Porto Alegre do aeromóvel

Mapas da memória é um conjunto de percursos, em forma de crônicas, que os alunos de Jornalismo e Cultural realizaram no final do semestre acadêmico de 2020-02, sob a orientação da Professora Cida Golin. Provocados pela discussão sobre a cidade, sua dimensão de lugar atravessado pela experiência e pelos afetos, pelos muros visíveis e invisíveis, os autores partiram para a construção de um mapa coletivo a partir de percursos absolutamente singulares. Boa leitura!


*Por: Matheus Rikalla

Poucos lugares são mais a cara de Porto Alegre que a praça Júlio Mesquita, em frente à Usina do Gasômetro. Ou, como é mais conhecida, praça do Aeromóvel, por causa da imensa estrutura abandonada presente nela. A praça também andava meio abandonada, até ser reformada em 2016. Possui localização privilegiada, próxima ao famoso pôr-do-sol na orla de Porto Alegre. Fica em frente ao boteco do Paulista, onde volta e meia tem uma roda de samba. Na própria praça acontecem shows também, e saída de bloco de carnaval.


O local reúne várias das principais atividades de lazer da cidade, mas não é esse o motivo que me leva a considerá-lo a cara de Porto Alegre. O real motivo é aquela imensa estrutura abandonada, o aeromóvel, que muitas vezes simplesmente esquecemos o porquê existe. Mas diz muito sobre a história e a identidade da cidade.

O aeromóvel foi inventado por um gaúcho em 1982. Oskar Coester, que morreu de um AVC, em novembro do ano passado, queria solucionar os problemas relacionados à expansão urbana e oferecer uma alternativa para lidar com a crise do petróleo. O veículo de 10 toneladas era movido a ar e andava por trilhos suspensos a cinco metros do chão, evitando congestionamentos e utilizando energias limpas. Aparentemente tinha tudo para ter dado certo, mas esbarrou na troca de ministro dos transportes do governo Figueiredo. Cloraldino Severo “queria menos trens”.

A construção no gasômetro foi abandonada, mas ficou sendo ponto de referência, prova do grande poder de ressignificação humano. As pessoas falam “me encontra lá no aeromóvel”, mas na verdade não estão se referindo a um aeromóvel real. É o aeromóvel possível, o que nunca foi acabado. É apenas uma estrutura vazia, mas que representa o potencial da cidade. É aí que me refiro quando falo que essa praça é a cara de Porto Alegre. Uma cidade com um potencial nunca inteiramente despertado, prometida por vezes como a “cidade do futuro”. É a cidade do Orçamento Participativo. Do Fórum Social Mundial. Do aeromóvel.


A invenção que não fez tanto sucesso por aqui acabou sendo um sucesso quando foi implementada em Jacarta, na Indonésia. Por aqui, quase trinta anos depois, foi construído para a Copa um pequeno trecho ligando o aeroporto Salgado Filho com a estação Aeroporto do Trensurb. Atualmente, diversos países estudam implementar a tecnologia. Vários já utilizam sistemas parecidos, como o Skytrain, na Alemanha. Outras cidades brasileiras também querem implementar, como São Paulo no aeroporto de Guarulhos. O nosso primeiro está lá, inacabado. Apenas um ideal. A lembrança de mais uma vez em que Porto Alegre foi a cidade do futuro.

Foto de Claudia Bueno | UFRGS https://www.ufrgs.br/jordi/171-mobilidadepoa/