
Lembranças de uma juventude na cidade de uma avenida só
Na movida dos anos 1980, um dos pontos de parada do rock gaúcho era a faixa, via expressa da cidade de Cachoeirinha, região metropolitana. Acompanhe aqui a crônica-reportagem, produzida para a disciplina Jornalismo e Cultura em 2021, que rememora a Sociedade Esportiva Cachoeirinha, local que celebrou a cultura juvenil e a rebeldia musical da época.
*Por: Felipe Pereira Pacheco
*Foto: Grupo Cachoeirinha do Passado no Facebook
Cachoeirinha é considerada por muitos a cidade de uma única avenida. General Flores da Cunha – ou “faixa”, como é por muitos referida – é o nome que resume a cidade, visto que corta o município e concentra todo o seu “centro”. Todo o resto é só expansão residencial,
lugares que os habitantes encontram para intermediar suas rotinas entre trabalho e vida social. Até 2020 essa ideia era ainda mais forte, uma vez que o pedágio de Gravataí, na BR 101, fazia com que os moradores da cidade vizinha utilizassem Cachoeirinha como uma fuga para a tarifa.
Hoje a cidade tem uma imagem interiorana para a juventude local, que vê nas cidades vizinhas a fuga do tédio e da inércia. Mas nem sempre foi assim. A cidade de uma avenida já teve autossuficiência quando o assunto era movimentação noturna, sendo uma das sedes para a efervescência dos anos 1980, sobretudo como parada obrigatória para as bandas de rock gaúcho. Na década das discotecas, dos hits inesquecíveis e das propagandas badaladas de cigarro, Cachoeirinha oferecia um espaço fértil para a rebeldia dos jovens e adolescentes que encontravam ali uma vasta oferta de lugares para se divertir e fomentar a cultura.
Havia um lugar em especial que se tornou o anfitrião das bandas gaúchas e até mesmo do rock nacional dos oitenta: a Sociedade Esportiva de Cachoeirinha, ou a SEC, ou o que passou a ser conhecido como “O Cachoeirinha”, espaço que passou a representar mais o nome da cidade do que o próprio município. Com origem nos anos 40, esta sociedade se iniciou como um clube. A ideia foi crescendo e se tornou um espaço que promovia, além dos eventos, um espírito de comunidade, principalmente nas atividades esportivas. A instalação das piscinas se tornou o principal foco da sociedade no verão.
No entanto, não foram as piscinas que tornaram Cachoeirinha uma parada obrigatória para o movimento rebelde da juventude dos anos 80. A relação da SEC com a música foi evoluindo desde as décadas de 60 e 70, passando da Jovem Guarda da década de 50 e 60, com grupos tocando por cinco horas nas festas de finais de semana, até as reuniões dançantes e as pistas iluminadas de Dancin’ Days. Mas foi no auge da chamada década perdida que a cultura jovem invadiu Cachoeirinha, e encontrou na SEC o seu lar. Grandes nomes do rock gaúcho marcaram presença no palco do Cachoeirinha.
– “Todas as bandas gaúchas passavam obrigatoriamente pelo Cachoeirinha!”
Assim enfatizou um dos Diretores Sociais da história da SEC, José Fialho, o Zeca. Ele foi um dos principais responsáveis pela movimentação do rock gaúcho na cidade. Mas ele foi além e fez com que até nomes de expressão nacional, como a banda Ira! registrasse sua presença num dos espaços mais importantes para a Geração X cachoeirense. Bandas como a TNT eram quase que da casa. Só a minha mãe, esteve em mais de quatro shows do grupo no Cachoeirinha. Além deles, os Engenheiros do Hawaii, Os Cascavelletes, Os Replicantes, todos esses foram assistidos por ela. Os Replicantes, a banda punk mais reconhecida do Rio Grande do Sul, sempre deu o que falar em suas apresentações. E na sua passagem pelo Cachoeirinha não foi diferente.
Minha mãe lembra que não conhecia a banda quando foi no primeiro show deles na SEC. Esperando algo mais próximo do rockabilly, blues e rock platino, ela acabou se deparando com um bando de punks com moicanos, coturnos e roupas verde milico. Estando no início da sua adolescência ainda, lá pelos 14, 15 anos, ficou apavorada com os chutes, as rodas punk e os gritos do Wander Wildner vindos do palco. O resultado da loucura foi o encerramento do show: a festa foi fechada após uma briga no público.
Zeca também recorda do impacto que Os Replicantes causavam nos seus shows na SEC.
– “Ele era maluco da cabeça”, se refere ao frontman da banda.
– “Era rock n’ roll raiz!”
Era esse o espírito que movia a juventude nos anos 80 em Cachoeirinha, tendo a SEC como um dos seus templos. As festas superlotadas não comportavam todos dentro do salão. Chegaram a colocar mais de duas mil pessoas em alguns eventos.
Esse tipo de descuido, consequência em parte da falta de preocupação geral com a segurança, algo comum na época, foi um dos motivos da ruína da SEC ao longo dos anos. O auge foi nos anos 80 e, após essa década, a sociedade entrou em decadência. A tragédia ocorrida em uma festa nas piscinas, que resultou na morte de uma pessoa, fez com que o fim do Cachoeirinha fosse acelerado. Esse fato também foi acompanhado pelos problemas de gestão interna, dívidas e inúmeros processos judiciais, motivos que forçaram o encerramento das atividades.
Hoje o local abriga uma escola de patinação, aulas de artes marciais e até uma churrascaria. A movimentação juvenil e a celebração da cultura local não estão mais lá. Mas a aura de um dos principais lugares onde a cultura e a juventude cachoeirense foram celebradas permanece viva na memória de cada um que viveu um pouco dessa história.




