Uma avenida de memórias

Mapas da memória é um conjunto de percursos, em forma de crônicas, que os alunos de Jornalismo e Cultura realizaram no final do semestre acadêmico de 2020/2, sob a orientação da professora Cida Golin. Provocados pela discussão sobre a cidade, sua dimensão de lugar atravessado pela experiência e pelos afetos, pelos muros visíveis e invisíveis, os autores partiram para a construção de um mapa coletivo a partir de percursos absolutamente singulares. Boa leitura!


*Por: Mariana Guazzelli Costa

Há quem acredite que as ruas da cidade guardam as histórias dos que por elas passam, mas eu discordo. Acredito, meu caro leitor, que não só guardam alguns de nossos momentos mais íntimos, mas também fazem parte deles. É com essa declaração, que venho falar um pouco de uma rua que fez parte de tantos momentos importantes da vida desta autora que vos fala, a tão conhecida Av. José Bonifácio, no bairro Bom Fim de Porto Alegre.


Quando caminho por suas calçadas sujas, geralmente acompanhada pelos mais diversos odores, não posso evitar uma onda de nostalgia. Grandes e antigas árvores acompanham o caminho entre as duas vias da avenida, essas que no outono cobrem o chão com as suas folhas secas. Quantas manhãs já não transitei por lá, de mochila nas costas e sono estampado em um rosto ainda de adolescente. Aos fins de semana, aproveitava a saída das aulas de sábado para transitar pelo famoso Brique da Redenção, com as suas barraquinhas de artesanato e o tio que vende rapadura, do qual ainda sou uma cliente fiel de seus doces e sua conversa acolhedora.

Uma avenida bastante característica, de um lado prédios razoavelmente antigos e não muito altos, que abrigam estabelecimentos como o restaurante Sabor do Brick, onde tanto almocei antes dos ensaios do coral, próximo à bela, porém mal cuidada, Igreja Santa Teresinha. Do outro lado, o tradicional Parque Farroupilha, também conhecido como Redenção, lar de tantos encontros de amigos e famílias, shows e festivais, desfiles e manifestações.

Voltando ainda mais em minhas memórias, posso lembrar de uma menina alegre, brincando no parquinho de diversões com entrada para a avenida. Os vendedores de algodão doce —que meus pais raramente compravam, em uma tentativa falha de manter a minha alimentação saudável— fazendo barulho e chamando fregueses, em uma manhã ensolarada de domingo. Seguindo por seus quarteirões, avistava o elegante casarão onde ainda encontramos a Koralle, loja de materiais de desenho cobiçados por qualquer jovem, onde quase gastei minhas economias inúmeras vezes.

Já na adolescência, a José Bonifácio presenciou meus inúmeros trajetos até o colégio, testemunhando longas conversas entre amigas e os desfechos das discussões iniciadas ainda no ônibus. Após um dia cansativo de aula, seguia a sua extensão, brincava com os gatinhos da petshop mais adiante e terminava na Padaria João Pessoa, dividindo uma pizza e um refri com os colegas, para depois cruzar novamente a avenida, pois a minha parada de ônibus ficava na direção oposta. Em outros casos, apenas ficava conversando com algum amigo, em frente ao imponente edifício da operadora Vivo, até que minha mãe me ligasse, mandando eu voltar para casa.

Uma avenida que fez parte da minha infância, adolescência e ainda se faz presente mesmo na vida adulta. Quando passo por suas calçadas, não há algo que não desperte uma memória, uma saudade. Afinal, até mesmo em minha formatura, a José Bonifácio foi cenário, com todos os formandos reunidos em frente ao portão da escola, tomando as calçadas após a cerimônia, com abraços, risadas e lágrimas.

Mesmo sem sair de casa, as lembranças dessa rua correm pela mente da jovem adulta, que agora a homenageia com seus relatos e espera com ansiedade por uma vacina que a permita voltar a caminhar por suas calçadas.

Foto: Camila Moreira Cesar & Paula Vieira