{"id":941,"date":"2013-12-03T20:17:26","date_gmt":"2013-12-03T20:17:26","guid":{"rendered":"http:\/\/corporalidades.wordpress.com\/?p=775"},"modified":"2013-12-03T20:17:26","modified_gmt":"2013-12-03T20:17:26","slug":"sobre-o-conceito-de-intercorporeidade-de-maurice-merleau-ponty","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/sobre-o-conceito-de-intercorporeidade-de-maurice-merleau-ponty\/","title":{"rendered":"Sobre o conceito de Intercorporeidade, de Maurice Merleau-Ponty"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/corporalidades.files.wordpress.com\/2013\/12\/foto.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-776 aligncenter\" alt=\"FOTO\" src=\"http:\/\/corporalidades.files.wordpress.com\/2013\/12\/foto.jpg\" width=\"219\" height=\"285\" \/><\/a><\/p>\n<p>Na fotografia acima, vemos o fil\u00f3sofo franc\u00eas Maurice Merleau-Ponty de m\u00e3os dadas com outra pessoa (uma crian\u00e7a n\u00e3o identificada). Este ato, congelado no instante fotogr\u00e1fico, \u00e9 uma ilustra\u00e7\u00e3o precisa do seu conceito de Intercorporeidade (ou Intercorporalidade). O encontro de duas m\u00e3os \u00e9 o exemplo mais recorrente que Merleau-Ponty utiliza para pensar o sujeito n\u00e3o apenas como consci\u00eancia, tal como a fenomenologia de Edmund Husserl, mas tamb\u00e9m como carne (<i>Leib<\/i>).<\/p>\n<p>Quando minha m\u00e3o direita toca minha m\u00e3o esquerda, sinto-a como uma \u2018coisa f\u00edsica\u2019, mas no mesmo momento, se eu quiser, ocorrer\u00e1 um acontecimento extraordin\u00e1rio: eis que a m\u00e3o esquerda tamb\u00e9m come\u00e7ar\u00e1 a sentir a m\u00e3o direita, <i>es wird Leib, es empfindet<\/i> (MERLEAU-PONTY, 1991, p. 183-184).<\/p>\n<p>Sabemos que a virada do pensamento proposto pela filosofia de Husserl \u00e9 entender que o <i>cogito<\/i> n\u00e3o se fecha em si (como no egocentrismo cartesiano), mas mant\u00e9m um contato direto com o mundo da vida, sendo sempre consci\u00eancia de alguma coisa. Ao se dirigir ao externo, por interm\u00e9dio de uma intencionalidade, a consci\u00eancia experimenta os objetos do mundo. Dentre estes objetos, est\u00e3o tamb\u00e9m outros corpos humanos. Por isso que Husserl dedica uma das suas Medita\u00e7\u00f5es Cartesianas (a quinta) para formular uma teoria da intersubjetividade, voltada a compreender como a consci\u00eancia intencional experimenta outra consci\u00eancia, outro ego.<\/p>\n<p>Se, compreendendo o outro, penetro profundamente no seu horizonte de propriedade, ent\u00e3o de imediato darei com o fato de que, assim como o seu soma corp\u00f3reo se encontra no meu campo de percep\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m o meu soma se encontra no seu, e que, em geral, ele me experiencia sem mais como um outro para ele, tal como eu o experiencio como meu outro. Do mesmo modo, darei como o fato de que, no caso dos membros de uma pluralidade, tamb\u00e9m eles se experienciam uns aos outros como outros; [&#8230;] Naturalmente, a essa comunidade corresponde, na concre\u00e7\u00e3o transcendental, uma correspondente comunidade mon\u00e1dica aberta, que designamos de intersubjetividade transcendental. Ela \u00e9, como quase n\u00e3o precisa ser dito, para mim constitu\u00edda em mim, no ego mediante, puramente a partir das fontes da minha intencionalidade, mas ela \u00e9 constitu\u00edda como a mesma para cada m\u00f4nada, que \u00e9 por sua vez constitu\u00edda na modifica\u00e7\u00e3o do outro, apenas como um diferente modo subjetivo de apari\u00e7\u00e3o, e como trazendo necessariamente em si o mesmo mundo objetivo (HUSSERL, 2013, p. 168-169).<\/p>\n<p>Na fenomenologia, o sujeito, enquanto consci\u00eancia individual, n\u00e3o percebe outro indiv\u00edduo apenas como um objeto. O soci\u00f3logo alem\u00e3o Alfred Schutz (1979) avan\u00e7ou nessa quest\u00e3o ao observar os relacionamentos sociais pelo prisma da intersubjetividade husserliana. Para o autor, certamente que o conhecimento do outro \u00e9 produzido pela percep\u00e7\u00e3o visual de um corpo, um objeto material presente. Contudo, este outro \u00e9 dado \u00e0 consci\u00eancia como um contra-sujeito, a quem naturalmente se confere vida e consci\u00eancia.\u00a0 A diferen\u00e7a \u00e9 que a vida interior do outro n\u00e3o \u00e9 uma presen\u00e7a origin\u00e1ria, como \u00e9 o corpo, e sim uma apresenta\u00e7\u00e3o resultante das indica\u00e7\u00f5es dos movimentos corporais: ela \u201cn\u00e3o \u00e9 presentada, mas apresentada\u201d (SCHUTZ, 1979, p. 160). O conceito de intersubjetividade, com isso, \u00e9 um fundado em um dualismo sujeito-objeto, consci\u00eancia-corpo.<\/p>\n<p>O conceito de Intercorporeidade surge no final da obra de Merleau-Ponty (\u00e9 desenvolvido no sexto cap\u00edtulo do livro <i>Signos<\/i>) justamente como tentativa de superar o dualismo da intersubjetividade husserliana. A quest\u00e3o colocada pelo autor \u00e9 que o corpo n\u00e3o \u00e9 apenas um objeto de presen\u00e7a origin\u00e1ria tal como outros objetos do mundo: \u00e9 uma mat\u00e9ria sens\u00edvel, excit\u00e1vel; \u00e9 carne. \u00c9 a partir dele que sentimos: o corpo (e n\u00e3o apenas a consci\u00eancia) pertence \u00e0 dimens\u00e3o da subjetividade. Ao ser carne, ele \u00e9 ao mesmo tempo sujeito e objeto. \u00c9 nessa linha de pensamento que Merleau-Pornty formula a no\u00e7\u00e3o de um sujeito carnal.<\/p>\n<p>Ao saber que meu corpo \u00e9 \u201ccoisa que sente\u201d, que \u00e9 excit\u00e1vel (reizbar) \u2013 ele, e n\u00e3o apenas a minha \u201cconsci\u00eancia\u201d \u2013, preparei-me para compreender que h\u00e1 outras animalia e possivelmente outros homens. \u00c9 preciso atentar que nisso n\u00e3o h\u00e1 nem compara\u00e7\u00e3o, nem analogia, nem proje\u00e7\u00e3o ou \u201cintroje\u00e7\u00e3o\u201d. Se, ao apertar a m\u00e3o de outro homem, tenho a evid\u00eancia de seu estar-ali, \u00e9 porque ela se substitui \u00e0 minha m\u00e3o esquerda, porque meu corpo anexa o corpo do outro a essa \u201cesp\u00e9cie de reflex\u00e3o\u201d da qual ele \u00e9 paradoxalmente a sede. Minhas duas m\u00e3os s\u00e3o \u201cco-presentes\u201d ou \u201ccoexistem\u201d porque s\u00e3o as m\u00e3os de um \u00fanico corpo: o outro aparece por extens\u00e3o dessa co-presen\u00e7a, ele e eu somos como que os \u00f3rg\u00e3os de uma \u00fanica intercorporalidade. (MERLEAU-PONTY, 1991, p. 185-186).<\/p>\n<p>A intercorporeidade nos parece ser um conceito fundamental para os estudos sobre corpo. Primeiramente, para os casos em que o objeto pesquisado n\u00e3o \u00e9 um corpo isolado, e sim corpos em rela\u00e7\u00e3o \u2013 ele possibilita deslocar a problematiza\u00e7\u00e3o para um \u201cespa\u00e7o\u201d entre os corpos (as a\u00e7\u00f5es intercorporais que s\u00e3o engendradas). Em segundo lugar, revela ao pesquisador, enquanto sujeito, a sua pr\u00f3pria natureza carnal: que no contato com outros corpos, o seu corpo \u00e9 tamb\u00e9m excitado. Em outras palavras: para pesquisar o corpo dos outros, \u00e9 preciso partir do conhecimento sobre o seu pr\u00f3prio corpo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>REFER\u00caNCIAS<\/b><\/p>\n<p>HUSSERL, Edmund. <b>Medita\u00e7\u00f5es Cartesianas e Confer\u00eancias de Paris<\/b>. Rio de Janeiro: Forense Universit\u00e1ria, 2012.<\/p>\n<p>MERLEAU-PONTY, Maurice. <b>Signos<\/b>. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 1991.<\/p>\n<p>SCHUTZ, Alfred. <b>Fenomenologia e rela\u00e7\u00f5es sociais<\/b>. Rio de Janeiro: Zahar editores, 1979.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>TEXTO<\/strong><\/p>\n<p>Alex Damasceno.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na fotografia acima, vemos o fil\u00f3sofo franc\u00eas Maurice Merleau-Ponty de m\u00e3os dadas com outra pessoa (uma crian\u00e7a n\u00e3o identificada). Este ato, congelado no instante fotogr\u00e1fico, \u00e9 uma ilustra\u00e7\u00e3o precisa do seu conceito de Intercorporeidade (ou Intercorporalidade). O encontro de duas m\u00e3os \u00e9 o exemplo mais recorrente que Merleau-Ponty utiliza para pensar o sujeito n\u00e3o apenas como consci\u00eancia, tal como a fenomenologia de Edmund Husserl, mas tamb\u00e9m como carne (Leib). Quando minha m\u00e3o direita toca minha m\u00e3o esquerda, sinto-a como uma \u2018coisa f\u00edsica\u2019, mas no mesmo momento, se eu quiser, ocorrer\u00e1 um acontecimento extraordin\u00e1rio: eis que a m\u00e3o esquerda tamb\u00e9m come\u00e7ar\u00e1 a sentir a m\u00e3o direita, es wird Leib, es empfindet (MERLEAU-PONTY, 1991, p. 183-184). Sabemos que a virada do pensamento proposto pela filosofia de Husserl \u00e9 entender que o cogito n\u00e3o se fecha em si (como no egocentrismo cartesiano), mas mant\u00e9m um contato direto com o mundo da vida, sendo sempre consci\u00eancia de alguma coisa. Ao se dirigir ao externo, por interm\u00e9dio de uma intencionalidade, a consci\u00eancia experimenta os objetos do mundo. Dentre estes objetos, est\u00e3o tamb\u00e9m outros corpos humanos. Por isso que Husserl dedica uma das suas Medita\u00e7\u00f5es Cartesianas (a quinta) para formular uma teoria da intersubjetividade, voltada a compreender como a consci\u00eancia intencional experimenta outra consci\u00eancia, outro ego. Se, compreendendo o outro, penetro profundamente no seu horizonte de propriedade, ent\u00e3o de imediato darei com o fato de que, assim como o seu soma corp\u00f3reo se encontra no meu campo de percep\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m o meu soma se encontra no seu, e que, em geral, ele me experiencia sem mais como um outro para ele, tal como eu o experiencio como meu outro. Do mesmo modo, darei como o fato de que, no caso dos membros de uma pluralidade, tamb\u00e9m eles se experienciam uns aos outros como outros; [&#8230;] Naturalmente, a essa comunidade corresponde, na concre\u00e7\u00e3o transcendental, uma correspondente comunidade mon\u00e1dica aberta, que designamos de intersubjetividade transcendental. Ela \u00e9, como quase n\u00e3o precisa ser dito, para mim constitu\u00edda em mim, no ego mediante, puramente a partir das fontes da minha intencionalidade, mas ela \u00e9 constitu\u00edda como a mesma para cada m\u00f4nada, que \u00e9 por sua vez constitu\u00edda na modifica\u00e7\u00e3o do outro, apenas como um diferente modo subjetivo de apari\u00e7\u00e3o, e como trazendo necessariamente em si o mesmo mundo objetivo (HUSSERL, 2013, p. 168-169). Na fenomenologia, o sujeito, enquanto consci\u00eancia individual, n\u00e3o percebe outro indiv\u00edduo apenas como um objeto. O soci\u00f3logo alem\u00e3o Alfred Schutz (1979) avan\u00e7ou nessa quest\u00e3o ao observar os relacionamentos sociais pelo prisma da intersubjetividade husserliana. Para o autor, certamente que o conhecimento do outro \u00e9 produzido pela percep\u00e7\u00e3o visual de um corpo, um objeto material presente. Contudo, este outro \u00e9 dado \u00e0 consci\u00eancia como um contra-sujeito, a quem naturalmente se confere vida e consci\u00eancia.\u00a0 A diferen\u00e7a \u00e9 que a vida interior do outro n\u00e3o \u00e9 uma presen\u00e7a origin\u00e1ria, como \u00e9 o corpo, e sim uma apresenta\u00e7\u00e3o resultante das indica\u00e7\u00f5es dos movimentos corporais: ela \u201cn\u00e3o \u00e9 presentada, mas apresentada\u201d (SCHUTZ, 1979, p. 160). O conceito de intersubjetividade, com isso, \u00e9 um fundado em um dualismo sujeito-objeto, consci\u00eancia-corpo. O conceito de Intercorporeidade surge no final da obra de Merleau-Ponty (\u00e9 desenvolvido no sexto cap\u00edtulo do livro Signos) justamente como tentativa de superar o dualismo da intersubjetividade husserliana. A quest\u00e3o colocada pelo autor \u00e9 que o corpo n\u00e3o \u00e9 apenas um objeto de presen\u00e7a origin\u00e1ria tal como outros objetos do mundo: \u00e9 uma mat\u00e9ria sens\u00edvel, excit\u00e1vel; \u00e9 carne. \u00c9 a partir dele que sentimos: o corpo (e n\u00e3o apenas a consci\u00eancia) pertence \u00e0 dimens\u00e3o da subjetividade. Ao ser carne, ele \u00e9 ao mesmo tempo sujeito e objeto. \u00c9 nessa linha de pensamento que Merleau-Pornty formula a no\u00e7\u00e3o de um sujeito carnal. Ao saber que meu corpo \u00e9 \u201ccoisa que sente\u201d, que \u00e9 excit\u00e1vel (reizbar) \u2013 ele, e n\u00e3o apenas a minha \u201cconsci\u00eancia\u201d \u2013, preparei-me para compreender que h\u00e1 outras animalia e possivelmente outros homens. \u00c9 preciso atentar que nisso n\u00e3o h\u00e1 nem compara\u00e7\u00e3o, nem analogia, nem proje\u00e7\u00e3o ou \u201cintroje\u00e7\u00e3o\u201d. Se, ao apertar a m\u00e3o de outro homem, tenho a evid\u00eancia de seu estar-ali, \u00e9 porque ela se substitui \u00e0 minha m\u00e3o esquerda, porque meu corpo anexa o corpo do outro a essa \u201cesp\u00e9cie de reflex\u00e3o\u201d da qual ele \u00e9 paradoxalmente a sede. Minhas duas m\u00e3os s\u00e3o \u201cco-presentes\u201d ou \u201ccoexistem\u201d porque s\u00e3o as m\u00e3os de um \u00fanico corpo: o outro aparece por extens\u00e3o dessa co-presen\u00e7a, ele e eu somos como que os \u00f3rg\u00e3os de uma \u00fanica intercorporalidade. (MERLEAU-PONTY, 1991, p. 185-186). A intercorporeidade nos parece ser um conceito fundamental para os estudos sobre corpo. Primeiramente, para os casos em que o objeto pesquisado n\u00e3o \u00e9 um corpo isolado, e sim corpos em rela\u00e7\u00e3o \u2013 ele possibilita deslocar a problematiza\u00e7\u00e3o para um \u201cespa\u00e7o\u201d entre os corpos (as a\u00e7\u00f5es intercorporais que s\u00e3o engendradas). Em segundo lugar, revela ao pesquisador, enquanto sujeito, a sua pr\u00f3pria natureza carnal: que no contato com outros corpos, o seu corpo \u00e9 tamb\u00e9m excitado. Em outras palavras: para pesquisar o corpo dos outros, \u00e9 preciso partir do conhecimento sobre o seu pr\u00f3prio corpo. &nbsp; REFER\u00caNCIAS HUSSERL, Edmund. Medita\u00e7\u00f5es Cartesianas e Confer\u00eancias de Paris. Rio de Janeiro: Forense Universit\u00e1ria, 2012. MERLEAU-PONTY, Maurice. Signos. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 1991. SCHUTZ, Alfred. Fenomenologia e rela\u00e7\u00f5es sociais. Rio de Janeiro: Zahar editores, 1979. &nbsp; TEXTO Alex Damasceno.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":942,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-941","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Sobre o conceito de Intercorporeidade, de Maurice Merleau-Ponty - Corporalidades<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/sobre-o-conceito-de-intercorporeidade-de-maurice-merleau-ponty\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"en_US\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Sobre o conceito de Intercorporeidade, de Maurice Merleau-Ponty - Corporalidades\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Na fotografia acima, vemos o fil\u00f3sofo franc\u00eas Maurice Merleau-Ponty de m\u00e3os dadas com outra pessoa (uma crian\u00e7a n\u00e3o identificada). 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Ao se dirigir ao externo, por interm\u00e9dio de uma intencionalidade, a consci\u00eancia experimenta os objetos do mundo. Dentre estes objetos, est\u00e3o tamb\u00e9m outros corpos humanos. Por isso que Husserl dedica uma das suas Medita\u00e7\u00f5es Cartesianas (a quinta) para formular uma teoria da intersubjetividade, voltada a compreender como a consci\u00eancia intencional experimenta outra consci\u00eancia, outro ego. Se, compreendendo o outro, penetro profundamente no seu horizonte de propriedade, ent\u00e3o de imediato darei com o fato de que, assim como o seu soma corp\u00f3reo se encontra no meu campo de percep\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m o meu soma se encontra no seu, e que, em geral, ele me experiencia sem mais como um outro para ele, tal como eu o experiencio como meu outro. Do mesmo modo, darei como o fato de que, no caso dos membros de uma pluralidade, tamb\u00e9m eles se experienciam uns aos outros como outros; [&#8230;] Naturalmente, a essa comunidade corresponde, na concre\u00e7\u00e3o transcendental, uma correspondente comunidade mon\u00e1dica aberta, que designamos de intersubjetividade transcendental. Ela \u00e9, como quase n\u00e3o precisa ser dito, para mim constitu\u00edda em mim, no ego mediante, puramente a partir das fontes da minha intencionalidade, mas ela \u00e9 constitu\u00edda como a mesma para cada m\u00f4nada, que \u00e9 por sua vez constitu\u00edda na modifica\u00e7\u00e3o do outro, apenas como um diferente modo subjetivo de apari\u00e7\u00e3o, e como trazendo necessariamente em si o mesmo mundo objetivo (HUSSERL, 2013, p. 168-169). Na fenomenologia, o sujeito, enquanto consci\u00eancia individual, n\u00e3o percebe outro indiv\u00edduo apenas como um objeto. O soci\u00f3logo alem\u00e3o Alfred Schutz (1979) avan\u00e7ou nessa quest\u00e3o ao observar os relacionamentos sociais pelo prisma da intersubjetividade husserliana. Para o autor, certamente que o conhecimento do outro \u00e9 produzido pela percep\u00e7\u00e3o visual de um corpo, um objeto material presente. Contudo, este outro \u00e9 dado \u00e0 consci\u00eancia como um contra-sujeito, a quem naturalmente se confere vida e consci\u00eancia.\u00a0 A diferen\u00e7a \u00e9 que a vida interior do outro n\u00e3o \u00e9 uma presen\u00e7a origin\u00e1ria, como \u00e9 o corpo, e sim uma apresenta\u00e7\u00e3o resultante das indica\u00e7\u00f5es dos movimentos corporais: ela \u201cn\u00e3o \u00e9 presentada, mas apresentada\u201d (SCHUTZ, 1979, p. 160). O conceito de intersubjetividade, com isso, \u00e9 um fundado em um dualismo sujeito-objeto, consci\u00eancia-corpo. O conceito de Intercorporeidade surge no final da obra de Merleau-Ponty (\u00e9 desenvolvido no sexto cap\u00edtulo do livro Signos) justamente como tentativa de superar o dualismo da intersubjetividade husserliana. A quest\u00e3o colocada pelo autor \u00e9 que o corpo n\u00e3o \u00e9 apenas um objeto de presen\u00e7a origin\u00e1ria tal como outros objetos do mundo: \u00e9 uma mat\u00e9ria sens\u00edvel, excit\u00e1vel; \u00e9 carne. \u00c9 a partir dele que sentimos: o corpo (e n\u00e3o apenas a consci\u00eancia) pertence \u00e0 dimens\u00e3o da subjetividade. Ao ser carne, ele \u00e9 ao mesmo tempo sujeito e objeto. \u00c9 nessa linha de pensamento que Merleau-Pornty formula a no\u00e7\u00e3o de um sujeito carnal. Ao saber que meu corpo \u00e9 \u201ccoisa que sente\u201d, que \u00e9 excit\u00e1vel (reizbar) \u2013 ele, e n\u00e3o apenas a minha \u201cconsci\u00eancia\u201d \u2013, preparei-me para compreender que h\u00e1 outras animalia e possivelmente outros homens. \u00c9 preciso atentar que nisso n\u00e3o h\u00e1 nem compara\u00e7\u00e3o, nem analogia, nem proje\u00e7\u00e3o ou \u201cintroje\u00e7\u00e3o\u201d. Se, ao apertar a m\u00e3o de outro homem, tenho a evid\u00eancia de seu estar-ali, \u00e9 porque ela se substitui \u00e0 minha m\u00e3o esquerda, porque meu corpo anexa o corpo do outro a essa \u201cesp\u00e9cie de reflex\u00e3o\u201d da qual ele \u00e9 paradoxalmente a sede. Minhas duas m\u00e3os s\u00e3o \u201cco-presentes\u201d ou \u201ccoexistem\u201d porque s\u00e3o as m\u00e3os de um \u00fanico corpo: o outro aparece por extens\u00e3o dessa co-presen\u00e7a, ele e eu somos como que os \u00f3rg\u00e3os de uma \u00fanica intercorporalidade. (MERLEAU-PONTY, 1991, p. 185-186). A intercorporeidade nos parece ser um conceito fundamental para os estudos sobre corpo. Primeiramente, para os casos em que o objeto pesquisado n\u00e3o \u00e9 um corpo isolado, e sim corpos em rela\u00e7\u00e3o \u2013 ele possibilita deslocar a problematiza\u00e7\u00e3o para um \u201cespa\u00e7o\u201d entre os corpos (as a\u00e7\u00f5es intercorporais que s\u00e3o engendradas). Em segundo lugar, revela ao pesquisador, enquanto sujeito, a sua pr\u00f3pria natureza carnal: que no contato com outros corpos, o seu corpo \u00e9 tamb\u00e9m excitado. Em outras palavras: para pesquisar o corpo dos outros, \u00e9 preciso partir do conhecimento sobre o seu pr\u00f3prio corpo. &nbsp; REFER\u00caNCIAS HUSSERL, Edmund. Medita\u00e7\u00f5es Cartesianas e Confer\u00eancias de Paris. Rio de Janeiro: Forense Universit\u00e1ria, 2012. MERLEAU-PONTY, Maurice. Signos. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 1991. SCHUTZ, Alfred. Fenomenologia e rela\u00e7\u00f5es sociais. 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Este ato, congelado no instante fotogr\u00e1fico, \u00e9 uma ilustra\u00e7\u00e3o precisa do seu conceito de Intercorporeidade (ou Intercorporalidade). O encontro de duas m\u00e3os \u00e9 o exemplo mais recorrente que Merleau-Ponty utiliza para pensar o sujeito n\u00e3o apenas como consci\u00eancia, tal como a fenomenologia de Edmund Husserl, mas tamb\u00e9m como carne (Leib). Quando minha m\u00e3o direita toca minha m\u00e3o esquerda, sinto-a como uma \u2018coisa f\u00edsica\u2019, mas no mesmo momento, se eu quiser, ocorrer\u00e1 um acontecimento extraordin\u00e1rio: eis que a m\u00e3o esquerda tamb\u00e9m come\u00e7ar\u00e1 a sentir a m\u00e3o direita, es wird Leib, es empfindet (MERLEAU-PONTY, 1991, p. 183-184). Sabemos que a virada do pensamento proposto pela filosofia de Husserl \u00e9 entender que o cogito n\u00e3o se fecha em si (como no egocentrismo cartesiano), mas mant\u00e9m um contato direto com o mundo da vida, sendo sempre consci\u00eancia de alguma coisa. Ao se dirigir ao externo, por interm\u00e9dio de uma intencionalidade, a consci\u00eancia experimenta os objetos do mundo. Dentre estes objetos, est\u00e3o tamb\u00e9m outros corpos humanos. Por isso que Husserl dedica uma das suas Medita\u00e7\u00f5es Cartesianas (a quinta) para formular uma teoria da intersubjetividade, voltada a compreender como a consci\u00eancia intencional experimenta outra consci\u00eancia, outro ego. Se, compreendendo o outro, penetro profundamente no seu horizonte de propriedade, ent\u00e3o de imediato darei com o fato de que, assim como o seu soma corp\u00f3reo se encontra no meu campo de percep\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m o meu soma se encontra no seu, e que, em geral, ele me experiencia sem mais como um outro para ele, tal como eu o experiencio como meu outro. Do mesmo modo, darei como o fato de que, no caso dos membros de uma pluralidade, tamb\u00e9m eles se experienciam uns aos outros como outros; [&#8230;] Naturalmente, a essa comunidade corresponde, na concre\u00e7\u00e3o transcendental, uma correspondente comunidade mon\u00e1dica aberta, que designamos de intersubjetividade transcendental. Ela \u00e9, como quase n\u00e3o precisa ser dito, para mim constitu\u00edda em mim, no ego mediante, puramente a partir das fontes da minha intencionalidade, mas ela \u00e9 constitu\u00edda como a mesma para cada m\u00f4nada, que \u00e9 por sua vez constitu\u00edda na modifica\u00e7\u00e3o do outro, apenas como um diferente modo subjetivo de apari\u00e7\u00e3o, e como trazendo necessariamente em si o mesmo mundo objetivo (HUSSERL, 2013, p. 168-169). Na fenomenologia, o sujeito, enquanto consci\u00eancia individual, n\u00e3o percebe outro indiv\u00edduo apenas como um objeto. O soci\u00f3logo alem\u00e3o Alfred Schutz (1979) avan\u00e7ou nessa quest\u00e3o ao observar os relacionamentos sociais pelo prisma da intersubjetividade husserliana. Para o autor, certamente que o conhecimento do outro \u00e9 produzido pela percep\u00e7\u00e3o visual de um corpo, um objeto material presente. Contudo, este outro \u00e9 dado \u00e0 consci\u00eancia como um contra-sujeito, a quem naturalmente se confere vida e consci\u00eancia.\u00a0 A diferen\u00e7a \u00e9 que a vida interior do outro n\u00e3o \u00e9 uma presen\u00e7a origin\u00e1ria, como \u00e9 o corpo, e sim uma apresenta\u00e7\u00e3o resultante das indica\u00e7\u00f5es dos movimentos corporais: ela \u201cn\u00e3o \u00e9 presentada, mas apresentada\u201d (SCHUTZ, 1979, p. 160). O conceito de intersubjetividade, com isso, \u00e9 um fundado em um dualismo sujeito-objeto, consci\u00eancia-corpo. O conceito de Intercorporeidade surge no final da obra de Merleau-Ponty (\u00e9 desenvolvido no sexto cap\u00edtulo do livro Signos) justamente como tentativa de superar o dualismo da intersubjetividade husserliana. A quest\u00e3o colocada pelo autor \u00e9 que o corpo n\u00e3o \u00e9 apenas um objeto de presen\u00e7a origin\u00e1ria tal como outros objetos do mundo: \u00e9 uma mat\u00e9ria sens\u00edvel, excit\u00e1vel; \u00e9 carne. \u00c9 a partir dele que sentimos: o corpo (e n\u00e3o apenas a consci\u00eancia) pertence \u00e0 dimens\u00e3o da subjetividade. Ao ser carne, ele \u00e9 ao mesmo tempo sujeito e objeto. \u00c9 nessa linha de pensamento que Merleau-Pornty formula a no\u00e7\u00e3o de um sujeito carnal. Ao saber que meu corpo \u00e9 \u201ccoisa que sente\u201d, que \u00e9 excit\u00e1vel (reizbar) \u2013 ele, e n\u00e3o apenas a minha \u201cconsci\u00eancia\u201d \u2013, preparei-me para compreender que h\u00e1 outras animalia e possivelmente outros homens. \u00c9 preciso atentar que nisso n\u00e3o h\u00e1 nem compara\u00e7\u00e3o, nem analogia, nem proje\u00e7\u00e3o ou \u201cintroje\u00e7\u00e3o\u201d. Se, ao apertar a m\u00e3o de outro homem, tenho a evid\u00eancia de seu estar-ali, \u00e9 porque ela se substitui \u00e0 minha m\u00e3o esquerda, porque meu corpo anexa o corpo do outro a essa \u201cesp\u00e9cie de reflex\u00e3o\u201d da qual ele \u00e9 paradoxalmente a sede. Minhas duas m\u00e3os s\u00e3o \u201cco-presentes\u201d ou \u201ccoexistem\u201d porque s\u00e3o as m\u00e3os de um \u00fanico corpo: o outro aparece por extens\u00e3o dessa co-presen\u00e7a, ele e eu somos como que os \u00f3rg\u00e3os de uma \u00fanica intercorporalidade. (MERLEAU-PONTY, 1991, p. 185-186). A intercorporeidade nos parece ser um conceito fundamental para os estudos sobre corpo. Primeiramente, para os casos em que o objeto pesquisado n\u00e3o \u00e9 um corpo isolado, e sim corpos em rela\u00e7\u00e3o \u2013 ele possibilita deslocar a problematiza\u00e7\u00e3o para um \u201cespa\u00e7o\u201d entre os corpos (as a\u00e7\u00f5es intercorporais que s\u00e3o engendradas). Em segundo lugar, revela ao pesquisador, enquanto sujeito, a sua pr\u00f3pria natureza carnal: que no contato com outros corpos, o seu corpo \u00e9 tamb\u00e9m excitado. Em outras palavras: para pesquisar o corpo dos outros, \u00e9 preciso partir do conhecimento sobre o seu pr\u00f3prio corpo. &nbsp; REFER\u00caNCIAS HUSSERL, Edmund. Medita\u00e7\u00f5es Cartesianas e Confer\u00eancias de Paris. Rio de Janeiro: Forense Universit\u00e1ria, 2012. MERLEAU-PONTY, Maurice. Signos. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 1991. SCHUTZ, Alfred. Fenomenologia e rela\u00e7\u00f5es sociais. 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