{"id":17316,"date":"2022-01-13T14:25:27","date_gmt":"2022-01-13T17:25:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/?p=17316"},"modified":"2022-01-13T16:22:10","modified_gmt":"2022-01-13T19:22:10","slug":"memorias-do-balneario-alegria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/memorias-do-balneario-alegria\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias do Balne\u00e1rio Alegria"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-drop-cap has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#ebebeb\">Os alunos de Jornalismo Cultural, no semestre acad\u00eamico de 2021\/1, contaram hist\u00f3rias de suas cidades por meio da cr\u00f4nica-reportagem. Buscaram entender as mudan\u00e7as do lugar a partir da perspectiva da mem\u00f3ria. Leia aqui o caso do famoso balne\u00e1rio da Alegria, bem pertinho da Capital, no outro lado do rio, que atravessou a experi\u00eancia familiar de um dos alunos da turma. A orienta\u00e7\u00e3o do trabalho foi da professora Cida Golin.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\"><em>*Por: Lu\u00eds Andrei Arndt de Souza<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A primeira vez que vi uma praia de verdade foi quando visitei a Praia da Alegria, localizada no munic\u00edpio de Gua\u00edba. \u00c9 dif\u00edcil explicar para uma crian\u00e7a o porqu\u00ea da imensid\u00e3o de \u00e1gua ser proibida para banho. Ainda mais quando existem corajosos que mergulham sem preocupa\u00e7\u00f5es como se a \u00e1gua fosse cristalina. Lembro de ter entrado na \u00e1gua. Est\u00e1vamos eu e meu primo, sob a tutela de meu pai. \u201cTeu pai deixou voc\u00eas tomarem banho na \u00e1gua suja\u201d, reclama a minha m\u00e3e. Nesse dia, notei uma fam\u00edlia de estrangeiros que falavam uma l\u00edngua desconhecida. Mais tarde, descobri que era espanhol, ou castelhano, como diria meu pai.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As lembran\u00e7as da praia sempre estiveram presentes no imagin\u00e1rio dos guaibenses. Parte dessas mem\u00f3rias ainda sobrevivem na minha fam\u00edlia. Foi por meio de conversas com minha m\u00e3e e minha av\u00f3 que descobri a import\u00e2ncia das praias de Gua\u00edba. As suas implica\u00e7\u00f5es na economia do munic\u00edpio, a rela\u00e7\u00e3o com o meio ambiente e com o dia a dia dos moradores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda na \u00e9poca que minha m\u00e3e frequentava a Praia da Alegria, na d\u00e9cada de 1980, poucos eram os que se aventuravam na \u00e1gua. Mesmo assim, a praia era o motivo para caminhar e encontrar os amigos. Os bares e restaurantes pr\u00f3ximos ao balne\u00e1rio ainda eram muito movimentados. \u201cTinha o Hotel Ga\u00facho, o famoso Bar do Ratinho e restaurante Pedalinhos, que muita gente achava que era um cabar\u00e9, mas era uma boate.\u201d, diz minha m\u00e3e. Os carros passavam de um lado para o outro na Avenida da Alegria, tal qual acontece hoje na Beira do Gua\u00edba, apelido concedido pelos guaibenses \u00e0 extens\u00e3o da Avenida Jo\u00e3o Pessoa e da Get\u00falio Vargas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando perguntamos o porqu\u00ea das praias de Gua\u00edba serem proibidas para banho, a polui\u00e7\u00e3o \u00e9 a primeira resposta. Na d\u00e9cada de 1970, a empresa norueguesa Borregaard, produtora de celulose, havia sido interditada por danos ambientais. Apesar de instalada em Gua\u00edba, \u00e0s margens do lago e a cerca de 5 quil\u00f4metros das praias, o cheiro de comida estragada chegava at\u00e9 Porto Alegre. Os moradores de Gua\u00edba aproveitaram muitos ver\u00f5es no Balne\u00e1rio Alegria antes da instala\u00e7\u00e3o das ind\u00fastrias. At\u00e9 hoje, h\u00e1 quem culpe a ind\u00fastria de celulose pelo fim dos ver\u00f5es nas praias de Gua\u00edba. Mas nem sempre foi assim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Minha av\u00f3 me falou que os \u00f4nibus passavam o dia inteiro levando e trazendo os banhistas que se deslocavam pelas balsas. &#8220;A \u00e1gua era a coisa mais linda\u201d, ela diz. Do Cais Mau\u00e1, em Porto Alegre, partia todas as manh\u00e3s o Guapor\u00e9, um barco a vapor, que voltava somente no fim do dia. As barcas passavam o dia todo indo e voltando. Mas a travessia pelo lago Gua\u00edba n\u00e3o era restrita somente aos banhistas: caminh\u00f5es carregados com mercadorias e autom\u00f3veis tamb\u00e9m eram trazidos ao munic\u00edpio.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft size-full is-resized\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/balneario.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/balneario.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-17317\" width=\"584\" height=\"347\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/balneario.jpg 799w, https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/balneario-300x178.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/balneario-768x457.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 584px) 100vw, 584px\" \/><\/a><figcaption>Praia da Alegria em 1936. Ao fundo, uma multid\u00e3o de veranistas desembarca e caminha pelo antigo trapiche (Foto: Acervo Museu Carlos Nobre)<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As praias da Alegria, Vila Elza e Florida eram os locais preferidos dos porto-alegrenses para passar o ver\u00e3o. Nos arredores, casas de veraneio constru\u00eddas pelos mais endinheirados se destacavam. \u201cAcho que Porto Alegre esvaziava para vir pra c\u00e1\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Gua\u00edba ainda \u00e9 uma cidade pequena se comparada a capital. Naquela \u00e9poca, era ainda menor. A maioria dos bairros que conhecemos hoje n\u00e3o existiam. Apesar da pequena popula\u00e7\u00e3o, a presen\u00e7a de turistas era t\u00e3o grande que somente no Balne\u00e1rio Alegria funcionavam seis hot\u00e9is: O Pedra Bonita, Zimmer, Ga\u00facho, Cabral, Florida e Figueira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A qualidade da \u00e1gua e a generosa faixa de areia diferenciavam o Balne\u00e1rio Alegria das tradicionais praias de Porto Alegre. &#8220;A \u00e1gua chegava a ser azulada&#8221;, recorda minha av\u00f3. Ela diz que sa\u00eda escondida com sua irm\u00e3 para visitar a praia. O \u00f4nibus do Xandico, motorista conhecido da cidade de Gua\u00edba, era o respons\u00e1vel pelo percurso. Muito mudou desde os ver\u00f5es de minha m\u00e3e e minha av\u00f3.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Balne\u00e1rio Alegria deixou de ser refer\u00eancia em praia, por\u00e9m a cidade ainda \u00e9 litor\u00e2nea. As pessoas ainda se re\u00fanem pr\u00f3ximas ao lago para conversar e relembrar. Os hot\u00e9is fecharam, restaram as constru\u00e7\u00f5es, mas h\u00e1 quem ainda use as barcas para sair da capital e viajar at\u00e9 Gua\u00edba. Assim como a hist\u00f3ria do Brasil come\u00e7ou pelas margens de Porto Seguro, a hist\u00f3ria do Ber\u00e7o da Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha come\u00e7a pelo Balne\u00e1rio Alegria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Recentemente, a Praia da Alegria passou por uma revitaliza\u00e7\u00e3o, cal\u00e7amento, ciclovias e o novo p\u00eder, que devolveu um pouco da aura de lazer aos guaibenses. Entretanto, o Balne\u00e1rio Alegria nunca mais ser\u00e1 o mesmo. A constru\u00e7\u00e3o das rodovias e da ponte do Gua\u00edba levaram os veranistas a outros caminhos. O aumento da polui\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m piorou a qualidade da \u00e1gua. Resta uma certeza: o Balne\u00e1rio Alegria passou de abastan\u00e7a a infort\u00fanio, e sortudos s\u00e3o aqueles que vivenciaram o seu per\u00edodo \u00e1ureo.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A primeira vez que vi uma praia de verdade foi quando visitei a Praia da Alegria, localizada no munic\u00edpio de Gua\u00edba. \u00c9 dif\u00edcil explicar para uma crian\u00e7a o porqu\u00ea da imensid\u00e3o de \u00e1gua ser proibida para banho. 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