
Luzes da Cidade
O restauro dos postes de luz do Centro Histórico aproxima Porto Alegre de outras cidades mais cuidadosas com seus equipamentos urbanos, além de ser um convite a um passeio atento na memória da cidade. A crônica-reportagem foi produzida em 2021 durante a disciplina de Jornalismo e Cultura do curso de Jornalismo da FABICO, com orientação da professora Cida Golin.
*Por: Arthur Mezacasa
*Foto: Arthur Mezacasa – Postes fabricados pela Union Metal, nos EUA, na década de 1920 dão charme a vários espaços da capital gaúcha
Na manhã de 17 de janeiro de 2021 caminhei, pela primeira vez em vários meses, pelas ruas de Porto Alegre. Eu que vim morar aqui por causa da faculdade, voltei para o interior no início da pandemia de Covid e lá fiquei até esta data. Lembro-me com precisão do dia, pois era aniversário da minha mãe. Viemos para almoçar em uma churrascaria aqui na capital e rever uma prima, que há muito não encontrava, que dali a poucos dias estaria também comemorando mais um ano de vida.
Saindo do meu apartamento, na rua Bento Martins, e me dirigindo para a General Câmara, onde visitaria o ateliê de costura da prima, reparei que a Rua dos Andradas apresentava algo de diferente em sua constituição. Os postes de iluminação antigos haviam sido grosseiramente substituídos por outros, fincados nas bases ainda em pé dos seus similares mais velhos e presos por barras de ferro posicionadas displicentemente.
Me indignei, junto com minha mãe, mas pensei “bem, pelo menos agora a rua estará melhor iluminada…”, tentando ver algo de positivo nesta situação que julguei bastante triste. O charme antigo (quiçá, demodê) de Porto Alegre é uma das coisas que mais me encanta na cidade.
No dia seguinte, ao relatar meu espanto à uma amiga, ela me apontou que, na verdade, os antigos postes estavam em processo de restauro e seriam devolvidos ao seu local de origem após serem recuperados. Isso teve dois efeitos em mim: me fez satisfeito por poder ver a história arquitetônica de nossa região ser valorizada, assim como me instigou a pesquisar mais sobre este item tão necessário – porém frequentemente ignorado – dos cenários urbanos, os postes de iluminação.

Me considero um pouco maníaco por questões aparentemente bobas, como a desses postes. Já desenvolvi um interesse súbito absurdo em trens, barcos, aviões e, agora, no mobiliário urbano. O que me parece enfadonho é o desconhecimento que temos, enquanto sociedade, da importância histórica dos itens de locais públicos (calçadas, bancos, postes), ao mesmo tempo em que prontamente percebemos a sua importância prática quando eles faltam nas ruas de nosso bairro.
No mesmo dia em que percebi a retirada dos postes, aliás, minha prima me disse que estava surpresa com a taxa de iluminação pública que havia pago na conta de energia do ateliê. “Olhei para a praça de noite e pensei ‘também, com a quantidade de poste que tem ali’”, disse ela, enquanto passávamos pela Praça da Alfândega. Acho que foi a única vez que vi, até então, alguém reclamar que a rua estava iluminada demais.
Melhorar a iluminação das ruas é uma proposta frequente de políticos em cargos municipais. É também a justificativa que embasa a retirada dos postes da Rua dos Andradas para restauro. Além da recuperação da integridade visual das peças, os postes de ferro fundido e aço, fabricados nos Estados Unidos, terão seu sistema de lâmpadas substituído por LEDs. Em entrevista para GZH em outubro de 2020, o então secretário de Serviços Urbanos, Hiratan Pinheiro da Silva, afirmou que a nova iluminação seguiria apresentando tom amarelado, para não descaracterizar o “charme” do Centro Histórico.
Realmente, a ambientação proporcionada pelos postes antigos ao bairro é uma boa justificativa para promover a conservação das estruturas, porém o valor que esse tipo de mobiliário urbano agrega a uma cidade vai muito além da beleza. A iluminação pública é uma indicação direta dos avanços e percalços socioeconômicos de um determinado local, e está também relacionada ao povo que ali reside. Nas ruas da Chinatown, o bairro oriental de São Francisco, nos Estados Unidos, os postes apresentam temática chinesa, imitando antigas lamparinas de papel de seda que são suportadas por pequenas esculturas de dragão, animal importante na cultura da China. Mas não precisamos ir tão longe. O bairro da Liberdade, reduto da imigração japonesa em São Paulo, segue premissa parecida: a iluminação das ruas é feita por luminárias que remetem às lamparinas tradicionais do Japão.
Infelizmente, exemplos da valorização destas estruturas estão mais presentes no exterior do que aqui no Brasil. Los Angeles, também nos Estados Unidos, viu uma miríade de obras de arte, projetos coletivos e curiosos por conta própria reviverem a história da cidade através de suas luminárias. Uma instalação artística chamada Urban Light (“luz urbana”) localizada na parte externa do Los Angeles County Museum of Art, hoje bastante popular em fotos do Instagram, é um dos exemplos desse movimento. Compõem a obra 202 postes que fizeram parte da paisagem urbana de Los Angeles e algumas outras cidades, enfileirados e iluminados todas as noites. Desde que foi inaugurada, em 2006, a Urban Light já foi cenário para cenas de séries de TV, filmes, videoclipes e incontáveis ensaios fotográficos.
Curiosamente, o autor da instalação, Chris Burden comprou os primeiros postes que viriam a fazer parte da exposição em uma feira de itens de segunda-mão, evidenciando a displicência com que a sociedade, em geral, trata o mobiliário urbano, no Brasil e também nos EUA. Em Porto Alegre, as luminárias não estão sozinhas. Os bancos de praças, principalmente os herdados do antigo Auditório Araújo Vianna, são depredados ou são deixados ao deus-dará. Os pavimentos históricos de granito ou as calçadas de pedras portuguesas são substituídos pelo asfalto e pelo concreto. Não que esses materiais não tenham sua praticidade, mas se é senso-comum que edifícios como o Mercado Público sejam conservados em bom estado por representarem a “alma” da cidade, por que não encarar da mesma forma os elementos que caracterizam a “cidade em si”?
Através da minha curiosidade, descobri, por sinal, que Porto Alegre não deve nada às cidades americanas quando o assunto é material a ser trabalhado. Os postes ornamentados da Andradas, bem como de outras ruas da parte central da cidade, e de locais como a Praça da Matriz, a Praça da Alfândega ou a Praça Montevidéu, foram fabricados por uma empresa do estado americano de Ohio, nos anos 1920 a 1940. A Union Metal, em atividade até hoje, além de fornecer infraestrutura de iluminação para a capital gaúcha, também forneceu vários dos modelos que estavam presentes nas ruas de Los Angeles, Nova York, Portland e até mesmo São Paulo.
Os modelos também são diversos, adaptados para as diversas aplicações. Na Andradas, os postes são do modelo mais alto, com uma base mais larga em ferro dando suporte à coluna principal em aço, de onde partem as duas tocheiras em formato de taça que projetam a luz. Nas diversas praças em que estão presentes, as luminárias Union Metal são de tocheira única, e têm uma coluna de largura uniforme, com uma pequena base. Na frente dos grandes monumentos arquitetônicos, como no edifício da Secretaria da Fazenda (Sefaz/RS) ou no Viaduto Otávio Rocha, estão presentes modelos com tocheira em formato de globo, mais baixos, para serem instalados sobre as muretas das escadarias. Na frente do Palácio Piratini, um casal solitário: dois postes compostos por um globo maior em cima e um círculo de seis globos menores logo abaixo. Este modelo foi reinstalado recentemente após a execução de um projeto de iluminação para a sede do governo estadual, em comemoração ao centenário da edificação, em 2021.
Além dos modelos mais antigos da Union Metal, que foram os primeiros de Porto Alegre a contar com sistema elétrico, em oposição ao sistema antigo, a gás, é possível perceber no Centro Histórico diversos outros tipos de luminárias na rua. De certa forma, elas funcionam como uma identidade da rua em que se encontram. Na Usina do Gasômetro, modelos com vidro em forma de gota. Na região do Museu do Trabalho e da Praça Brigadeiro Sampaio, tocheiras duplas, em estrutura verde e branca. Em boa parte das ruas paralelas à Avenida Borges de Medeiros, incluindo a própria, postes cinza escuro, com lâmpadas LED, fazem a iluminação pública.
A parte do calçadão da Andradas é a que ficou mais descaracterizada. Após quase cinco décadas sendo iluminada pelos conjuntos de globos pós-modernistas (estilo que caracterizou a transformação da rua em calçadão na década de 1970), foram instalados novos equipamentos na gestão Marchezan, que agora já sofrem com o descaso de nossa gente.
Talvez aos poucos vamos começar a valorizar esses pequenos detalhes, que em conjunto formam o mosaico típico da sociedade brasileira. Em Curitiba, a Rua XV de Novembro recebeu diversos postes de iluminação similares aos da Andradas nos anos 1990. Em Porto Alegre, o serviço necessário é apenas o de manter em boas condições os exemplares que já existem.
Segundo release da Secretaria Municipal de Serviços Urbanos (SMSUrb) divulgado em 11 de novembro de 2021, as estruturas centenárias da Andradas retornarão em plenas condições até fevereiro de 2022. Quem sabe a partir daí não possamos seguir o exemplo da Rua Market, em São Francisco, nos EUA, e tombar algumas dessas luminárias como patrimônio municipal?








