
A cidade de (e sem) cinema
Ninguém deveria ter de viajar de 30 minutos a uma hora para assistir, com qualidade, a um filme ou vê-lo em casa só pela incapacidade de caminhar até uma sala de cinema próxima (pois ela não existe). Assim é Garibaldi, que já foi até cenário para locações de filmes e novelas. Confira no texto de Maria Eduarda Romagna produzido na disciplina de Jornalismo e Cultura da FABICO no semestre acadêmico de 2021-01.
*Por: Maria Eduarda Romagna
“Luz, câmera, ação!” Essas são palavras que a pequena cidade de Garibaldi, onde cresci, na Serra Gaúcha, está acostumada a ouvir. O município é considerado por muitos cineastas brasileiros como uma cidade de cinema. Já foi cenário de diversos filmes, como Real Beleza (2013), do diretor gaúcho Jorge Furtado, O Filme da Minha Vida (2015), de Selton Mello, e o premiado O Quatrilho (1995), de Fábio Barreto. Além disso, também recebeu novelas “globais”, como Além do Tempo (2015) e diversas produções publicitárias. Tudo isso com um charme característico do interior: ruas e prédios históricos e paisagens naturais típicas da Serra. Apesar de sua fama como paraíso cinematográfico, os moradores não têm salas de cinema na cidade há mais de 20 anos.


Quando as famílias nem sonhavam em ter televisores na sala de casa, os jovens iam em encontros durante as sessões de filmes românticos no Cine Rex Populi. Inaugurado em 25 de julho de 1957, o cinema de rua, propriedade da Congregação dos Capuchinhos e localizado no centro da cidade, quase ao lado da Prefeitura Municipal, ficou em funcionamento até meados dos anos 90 (alguns falam em anos antes, porém, em conversas com minha mãe, ela diz ter assistido Titanic, de 1997, no local). Além da sala de cinema, que funcionava também como teatro, o espaço abrigava a sede da Rádio Garibaldi AM, hoje Tua Rádio, e um supermercado.

O prédio concentrava a grande maioria dos acontecimentos culturais da cidade durante muitos anos, e isso se reforça pelas minhas longas pesquisas na Hemeroteca Digital Brasileira e alguns relatos e arquivos espalhados pela internet. No Facebook, encontrei um anúncio da Rádio Garibaldi das festividades do Dia do Rock que aconteceriam no Rex, com Led Zeppelin de trilha, por volta dos anos 1980.
Da minha infância, lembro-me de que, no mesmo prédio, havia um restaurante no térreo, onde almoçava aos domingos com a minha família. E, no segundo andar, até hoje funciona o escritório Paroquial da cidade. Em uma sala, estão os poucos resquícios físicos das memórias do antigo cinema. Poltronas de madeira, projetores e rolos de filme.


Para resgatar algumas dessas memórias, é essencial falar com quem fez tudo acontecer. Há dois anos, em tempos pré-pandêmicos, conversei, de dentro do seu táxi, com o antigo projetista daquele cinema, Ibanor Stefanon, que me contou como tudo acontecia.
“Eu projetava e ajudava a cuidar do cinema com o pessoal que trabalhava lá. Íamos toda semana para Porto Alegre buscar os filmes e eu agendava as sessões de sábado e domingo. Depois, ia fazer propaganda de rua, fazia uns cartazes. Assistir a um filme em casa não tem nem graça, quem tá na rua conversa com outro sobre o filme. Em casa eu não consigo nem assistir a um filme inteiro na TV, depois tem propaganda. No cinema o filme começava e terminava. Até tinha seriados, todos os sábados passava um filme e depois uma parte de uma série. No sábado a ‘gurizada’ enchia os matinês, nos domingos então enchia. Não tendo cinema em Garibaldi parece que falta algo, tudo quanto é lugar tem, menos aqui.”
Ibanor Stefanon
Outra pessoa com quem conversei é, como quase todos na cidade pequena, parente da minha mãe. Marília Copat, professora aposentada, que passou sua infância, juventude e parte da vida adulta frequentando o cinema, me contou dos filmes que mais a marcaram. Me chamou atenção não ter nenhum filme norte-americano em sua lista: Marcelino Pão e Vinho, da Espanha (1955) e o francês L’Oeil du Monocle (1962). Marília também chegou a escrever a coluna de resenhas dos filmes no Jornal O Garibaldense por um tempo.
Ainda nas minhas pesquisas, encontrei matérias interessantíssimas sobre o fim das salas de cinema na região, como essa acima, do Pioneiro, de maio de 1994. “Na vizinha (de Bento Gonçalves) Garibaldi, cidade de 35 mil habitantes (ainda hoje tem essa população), sobrevive o Cine Rex Populi”. A chegada das redes de cinema e a televisão cada vez mais presente nas casas foram alguns dos motivos do “sumiço” da 7ª Arte. Apesar disso, mesmo sem ter evidências concretas (agora baseio-me muito na minha própria convicção), sinto que a crise do final do governo Collor e início de Fernando Henrique Cardoso pode ter afetado, e muito, essa área.
O que mais me impressiona é que, ainda hoje, mesmo com todo o esforço da Secretaria de Turismo e da própria população em divulgar a cidade como um roteiro cinematográfico, não há sequer uma sala onde se possa assistir a um filme em alto e bom som e uma telona. Essa dualidade me intriga há tempos, desde minha primeira ida ao cinema, em 2007, para ver Simpsons: O filme. Ter que viajar para outra cidade para sentar em uma poltrona e assistir a um filme por uma hora e meia e depois voltar me parecia uma ideia absurda, até que assisti ao filme. De fato, como Seu Stefenon me disse, a experiência no cinema é outra.
Quando me mudei para Porto Alegre e comecei a cursar jornalismo, me aproximei ainda mais desse sentimento que é estar em salas de cinema gigantescas, ou em cinemas de rua, mais singelos, porém clássicos. Eventualmente me tornei “crítica de cinema” (entre aspas porque esse título me parece um tanto quanto narcisista) em um portal chamado Acabou em Pizza. Hoje sou convidada para cabines de imprensa, sessões especiais e pré-estreias. Escrevo com frequência sobre filmes, diretores e premiações.
Porém, quando volto para a casa dos meus pais por mais de um fim de semana, sinto um vazio, parecido com aquele que todos sentimos quando a pandemia nos privou das salas de cinema, mas permanente. Entre cidade grande e interior, não vejo o motivo de pensarmos não haver interesse nesse tipo de cultura. Marília e Stefenon são prova disso. Ninguém deveria ter de viajar de 30 minutos a uma hora para assistir, com qualidade, a um filme ou vê-lo em casa só pela incapacidade de caminhar até uma sala de cinema próxima (pois ela não existe).
A partir disso, de conversas com quem viveu a vida inteira naquela cidade e quem, como eu, partiu para um lugar maior, com mais opções e diversidade cultural, eu me faço algumas perguntas que considero bastante importantes. Como seriam as quartas de noite em Garibaldi se houvesse um cinema de rua para ver uma pré-estreia internacional, como seriam os sábados se houvesse matinê para as crianças assistirem às mais novas animações e como seriam as páginas dos jornais locais se os críticos pudessem escrever sobre o lançamento daquele premiado em Cannes. Certamente seria diferente.







