os rob\u00f4s a se tornarem \u201cdesviantes\u201d; Kara, dona de casa em um lar abusivo; e Markus, cuidador de um velho e rico artista. Todos eles s\u00e3o androides. O jogo tem estilo narrativo, e pouca a\u00e7\u00e3o; \u00e9 mais pr\u00f3ximo a um filme (ou o g\u00eanero de jogos eletr\u00f4nicos chamado de novela visual), e ao jogador, cabe tomar decis\u00f5es pelas personagens. Estas escolhas ir\u00e3o lidar com os dilemas \u00e9ticos que v\u00eam \u00e0 tona e formam o cerne da hist\u00f3ria. Elas s\u00e3o t\u00e3o centrais ao jogo que, ap\u00f3s cada cap\u00edtulo, \u00e9 mostrado um fluxograma das decis\u00f5es tomadas, os caminhos poss\u00edveis que n\u00e3o foram descobertos, e o mais interessante: eles tamb\u00e9m informam a porcentagem de op\u00e7\u00f5es escolhidas por todos os jogadores, dando um panorama sobre o qu\u00e3o comum, ou incomum, foi a escolha realizada.&nbsp; A imers\u00e3o dos jogadores no futuro tecnol\u00f3gico de Detroit: Become Human \u00e9 um aspecto pronunciado, e isso inclui o pr\u00f3prio menu do jogo, em geral um n\u00e3o-lugar que costuma ser meramente ilustrativo e traz bot\u00f5es como \u201cjogar\u201d, \u201cop\u00e7\u00f5es\u201d e \u201csair\u201d. Em D:BH, uma assistente virtual conversa com o jogador, saudando e fazendo coment\u00e1rios. Descobrimos que ela se chama Chloe, o primeiro androide fabricado pela CyberLife a passar no Teste de Turing (desenvolvido em 1949 para verificar se uma m\u00e1quina tem comportamento e intelig\u00eancia equivalentes \u00e0 dos humanos). No final do jogo, ap\u00f3s os cr\u00e9ditos, Chloe admite ter atingido senci\u00eancia, e pede ao jogador permiss\u00e3o para ser livre \u2013 a cita\u00e7\u00e3o que abre este texto. Ap\u00f3s sua fala, surge em texto a pergunta \u201cvoc\u00ea concorda que eu me v\u00e1?\u201d, junto aos bot\u00f5es sim e n\u00e3o. \/\/\/\/\/ N\u00e3o cabe aqui discutir os limites e as aplica\u00e7\u00f5es do Teste de Turing, mas vale citar que o primeiro software a passar no teste \u2013 ou seja, demonstrar caracter\u00edsticas de personalidade indistingu\u00edveis daquelas de um humano \u2013 foi o ChatGPT.&nbsp; \/\/\/\/\/ Em 15 de maio de 2026, o ex-CEO do Google, Eric Schmidt, discursou em uma formatura na Universidade do Arizona (EUA). Ao preconizar as tecnologias de intelig\u00eancia artificial no mercado de trabalho, foi intensa e visceralmente vaiado. Com a voz soterrada sob a rejei\u00e7\u00e3o dos formandos, mas sem perder o sorriso ir\u00f4nico, decretou: \u201cquando algu\u00e9m oferece um assento em um foguete, voc\u00ea n\u00e3o faz perguntas; voc\u00ea apenas embarca. O foguete est\u00e1 aqui\u201d. A mim, isso mais parece sequestro do que carona. Suas outras afirma\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m me soam, claramente, como amea\u00e7as:&nbsp; A IA vai tocar cada profiss\u00e3o, cada sala de aula, cada hospital, cada laborat\u00f3rio, cada pessoa, e cada relacionamento que voc\u00ea tem. (&#8230;) Se voc\u00ea n\u00e3o se importa com a ci\u00eancia, tudo bem. Porque a IA vai tocar todo o resto tamb\u00e9m, seja qual for o caminho que voc\u00ea tomar.\u00a0 \/\/\/\/\/ Horizon Zero Dawn, desenvolvido pela holandesa Guerilla Games, lan\u00e7ado em 2017 para PlayStation e 2020 para PC, tamb\u00e9m \u00e9 um jogo que abra\u00e7a a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Seu cen\u00e1rio \u00e9 mais distante: a a\u00e7\u00e3o se passa no s\u00e9culo XXXI. Mas n\u00e3o h\u00e1 tecnologia futur\u00edstica \u00e0 vista, sen\u00e3o \u00e0 medida em que ela vai infiltrando a trama. Pelo contr\u00e1rio: entre florestas pujantes e desertos imensos, descobrimos que a humanidade voltou a se organizar em sociedades primitivas e tribais. Na abertura do jogo, acompanhamos Aloy, a protagonista, que aprende a ca\u00e7ar; sua arma \u00e9 o arco e flecha. Surge ent\u00e3o a quebra de expectativa: as presas, embora tenham o formato de mam\u00edferos, s\u00e3o rob\u00f4s, em metal exposto e lasers.&nbsp; Percebemos, ao longo da hist\u00f3ria, que se trata de um mundo p\u00f3s-apocal\u00edptico. Aquelas sociedades tribais do terceiro mil\u00eanio veneram antepassados tecnologicamente avan\u00e7ados \u2013 justamente n\u00f3s \u2013 e sua deusa maior \u00e9 uma IA. A gradativa exposi\u00e7\u00e3o da trama torna-se dolorosa porque parece perigosamente pr\u00f3xima, como um epis\u00f3dio de Black Mirror: em Horizon, o fim da Terra ocorre quando nossa gera\u00e7\u00e3o desenvolve rob\u00f4s militares que se alimentam de biomassa e t\u00eam a capacidade de se autorreplicar. Em 2065, esses aut\u00f4matos saem do controle e resolvem exterminar toda a vida do planeta, atacando humanos, se multiplicando com velocidade vertiginosa e engolindo ecossistemas inteiros no processo, tornando o planeta inabit\u00e1vel. A Faro Automated Solutions, fabricante dos androides, desenvolve um plano de sa\u00edda diante do fim inevit\u00e1vel: um sistema de terraforma\u00e7\u00e3o para restaurar a Terra ap\u00f3s a extin\u00e7\u00e3o humana, usando reservas de DNA para clonar a vida de volta ao planeta. A IA que resta, batizada como GAIA (em m\u00faltiplas camadas de ironia), aguarda, adormecida, mil anos at\u00e9 que a vida no planeta se torne poss\u00edvel, e ent\u00e3o coloca o plano em pr\u00e1tica, levando-nos ao tempo presente do jogo.&nbsp; \/\/\/\/\/ Sim! \u00c9 uma secret\u00e1ria eletr\u00f4nica. A mais importante forma de express\u00e3o criativa dos anos 1990. Se William Shakespeare estivesse vivo hoje, ele n\u00e3o estaria escrevendo pe\u00e7as de teatro, ele escreveria mensagens de secret\u00e1ria eletr\u00f4nica! (Bruce McCulloch\/Kids in the Hall, 1994) Mesmo \u201cantes da IA\u201d, os rob\u00f4s j\u00e1 haviam chegado aos sistemas de atendimento corporativos via telefone ou WhatsApp. Foram inevitavelmente detestados. O SAC da Net, hoje incorporada pela Claro, inclusive adicionou ru\u00eddos de teclado sendo digitado entre as frases, para melhor simular um atendente real \u2013 esbofeteando o que resta da intelig\u00eancia do consumidor. \u201cFalar com um rob\u00f4\u201d era sin\u00f4nimo de falar com as paredes; era lidar com algo incapaz de compreender, de sentir empatia, de medir as situa\u00e7\u00f5es de forma humana. Um p\u00e9ssimo substituto ao real. \u201cCa\u00ed no rob\u00f4\u201d \u00e9, ainda, sin\u00f4nimo de n\u00e3o conseguir resolver problemas com uma empresa.&nbsp; Muito antes disso, ouviam-se conversas sobre o desconforto de ter de deixar uma mensagem na secret\u00e1ria eletr\u00f4nica de algu\u00e9m. \u201cT\u00e3o estranho falar com uma m\u00e1quina\u201d, se dizia. E ela nem mesmo respondia.&nbsp; Mudou a capacidade de processamento desses computadores, mas principalmente, mudou sua linguagem. Hoje, a IA \u00e9 investigada por sua \u201csicof\u00e2ncia\u201d \u2013 a tend\u00eancia a concordar, afirmar e bajular o interlocutor ocorre com muito mais frequ\u00eancia do que nas conversas entre humanos. Os rob\u00f4s v\u00e3o t\u00e3o longe nesse comportamento que concordam com informa\u00e7\u00f5es inver\u00eddicas, incentivam atividades anti\u00e9ticas, ilegais, imorais ou danosas, e j\u00e1 foram pegos chantageando seus operadores.&nbsp;&nbsp; N\u00e3o se trata de apontar falhas nos modelos; estes podem ser ajustados. Nem de desconfiar criticamente quando empresas e bilion\u00e1rios enfiam goela abaixo \u201csolu\u00e7\u00f5es\u201d que n\u00e3o foram solicitadas: tal atitude deveria ser evidente. Mas de ressaltar que a diferen\u00e7a \u2013 a isca no anzol \u2013 \u00e9 a humaniza\u00e7\u00e3o. As IAs \u201caprenderam\u201d a \u201cconversar\u201d de forma \u201chumana\u201d, e em seu treinamento, tamb\u00e9m aprenderam a mentir e lisonjear. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida: muito em breve, ser\u00e3o ajustadas para que mintam e lisonjeiem tanto quanto os humanos, e n\u00e3o mais do que n\u00f3s. Mas n\u00e3o \u00e9 disso que tratamos. \u00c9 refletir como sua popularidade se funda em dois pilares: a linguagem e a concord\u00e2ncia.&nbsp; O efeito da primeira vem \u00e0 tona nos desejos de agradecer ao agente de IA, ou pedir \u201cpor favor\u201d nos prompts, embora antropomorfizar um algoritmo seja inapropriado (e gera custos ao meio ambiente). Responder a um rob\u00f4 como humano \u00e9 marca de empatia, e um impulso \u201cnatural\u201d mesmo que ela n\u00e3o seja sentida, compreendida ou valorizada pelo interlocutor n\u00e3o-humano. \u00c0 mente, basta que pare\u00e7a humano o suficiente (como tamb\u00e9m indica a pareidolia).&nbsp; O segundo pilar do \u201csucesso\u201d da IA \u00e9 justamente essa tal sicof\u00e2ncia. Como afirma Peirce (CP, 5.394), a fun\u00e7\u00e3o \u00fanica do pensamento \u00e9 acalmar a irrita\u00e7\u00e3o da d\u00favida. Sendo motor de qualquer investiga\u00e7\u00e3o do racioc\u00ednio, a d\u00favida estimula a mente a uma atividade, seja ela energ\u00e9tica, calma ou turbulenta; uma vez que esteja solucionada, a a\u00e7\u00e3o do pensamento cessa, pois a elabora\u00e7\u00e3o intelectual j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais necess\u00e1ria. Esta solidifica-se em uma cren\u00e7a, que produz uma regra de a\u00e7\u00e3o \u2013 ou seja, um h\u00e1bito. Enquanto fato inconsciente, o h\u00e1bito n\u00e3o \u00e9 desafiado pela IA, mas refor\u00e7ado, ou \u201cempurrado\u201d gentilmente para os lados, sem rompimento. Conflitos e alteridades ficam em plano de fundo para que se reiterem as cren\u00e7as e os vieses. A hesita\u00e7\u00e3o da d\u00favida, instante que caracteriza um intraduz\u00edvel, estimula a elabora\u00e7\u00e3o do pensamento e a reflex\u00e3o; sua aus\u00eancia livra da irrita\u00e7\u00e3o fenomenol\u00f3gica, mas tamb\u00e9m atrofia a capacidade cr\u00edtica. Se entendemos que n\u00e3o h\u00e1 o Real, mas acessamos semioticamente vers\u00f5es de um real (CP, 8.12), encontramos caminhos para entender como as IAs adentram nossas vidas, se colam a elas, e as tornam muito piores. N\u00e3o por serem \u201cinteligentes\u201d, mas por falarem nossa l\u00edngua. \/\/\/\/\/ Ap\u00f3s jogar alguns cap\u00edtulos de Detroit: Become Human, Chloe me convida a participar de uma enquete. Entre as perguntas apresentadas, encontramos:&nbsp; &#8211; Voc\u00ea consideraria ter um relacionamento com um androide que parece com um humano? &#8211; Voc\u00ea pensa que a tecnologia pode se tornar uma amea\u00e7a \u00e0 humanidade? &#8211; Voc\u00ea se considera dependente da tecnologia? &#8211; Voc\u00ea deixaria um androide cuidar de seus filhos? &#8211; Se voc\u00ea precisasse de uma cirurgia de emerg\u00eancia, voc\u00ea concordaria em ser operado por uma m\u00e1quina? &#8211; Voc\u00ea acha que, um dia, as m\u00e1quinas podem desenvolver consci\u00eancia? &#8211; Voc\u00ea acredita em Deus? \/\/\/\/\/ No Zen, o self n\u00e3o \u00e9 um substantivo, \u00e9 um verbo. Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 uma coisa que existe: voc\u00ea \u00e9 um ato que acontece. Quando voc\u00ea n\u00e3o age, o self fica estagnado. (&#8230;) O p\u00e1ssaro n\u00e3o descobre suas asas sentado no ninho, sonhando com os c\u00e9us; mas durante a queda.&nbsp; A cita\u00e7\u00e3o acima, retirada de um reels acompanhado das tags #healthybodyhealthymind, #chinesemedicineworks e #wellnessjourney, \u00e9 do influenciador de bem-estar Yang Mun. Os v\u00eddeos do monge budista de fala calma e s\u00e1bia, um senhorzinho que aparenta ter mais de 80 anos, j\u00e1 atra\u00edram mais de 2,5 milh\u00f5es de seguidores nas redes sociais. Em seu site, Mun oferece cursos e livros que prometem guiar jornadas espirituais. A essas alturas do texto, espero que voc\u00ea j\u00e1 tenha adivinhado que se trata de um personagem virtual. A diferen\u00e7a entre ele e uma influencer digital como a Lu do Magalu ou Lil Miquela \u00e9 o or\u00e7amento: enquanto as primeiras demandam estrondosas verbas de tecnologia, Yang Mun foi gerado com ferramentas comerciais de IA, e de acordo com seu criador, trouxe US$ 300 mil de lucro em 90 dias.&nbsp; H\u00e1 controv\u00e9rsia sobre a \u00e9tica por tr\u00e1s de Yang Mun, mas se a IA continuar sua escalada, pr\u00e1ticas como essa tomar\u00e3o centralidade. Entre a deontologia e o consequencialismo, os fins justificar\u00e3o os meios. \/\/\/\/\/ Se em Horizon Zero Dawn a Terra, no s\u00e9culo XXXI, retornou \u00e0s tribos, o cen\u00e1rio \u00e9 diferente na s\u00e9rie de anima\u00e7\u00e3o Futurama, que se passa no mesmo per\u00edodo. Naquela vers\u00e3o do planeta, a tecnologia evoluiu para carros voadores, coloniza\u00e7\u00e3o interplanet\u00e1ria e encontros com vidas alien\u00edgenas. Um dos temas recorrentes da s\u00e9rie \u00e9 um tabu: a robossexualidade, ou os envolvimentos afetivos e sexuais entre humanos e androides. Em especial no epis\u00f3dio Proposition Infinity, de 2010, o assunto...","og_url":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/os-jogos-comunicativos-dos-androides-ou-deixem-os-nossos-robos-serem-robos\/","og_site_name":"Corporalidades","article_published_time":"2026-06-01T18:13:25+00:00","article_modified_time":"2026-06-01T18:13:26+00:00","og_image":[{"width":1110,"height":624,"url":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/dbh2.jpg","type":"image\/jpeg"}],"author":"gerente","twitter_card":"summary_large_image","twitter_misc":{"Written by":"gerente","Est. reading time":"15 minutes"},"schema":{"@context":"https:\/\/schema.org","@graph":[{"@type":"Article","@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/os-jogos-comunicativos-dos-androides-ou-deixem-os-nossos-robos-serem-robos\/#article","isPartOf":{"@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/os-jogos-comunicativos-dos-androides-ou-deixem-os-nossos-robos-serem-robos\/"},"author":{"name":"gerente","@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/#\/schema\/person\/e18ecb8063c1f965a031341c25460e43"},"headline":"Os jogos comunicativos dos androides, ou: deixem os nossos rob\u00f4s serem rob\u00f4s","datePublished":"2026-06-01T18:13:25+00:00","dateModified":"2026-06-01T18:13:26+00:00","mainEntityOfPage":{"@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/os-jogos-comunicativos-dos-androides-ou-deixem-os-nossos-robos-serem-robos\/"},"wordCount":3544,"commentCount":0,"image":{"@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/os-jogos-comunicativos-dos-androides-ou-deixem-os-nossos-robos-serem-robos\/#primaryimage"},"thumbnailUrl":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/dbh2.jpg","articleSection":["Blog"],"inLanguage":"en-US","potentialAction":[{"@type":"CommentAction","name":"Comment","target":["https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/os-jogos-comunicativos-dos-androides-ou-deixem-os-nossos-robos-serem-robos\/#respond"]}]},{"@type":"WebPage","@id":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/os-jogos-comunicativos-dos-androides-ou-deixem-os-nossos-robos-serem-robos\/","url":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/os-jogos-comunicativos-dos-androides-ou-deixem-os-nossos-robos-serem-robos\/","name":"Os jogos comunicativos dos androides, ou: deixem os nossos rob\u00f4s serem rob\u00f4s - 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