
A arte expandida de Caroline Veilson
*Foto: Caroline Veilson/Arquivo pessoal
Mestranda em Artes Visuais na UFRGS, Caroline Veilson deixou que os bons ventos lhe mostrassem os caminhos que o seu coração sugeria, e com paciência e persistência seu destino se revelou para ela como o sol ao dar meia volta no céu e iluminar os cantos da casa onde antes a luz não batia.
Tendo encontrado a arte e na arte encontrado a si, Caroline se encantou pela gravura. Produzir suas obras com base em determinações pré-estabelecidas foi impensável para a artista, que, ao ser levada pela professora Mônica Zielinski a uma exposição da artista Marília Bianchinni no início da graduação, passou a se inspirar pela sua produção, cujo trabalho aborda memórias e afetos, registrados em um papel manufaturado. “Eu olhei para a exposição e me encantei com os papéis que ela produzia, eram muito finos e tinham um certo movimento… Eram impressas nesse papel imagens super delicadas e aquilo me tocou bastante”, relata Caroline. A partir daí, nem o céu era limite para a infinitude de possibilidades que Caroline podia explorar em suas gravuras partindo da produção do seu próprio papel — e da sua visão sobre objetos cujas lembranças contidas pudessem revelar mais que um pensamento transitório.
Desde a sua pesquisa de graduação até a sua atual pesquisa de mestrado, a experimentação e junção de técnicas é algo que contribui com o desdobramento de seu trabalho e a revelação de traços singulares em suas obras, que à medida que vão sendo trazidas à vida, sugerem a criação de novas a partir de ideias que “surgem a todo momento”, como diz Caroline.

Criando raízes, projetando sombras
“Foi algo bem aleatório”, diz Caroline sobre a escolha do curso de Artes Visuais. Entretanto, o criar já estava presente em sua vida desde muito cedo, quando repetia, em sua infância, criações que os programas de televisão ensinavam. “Sempre gostei bastante [de arte], mas eu não tinha contato com essa mais acadêmica, eu não frequentava muitos museus”, comenta. O pouco contato com arte referencial, entretanto, não a impediu de escolher, em 2013, Artes Visuais como primeira opção de curso, deixando Ciências Biológicas como segunda opção. O intuito era fazer licenciatura e lecionar. Contudo, uma vez saboreado o gosto da criação artística, Caroline se viu diante de uma realidade que já não batia mais à sua porta, mas sim fazia as ordens da casa.
No Instituto de Artes, o seu crescimento foi ocorrendo de maneira gradual na mesma proporção em que avançava pelas etapas do curso, mas logo no início Caroline teve a oportunidade de se aproximar da técnica da produção do próprio papel. Instruída pela própria Marília Bianchinni nesse ofício, a partir de 2018 Caroline passou a produzir papéis que contam com translucidez e leveza, fabricados a partir da fibra de bananeira. “Quando alguém se aproxima, ele faz um movimento bem leve por causa do vento que passa ali entre o papel e a parede”, ela observa, relatando o fascínio pelo papel. Ao utilizar sobreposição de imagens em suas obras, Caroline ressalta que por causa da translucidez do papel tudo pode ser visto.

“Para mim é um papel que tem muita vida, que se movimenta. A pessoa tem que chegar perto para ver o detalhe, daí vê a fibra da bananeira, vê o papel, vê o que está atrás do papel.”
Caroline Veilson
Todas as coisas guardam em si um significado, até as coisas mais pequenas e triviais. Como Caroline trabalha com temas de memória e afeto, a matéria-prima das suas obras passou a ser objetos ressignificados, a começar pelos artigos pessoais deixados em seu apartamento pelos antigos moradores. Caroline salienta que, apesar de ser menos pessoal por ser herança de um terceiro, ainda assim se trata de um trabalho pessoal devido à ressignificação dada ao objeto e a todo o trabalho de criação para fazer nascer uma obra de arte. O início desse processo se dá quando a artista decide se cercar dessas coisas, tirando-as do armário e colocando-as em seu entorno, criando seus “documentos de trabalho”. “Esse conceito é do professor Flávio Gonçalves, que fala muito sobre esses objetos que estão em torno do artista, objetos e coisas em geral, que habitam o ateliê ou a casa, e que tu acabas trazendo inconscientemente às vezes para dentro do teu processo e para dentro da tua produção”.
Com a técnica de fotografia waterless, Caroline fotografa esses objetos de vários ângulos e, depois, utilizando chapas gráficas doadas pela UFRGS, produz placas offset para trabalhar a gravura alternativa que pesquisa no Núcleo de Arte Impressa, coordenado pela professora Helena Kanaan e do qual faz parte desde 2015.
O tempo que Caroline passou em quarentena durante a pandemia lhe rendeu um apanhado de novas ideias: começou a observar a projeção de sombras dentro de casa com o passar das horas e as modificações da luz; passou a contornar as sombras de suas plantas, pensando como trabalhar a gravura dentro da imagem resultante. “Eu acabei utilizando a máquina de costura para fazer essa sombra pela repetição de pontos zigue-zague até completar a imagem que estava ali, vou costurando no papel”, ela descreve o trabalho inteiramente feito a partir da linguagem gráfica.

Memórias, afetos, família: um elo de inspiração
Toda artista guarda em si suas inspirações, e muitas vezes acaba por refletir isso em seu trabalho. Para Caroline, sua maior inspiração mora dentro de casa, e constitui, com ela e com o seu bebê de três meses, o pequeno Otto, uma família: seu marido Bruno Tamboreno, também artista visual. Além de dividir o lar, os dois dividem também o ateliê. Caroline conta que conheceu Bruno ainda no início da graduação e que ele, com todo o seu repertório artístico e conhecimentos vastos sobre o mundo artístico, a influenciou a ter a sua própria produção. “A gente segue no mesmo caminho. Sabemos falar a mesma linguagem, o que o outro tem que estar produzindo naquela hora. Respeitamos os nossos tempos, lidamos um com o outro”, comenta. Objetos pertencentes ao seu bebê já estão sendo incluídos em seus documentos de trabalho, o que poderá influenciar as suas obras ao término da licença maternidade. Apesar da licença, sua pesquisa continua, “é um trabalho que nunca para, são 24 horas por dia”, afirma.

Na vida de Caroline, em que agora a maternidade se une à pesquisa e à produção no posto de atividades em tempo integral, caminhar pela cidade de Porto Alegre e demais cidades onde ela reside temporariamente rende o espairecimento que boa parte dos artistas busca: aquele que renova o olhar e chama a atenção para detalhes que passam despercebidos no frenesi da rotina.
“O que eu acho bem importante no meu trabalho são as caminhadas. Durante as caminhadas eu vou fazendo coletas de plantas que utilizo para inserir nesses papéis que eu faço impressões, que eu faço a costura, e ali tudo vai se desenvolvendo, nesse contato com a cidade, nesse contato com os outros.”
Caroline Veilson
Caroline permanecerá atuando junto ao Núcleo de Arte Impressa, concluindo o mestrado e já mirando um doutorado, enquanto enriquece os conceitos e obras da Arte Contemporânea e contribui cada vez mais com a produção artística local. “Por ser casada com outro artista, eu acho que esse vai ser o nosso rumo: nós vamos seguir incentivando um ao outro. Não é fácil, mas é onde a gente se encontrou, o que gostamos de fazer, o nosso interesse. Não consigo me ver fazendo outra coisa no momento. Ser mãe, artista e pesquisadora, esses são os planos”, conclui.

Caroline com o filho, Otto, em frente à obra Sombra #7 (Desenho e costura sobre tecido, 310×179 cm, 2020). O trabalho recebeu o prêmio aquisição no 23.º Salão de Artes Plásticas da Câmara Municipal de Porto Alegre (Foto: Bruno Tamboreno)
“A arte é muito essa questão de mostrar o teu mundo para o outro a partir daquilo que tu estás fazendo, daquilo que tu te dedicas, daquilo em que tu estás debruçado. A arte é tu te debruçares em cima dessa produção, te dobrares e te desdobrares em cima de ti mesmo e fazer algo para ser visto, porque não é para ti que tu estás fazendo, é para o outro, para ver se o outro se toca também com aquilo que te toca, ver se o outro vê aquilo que tu vês. Tem a arte dos dois lados: do artista, que faz, e do espectador, que recebe.”
Caroline Veilson










