
Uma voz que percorre a cidade
*Por: Victoria Paula Rodrigues
*Foto: Daniel De Bem
Conheça dona Luiza Hellena, a voz negra da velha guarda do samba que, aos 76 anos, faz do samba um grito de liberdade. Esse perfil foi produzido em 2022 para a disciplina de Jornalismo e Cultura da Fabico.
Hoje em dia, pouco se fala da velha guarda musical gaúcha. Com os novos meios de se fazer música invadindo o mundo, fica mais difícil conhecer as trajetórias de muitos dos cantores mais antigos. Isso se intensifica ainda mais quando se fala de musicistas negras. A interseccionalidade entre violência de gênero, invisibilidade e marginalização de mulheres negras na música em Porto Alegre – espaço em que a branquitude se faz presente -, sempre foi muito marcante.
Foi o que aconteceu com a trajetória de dona Luiza Hellena. Nascida em São Lourenço do Sul, a cantora de 76 anos iniciou sua caminhada musical cantando em emissoras de rádio ainda jovem, aos 13 anos, na década de 1960. O trabalho com música, porém, não era visto com bons olhos – e fazia com que fosse considerada “uma menina mal falada”. Por esse motivo, decidiu fugir de casa porque a mãe não a deixava cantar. “Desde criança eu já gostava de cantar”, relembra dona Luiza. “No jardim de infância eu lembro que eu já cantava samba”.
Aos 16 anos se mudou para Porto Alegre em busca de seu sonho. “Resolvi encarar o mundo porque eu queria ser artista”, relata. No entanto, o plano de seguir na carreira musical teve que ser deixado de lado quando se casou aos 19 anos. Tal qual a mãe, o marido de dona Luiza não a deixava cantar, fazendo ela optar entre a música ou o casamento. “O amor faz a gente cometer burrices”, diz. Com dois filhos, precisou procurar outros meios para sobreviver nesse período; trabalhou como costureira e cabeleireira, fazia de tudo um pouco para conseguir se manter. Dona Luiza Hellena permaneceu casada até os 27 anos, quando decidiu se separar para ir atrás da sua maior paixão.
Retomou a carreira cantando nas noites de Porto Alegre, interpretando diversas canções em múltiplos bares e casas noturnas na década de 1970. A partir daí não parou mais. Participou de festivais, puxou escola de samba no interior, além de viajar para o Uruguai e para o México representando as cantoras negras brasileiras.
De acordo com dona Luiza, no decorrer de sua trajetória conheceu o cantor e compositor Lupicínio Rodrigues – embaixador do samba “dor de cotovelo” na capital. Frequentou sua casa, onde se apresentava antes mesmo de se tornar uma cantora profissional. “Muito cantei as músicas dele, porque todo cantor antigo da noite de Porto Alegre tinha que cantar Lupicínio”, conta. “Nós não tivemos uma amizade profunda, mas ele me chamava de guriazinha quando eu recém estava engatinhando na noite”.
“Luiza Hellena: uma voz”
Apesar de possuir uma longa caminhada no âmbito musical, dona Luiza Hellena nunca havia gravado nenhum CD ou álbum. Quando ingressou no Sindicato dos Músicos para se estabelecer e lutar pela classe artística, não imaginava que sua carreira iria se transformar completamente. Foi lá que a artista conheceu o músico e pesquisador Paulinho Parada, que foi até o local justamente para conhecer um pouco mais sobre a velha guarda gaúcha. “Nos conhecemos casualmente quando ele apareceu no Sindicato”, relembra. “O Paulinho é muito apegado com velhos. Lá ele me adotou e me convidou para fazer a gravação de um EP”.
Ao longo de sua vida, dona Luiza Hellena escreveu algumas composições que nunca foram gravadas. “Eu gosto de compor dor de cotovelo. Sou muito passional, então quando tô com dor de corno já vem música”, diverte-se.
Assim, Paulinho resgatou essas canções que compuseram o EP Luiza Hellena: uma voz. Ao todo, são cinco faixas inspiradas em desilusões amorosas, além de dialogarem com a MPB e o samba. Dona Luiza conta que duas canções, “Aviso Prévio” e “Justiça”, têm endereço certo. “Foram feitas de quem sofre de amor”, acrescenta.
A inversão de narrativas está muito presente nas composições da cantora. Em “Aviso Prévio”, por exemplo, ela que manda o homem para fora de casa. Já em “Avante Povão” faz um samba em homenagem ao Sport Clube Internacional. “Fiz uma música pro meu time, porque eu sou coloradésima”, declara. “Tempos atrás surgiu um concurso de um samba para o Inter, eu participei, ganhei e o samba tá inserido no EP”.
Com o lançamento do EP, dona Luiza conta que finalmente consegue perceber suas músicas rodando e chegando nas pessoas. “Muita gente entra em contato, me parabeniza, porque, modéstia à parte, eu tenho um bom trânsito no meio musical”, relata. Mesmo assim, muitos ainda se surpreendem quando conhecem a longa trajetória da cantora no cenário musical de Porto Alegre. “Tem muita gente que não sabe que eu faço música, que eu escrevo, que eu canto, e esse reconhecimento está sendo muito bom”, se emociona.
Além do lançamento do EP, estreou também um documentário que mostra dona Luiza Hellena cantando suas composições e falando sobre sua carreira. O documentário é como se fosse o audiovisual do EP, além dos bastidores de um encontro entre ela e Paulinho. O lançamento aconteceu justo no dia 20 de novembro de 2021, uma casualidade, já que a produção não havia previsto a data de Zumbi dos Palmares: “teve um significado muito grande para mim, foi ótimo. Porque eu sou uma mulher negra e amo minha raça”, declara.

Paixão avassaladora
Até hoje, dona Luiza Hellena ainda é convidada para se apresentar nos bares da cidade, sua maior paixão. Moradora do bairro Navegantes, zona norte de Porto Alegre, onde reside há 35 anos, a cantora conta como a cidade mudou ao longo do tempo, como agora não se pode andar à noite sozinha como antigamente. “É muito perigoso. Apesar de receber muitos convites, tenho que ser seletiva”, declara. No entanto, quando aceita se apresentar em algum local, ela mesma gerencia tudo. “Eu combino o cachê e, se tem que montar banda, eu mesma monto. Sempre fui eu que organizei tudo”, afirma.
“Eu sempre falo que quando eu canto eu chego mais perto de Deus”. É assim que dona Luiza define seu amor pela música. Depois de tantos empecilhos e dificuldades, a cantora conta que finalmente pode fazer o que gosta e como gosta. “Eu lutei com unhas e dentes pela minha profissão”, afirma. “Levei surras homéricas porque minha mãe não queria que eu cantasse, mas eu aguentei, persisti e hoje eu digo que venci”.
Mesmo com todas as dificuldades e com todas as questões que transcorreram em sua vida, o desejo de cantar, a vontade de mostrar quem é e o talento falaram mais alto. Após anos de invisibilidade, finalmente todos podem conhecer o trabalho de dona Luiza.
“Já estou aposentada e finalmente vou fazer aquilo que eu gosto. Nunca vou me queixar da minha profissão, tenho que me queixar é do mundo”
Luiza Hellena




