Vidas itinerantes

Na região metropolitana de Porto Alegre, uma estudante de jornalismo encontra uma cigana e quiromante. Na tradução desse encontro, encontramos pistas da relação itinerante dos ciganos com os territórios-cidades, um vínculo bem mais complexo do que um gadjé (não cigano) poderia imaginar. A crônica-reportagem foi produzida em 2021 durante a disciplina de Jornalismo e Cultura do curso de Jornalismo da FABICO, com orientação da professora Cida Golin.


*Por: Joyce Rocha de Oliveira
*Imagem: Associação Ciganos Itinerantes do Rio Grande do Sul (ACIRGS)

Espalhadas pelas cidades, vi barracas abrigarem sobreviventes de uma cultura centenária. Para os gadjé, ou não-ciganos, o imaginário sobre o nomadismo dos povos romani é cheio de estereótipos. Alguns idealizam a vida itinerante como uma constante busca pela liberdade, o jeito cigano de ser livre e aventureiro. Outros, tomados pela discriminação, consideram a vida nômade como inferior, folgados, ouvi de muitas pessoas.

Como não-cigana, eu também carregava estereótipos. Acreditava que mantinham a vivência em barracas por conta da tradição e da escolha pela liberdade. Os acampamentos armados, cheios de gente, despertaram em mim a curiosidade sobre a vida itinerante e a relação com os territórios-cidades.

Foi assim que nos conhecemos, Rose Winter e eu, num diálogo formado por duas pessoas bem diferentes. Eu, uma cuiabana, estudante de jornalismo, e ela, uma cigana, são leopoldense e quiromante. Rose, mulher falante de unhas pintadas de vermelho, me contou que sua relação com o território-cidade de São Leopoldo começou em 1825, quando sua família chegou, em um navio transatlântico, às águas do Rio dos Sinos.

Naquela época, seus parentes viveram um período de perseguição étnica na Europa, ela disse. Durante a noite, os ciganos eram gueteados em acampamentos e expulsos em navios como imigrantes alemães. Sem escolha, tiveram que aprender, nesse tempo, a língua alemã e deixar a língua romani de lado. Os relatos que passaram pela família da cigana nesses quase 200 anos lembram que quem não falava a língua alemã dentro dos navios não ganhava comida. Se houvesse uma criança que pedisse mamá em romani, Rose conta, ela era jogada para fora do navio, e, com certeza a mãe pularia para tentar salvar.

Minha conversa com a cigana durou mais do que duas horas. Entre as curiosidades contadas, soube que os ciganos Sinti, etnia da qual ela faz parte, são ótimos artistas e gostam de praticar fotografia, pintura e dança. Também descobri que Rose é uma cigana fixa, ela ainda mora na casa original da sua família, construída quando vieram da Alemanha, e que abrigava um estúdio fotográfico criado por seu pai.

Confesso que, quando a conheci, não sabia do fato de que Rose não era nômade. Afinal, porque existiam tantos ciganos em barracas, senão por uma regra da tradição?

Foi aí que a cigana me contou: a marginalização e a discriminação nunca deixaram de perseguir aquelas pessoas sob as tendas. Assim, continuaram a viver da forma que aprenderam, nas mudanças constantes, para que não fossem violentados, perseguidos ou dominados pela pobreza.

A itinerância da vida em acampamento, então, se tornou uma necessidade, não somente pela tradição, pelo desejo de ser livre ou pelo espírito aventureiro, como se criou no imaginário dos não-ciganos. A liberdade que desejam não é a de morar em acampamentos, mas a de viver a singularidade dos seus hábitos, da forma de convívio e da cultura multifacetada.

Conversando com Rose, compreendi: a relação itinerante dos ciganos com os territórios-cidades – seja Porto Alegre, Gravataí, ou qualquer outro lugar – é muito mais complexa do que um gadjé poderia imaginar. As rotas centenárias e a vida de mudanças se confundem com a tradição e a necessidade, a liberdade e o aprisionamento.

Dias depois, eu e Rose trocamos mensagens pelo celular e ela me enviou o seguinte texto de Cecília Meireles, cigana e poetisa:

Epigrama nº 7

A tua raça de aventura

quis ter a terra, o céu, o mar.

Na minha, há uma delícia obscura

em não querer, em não ganhar…

A tua raça quer partir,

guerrear, sofrer, vencer, voltar.

A minha, não quer ir nem vir.

A minha raça quer passar.