
Os muros da cidade de passagem
Os alunos de Jornalismo Cultural, no semestre acadêmico de 2021-01, contaram histórias de suas cidades por meio da crônica-reportagem. Buscaram entender as mudanças do lugar a partir da perspectiva da memória. Em Canoas, região atravessada pelas rotas de passagem, nenhuma divisão alterou tanto a rotina e o rumo da cidade quanto o muro da Trensurb.
*Por: Guilherme Jacques
*Foto: Guilherme Jacques/ Estação Trensurb em Canoas
Há muito de nós no espaço que habitamos e vice-versa, mas pensamos pouco sobre isso. Digo, refletimos muito sobre nossa vida, nossa história, o quanto mudamos ao longo do tempo, e olhamos pouco para a transformação do chão no qual pisamos. Além dos nossos, infinitos passos foram dados antes e são dados, agora, sem que nem percebamos. Nossa rua, nosso bairro e nossa cidade mudam a todo o instante, e nossa compreensão desse espaço também flui.
Ninguém experimenta o tempo e o espaço da mesma forma, motivo pelo qual todos nós deveríamos refletir. E instigar que o façam conosco os mais velhos, que tanto têm para nos contar. Por minha parte, posso garantir que é uma viagem e tanto, de paisagens sempre inéditas e emoções sempre novas. Afinal, ninguém experimenta o tempo da mesma forma. E é dessa multiplicidade de olhares que surgem as melhores reflexões, profundas ou banais.
Por exemplo, pensar a minha cidade é, logo de início, se deparar com uma fina ironia. Ora, veja se não, a “cidade das Canoas” é simbolizada pelos aviões, mas tem seu íntimo marcado por outro meio de transporte: o trem. Aliás, foi o trem que primeiro esteve por aqui, lá em 1867, para ligar Porto Alegre ao município de São Leopoldo. À época, os únicos meios de transporte da região eram balsas e aqueles puxados por animais, mas era preciso escoar a produção rural realizada fora da capital. Assim, a fazenda que pertencia à Gravataí tornou-se caminho para as mercadorias e as pessoas.
Parecia ser uma sina o título de cidade de passagem, cidade dormitório, enfim. Não à toa, a estação inaugurada junto aos trilhos foi a semente para que se iniciasse o vilarejo que culminaria em município. Da fazenda, desdobraram-se pequenas moradias e chácaras maiores, mas era preciso mais que isso. Vieram, então, os pequenos armazéns e, claro, a escola – hoje, Universidade La Salle – e a igreja – atualmente, a matriz São Luís Gonzaga. Todas elas, orbitando a linha férrea e a pequena estação.
Mas como divisão pouca era bobagem, o território se desenvolveu e a linha seguinte a atravessar o espaço foi quase simbólica. Em 1937, aterrissou por aqui o 3º Regimento de Aviação Militar. Quem cortava a – quase – cidade, agora, eram as aeronaves – e pelos céus. A importância trazida pela base militar foi também concreta e motivou um pedido de emancipação. Canoas tornou-se cidade em 1939, com o chão riscado pelos trilhos e os ares pela esquadrilha da fumaça.
Naquele momento, já eram quase 50 mil canoenses, mas só depois da Segunda Guerra Mundial houve um novo salto. O momento era próspero para o desenvolvimento e as indústrias queriam estar ao lado da capital. Empresas nacionais e internacionais adotaram a cidade e abriram a oportunidade para a instalação da Refinaria Alberto Pasqualini, logo na década de 1960 – um dos atuais marcos do município.
Canoas seguia sendo uma cidade de trânsito, porém desenvolvida e carente de algo óbvio, ao menos segundo o pensamento que predominava no período. Faltava uma estrada, o símbolo clássico do governo de Juscelino Kubitschek, que ocupava a presidência à época. Vinha outra divisão, novamente terrestre, para a cidade que nascera com esse carma. Não era o fim, porém, e nem a mais significativa de todas.
Mesmo em desenvolvimento, por vezes o mais acelerado da região metropolitana, a cidade nunca conseguiu fugir das sombras de Porto Alegre. Para onde ir para fazer compras maiores? Para a capital. Quando eram necessários bons hospitais ou consultas de alta complexidade? Capital. Entretenimento e vida noturna? Bom, você já sabe. E, ainda com as indústrias e todo o potencial que elas carregavam, as vagas de trabalho em outros setores ficavam na cidade vizinha também.
Ou seja, assim como “A casa” de Vinicius de Moraes, Canoas era uma cidade muito engraçada. Tinha habitantes, potencial e muito esmero, mas não tinha mais nada. Por longos e bons anos, lembram os mais antigos, os ônibus do município não convergiam no centro da cidade como é habitual. Tinham dois destinos apenas: Porto Alegre e a “Petrobrás” – leia-se o local em que ficavam a refinaria e as principais indústrias. Por isso, não se podia dizer que era uma grande e independente metrópole e tampouco uma pequena cidade. Tinha ares de ambas.
Estranho, mas compreensível: Canoas mesmo com os trens, os aviões e a BR-116, não tinha identidade, somente unidade. Até bem pouco tempo, a cidade era formada por poucos e grandes bairros – e, até hoje, muitos habitantes estranham quando ouvem os nomes de bairros e vilas que surgiram recentemente. Nesses locais consagrados, havia grandes famílias distribuídas. Às vezes, por inteiro em um só ponto (bairro ou rua), noutras em áreas distintas, que se conversavam e se reuniam nos poucos pontos de encontro que existiam.
Cabia, aliás, a esses pequenos pontos – a antiga estação, a igreja matriz, as praças dos arredores e as poucas lojas – servirem de embrião para o centro da cidade. Mas ele ainda não existia, de fato. Surgiu apenas quando de um novo traçado, ou melhor, muro concreto e físico começou a se desenhar. Era início da década de 1980, o período em que as obras da Trensurb tiveram início. A proposta de transferir aqueles que já abarrotavam a BR-116 para um meio de transporte mais eficiente, barato e rápido poderia ser um marco à época.
E foi – em vários sentidos. A começar pela não invisibilidade. Nenhuma divisão estabelecida em Canoas antes era visível e alterou tanto a rotina e o rumo da cidade quanto a Trensurb. Ao passo que a BR-116 ganhou uma via expressa e os trilhos do trem foram cercados de ponta a ponta, a cidade foi fatiada em três partes. Um lado leste, um oeste e, bem ao meio (assim mesmo, quase redundante), o centro, que virou um território delimitado e capaz de unir os dois lados. Um dos poucos.
A partir de então, não exatamente como a divisão da Alemanha ocidental e oriental (para nossa sorte), os dois lados da cidade tornaram-se um tanto quanto estranhos. Jovens nascidos depois da década de 1980, ao contrário de seus pais e avós, passaram a ver a cidade somente até os muros que cercavam os trilhos. Perderam a cultura, as pérolas escondidas e até a noção de pertencimento da região que ficava além do trem. Era como se o desenvolvimento tivesse separado Canoas, ao invés de uni-la. Pior, era como se reforçasse o estereótipo da cidade de passagem, que insistia em não sumir.
Mas o tempo ou a globalização parece ter ajudado também os microcosmos canoenses. E, nesse movimento, o mesmo desenvolvimento que à época separou, tornou a unir. O centro, preso às grades do trem e ao asfalto da rodovia, precisou se expandir. Primeiro foi um shopping, de um dos lados, e quase vinte anos depois, outro, no espectro oposto. A fome consumista fez desenvolver as regiões ao redor e, também, trouxe força para que as pessoas rompessem os limites que suas mentes haviam imposto e os muros, materializado.
A cidade do movimento, de Canoas, trens e aviões, parecia dar aos seus moradores, finalmente, motivos para que criassem raízes. Empregos, moradias, alternativas de lazer e cultura. Tudo isso fez com que as pessoas descobrissem o potencial nas sombras da capital. Mas é claro, não sem perder o combustível, a capacidade de mudar. Daí o brilho e o motivo de olharmos sempre com atenção para os passos que foram dados, que estamos dando e que ainda daremos.






