
Histórias de uma vila sem nome
*Por: Mateus Rodrigues
Os alunos da disciplina de Jornalismo e Cultura da FABICO, durante o ensino remoto, foram convidados a problematizar e a escrever sobre cidade e pertencimento. Acompanhe aqui a crônica-reportagem de Mateus Rodrigues, produzida em 2021, um relato em primeira pessoa sobre o seu lar, num espaço sem nome ou apelido. Retratos de uma Porto Alegre que nem sempre se fala, se importa, ou se vê.
Moro há 25 anos em uma vila sem nome.
Lá na Rua Dário Totta, a área verde que fica em frente ao Minimercado M Dias e vai frontalmente de encontro com a Rua Cunha Neto, é o local que eu chamo de lar desde que nasci e ainda chamo.
Geralmente ouço questionamentos sobre residir em uma vila nessa região e rostos que franzem a testa quando digo que “não, não moro na Vila Cruzeiro ou qualquer outra que seja”. Vivo neste espaço, que não tem nome ou apelido, mas que existe há mais de três décadas.
Até dizer em qual bairro fico é complicado: o mapa oficial de Porto Alegre nos coloca como parte do Bairro Nonoai, mas por conta da proximidade com o bairro Teresópolis recebemos cartas com essa identificação. É um local de dois mundos e se caminham planetas para chegar às principais paradas de ônibus da região. Costumo dizer que, como moro bem no meio da rua, tanto faz pegar ônibus na parada que fica em frente à praça Guia Lopes (no bairro Teresópolis) ou na que fica em frente à Igreja Batista (no bairro Nonoai): os dez minutos de caminhada são tão árduos tanto em um quanto em outro.
A verdade é que, apesar da falta de uma alcunha, essa vila é repleta de gente com nome, sobrenome e muita história para contar. Entretanto, como este texto não deve ganhar o status que a produção rebuscada de um livro tem – e muito menos o tamanho – busco um bom resumo de como chegamos até aqui nesse espaço na Rua Dário Totta. Para isso, não encontro melhor pessoa para conversar sobre o assunto do que o meu pai, Clodoaldo.
Clodoaldo Antônio Alves da Silva nasceu em 1973, é natural de Caçador-SC e veio para Porto Alegre aos 13 anos. Por ideia das tias, que visitaram a cidade e ficaram deslumbradas com a capital, a família largou tudo que tinha em busca das oportunidades que uma metrópole pode oferecer. Vieram as tias, tios, as duas irmãs (mais novas, que se tornaram três após a chegada), avô e avó maternos, pai e mãe.
“E aqui começa o inferno, pois a gente não tinha noção da maldade, da violência, da ruindade da gente da capital, miséria, tiroteio, correria… Isso tudo abalou a cabeça da gente, mas eu acabei me adaptando com aquilo ali”, conta ele.
Como a “barriga roncava” (nas suas próprias palavras), meu pai praticamente começou a trabalhar assim que chegou em Porto Alegre. Primeiramente, a família toda morou na rua Mata Coelho, que é o limite máximo da Rua Dário Totta no bairro Nonoai, e depois por um tempo na Orfanotrófio, que fica a algumas quadras acima no Alto Teresópolis. Lá ele presenciou muitas confusões por conta de um bar que ficava na frente do seu terreno e que, frequentemente, terminava em coisa pior, como briga com facas e armas de fogo.
O pai, Oswaldo, veio para a Capital praticamente “por obrigação” e acabou ficando depressivo com o choque cultural proporcionado pela cidade grande. Caiu no alcoolismo, doença que acabou por selar um destino trágico e precoce para ele. Após o ocorrido – e por estar cansada de ficar “empoleirada” – a mãe, Orlandina, ficou sabendo de um terreno à venda na rua Dário Totta, onde existiam alguns barracos feitos com tapumes de compensado. Com os filhos (incluindo o meu pai), ela veio morar na região lá pelo início dos anos 90. No local, a casa era praticamente um quadradinho em que mal se cabia uma cama. Ao lado, corria esgoto a céu aberto até o fim da área a uns 300 metros, onde desembocava em um grande riacho que cruza a rua Mata Coelho. Hoje é bem diferente. Com o encanamento de esgoto e aterramentos feitos pelo próprio Clodoaldo, a única coisa que verte até lá é a água da chuva.
Ainda nos anos 90, uma desavença com a irmã e a mãe Orlandina fez com que ele fosse expulso de casa e, posteriormente, criasse uma “peça” para morar que ficaria exatamente ao lado dela. A partir disso, Clodoaldo conheceu Patrícia, minha mãe, e juntos dividiram um lar que continua em construção, reforma e expansão até hoje. Nessa época, ele já estava começando a se estabelecer como marmorista (profissão que ainda exerce) e um faz-tudo em construção civil, servindo também como arquiteto e engenheiro da própria residência.
A casa ao lado, que foi por mais de 20 anos o centro da minha família paterna, literalmente começou a desmoronar entre 2013 e 2014 após a morte de minha avó. Hoje o espaço está abandonado e vive a promessa de que um dia alguma tia venha e erga tudo novamente, mas isso ainda parece um futuro distante.
Voltando a falar sobre a comunidade como um todo, naquela época já estavam estabelecidas algumas figuras que até hoje são a cara da tal Vila Sem Nome. A dona Jurema, por exemplo, é uma das pessoas mais antigas da região e uma das responsáveis por povoar o local com muitos familiares. Diz meu pai que a parte onde ela fica (que é a casa mais a frente) era parte de um terreno privado ligado às pessoas que ela conhecia, mas fico de apurar esta informação em um outro momento. O fato é que todas as pessoas que vivem aqui moram de forma irregular no que se chamaria “área verde” (lembro desse termo quando me inscrevi no vestibular e que não saiu mais da cabeça). Naquela época, ele estimava a existência de ao menos 15 famílias residentes, mas hoje já seriam entre 30 e 50.
Muitas dessas pessoas eu conheço de vista, outras não. E mesmo em um local pequeno como esse, obviamente não somos uma mistura homogênea. É possível até dividi-las em três grupos. O primeiro é formado pelos moradores que ficam na entrada em que está a minha casa (foto acima), que é a que aparece na ponta do local, até o já mencionado bueiro. O pessoal aqui é um pouco menos festeiro, mais velho e menos disposto a se relacionar com o resto, mas isso não é uma regra. Para o meu pai e minha mãe, sim.
“Para sobreviver em uma vila assim, é melhor não manter contato”, diz ele. Ouço frases parecidas com essa desde que me dou por gente, mas dessa vez ele explica seu ponto ao lembrar que, no fim de semana passado, ouvimos tiros que pareciam vir do lado de onde mora o segundo grupo, que é o pessoal do “beco”, região que começa na casa da Dona Jurema (na foto abaixo, a casa atrás do carro preto) e termina no mesmo bueiro. Esse grupo é mais unido (seja por laços familiares ou não), está na área mais densamente populosa, geralmente do local de onde parte a maioria das confusões que rolam por aqui, ainda que sejam poucas. Nesse caso, a boataria da rua (e por isso irei preservar a identidade das pessoas) conta que uma mulher bem conhecida na comunidade (e que mora por ali) teria recebido os tiros que ouvimos naquele dia. A motivação é desconhecida e ela estaria no hospital neste momento com quadro estável.
O terceiro grupo é formado pelas pessoas que não moram na vila propriamente dita, mas fazem parte da comunidade – como o Beto, que aparece naquela foto com o meu pai. Por conhecimento próprio, é difícil dizer que alguém é realmente seu amigo, mas Beto é um grande conhecido dele. Viveram muitas coisas juntos por aqui e ele até ajudou a fazer algumas reformas na nossa casa, como quando trocamos todo o telhado uns anos atrás. Beto é serralheiro, geralmente trabalha ali mesmo na nossa rua, o que faz ser um dos vizinhos que mais vejo quando saio – e que sempre me cumprimenta. Algumas vezes me chama de “o jornalista”, assim como o Elton, que anda com ele e sempre está por aí. É possível colocar também os gatos e cachorros comunitários (esses últimos mais acessíveis), como a Nina (foto abaixo), que flagrei em pleno horário de trabalho dela (claro, catando lixo para comer).
Assim como a simpática Nina, o lixo também sempre me intrigou, mas de forma diferente. Faz parte de muitas das minhas reflexões sobre o que eu penso de onde moro. Desde que me dou por gente, as pessoas jogam lixo para a coleta na frente da minha casa e sem motivo algum. Antigamente, existia uma grande árvore com pregos onde as pessoas colocavam as sacolas de lixo. Assim como também deixavam no chão mesmo. A árvore acabou morrendo, mas a convenção continua e fazemos parte desse ciclo. Às vezes me irrita um pouco, mas não o suficiente para mudar algo, então fico calado e aceito a situação.
Vergonha? Já tive muita. Também me aborrecia demais uma placa que a prefeitura colocou há alguns anos informando que era proibido construir ali. O contraste dela com os prédios vizinhos servia como uma paisagem quase que discriminatória, como se as pessoas abaixo dela fossem de uma casta menor. A placa foi instalada por conta de um dos vários momentos em que se correu a história, oficial ou não, de que as pessoas daqui seriam removidas, ou de que as casas seriam enfim regularizadas. Hoje a placa não existe mais, pois sempre que a colocam, alguém tira. Não julgo.
Em espaços em que a unidade parece indicar que todos têm origens parecidas, as diferenças surgem e podem ser gritantes. No ensino fundamental, quase nada, pois éramos todos de um local parecido. No médio, quando estudei na escola Padre Reus, existia a pomposidade do pessoal que vivia bem, mas em bairros afastados, e os mais pobres que viviam em bairros igualmente carentes, como a Restinga. Na universidade, percebi o maior abismo de realidades. Como vou querer ser compreendido por pessoas que moraram a vida toda em bairros nobres e viajam para a Europa semestralmente? Dentro de sala, somos todos iguais, mas o teto que paira sobre a cabeça de cada um diz muito sobre nós.
O meu lar é a minha identidade, a minha história e parte de mim até o fim dos meus dias. Por trás de qualquer possível acanhamento que venha a sentir pelas problemáticas desse espaço, sinto respeito e orgulho por quem colocou tudo isso de pé. Meu pai é um homem imperfeito como eu também sou, mas que teve como maior característica o senso de responsabilidade. Foi (e ainda é) pai presente em um país que não sabe o que é isso e até hoje pinga muito suor por cada tijolinho novo que é colocado por aqui.
E minha mãe também. É de origem tão pobre quanto a de meu pai, ficou anos desempregada para me cuidar quando eu era menor, mas, mesmo assim, encontrou a força necessária para fazer faculdade e pós-graduação. Se temos conforto para conseguir até mesmo viajar, isso se deve aos anos de trabalho, condição que muitos receberam durante a vida toda de mão beijada. Não é necessariamente uma crítica a essas pessoas, mas sim a realidade das coisas.
A nossa história é só uma das várias que a Vila Sem Nome, local de gente que por algum motivo calhou de estar aqui, tem a oferecer para o retrato de uma Porto Alegre que nem sempre se fala ou se importa o suficiente.











