{"id":4012,"date":"2026-10-14T18:14:10","date_gmt":"2026-10-14T21:14:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/?p=4012"},"modified":"2026-10-14T18:28:17","modified_gmt":"2026-10-14T21:28:17","slug":"achei-que-seria-so-lacracao-experiencias-do-ensino-de-genero-na-universidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/achei-que-seria-so-lacracao-experiencias-do-ensino-de-genero-na-universidade\/","title":{"rendered":"\u201cAchei que seria s\u00f3 lacra\u00e7\u00e3o\u201d: experi\u00eancias do ensino de g\u00eanero na universidade"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><em>Por Ta\u00eds Severo<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante minha passagem pelo PPGCOM\/UFRGS, onde realizei mestrado e doutorado em Comunica\u00e7\u00e3o de 2019 a 2025, tive a alegria de ministrar a disciplina eletiva Semin\u00e1rio de Comunica\u00e7\u00e3o, G\u00eanero e Sexualidade, na Faculdade de Biblioteconomia e Comunica\u00e7\u00e3o, em tr\u00eas ocasi\u00f5es: nos semestres de 2020\/1, 2021\/1 e 2026\/1, todas elas com a parceria e sob supervis\u00e3o da profa.&nbsp;dra. N\u00edsia Martins do Ros\u00e1rio. Estas experi\u00eancias foram centrais \u00e0 minha forma\u00e7\u00e3o como pesquisadora e docente, e sou muito grata \u00e0 minha orientadora, \u00e0&nbsp;Fabico&nbsp;e \u00e0 UFRGS pelo espa\u00e7o privilegiado que pude ocupar. Com isso, compartilho aqui algumas das li\u00e7\u00f5es que aprendi nestas oportunidades, no intuito de destacar a import\u00e2ncia desses estudos no \u00e2mbito universit\u00e1rio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">1. O ensino de g\u00eanero \u00e9 muito procurado e desejado na Comunica\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Minha experi\u00eancia, ainda que limitada, demonstra um fato claro: os estudantes de Comunica\u00e7\u00e3o da&nbsp;Fabico&nbsp;querem, e muito, aprender sobre g\u00eanero. No per\u00edodo em que estive vinculada \u00e0 faculdade, o Semin\u00e1rio de Comunica\u00e7\u00e3o e G\u00eanero, que \u00e9 uma cadeira optativa, s\u00f3 foi oferecido tr\u00eas vezes; todas elas, por mim e pela profa. N\u00edsia. Nessas ocasi\u00f5es, a turma atingiu lota\u00e7\u00e3o m\u00e1xima e na \u00faltima oportunidade, teve o n\u00famero de alunos aumentado de 20 para 30 no intuito de acomodar o n\u00famero m\u00e1ximo de&nbsp;pr\u00e9-inscritos. Tamb\u00e9m conheci alunos que, por um motivo ou outro, n\u00e3o puderam se matricular, e me procuraram solicitando que a cadeira fosse oferecida novamente. Encerrei meu ciclo de estudos na UFRGS com a certeza de que g\u00eanero \u00e9 um tema relevante e procurado entre os alunos, com a demanda se mantendo alta durante os anos em que estive presente. Ou seja: ampliar o ensino de g\u00eanero vai ao encontro das importantes e crescentes pautas sociais, e tamb\u00e9m do interesse dos alunos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">2. O ensino de g\u00eanero dialoga com as experi\u00eancias de vida dos estudantes&nbsp;<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seguindo a s\u00famula da disciplina, organizamos planos de ensino que a) abordaram o hist\u00f3rico do g\u00eanero e da sexualidade, desde a Antiguidade \u00e0 contemporaneidade, e cujas manifesta\u00e7\u00f5es particulares s\u00e3o encontradas em todo o planeta; b) demonstraram como os feminismos ordenaram e avan\u00e7aram os estudos sobre g\u00eanero; c) adentraram a&nbsp;interseccionalidade, as teorias&nbsp;queer&nbsp;e os estudos&nbsp;trans&nbsp;para compreender as configura\u00e7\u00f5es semi\u00f3ticas, p\u00f3s-estruturalistas e plurais de g\u00eanero; e d) analisaram as pr\u00e1ticas comunicacionais em suas interfaces com g\u00eanero, sexo e sexualidade. Os debates, durante as aulas expositivas dialogadas, sempre foram ampliados com as experi\u00eancias, em primeira pessoa, dos alunos. O estudo de g\u00eanero \u2013 que, em sua melhor forma, \u00e9 denso, m\u00faltiplo e complexo \u2013 faz sentido porque s\u00e3o teorias coladas ao corpo: tanto aquelas teorias&nbsp;contranormativas&nbsp;e iluminadoras, que abrem caminhos, quanto aquelas que restringem, controlam e se imp\u00f5em sobre nossas vidas. Aprender sobre g\u00eanero, com a profundidade e o rigor exigidos no ensino universit\u00e1rio, n\u00e3o apenas prepara melhor futuros profissionais, mas tamb\u00e9m contribui para o desenvolvimento pessoal dos alunos. Enquanto tutora docente, tive a enorme felicidade de ouvir, diversas vezes, como os conte\u00fados compartilhados puderam auxiliar, aprofundar e embasar as compreens\u00f5es de si e dos atritos relacionais que&nbsp;emergem dos conflitos com as normas, e fundamentar pr\u00e1ticas comunicacionais mais \u00e9ticas e saud\u00e1veis.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">3. O ensino de g\u00eanero \u00e9, em ess\u00eancia, sobre filosofias e pr\u00e1ticas de poder<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quem n\u00e3o est\u00e1 pr\u00f3ximo ao tema pode ficar em d\u00favida sobre a validade ou a relev\u00e2ncia do ensino de g\u00eanero na universidade. No entanto, basta ajustar o olhar para perceber que as narrativas de g\u00eanero cercam nossas vidas, no sentido duplo do termo: tanto est\u00e3o inexoravelmente ao nosso redor quanto demarcam, circunscrevem, impedem. Abordar os embates entre biologia e cultura (um falso dualismo que se revela como quest\u00e3o semi\u00f3tica), e examinar aspr\u00e1ticas de poder que marcam certos corpos em detrimento de outros, demonstram como mulheres, gays, l\u00e9sbicas, bissexuais, pessoas&nbsp;trans&nbsp;e travestis, e pessoas&nbsp;intersexo, entre outras, t\u00eam sofrido discrimina\u00e7\u00e3o, preconceito e viol\u00eancia \u2013 e como essas experi\u00eancias s\u00e3o centrais para a mudan\u00e7a em dire\u00e7\u00e3o ao desenvolvimento \u00e9tico e est\u00e9tico da sociedade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quem faz comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ignorar os sistemas de poder que agem atrav\u00e9s do g\u00eanero; afirmo com seguran\u00e7a, pois este \u00e9 o campo a que perten\u00e7o. Mas tenho dificuldades em imaginar que curso universit\u00e1rio poderia desconsiderar esses saberes.&nbsp;Sexismo, misoginia, homofobia,&nbsp;bifobia&nbsp;e&nbsp;transfobia&nbsp;atravessam rela\u00e7\u00f5es pessoais e profissionais, e sem a prepara\u00e7\u00e3o adequada, n\u00e3o apenas n\u00e3o conseguimos avan\u00e7ar, mas pioramos a situa\u00e7\u00e3o ao mant\u00ea-la em seu estado opressor.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">4. O ensino de g\u00eanero deve ressaltar sua&nbsp;interseccionalidade<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre as muitas vertentes dos feminismos que podemos abordar no ensino de g\u00eanero, h\u00e1 a frequente impress\u00e3o de que importamos teorias sem adapt\u00e1-las suficientemente ou sem respeitar nosso contexto brasileiro e do Sul Global. A resposta \u00e9 muito clara, e trouxe ecos durante a disciplina que ministramos: a ponte necess\u00e1ria \u00e9 valorizar a&nbsp;interseccionalidade, que demonstra a forma como diferentes fatores (g\u00eanero, ra\u00e7a, classe, sexualidade, colonialismo e defici\u00eancia, entre poss\u00edveis outros) se sobrep\u00f5em e entrecruzam, produzindo cen\u00e1rios complexos e multiplicativos de opress\u00e3o ou privil\u00e9gio. Temos, no Brasil, o aporte de importantes pensadoras negras como L\u00e9lia Gonzalez, Sueli Carneiro e Beatriz Nascimento, que j\u00e1 demonstravam que as viol\u00eancias de g\u00eanero, classe e cor s\u00e3o indissoci\u00e1veis muito antes do termo \u201cinterseccionalidade\u201d firmar-se a partir do contexto dos EUA. Em sala de aula, a presen\u00e7a dessas&nbsp;autoras foi muito bem recebida, por amarrar as teorias \u00e0s nossas viv\u00eancias localizadas. Mostramos que o g\u00eanero \u00e9 um tema que avan\u00e7a n\u00e3o s\u00f3 a partir dos feminismos de&nbsp;Wollstonecraft, Beauvoir e&nbsp;Butler, mas tamb\u00e9m com autoras como&nbsp;Angela&nbsp;Davis,&nbsp;bell&nbsp;hooks, N\u00edsia Floresta e as autoras citadas inicialmente. Os alunos podem, com isso, compreender como as quest\u00f5es de g\u00eanero s\u00e3o hist\u00f3ricas e universais, mas tamb\u00e9m atravessam de maneira singular a cultura brasileira; e como os&nbsp;estudos&nbsp;de g\u00eanero necessitam ter, de forma atenta e constante, postura antirracista.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">5. O ensino de g\u00eanero \u00e9 libertador<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m da experi\u00eancia docente que narro, tamb\u00e9m tive o prazer de colaborar nas disciplinas de Teorias da Comunica\u00e7\u00e3o e Comunica\u00e7\u00e3o e Semi\u00f3tica. Nas aulas que ministrei, trouxe&nbsp;introdu\u00e7\u00f5es e sobrevoos nas Teorias&nbsp;Queer, que avan\u00e7am os estudos de g\u00eanero em dire\u00e7\u00e3o ao p\u00f3s-estruturalismo. Sendo uma das \u00e1reas em que me aprofundei durante a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, \u00e9 um tema muito caro a mim como pessoa e como docente, e pude, continuamente, notar o impacto que estas teorias provocam nos estudantes. Demonstrar,&nbsp;semioticamente, a constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de conceitos como \u201cnatureza\u201d e \u201cnatural\u201d, ou&nbsp;como&nbsp; sistemas&nbsp;dualistas (homem\/mulher, homo\/hetero,&nbsp;cis\/trans) formam engrenagens performativas nas quais os \u00fanicos vencedores s\u00e3o aqueles que ocupam posi\u00e7\u00f5es de poder: s\u00e3o ideias potentes e&nbsp;desterritorializantes, que descortinam horizontes sem oferecer a seguran\u00e7a de respostas fixas ou prontas. Vi alunos reagindo at\u00e9 um pouco assustados, pois, de fato, lhes foi tirado o ch\u00e3o sob os p\u00e9s. E n\u00e3o \u00e9 este um bom papel para as teorias em nossas vidas, reordenar e bagun\u00e7ar, ainda que temporariamente, o que parecia normal, comum e dado? Estudar, ensinar e aprender sobre o g\u00eanero n\u00e3o se limita \u00e0 identidade ou \u00e0 sexualidade, mas pode trazer novas formas de olhar, entender e agir no mundo. \u00c9 essa pot\u00eancia que agrega \u00e0 forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria, ainda mais aquela p\u00fablica, gratuita e de qualidade, produzida em nossas Federais e que, mais que protegida, precisa ser ampliada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure data-wp-context=\"{&quot;imageId&quot;:&quot;6add16cc0876e&quot;}\" data-wp-interactive=\"core\/image\" data-wp-key=\"6add16cc0876e\" class=\"wp-block-image size-large wp-lightbox-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\" data-wp-class--hide=\"state.isContentHidden\" data-wp-class--show=\"state.isContentVisible\" data-wp-init=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-on--load=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on--pointerdown=\"actions.preloadImage\" data-wp-on--pointerenter=\"actions.preloadImageWithDelay\" data-wp-on--pointerleave=\"actions.cancelPreload\" data-wp-on-window--resize=\"callbacks.setButtonStyles\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/blog-corpo-1024x768.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4015\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/blog-corpo-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/blog-corpo-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/blog-corpo-768x576.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/blog-corpo-1140x855.jpg 1140w, https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/blog-corpo.jpg 1472w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><button\n\t\t\tclass=\"lightbox-trigger\"\n\t\t\ttype=\"button\"\n\t\t\taria-haspopup=\"dialog\"\n\t\t\tdata-wp-bind--aria-label=\"state.thisImage.triggerButtonAriaLabel\"\n\t\t\tdata-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\"\n\t\t\tdata-wp-on--click=\"actions.showLightbox\"\n\t\t\tdata-wp-style--right=\"state.thisImage.buttonRight\"\n\t\t\tdata-wp-style--top=\"state.thisImage.buttonTop\"\n\t\t>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewBox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\" \/>\n\t\t\t<\/svg>\n\t\t<\/button><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Turma de 2026\/1 do Semin\u00e1rio de Comunica\u00e7\u00e3o, G\u00eanero e Sexualidade<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\">H\u00e1 muito a aprender sobre g\u00eanero, e devemos ensin\u00e1-lo<\/h1>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A frase que inicia o t\u00edtulo deste artigo foi a resposta de um aluno durante a \u00faltima aula no semestre passado, quando realizamos a avalia\u00e7\u00e3o da disciplina. De forma honesta, direta e c\u00e2ndida, ele testemunhou: \u201cachei que essa cadeira ia ser s\u00f3 lacra\u00e7\u00e3o, mas&nbsp;aprendi muito\u201d. Sou apaixonada pela doc\u00eancia e sempre busco superar as expectativas dos alunos, e fiquei muito feliz de poder tamb\u00e9m subverter algumas delas. Poderia detalhar as muitas alegrias pessoais que tive durante esses per\u00edodos, aula a aula. Tamb\u00e9m&nbsp;poderia comentar sobre as seis&nbsp;coorienta\u00e7\u00f5es&nbsp;de TCC que realizei, sendo cinco delas sobre quest\u00f5es de g\u00eanero; experi\u00eancias transformativas e que seguem florescendo (neste semestre, duas orientandas est\u00e3o realizando sele\u00e7\u00e3o para mestrado). Mas este artigo&nbsp;n\u00e3o \u00e9 sobre mim: \u00e9 sobre a import\u00e2ncia do ensino de g\u00eanero na universidade. E, tendo me dedicado tanto a ele, posso&nbsp;somar-me \u00e0s vozes que afirmam: o ensino de g\u00eanero deve estar presente, ser obrigat\u00f3rio e ter destaque nos curr\u00edculos universit\u00e1rios \u2013 principalmente quando estamos em guerra contra o&nbsp;sexismo&nbsp;e o espantalho da \u201cideologia de g\u00eanero\u201d. Ganhamos todos. Ampliar o ensino de g\u00eanero na universidade \u00e9 um passo crucial para continuar as mudan\u00e7as \u00e9ticas e justas em nossa sociedade e cultura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Ta\u00eds Severo Durante minha passagem pelo PPGCOM\/UFRGS, onde realizei mestrado e doutorado em Comunica\u00e7\u00e3o de 2019 a 2025, tive a alegria de ministrar a disciplina eletiva Semin\u00e1rio de Comunica\u00e7\u00e3o, G\u00eanero e Sexualidade, na Faculdade de Biblioteconomia e Comunica\u00e7\u00e3o, em tr\u00eas ocasi\u00f5es: nos semestres de 2020\/1, 2021\/1 e 2026\/1, todas elas com a parceria e sob supervis\u00e3o da profa.&nbsp;dra. N\u00edsia Martins do Ros\u00e1rio. Estas experi\u00eancias foram centrais \u00e0 minha forma\u00e7\u00e3o como pesquisadora e docente, e sou muito grata \u00e0 minha orientadora, \u00e0&nbsp;Fabico&nbsp;e \u00e0 UFRGS pelo espa\u00e7o privilegiado que pude ocupar. Com isso, compartilho aqui algumas das li\u00e7\u00f5es que aprendi nestas oportunidades, no intuito de destacar a import\u00e2ncia desses estudos no \u00e2mbito universit\u00e1rio.&nbsp; 1. O ensino de g\u00eanero \u00e9 muito procurado e desejado na Comunica\u00e7\u00e3o Minha experi\u00eancia, ainda que limitada, demonstra um fato claro: os estudantes de Comunica\u00e7\u00e3o da&nbsp;Fabico&nbsp;querem, e muito, aprender sobre g\u00eanero. No per\u00edodo em que estive vinculada \u00e0 faculdade, o Semin\u00e1rio de Comunica\u00e7\u00e3o e G\u00eanero, que \u00e9 uma cadeira optativa, s\u00f3 foi oferecido tr\u00eas vezes; todas elas, por mim e pela profa. N\u00edsia. Nessas ocasi\u00f5es, a turma atingiu lota\u00e7\u00e3o m\u00e1xima e na \u00faltima oportunidade, teve o n\u00famero de alunos aumentado de 20 para 30 no intuito de acomodar o n\u00famero m\u00e1ximo de&nbsp;pr\u00e9-inscritos. Tamb\u00e9m conheci alunos que, por um motivo ou outro, n\u00e3o puderam se matricular, e me procuraram solicitando que a cadeira fosse oferecida novamente. Encerrei meu ciclo de estudos na UFRGS com a certeza de que g\u00eanero \u00e9 um tema relevante e procurado entre os alunos, com a demanda se mantendo alta durante os anos em que estive presente. Ou seja: ampliar o ensino de g\u00eanero vai ao encontro das importantes e crescentes pautas sociais, e tamb\u00e9m do interesse dos alunos.&nbsp; 2. O ensino de g\u00eanero dialoga com as experi\u00eancias de vida dos estudantes&nbsp; Seguindo a s\u00famula da disciplina, organizamos planos de ensino que a) abordaram o hist\u00f3rico do g\u00eanero e da sexualidade, desde a Antiguidade \u00e0 contemporaneidade, e cujas manifesta\u00e7\u00f5es particulares s\u00e3o encontradas em todo o planeta; b) demonstraram como os feminismos ordenaram e avan\u00e7aram os estudos sobre g\u00eanero; c) adentraram a&nbsp;interseccionalidade, as teorias&nbsp;queer&nbsp;e os estudos&nbsp;trans&nbsp;para compreender as configura\u00e7\u00f5es semi\u00f3ticas, p\u00f3s-estruturalistas e plurais de g\u00eanero; e d) analisaram as pr\u00e1ticas comunicacionais em suas interfaces com g\u00eanero, sexo e sexualidade. Os debates, durante as aulas expositivas dialogadas, sempre foram ampliados com as experi\u00eancias, em primeira pessoa, dos alunos. O estudo de g\u00eanero \u2013 que, em sua melhor forma, \u00e9 denso, m\u00faltiplo e complexo \u2013 faz sentido porque s\u00e3o teorias coladas ao corpo: tanto aquelas teorias&nbsp;contranormativas&nbsp;e iluminadoras, que abrem caminhos, quanto aquelas que restringem, controlam e se imp\u00f5em sobre nossas vidas. Aprender sobre g\u00eanero, com a profundidade e o rigor exigidos no ensino universit\u00e1rio, n\u00e3o apenas prepara melhor futuros profissionais, mas tamb\u00e9m contribui para o desenvolvimento pessoal dos alunos. Enquanto tutora docente, tive a enorme felicidade de ouvir, diversas vezes, como os conte\u00fados compartilhados puderam auxiliar, aprofundar e embasar as compreens\u00f5es de si e dos atritos relacionais que&nbsp;emergem dos conflitos com as normas, e fundamentar pr\u00e1ticas comunicacionais mais \u00e9ticas e saud\u00e1veis.&nbsp; 3. O ensino de g\u00eanero \u00e9, em ess\u00eancia, sobre filosofias e pr\u00e1ticas de poder Quem n\u00e3o est\u00e1 pr\u00f3ximo ao tema pode ficar em d\u00favida sobre a validade ou a relev\u00e2ncia do ensino de g\u00eanero na universidade. No entanto, basta ajustar o olhar para perceber que as narrativas de g\u00eanero cercam nossas vidas, no sentido duplo do termo: tanto est\u00e3o inexoravelmente ao nosso redor quanto demarcam, circunscrevem, impedem. Abordar os embates entre biologia e cultura (um falso dualismo que se revela como quest\u00e3o semi\u00f3tica), e examinar aspr\u00e1ticas de poder que marcam certos corpos em detrimento de outros, demonstram como mulheres, gays, l\u00e9sbicas, bissexuais, pessoas&nbsp;trans&nbsp;e travestis, e pessoas&nbsp;intersexo, entre outras, t\u00eam sofrido discrimina\u00e7\u00e3o, preconceito e viol\u00eancia \u2013 e como essas experi\u00eancias s\u00e3o centrais para a mudan\u00e7a em dire\u00e7\u00e3o ao desenvolvimento \u00e9tico e est\u00e9tico da sociedade.&nbsp; Quem faz comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ignorar os sistemas de poder que agem atrav\u00e9s do g\u00eanero; afirmo com seguran\u00e7a, pois este \u00e9 o campo a que perten\u00e7o. Mas tenho dificuldades em imaginar que curso universit\u00e1rio poderia desconsiderar esses saberes.&nbsp;Sexismo, misoginia, homofobia,&nbsp;bifobia&nbsp;e&nbsp;transfobia&nbsp;atravessam rela\u00e7\u00f5es pessoais e profissionais, e sem a prepara\u00e7\u00e3o adequada, n\u00e3o apenas n\u00e3o conseguimos avan\u00e7ar, mas pioramos a situa\u00e7\u00e3o ao mant\u00ea-la em seu estado opressor.&nbsp; 4. O ensino de g\u00eanero deve ressaltar sua&nbsp;interseccionalidade Entre as muitas vertentes dos feminismos que podemos abordar no ensino de g\u00eanero, h\u00e1 a frequente impress\u00e3o de que importamos teorias sem adapt\u00e1-las suficientemente ou sem respeitar nosso contexto brasileiro e do Sul Global. A resposta \u00e9 muito clara, e trouxe ecos durante a disciplina que ministramos: a ponte necess\u00e1ria \u00e9 valorizar a&nbsp;interseccionalidade, que demonstra a forma como diferentes fatores (g\u00eanero, ra\u00e7a, classe, sexualidade, colonialismo e defici\u00eancia, entre poss\u00edveis outros) se sobrep\u00f5em e entrecruzam, produzindo cen\u00e1rios complexos e multiplicativos de opress\u00e3o ou privil\u00e9gio. Temos, no Brasil, o aporte de importantes pensadoras negras como L\u00e9lia Gonzalez, Sueli Carneiro e Beatriz Nascimento, que j\u00e1 demonstravam que as viol\u00eancias de g\u00eanero, classe e cor s\u00e3o indissoci\u00e1veis muito antes do termo \u201cinterseccionalidade\u201d firmar-se a partir do contexto dos EUA. Em sala de aula, a presen\u00e7a dessas&nbsp;autoras foi muito bem recebida, por amarrar as teorias \u00e0s nossas viv\u00eancias localizadas. Mostramos que o g\u00eanero \u00e9 um tema que avan\u00e7a n\u00e3o s\u00f3 a partir dos feminismos de&nbsp;Wollstonecraft, Beauvoir e&nbsp;Butler, mas tamb\u00e9m com autoras como&nbsp;Angela&nbsp;Davis,&nbsp;bell&nbsp;hooks, N\u00edsia Floresta e as autoras citadas inicialmente. Os alunos podem, com isso, compreender como as quest\u00f5es de g\u00eanero s\u00e3o hist\u00f3ricas e universais, mas tamb\u00e9m atravessam de maneira singular a cultura brasileira; e como os&nbsp;estudos&nbsp;de g\u00eanero necessitam ter, de forma atenta e constante, postura antirracista. 5. O ensino de g\u00eanero \u00e9 libertador Al\u00e9m da experi\u00eancia docente que narro, tamb\u00e9m tive o prazer de colaborar nas disciplinas de Teorias da Comunica\u00e7\u00e3o e Comunica\u00e7\u00e3o e Semi\u00f3tica. Nas aulas que ministrei, trouxe&nbsp;introdu\u00e7\u00f5es e sobrevoos nas Teorias&nbsp;Queer, que avan\u00e7am os estudos de g\u00eanero em dire\u00e7\u00e3o ao p\u00f3s-estruturalismo. Sendo uma das \u00e1reas em que me aprofundei durante a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, \u00e9 um tema muito caro a mim como pessoa e como docente, e pude, continuamente, notar o impacto que estas teorias provocam nos estudantes. Demonstrar,&nbsp;semioticamente, a constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de conceitos como \u201cnatureza\u201d e \u201cnatural\u201d, ou&nbsp;como&nbsp; sistemas&nbsp;dualistas (homem\/mulher, homo\/hetero,&nbsp;cis\/trans) formam engrenagens performativas nas quais os \u00fanicos vencedores s\u00e3o aqueles que ocupam posi\u00e7\u00f5es de poder: s\u00e3o ideias potentes e&nbsp;desterritorializantes, que descortinam horizontes sem oferecer a seguran\u00e7a de respostas fixas ou prontas. Vi alunos reagindo at\u00e9 um pouco assustados, pois, de fato, lhes foi tirado o ch\u00e3o sob os p\u00e9s. E n\u00e3o \u00e9 este um bom papel para as teorias em nossas vidas, reordenar e bagun\u00e7ar, ainda que temporariamente, o que parecia normal, comum e dado? Estudar, ensinar e aprender sobre o g\u00eanero n\u00e3o se limita \u00e0 identidade ou \u00e0 sexualidade, mas pode trazer novas formas de olhar, entender e agir no mundo. \u00c9 essa pot\u00eancia que agrega \u00e0 forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria, ainda mais aquela p\u00fablica, gratuita e de qualidade, produzida em nossas Federais e que, mais que protegida, precisa ser ampliada.&nbsp; H\u00e1 muito a aprender sobre g\u00eanero, e devemos ensin\u00e1-lo A frase que inicia o t\u00edtulo deste artigo foi a resposta de um aluno durante a \u00faltima aula no semestre passado, quando realizamos a avalia\u00e7\u00e3o da disciplina. De forma honesta, direta e c\u00e2ndida, ele testemunhou: \u201cachei que essa cadeira ia ser s\u00f3 lacra\u00e7\u00e3o, mas&nbsp;aprendi muito\u201d. Sou apaixonada pela doc\u00eancia e sempre busco superar as expectativas dos alunos, e fiquei muito feliz de poder tamb\u00e9m subverter algumas delas. Poderia detalhar as muitas alegrias pessoais que tive durante esses per\u00edodos, aula a aula. Tamb\u00e9m&nbsp;poderia comentar sobre as seis&nbsp;coorienta\u00e7\u00f5es&nbsp;de TCC que realizei, sendo cinco delas sobre quest\u00f5es de g\u00eanero; experi\u00eancias transformativas e que seguem florescendo (neste semestre, duas orientandas est\u00e3o realizando sele\u00e7\u00e3o para mestrado). Mas este artigo&nbsp;n\u00e3o \u00e9 sobre mim: \u00e9 sobre a import\u00e2ncia do ensino de g\u00eanero na universidade. E, tendo me dedicado tanto a ele, posso&nbsp;somar-me \u00e0s vozes que afirmam: o ensino de g\u00eanero deve estar presente, ser obrigat\u00f3rio e ter destaque nos curr\u00edculos universit\u00e1rios \u2013 principalmente quando estamos em guerra contra o&nbsp;sexismo&nbsp;e o espantalho da \u201cideologia de g\u00eanero\u201d. Ganhamos todos. Ampliar o ensino de g\u00eanero na universidade \u00e9 um passo crucial para continuar as mudan\u00e7as \u00e9ticas e justas em nossa sociedade e cultura.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4016,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-4012","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sem-categoria"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>\u201cAchei que seria s\u00f3 lacra\u00e7\u00e3o\u201d: experi\u00eancias do ensino de g\u00eanero na universidade - Corporalidades<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/achei-que-seria-so-lacracao-experiencias-do-ensino-de-genero-na-universidade\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"en_US\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"\u201cAchei que seria s\u00f3 lacra\u00e7\u00e3o\u201d: experi\u00eancias do ensino de g\u00eanero na universidade - Corporalidades\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Por Ta\u00eds Severo Durante minha passagem pelo PPGCOM\/UFRGS, onde realizei mestrado e doutorado em Comunica\u00e7\u00e3o de 2019 a 2025, tive a alegria de ministrar a disciplina eletiva Semin\u00e1rio de Comunica\u00e7\u00e3o, G\u00eanero e Sexualidade, na Faculdade de Biblioteconomia e Comunica\u00e7\u00e3o, em tr\u00eas ocasi\u00f5es: nos semestres de 2020\/1, 2021\/1 e 2026\/1, todas elas com a parceria e sob supervis\u00e3o da profa.&nbsp;dra. N\u00edsia Martins do Ros\u00e1rio. Estas experi\u00eancias foram centrais \u00e0 minha forma\u00e7\u00e3o como pesquisadora e docente, e sou muito grata \u00e0 minha orientadora, \u00e0&nbsp;Fabico&nbsp;e \u00e0 UFRGS pelo espa\u00e7o privilegiado que pude ocupar. Com isso, compartilho aqui algumas das li\u00e7\u00f5es que aprendi nestas oportunidades, no intuito de destacar a import\u00e2ncia desses estudos no \u00e2mbito universit\u00e1rio.&nbsp; 1. O ensino de g\u00eanero \u00e9 muito procurado e desejado na Comunica\u00e7\u00e3o Minha experi\u00eancia, ainda que limitada, demonstra um fato claro: os estudantes de Comunica\u00e7\u00e3o da&nbsp;Fabico&nbsp;querem, e muito, aprender sobre g\u00eanero. No per\u00edodo em que estive vinculada \u00e0 faculdade, o Semin\u00e1rio de Comunica\u00e7\u00e3o e G\u00eanero, que \u00e9 uma cadeira optativa, s\u00f3 foi oferecido tr\u00eas vezes; todas elas, por mim e pela profa. N\u00edsia. Nessas ocasi\u00f5es, a turma atingiu lota\u00e7\u00e3o m\u00e1xima e na \u00faltima oportunidade, teve o n\u00famero de alunos aumentado de 20 para 30 no intuito de acomodar o n\u00famero m\u00e1ximo de&nbsp;pr\u00e9-inscritos. Tamb\u00e9m conheci alunos que, por um motivo ou outro, n\u00e3o puderam se matricular, e me procuraram solicitando que a cadeira fosse oferecida novamente. Encerrei meu ciclo de estudos na UFRGS com a certeza de que g\u00eanero \u00e9 um tema relevante e procurado entre os alunos, com a demanda se mantendo alta durante os anos em que estive presente. Ou seja: ampliar o ensino de g\u00eanero vai ao encontro das importantes e crescentes pautas sociais, e tamb\u00e9m do interesse dos alunos.&nbsp; 2. O ensino de g\u00eanero dialoga com as experi\u00eancias de vida dos estudantes&nbsp; Seguindo a s\u00famula da disciplina, organizamos planos de ensino que a) abordaram o hist\u00f3rico do g\u00eanero e da sexualidade, desde a Antiguidade \u00e0 contemporaneidade, e cujas manifesta\u00e7\u00f5es particulares s\u00e3o encontradas em todo o planeta; b) demonstraram como os feminismos ordenaram e avan\u00e7aram os estudos sobre g\u00eanero; c) adentraram a&nbsp;interseccionalidade, as teorias&nbsp;queer&nbsp;e os estudos&nbsp;trans&nbsp;para compreender as configura\u00e7\u00f5es semi\u00f3ticas, p\u00f3s-estruturalistas e plurais de g\u00eanero; e d) analisaram as pr\u00e1ticas comunicacionais em suas interfaces com g\u00eanero, sexo e sexualidade. Os debates, durante as aulas expositivas dialogadas, sempre foram ampliados com as experi\u00eancias, em primeira pessoa, dos alunos. O estudo de g\u00eanero \u2013 que, em sua melhor forma, \u00e9 denso, m\u00faltiplo e complexo \u2013 faz sentido porque s\u00e3o teorias coladas ao corpo: tanto aquelas teorias&nbsp;contranormativas&nbsp;e iluminadoras, que abrem caminhos, quanto aquelas que restringem, controlam e se imp\u00f5em sobre nossas vidas. Aprender sobre g\u00eanero, com a profundidade e o rigor exigidos no ensino universit\u00e1rio, n\u00e3o apenas prepara melhor futuros profissionais, mas tamb\u00e9m contribui para o desenvolvimento pessoal dos alunos. Enquanto tutora docente, tive a enorme felicidade de ouvir, diversas vezes, como os conte\u00fados compartilhados puderam auxiliar, aprofundar e embasar as compreens\u00f5es de si e dos atritos relacionais que&nbsp;emergem dos conflitos com as normas, e fundamentar pr\u00e1ticas comunicacionais mais \u00e9ticas e saud\u00e1veis.&nbsp; 3. O ensino de g\u00eanero \u00e9, em ess\u00eancia, sobre filosofias e pr\u00e1ticas de poder Quem n\u00e3o est\u00e1 pr\u00f3ximo ao tema pode ficar em d\u00favida sobre a validade ou a relev\u00e2ncia do ensino de g\u00eanero na universidade. No entanto, basta ajustar o olhar para perceber que as narrativas de g\u00eanero cercam nossas vidas, no sentido duplo do termo: tanto est\u00e3o inexoravelmente ao nosso redor quanto demarcam, circunscrevem, impedem. Abordar os embates entre biologia e cultura (um falso dualismo que se revela como quest\u00e3o semi\u00f3tica), e examinar aspr\u00e1ticas de poder que marcam certos corpos em detrimento de outros, demonstram como mulheres, gays, l\u00e9sbicas, bissexuais, pessoas&nbsp;trans&nbsp;e travestis, e pessoas&nbsp;intersexo, entre outras, t\u00eam sofrido discrimina\u00e7\u00e3o, preconceito e viol\u00eancia \u2013 e como essas experi\u00eancias s\u00e3o centrais para a mudan\u00e7a em dire\u00e7\u00e3o ao desenvolvimento \u00e9tico e est\u00e9tico da sociedade.&nbsp; Quem faz comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ignorar os sistemas de poder que agem atrav\u00e9s do g\u00eanero; afirmo com seguran\u00e7a, pois este \u00e9 o campo a que perten\u00e7o. Mas tenho dificuldades em imaginar que curso universit\u00e1rio poderia desconsiderar esses saberes.&nbsp;Sexismo, misoginia, homofobia,&nbsp;bifobia&nbsp;e&nbsp;transfobia&nbsp;atravessam rela\u00e7\u00f5es pessoais e profissionais, e sem a prepara\u00e7\u00e3o adequada, n\u00e3o apenas n\u00e3o conseguimos avan\u00e7ar, mas pioramos a situa\u00e7\u00e3o ao mant\u00ea-la em seu estado opressor.&nbsp; 4. O ensino de g\u00eanero deve ressaltar sua&nbsp;interseccionalidade Entre as muitas vertentes dos feminismos que podemos abordar no ensino de g\u00eanero, h\u00e1 a frequente impress\u00e3o de que importamos teorias sem adapt\u00e1-las suficientemente ou sem respeitar nosso contexto brasileiro e do Sul Global. A resposta \u00e9 muito clara, e trouxe ecos durante a disciplina que ministramos: a ponte necess\u00e1ria \u00e9 valorizar a&nbsp;interseccionalidade, que demonstra a forma como diferentes fatores (g\u00eanero, ra\u00e7a, classe, sexualidade, colonialismo e defici\u00eancia, entre poss\u00edveis outros) se sobrep\u00f5em e entrecruzam, produzindo cen\u00e1rios complexos e multiplicativos de opress\u00e3o ou privil\u00e9gio. Temos, no Brasil, o aporte de importantes pensadoras negras como L\u00e9lia Gonzalez, Sueli Carneiro e Beatriz Nascimento, que j\u00e1 demonstravam que as viol\u00eancias de g\u00eanero, classe e cor s\u00e3o indissoci\u00e1veis muito antes do termo \u201cinterseccionalidade\u201d firmar-se a partir do contexto dos EUA. Em sala de aula, a presen\u00e7a dessas&nbsp;autoras foi muito bem recebida, por amarrar as teorias \u00e0s nossas viv\u00eancias localizadas. Mostramos que o g\u00eanero \u00e9 um tema que avan\u00e7a n\u00e3o s\u00f3 a partir dos feminismos de&nbsp;Wollstonecraft, Beauvoir e&nbsp;Butler, mas tamb\u00e9m com autoras como&nbsp;Angela&nbsp;Davis,&nbsp;bell&nbsp;hooks, N\u00edsia Floresta e as autoras citadas inicialmente. Os alunos podem, com isso, compreender como as quest\u00f5es de g\u00eanero s\u00e3o hist\u00f3ricas e universais, mas tamb\u00e9m atravessam de maneira singular a cultura brasileira; e como os&nbsp;estudos&nbsp;de g\u00eanero necessitam ter, de forma atenta e constante, postura antirracista. 5. O ensino de g\u00eanero \u00e9 libertador Al\u00e9m da experi\u00eancia docente que narro, tamb\u00e9m tive o prazer de colaborar nas disciplinas de Teorias da Comunica\u00e7\u00e3o e Comunica\u00e7\u00e3o e Semi\u00f3tica. Nas aulas que ministrei, trouxe&nbsp;introdu\u00e7\u00f5es e sobrevoos nas Teorias&nbsp;Queer, que avan\u00e7am os estudos de g\u00eanero em dire\u00e7\u00e3o ao p\u00f3s-estruturalismo. Sendo uma das \u00e1reas em que me aprofundei durante a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, \u00e9 um tema muito caro a mim como pessoa e como docente, e pude, continuamente, notar o impacto que estas teorias provocam nos estudantes. Demonstrar,&nbsp;semioticamente, a constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de conceitos como \u201cnatureza\u201d e \u201cnatural\u201d, ou&nbsp;como&nbsp; sistemas&nbsp;dualistas (homem\/mulher, homo\/hetero,&nbsp;cis\/trans) formam engrenagens performativas nas quais os \u00fanicos vencedores s\u00e3o aqueles que ocupam posi\u00e7\u00f5es de poder: s\u00e3o ideias potentes e&nbsp;desterritorializantes, que descortinam horizontes sem oferecer a seguran\u00e7a de respostas fixas ou prontas. Vi alunos reagindo at\u00e9 um pouco assustados, pois, de fato, lhes foi tirado o ch\u00e3o sob os p\u00e9s. E n\u00e3o \u00e9 este um bom papel para as teorias em nossas vidas, reordenar e bagun\u00e7ar, ainda que temporariamente, o que parecia normal, comum e dado? Estudar, ensinar e aprender sobre o g\u00eanero n\u00e3o se limita \u00e0 identidade ou \u00e0 sexualidade, mas pode trazer novas formas de olhar, entender e agir no mundo. \u00c9 essa pot\u00eancia que agrega \u00e0 forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria, ainda mais aquela p\u00fablica, gratuita e de qualidade, produzida em nossas Federais e que, mais que protegida, precisa ser ampliada.&nbsp; H\u00e1 muito a aprender sobre g\u00eanero, e devemos ensin\u00e1-lo A frase que inicia o t\u00edtulo deste artigo foi a resposta de um aluno durante a \u00faltima aula no semestre passado, quando realizamos a avalia\u00e7\u00e3o da disciplina. De forma honesta, direta e c\u00e2ndida, ele testemunhou: \u201cachei que essa cadeira ia ser s\u00f3 lacra\u00e7\u00e3o, mas&nbsp;aprendi muito\u201d. Sou apaixonada pela doc\u00eancia e sempre busco superar as expectativas dos alunos, e fiquei muito feliz de poder tamb\u00e9m subverter algumas delas. Poderia detalhar as muitas alegrias pessoais que tive durante esses per\u00edodos, aula a aula. Tamb\u00e9m&nbsp;poderia comentar sobre as seis&nbsp;coorienta\u00e7\u00f5es&nbsp;de TCC que realizei, sendo cinco delas sobre quest\u00f5es de g\u00eanero; experi\u00eancias transformativas e que seguem florescendo (neste semestre, duas orientandas est\u00e3o realizando sele\u00e7\u00e3o para mestrado). Mas este artigo&nbsp;n\u00e3o \u00e9 sobre mim: \u00e9 sobre a import\u00e2ncia do ensino de g\u00eanero na universidade. E, tendo me dedicado tanto a ele, posso&nbsp;somar-me \u00e0s vozes que afirmam: o ensino de g\u00eanero deve estar presente, ser obrigat\u00f3rio e ter destaque nos curr\u00edculos universit\u00e1rios \u2013 principalmente quando estamos em guerra contra o&nbsp;sexismo&nbsp;e o espantalho da \u201cideologia de g\u00eanero\u201d. Ganhamos todos. 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N\u00edsia Martins do Ros\u00e1rio. Estas experi\u00eancias foram centrais \u00e0 minha forma\u00e7\u00e3o como pesquisadora e docente, e sou muito grata \u00e0 minha orientadora, \u00e0&nbsp;Fabico&nbsp;e \u00e0 UFRGS pelo espa\u00e7o privilegiado que pude ocupar. Com isso, compartilho aqui algumas das li\u00e7\u00f5es que aprendi nestas oportunidades, no intuito de destacar a import\u00e2ncia desses estudos no \u00e2mbito universit\u00e1rio.&nbsp; 1. O ensino de g\u00eanero \u00e9 muito procurado e desejado na Comunica\u00e7\u00e3o Minha experi\u00eancia, ainda que limitada, demonstra um fato claro: os estudantes de Comunica\u00e7\u00e3o da&nbsp;Fabico&nbsp;querem, e muito, aprender sobre g\u00eanero. No per\u00edodo em que estive vinculada \u00e0 faculdade, o Semin\u00e1rio de Comunica\u00e7\u00e3o e G\u00eanero, que \u00e9 uma cadeira optativa, s\u00f3 foi oferecido tr\u00eas vezes; todas elas, por mim e pela profa. N\u00edsia. Nessas ocasi\u00f5es, a turma atingiu lota\u00e7\u00e3o m\u00e1xima e na \u00faltima oportunidade, teve o n\u00famero de alunos aumentado de 20 para 30 no intuito de acomodar o n\u00famero m\u00e1ximo de&nbsp;pr\u00e9-inscritos. Tamb\u00e9m conheci alunos que, por um motivo ou outro, n\u00e3o puderam se matricular, e me procuraram solicitando que a cadeira fosse oferecida novamente. Encerrei meu ciclo de estudos na UFRGS com a certeza de que g\u00eanero \u00e9 um tema relevante e procurado entre os alunos, com a demanda se mantendo alta durante os anos em que estive presente. Ou seja: ampliar o ensino de g\u00eanero vai ao encontro das importantes e crescentes pautas sociais, e tamb\u00e9m do interesse dos alunos.&nbsp; 2. O ensino de g\u00eanero dialoga com as experi\u00eancias de vida dos estudantes&nbsp; Seguindo a s\u00famula da disciplina, organizamos planos de ensino que a) abordaram o hist\u00f3rico do g\u00eanero e da sexualidade, desde a Antiguidade \u00e0 contemporaneidade, e cujas manifesta\u00e7\u00f5es particulares s\u00e3o encontradas em todo o planeta; b) demonstraram como os feminismos ordenaram e avan\u00e7aram os estudos sobre g\u00eanero; c) adentraram a&nbsp;interseccionalidade, as teorias&nbsp;queer&nbsp;e os estudos&nbsp;trans&nbsp;para compreender as configura\u00e7\u00f5es semi\u00f3ticas, p\u00f3s-estruturalistas e plurais de g\u00eanero; e d) analisaram as pr\u00e1ticas comunicacionais em suas interfaces com g\u00eanero, sexo e sexualidade. Os debates, durante as aulas expositivas dialogadas, sempre foram ampliados com as experi\u00eancias, em primeira pessoa, dos alunos. O estudo de g\u00eanero \u2013 que, em sua melhor forma, \u00e9 denso, m\u00faltiplo e complexo \u2013 faz sentido porque s\u00e3o teorias coladas ao corpo: tanto aquelas teorias&nbsp;contranormativas&nbsp;e iluminadoras, que abrem caminhos, quanto aquelas que restringem, controlam e se imp\u00f5em sobre nossas vidas. Aprender sobre g\u00eanero, com a profundidade e o rigor exigidos no ensino universit\u00e1rio, n\u00e3o apenas prepara melhor futuros profissionais, mas tamb\u00e9m contribui para o desenvolvimento pessoal dos alunos. Enquanto tutora docente, tive a enorme felicidade de ouvir, diversas vezes, como os conte\u00fados compartilhados puderam auxiliar, aprofundar e embasar as compreens\u00f5es de si e dos atritos relacionais que&nbsp;emergem dos conflitos com as normas, e fundamentar pr\u00e1ticas comunicacionais mais \u00e9ticas e saud\u00e1veis.&nbsp; 3. O ensino de g\u00eanero \u00e9, em ess\u00eancia, sobre filosofias e pr\u00e1ticas de poder Quem n\u00e3o est\u00e1 pr\u00f3ximo ao tema pode ficar em d\u00favida sobre a validade ou a relev\u00e2ncia do ensino de g\u00eanero na universidade. No entanto, basta ajustar o olhar para perceber que as narrativas de g\u00eanero cercam nossas vidas, no sentido duplo do termo: tanto est\u00e3o inexoravelmente ao nosso redor quanto demarcam, circunscrevem, impedem. Abordar os embates entre biologia e cultura (um falso dualismo que se revela como quest\u00e3o semi\u00f3tica), e examinar aspr\u00e1ticas de poder que marcam certos corpos em detrimento de outros, demonstram como mulheres, gays, l\u00e9sbicas, bissexuais, pessoas&nbsp;trans&nbsp;e travestis, e pessoas&nbsp;intersexo, entre outras, t\u00eam sofrido discrimina\u00e7\u00e3o, preconceito e viol\u00eancia \u2013 e como essas experi\u00eancias s\u00e3o centrais para a mudan\u00e7a em dire\u00e7\u00e3o ao desenvolvimento \u00e9tico e est\u00e9tico da sociedade.&nbsp; Quem faz comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ignorar os sistemas de poder que agem atrav\u00e9s do g\u00eanero; afirmo com seguran\u00e7a, pois este \u00e9 o campo a que perten\u00e7o. Mas tenho dificuldades em imaginar que curso universit\u00e1rio poderia desconsiderar esses saberes.&nbsp;Sexismo, misoginia, homofobia,&nbsp;bifobia&nbsp;e&nbsp;transfobia&nbsp;atravessam rela\u00e7\u00f5es pessoais e profissionais, e sem a prepara\u00e7\u00e3o adequada, n\u00e3o apenas n\u00e3o conseguimos avan\u00e7ar, mas pioramos a situa\u00e7\u00e3o ao mant\u00ea-la em seu estado opressor.&nbsp; 4. O ensino de g\u00eanero deve ressaltar sua&nbsp;interseccionalidade Entre as muitas vertentes dos feminismos que podemos abordar no ensino de g\u00eanero, h\u00e1 a frequente impress\u00e3o de que importamos teorias sem adapt\u00e1-las suficientemente ou sem respeitar nosso contexto brasileiro e do Sul Global. A resposta \u00e9 muito clara, e trouxe ecos durante a disciplina que ministramos: a ponte necess\u00e1ria \u00e9 valorizar a&nbsp;interseccionalidade, que demonstra a forma como diferentes fatores (g\u00eanero, ra\u00e7a, classe, sexualidade, colonialismo e defici\u00eancia, entre poss\u00edveis outros) se sobrep\u00f5em e entrecruzam, produzindo cen\u00e1rios complexos e multiplicativos de opress\u00e3o ou privil\u00e9gio. Temos, no Brasil, o aporte de importantes pensadoras negras como L\u00e9lia Gonzalez, Sueli Carneiro e Beatriz Nascimento, que j\u00e1 demonstravam que as viol\u00eancias de g\u00eanero, classe e cor s\u00e3o indissoci\u00e1veis muito antes do termo \u201cinterseccionalidade\u201d firmar-se a partir do contexto dos EUA. Em sala de aula, a presen\u00e7a dessas&nbsp;autoras foi muito bem recebida, por amarrar as teorias \u00e0s nossas viv\u00eancias localizadas. Mostramos que o g\u00eanero \u00e9 um tema que avan\u00e7a n\u00e3o s\u00f3 a partir dos feminismos de&nbsp;Wollstonecraft, Beauvoir e&nbsp;Butler, mas tamb\u00e9m com autoras como&nbsp;Angela&nbsp;Davis,&nbsp;bell&nbsp;hooks, N\u00edsia Floresta e as autoras citadas inicialmente. Os alunos podem, com isso, compreender como as quest\u00f5es de g\u00eanero s\u00e3o hist\u00f3ricas e universais, mas tamb\u00e9m atravessam de maneira singular a cultura brasileira; e como os&nbsp;estudos&nbsp;de g\u00eanero necessitam ter, de forma atenta e constante, postura antirracista. 5. O ensino de g\u00eanero \u00e9 libertador Al\u00e9m da experi\u00eancia docente que narro, tamb\u00e9m tive o prazer de colaborar nas disciplinas de Teorias da Comunica\u00e7\u00e3o e Comunica\u00e7\u00e3o e Semi\u00f3tica. Nas aulas que ministrei, trouxe&nbsp;introdu\u00e7\u00f5es e sobrevoos nas Teorias&nbsp;Queer, que avan\u00e7am os estudos de g\u00eanero em dire\u00e7\u00e3o ao p\u00f3s-estruturalismo. Sendo uma das \u00e1reas em que me aprofundei durante a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, \u00e9 um tema muito caro a mim como pessoa e como docente, e pude, continuamente, notar o impacto que estas teorias provocam nos estudantes. Demonstrar,&nbsp;semioticamente, a constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de conceitos como \u201cnatureza\u201d e \u201cnatural\u201d, ou&nbsp;como&nbsp; sistemas&nbsp;dualistas (homem\/mulher, homo\/hetero,&nbsp;cis\/trans) formam engrenagens performativas nas quais os \u00fanicos vencedores s\u00e3o aqueles que ocupam posi\u00e7\u00f5es de poder: s\u00e3o ideias potentes e&nbsp;desterritorializantes, que descortinam horizontes sem oferecer a seguran\u00e7a de respostas fixas ou prontas. Vi alunos reagindo at\u00e9 um pouco assustados, pois, de fato, lhes foi tirado o ch\u00e3o sob os p\u00e9s. E n\u00e3o \u00e9 este um bom papel para as teorias em nossas vidas, reordenar e bagun\u00e7ar, ainda que temporariamente, o que parecia normal, comum e dado? Estudar, ensinar e aprender sobre o g\u00eanero n\u00e3o se limita \u00e0 identidade ou \u00e0 sexualidade, mas pode trazer novas formas de olhar, entender e agir no mundo. \u00c9 essa pot\u00eancia que agrega \u00e0 forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria, ainda mais aquela p\u00fablica, gratuita e de qualidade, produzida em nossas Federais e que, mais que protegida, precisa ser ampliada.&nbsp; H\u00e1 muito a aprender sobre g\u00eanero, e devemos ensin\u00e1-lo A frase que inicia o t\u00edtulo deste artigo foi a resposta de um aluno durante a \u00faltima aula no semestre passado, quando realizamos a avalia\u00e7\u00e3o da disciplina. De forma honesta, direta e c\u00e2ndida, ele testemunhou: \u201cachei que essa cadeira ia ser s\u00f3 lacra\u00e7\u00e3o, mas&nbsp;aprendi muito\u201d. Sou apaixonada pela doc\u00eancia e sempre busco superar as expectativas dos alunos, e fiquei muito feliz de poder tamb\u00e9m subverter algumas delas. Poderia detalhar as muitas alegrias pessoais que tive durante esses per\u00edodos, aula a aula. Tamb\u00e9m&nbsp;poderia comentar sobre as seis&nbsp;coorienta\u00e7\u00f5es&nbsp;de TCC que realizei, sendo cinco delas sobre quest\u00f5es de g\u00eanero; experi\u00eancias transformativas e que seguem florescendo (neste semestre, duas orientandas est\u00e3o realizando sele\u00e7\u00e3o para mestrado). Mas este artigo&nbsp;n\u00e3o \u00e9 sobre mim: \u00e9 sobre a import\u00e2ncia do ensino de g\u00eanero na universidade. E, tendo me dedicado tanto a ele, posso&nbsp;somar-me \u00e0s vozes que afirmam: o ensino de g\u00eanero deve estar presente, ser obrigat\u00f3rio e ter destaque nos curr\u00edculos universit\u00e1rios \u2013 principalmente quando estamos em guerra contra o&nbsp;sexismo&nbsp;e o espantalho da \u201cideologia de g\u00eanero\u201d. Ganhamos todos. 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