
De idas e vindas, um amor que persiste
Mapas da memória é um conjunto de percursos, em forma de crônicas, que os alunos de Jornalismo e Cultural realizaram no final do semestre acadêmico de 2020-02, sob a orientação da Professora Cida Golin. Provocados pela discussão sobre a cidade, sua dimensão de lugar atravessado pela experiência e pelos afetos, pelos muros visíveis e invisíveis, os autores partiram para a construção de um mapa coletivo a partir de percursos absolutamente singulares. Boa leitura!
*Por: Júlia Ozório de Abreu
Não é verdade que eu esteja apaixonada por Porto Alegre. Somos apenas boas amigas. Aliás, nem moro em Porto Alegre. Moro na Grande Porto Alegre, da qual a capital é apenas o que há em volta. Além disso, tenho sérias críticas à cidade, e você deve saber que quando se está apaixonada fica-se cega. Eu, porém, vejo de óculos todos os seus defeitos.
Aprendi com a vida que não é preciso apaixonar-se por algo para amá-lo. Amo muitas coisas que sequer cheguei a cair em sentimentos profundos e envolventes como de uma paixão. E Porto Alegre é uma dessas, ou quase. Eu amo cruzar o rio Guaíba – que de rio não tem nada – e adentrar a linha que separa a minha cidade da capital. Amava participar dos carnavais de rua de Porto Alegre e passear com o meu namorado pela Orla quando o mundo ainda não conhecia a Covid-19. Quando tinha 15 anos, gostava de encontrar meus amigos emos no Germânia para tocar papo fora tomando vinho quente. Com 17, adorava visitar todos os museus da Praça da Alfândega antes de chegar à minha oficina de cinema na Casa de Cultura Mário Quintana.
Amei tudo isso, mas nunca sem ver os defeitos. Mesmo assim, acabei me apegando. Acho até impossível não se apegar, afinal, foi lá que eu nasci, que eu descobri que havia passado no listão da UFRGS e que sofri três dias com o trote universitário. Em Porto Alegre que tive minhas primeiras paqueras, saídas, protestos, carnavais. Acho que o sentimento é até de família. Meu pai, que já mora em Canoas há mais de 20 anos, continua votando na Sogipa. Ele nunca teve coragem de mudar o título de eleitor de Porto Alegre para Canoas.
Durante todos esses anos de relacionamento, já até me peguei cantando Cazuza com um sorriso bobo na cara: “amor da minha vida, daqui até a eternidade, nossos destinos foram traçados na maternidade”. Tudo bem que eu nasci lá, mas tem cabimento falar que vamos estar unidas até ofim? Exagero. Talvez em algum momento eu até tive uma leve quedinha por Porto Alegre, umapaquera nada séria. Ou talvez um amor de verão, ou melhor, de ciclos, que vão e voltam. Àsvezes é um relacionamento abusivo – quando nos encontramos só para insistir em cobranças,como estudo e trabalho. Às vezes é o meu refúgio – quando nos encontramos para conversar, abrir o peito e resgatar um pouco de felicidade no meio do caos cotidiano.
Mas minha mãe nem gosta dela, a acha fedida, feia, muito descontrolada e violenta, não teria como continuar com isso por muito tempo. Na verdade, eu até comecei a reparar isso quando passei a encontrar Porto Alegre com mais frequência. Mas como meu mapa astral não me favorece, eu sempre acabo me iludindo com alguma coisa bonitinha que ela faz, como um teatro de rua ou um protesto bem elaborado. Aí, volto a amá-la.
A verdade é que todos tem defeitos. Porto Alegre também tem e por isso não posso me apaixonar. Isso anularia tudo que me afasta dela, como quando ela me deixa mais invisível, elegendo com mais votos, junto com outras 21 capitais do Brasil, um genocida na presidência da república. Por essas coisas, me vejo impedida de me apaixonar. Não a posso falsificar como o fazem. Tenho de amá-la crua. E isso é incômodo. Então, para preservar as duas partes, nos vemos quando dá e quando bate saudade – pelo menos da minha parte.
Estamos há mais de um ano sem nos vermos, acho que foi o maior hiato que tivemos desde que iniciamos esse relacionamento. Nunca passei tanto tempo sem vê-la. Não sei se a capital também está com saudades. Também não sei quando a verei novamente. Mas, apesar de tantas idas e vindas, histórias mal contadas e brigas, uma coisa eu sei: quando eu puder revê-la, ela estará lá para me receber, me escutar, distrair e até xingar, como sempre fez durante todos esses anos. Para mim, essa certeza basta e, por isso, nunca vou deixar de amá-la.





