
Memórias do Balneário Alegria
Os alunos de Jornalismo Cultural, no semestre acadêmico de 2021/1, contaram histórias de suas cidades por meio da crônica-reportagem. Buscaram entender as mudanças do lugar a partir da perspectiva da memória. Leia aqui o caso do famoso balneário da Alegria, bem pertinho da Capital, no outro lado do rio, que atravessou a experiência familiar de um dos alunos da turma. A orientação do trabalho foi da professora Cida Golin.
*Por: Luís Andrei Arndt de Souza
A primeira vez que vi uma praia de verdade foi quando visitei a Praia da Alegria, localizada no município de Guaíba. É difícil explicar para uma criança o porquê da imensidão de água ser proibida para banho. Ainda mais quando existem corajosos que mergulham sem preocupações como se a água fosse cristalina. Lembro de ter entrado na água. Estávamos eu e meu primo, sob a tutela de meu pai. “Teu pai deixou vocês tomarem banho na água suja”, reclama a minha mãe. Nesse dia, notei uma família de estrangeiros que falavam uma língua desconhecida. Mais tarde, descobri que era espanhol, ou castelhano, como diria meu pai.
As lembranças da praia sempre estiveram presentes no imaginário dos guaibenses. Parte dessas memórias ainda sobrevivem na minha família. Foi por meio de conversas com minha mãe e minha avó que descobri a importância das praias de Guaíba. As suas implicações na economia do município, a relação com o meio ambiente e com o dia a dia dos moradores.
Ainda na época que minha mãe frequentava a Praia da Alegria, na década de 1980, poucos eram os que se aventuravam na água. Mesmo assim, a praia era o motivo para caminhar e encontrar os amigos. Os bares e restaurantes próximos ao balneário ainda eram muito movimentados. “Tinha o Hotel Gaúcho, o famoso Bar do Ratinho e restaurante Pedalinhos, que muita gente achava que era um cabaré, mas era uma boate.”, diz minha mãe. Os carros passavam de um lado para o outro na Avenida da Alegria, tal qual acontece hoje na Beira do Guaíba, apelido concedido pelos guaibenses à extensão da Avenida João Pessoa e da Getúlio Vargas.
Quando perguntamos o porquê das praias de Guaíba serem proibidas para banho, a poluição é a primeira resposta. Na década de 1970, a empresa norueguesa Borregaard, produtora de celulose, havia sido interditada por danos ambientais. Apesar de instalada em Guaíba, às margens do lago e a cerca de 5 quilômetros das praias, o cheiro de comida estragada chegava até Porto Alegre. Os moradores de Guaíba aproveitaram muitos verões no Balneário Alegria antes da instalação das indústrias. Até hoje, há quem culpe a indústria de celulose pelo fim dos verões nas praias de Guaíba. Mas nem sempre foi assim.
Minha avó me falou que os ônibus passavam o dia inteiro levando e trazendo os banhistas que se deslocavam pelas balsas. “A água era a coisa mais linda”, ela diz. Do Cais Mauá, em Porto Alegre, partia todas as manhãs o Guaporé, um barco a vapor, que voltava somente no fim do dia. As barcas passavam o dia todo indo e voltando. Mas a travessia pelo lago Guaíba não era restrita somente aos banhistas: caminhões carregados com mercadorias e automóveis também eram trazidos ao município.

As praias da Alegria, Vila Elza e Florida eram os locais preferidos dos porto-alegrenses para passar o verão. Nos arredores, casas de veraneio construídas pelos mais endinheirados se destacavam. “Acho que Porto Alegre esvaziava para vir pra cá”.
Guaíba ainda é uma cidade pequena se comparada a capital. Naquela época, era ainda menor. A maioria dos bairros que conhecemos hoje não existiam. Apesar da pequena população, a presença de turistas era tão grande que somente no Balneário Alegria funcionavam seis hotéis: O Pedra Bonita, Zimmer, Gaúcho, Cabral, Florida e Figueira.
A qualidade da água e a generosa faixa de areia diferenciavam o Balneário Alegria das tradicionais praias de Porto Alegre. “A água chegava a ser azulada”, recorda minha avó. Ela diz que saía escondida com sua irmã para visitar a praia. O ônibus do Xandico, motorista conhecido da cidade de Guaíba, era o responsável pelo percurso. Muito mudou desde os verões de minha mãe e minha avó.
O Balneário Alegria deixou de ser referência em praia, porém a cidade ainda é litorânea. As pessoas ainda se reúnem próximas ao lago para conversar e relembrar. Os hotéis fecharam, restaram as construções, mas há quem ainda use as barcas para sair da capital e viajar até Guaíba. Assim como a história do Brasil começou pelas margens de Porto Seguro, a história do Berço da Revolução Farroupilha começa pelo Balneário Alegria.
Recentemente, a Praia da Alegria passou por uma revitalização, calçamento, ciclovias e o novo píer, que devolveu um pouco da aura de lazer aos guaibenses. Entretanto, o Balneário Alegria nunca mais será o mesmo. A construção das rodovias e da ponte do Guaíba levaram os veranistas a outros caminhos. O aumento da poluição também piorou a qualidade da água. Resta uma certeza: o Balneário Alegria passou de abastança a infortúnio, e sortudos são aqueles que vivenciaram o seu período áureo.




