{"id":16073,"date":"2021-10-01T12:30:12","date_gmt":"2021-10-01T15:30:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/?p=16073"},"modified":"2022-01-13T14:31:08","modified_gmt":"2022-01-13T17:31:08","slug":"de-idas-e-vindas-um-amor-que-persiste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/de-idas-e-vindas-um-amor-que-persiste\/","title":{"rendered":"De idas e vindas, um amor que persiste"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-drop-cap has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#ebebeb\"><strong>Mapas da mem\u00f3ria<\/strong> \u00e9 um conjunto de percursos, em forma de cr\u00f4nicas, que os alunos de Jornalismo e Cultural realizaram no final do semestre acad\u00eamico de 2020-02, sob a orienta\u00e7\u00e3o da Professora Cida Golin. Provocados pela discuss\u00e3o sobre a cidade, sua dimens\u00e3o de lugar atravessado pela experi\u00eancia e pelos afetos, pelos muros vis\u00edveis e invis\u00edveis, os autores partiram para a constru\u00e7\u00e3o de um mapa coletivo a partir de percursos absolutamente singulares. Boa leitura!<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\">*Por: J\u00falia Oz\u00f3rio de Abreu<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o \u00e9 verdade que eu esteja apaixonada por Porto Alegre. Somos apenas boas amigas. Ali\u00e1s, nem moro em Porto Alegre. Moro na Grande Porto Alegre, da qual a capital \u00e9 apenas o que h\u00e1 em volta. Al\u00e9m disso, tenho s\u00e9rias cr\u00edticas \u00e0 cidade, e voc\u00ea deve saber que quando se est\u00e1 apaixonada fica-se cega. Eu, por\u00e9m, vejo de \u00f3culos todos os seus defeitos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br>Aprendi com a vida que n\u00e3o \u00e9 preciso apaixonar-se por algo para am\u00e1-lo. Amo muitas coisas que sequer cheguei a cair em sentimentos profundos e envolventes como de uma paix\u00e3o. E Porto Alegre \u00e9 uma dessas, ou quase. Eu amo cruzar o rio Gua\u00edba &#8211; que de rio n\u00e3o tem nada &#8211; e adentrar a linha que separa a minha cidade da capital. Amava participar dos carnavais de rua de Porto Alegre e passear com o meu namorado pela Orla quando o mundo ainda n\u00e3o conhecia a Covid-19. Quando tinha 15 anos, gostava de encontrar meus amigos emos no Germ\u00e2nia para tocar papo fora tomando vinho quente. Com 17, adorava visitar todos os museus da Pra\u00e7a da Alf\u00e2ndega antes de chegar \u00e0 minha oficina de cinema na Casa de Cultura M\u00e1rio Quintana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br>Amei tudo isso, mas nunca sem ver os defeitos. Mesmo assim, acabei me apegando. Acho at\u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o se apegar, afinal, foi l\u00e1 que eu nasci, que eu descobri que havia passado no list\u00e3o da UFRGS e que sofri tr\u00eas dias com o trote universit\u00e1rio. Em Porto Alegre que tive minhas primeiras paqueras, sa\u00eddas, protestos, carnavais. Acho que o sentimento \u00e9 at\u00e9 de fam\u00edlia. Meu pai, que j\u00e1 mora em Canoas h\u00e1 mais de 20 anos, continua votando na Sogipa. Ele nunca teve coragem de mudar o t\u00edtulo de eleitor de Porto Alegre para Canoas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br>Durante todos esses anos de relacionamento, j\u00e1 at\u00e9 me peguei cantando Cazuza com um sorriso bobo na cara: \u201camor da minha vida, daqui at\u00e9 a eternidade, nossos destinos foram tra\u00e7ados na maternidade\u201d. Tudo bem que eu nasci l\u00e1, mas tem cabimento falar que vamos estar unidas at\u00e9 ofim? Exagero. Talvez em algum momento eu at\u00e9 tive uma leve quedinha por Porto Alegre, umapaquera nada s\u00e9ria. Ou talvez um amor de ver\u00e3o, ou melhor, de ciclos, que v\u00e3o e voltam. \u00c0svezes \u00e9 um relacionamento abusivo &#8211; quando nos encontramos s\u00f3 para insistir em cobran\u00e7as,como estudo e trabalho. \u00c0s vezes \u00e9 o meu ref\u00fagio &#8211; quando nos encontramos para conversar, abrir o peito e resgatar um pouco de felicidade no meio do caos cotidiano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br>Mas minha m\u00e3e nem gosta dela, a acha fedida, feia, muito descontrolada e violenta, n\u00e3o teria como continuar com isso por muito tempo. Na verdade, eu at\u00e9 comecei a reparar isso quando passei a encontrar Porto Alegre com mais frequ\u00eancia. Mas como meu mapa astral n\u00e3o me favorece, eu sempre acabo me iludindo com alguma coisa bonitinha que ela faz, como um teatro de rua ou um protesto bem elaborado. A\u00ed, volto a am\u00e1-la.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br>A verdade \u00e9 que todos tem defeitos. Porto Alegre tamb\u00e9m tem e por isso n\u00e3o posso me apaixonar. Isso anularia tudo que me afasta dela, como quando ela me deixa mais invis\u00edvel, elegendo com mais votos, junto com outras 21 capitais do Brasil, um genocida na presid\u00eancia da rep\u00fablica. Por essas coisas, me vejo impedida de me apaixonar. N\u00e3o a posso falsificar como o fazem. Tenho de am\u00e1-la crua. E isso \u00e9 inc\u00f4modo. Ent\u00e3o, para preservar as duas partes, nos vemos quando d\u00e1 e quando bate saudade &#8211; pelo menos da minha parte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br>Estamos h\u00e1 mais de um ano sem nos vermos, acho que foi o maior hiato que tivemos desde que iniciamos esse relacionamento. Nunca passei tanto tempo sem v\u00ea-la. N\u00e3o sei se a capital tamb\u00e9m est\u00e1 com saudades. Tamb\u00e9m n\u00e3o sei quando a verei novamente. Mas, apesar de tantas idas e vindas, hist\u00f3rias mal contadas e brigas, uma coisa eu sei: quando eu puder rev\u00ea-la, ela estar\u00e1 l\u00e1 para me receber, me escutar, distrair e at\u00e9 xingar, como sempre fez durante todos esses anos. Para mim, essa certeza basta e, por isso, nunca vou deixar de am\u00e1-la.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/image.png\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"694\" height=\"464\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/image.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-16424\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/image.png 694w, https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/image-300x201.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/image-391x260.png 391w\" sizes=\"(max-width: 694px) 100vw, 694px\" \/><\/a><figcaption>Fotografia que tirei durante uma visita jornal\u00edstica \u00e0 Feira do Livro, em que eu conheci um senhor idoso, que convidou meu namorado e eu para conhecermos a vista a\u00e9rea de Porto Alegre e contar hist\u00f3rias em seu apartamento da Rua da Praia (Foto: J\u00falia Ozorio, Porto Alegre, 2018)<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CR\u00d4NICA | N\u00e3o \u00e9 verdade que eu esteja apaixonada por Porto Alegre. 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