Aquela rua que eu nunca soube o nome

Mapas da memória é um conjunto de percursos, em forma de crônicas, que os alunos de Jornalismo e Cultural realizaram no final do semestre acadêmico de 2020-02, sob a orientação da Professora Cida Golin. Provocados pela discussão sobre a cidade, sua dimensão de lugar atravessado pela experiência e pelos afetos, pelos muros visíveis e invisíveis, os autores partiram para a construção de um mapa coletivo a partir de percursos absolutamente singulares. Boa leitura!


*Por: Geovana Benites

Rua São Joaquim. A rua atrás da minha casa que eu passei tantas vezes mas nunca soube o nome. Aquela rua que eu passava toda semana com a minha vó. Nós andávamos por ali toda semana quando minha vó queria ir tomar um passe no centro espírita que ficava no final daquela rua, e eu amava ir até lá porque tudo que eu fazia com Dona Irene era algo espetacular.

Cada vez que passo por lá lembro de quando ela apertava a minha mão com mais força para atravessar a rua e sempre contava a mesma história de quando meu primo Roger saiu correndo e quase foi atropelado. Até hoje, passar pela casa que tem um muro cheio de flores de jasmim, me lava a alma, porque sempre que nós passávamos por lá ela pegava uma florzinha para cheirar no caminho. Mesmo depois de tantos anos que ela se foi, sentir esse perfume enche meus pulmões com cheiro doce da flor de jasmim e, também, absorvo um pouco da felicidade que era fazer
aquele caminho com ela.

Não lembro exatamente o dia da semana que ela tomava o passe espírita, mas lembro que o que eu mais gostava era a cafeteria que tinha no prédio. Durante todo o caminho eu tentava negociar com ela a compra de um docinho, um quindim ou até um pastelzinho. Às vezes eu ganhava, às vezes não, ela foi a pessoa mais doce que eu conheci em toda a minha vida, mas Dona Irene foi umas das mais duronas também.


Na volta para casa, naquela mesma rua, ela sempre parava no mercado para comprar pão pro café da tarde, e sempre que eu vou nesse mercado faço o mesmo pedido: pão cervejinha. Era só aquele que tinha esse pão específico e quando a gente ia lá, ela sempre comprava. Nunca vi esse pão em nenhum outro mercado, talvez seja porque nunca procurei, sempre gostei de pensar que aquele lá só vendia lá, nesse mercado, especialmente para ela.

Rua São Joaquim – Medianeira, Porto Alegre. É incrível que, depois de tantos anos, eu só fui descobrir o nome da rua esses dias quando parei para escrever essa crônica. A rua é simples, com casas simples e sem muita circulação de pessoas ou de carros, é estranho pensar que essa rua visivelmente sem graça faz parte de tantas memórias com a minha vó. E apesar de todo o tempo que passou, de tudo que eu já vivi depois disso, a rua atrás da minha casa sempre foi e sempre vai ser a rua das flores de jasmim, do mercado que tem pão cervejinha e o caminho que eu costumava fazer toda semana com Dona Irene.

Foto: Geovana Benites