{"id":16461,"date":"2021-10-01T12:10:34","date_gmt":"2021-10-01T15:10:34","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/?p=16461"},"modified":"2021-10-05T10:13:23","modified_gmt":"2021-10-05T13:13:23","slug":"aquela-rua-que-eu-nunca-soube-o-nome","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/aquela-rua-que-eu-nunca-soube-o-nome\/","title":{"rendered":"Aquela rua que eu nunca soube o nome"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-drop-cap has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#ebebeb\"><strong>Mapas da mem\u00f3ria<\/strong> \u00e9 um conjunto de percursos, em forma de cr\u00f4nicas, que os alunos de Jornalismo e Cultural realizaram no final do semestre acad\u00eamico de 2020-02, sob a orienta\u00e7\u00e3o da Professora Cida Golin. Provocados pela discuss\u00e3o sobre a cidade, sua dimens\u00e3o de lugar atravessado pela experi\u00eancia e pelos afetos, pelos muros vis\u00edveis e invis\u00edveis, os autores partiram para a constru\u00e7\u00e3o de um mapa coletivo a partir de percursos absolutamente singulares. Boa leitura!<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\"> *Por: Geovana Benites<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Rua S\u00e3o Joaquim. A rua atr\u00e1s da minha casa que eu passei tantas vezes mas nunca soube o nome. Aquela rua que eu passava toda semana com a minha v\u00f3. N\u00f3s and\u00e1vamos por ali toda semana quando minha v\u00f3 queria ir tomar um passe no centro esp\u00edrita que ficava no final daquela rua, e eu amava ir at\u00e9 l\u00e1 porque tudo que eu fazia com Dona Irene era algo espetacular.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cada vez que passo por l\u00e1 lembro de quando ela apertava a minha m\u00e3o com mais for\u00e7a para atravessar a rua e sempre contava a mesma hist\u00f3ria de quando meu primo Roger saiu correndo e quase foi atropelado. At\u00e9 hoje, passar pela casa que tem um muro cheio de flores de jasmim, me lava a alma, porque sempre que n\u00f3s pass\u00e1vamos por l\u00e1 ela pegava uma florzinha para cheirar no caminho. Mesmo depois de tantos anos que ela se foi, sentir esse perfume enche meus pulm\u00f5es com cheiro doce da flor de jasmim e, tamb\u00e9m, absorvo um pouco da felicidade que era fazer<br>aquele caminho com ela.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o lembro exatamente o dia da semana que ela tomava o passe esp\u00edrita, mas lembro que o que eu mais gostava era a cafeteria que tinha no pr\u00e9dio. Durante todo o caminho eu tentava negociar com ela a compra de um docinho, um quindim ou at\u00e9 um pastelzinho. \u00c0s vezes eu ganhava, \u00e0s vezes n\u00e3o, ela foi a pessoa mais doce que eu conheci em toda a minha vida, mas Dona Irene foi umas das mais duronas tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br>Na volta para casa, naquela mesma rua, ela sempre parava no mercado para comprar p\u00e3o pro caf\u00e9 da tarde, e sempre que eu vou nesse mercado fa\u00e7o o mesmo pedido: p\u00e3o cervejinha. Era s\u00f3 aquele que tinha esse p\u00e3o espec\u00edfico e quando a gente ia l\u00e1, ela sempre comprava. Nunca vi esse p\u00e3o em nenhum outro mercado, talvez seja porque nunca procurei, sempre gostei de pensar que aquele l\u00e1 s\u00f3 vendia l\u00e1, nesse mercado, especialmente para ela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Rua S\u00e3o Joaquim &#8211; Medianeira, Porto Alegre. \u00c9 incr\u00edvel que, depois de tantos anos, eu s\u00f3 fui descobrir o nome da rua esses dias quando parei para escrever essa cr\u00f4nica. A rua \u00e9 simples, com casas simples e sem muita circula\u00e7\u00e3o de pessoas ou de carros, \u00e9 estranho pensar que essa rua visivelmente sem gra\u00e7a faz parte de tantas mem\u00f3rias com a minha v\u00f3. E apesar de todo o tempo que passou, de tudo que eu j\u00e1 vivi depois disso, a rua atr\u00e1s da minha casa sempre foi e sempre vai ser a rua das flores de jasmim, do mercado que tem p\u00e3o cervejinha e o caminho que eu costumava fazer toda semana com Dona Irene.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/image-2.png\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"683\" height=\"704\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/image-2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-16463\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/image-2.png 683w, https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/image-2-291x300.png 291w\" sizes=\"(max-width: 683px) 100vw, 683px\" \/><\/a><figcaption>Foto: Geovana Benites<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CR\u00d4NICA | Rua S\u00e3o Joaquim. 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