{"id":17400,"date":"2022-01-13T14:39:32","date_gmt":"2022-01-13T17:39:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/?p=17400"},"modified":"2022-01-14T16:41:13","modified_gmt":"2022-01-14T19:41:13","slug":"a-globo-da-rua-da-praia-a-livraria-que-norteou-o-universo-editorial-do-pais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/a-globo-da-rua-da-praia-a-livraria-que-norteou-o-universo-editorial-do-pais\/","title":{"rendered":"A Globo da rua da Praia: a livraria que norteou o universo editorial do pa\u00eds"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-drop-cap has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#ebebeb\">Os alunos de Jornalismo Cultural, no semestre acad\u00eamico de 2021\/1, contaram hist\u00f3rias de suas cidades por meio da cr\u00f4nica-reportagem. Buscaram entender as mudan\u00e7as do lugar a partir da perspectiva da mem\u00f3ria. Porto Alegre foi palco de um dos cap\u00edtulos mais emblem\u00e1ticos da hist\u00f3ria do universo editorial brasileiro, assistindo ao nascimento, ao crescimento e ao fim da Livraria do Globo. A rela\u00e7\u00e3o entre a cidade e a empresa \u00e9 indissoci\u00e1vel. Afinal, ainda nos referimos a ela como a Globo da rua da Praia. Leia abaixo uma entrevista com os descendentes da fam\u00edlia Bertaso, uma das protagonistas de nossa hist\u00f3ria editorial. A orienta\u00e7\u00e3o do projeto coletivo foi da professora Cida Golin.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\"><em>Por: Rafaela Pollacchinni<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quem passa em frente ao pr\u00e9dio da antiga Livraria do Globo na rua da Praia, em Porto Alegre, talvez ainda n\u00e3o tenha reparado na escultura de ferro que existe no topo. H\u00e1 uma mulher, um menino com o globo terrestre e uma frase em latim: urbi et orbi (\u00e0 cidade e ao mundo). A inscri\u00e7\u00e3o latina foi a inspira\u00e7\u00e3o de Laudelino Pinheiro de Barcellos para fundar a Livraria, que, desde o in\u00edcio, ele confiava que iria prosperar, e as previs\u00f5es dele estavam certas. A Globo cresceu, de Porto Alegre para o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No final de dezembro de 1883, Laudelino e seu s\u00f3cio, Saturnino Pinto, inauguraram uma pequena loja no endere\u00e7o em que ela permaneceu at\u00e9 o seu fim, mais de cem anos depois. O im\u00f3vel, apesar de antigo, nem sempre foi imponente. A primeira loja tinha apenas duas portas e uma vitrine. O empreendimento come\u00e7ou com a venda de materiais escolares e outros itens de papelaria, e logo passou a vender livros. O s\u00f3cio n\u00e3o compartilhava as mesmas perspectivas do amigo e, tempos depois, decidiu sair da sociedade e procurar outro ramo.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image is-style-default\"><figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/image-14.png\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/image-14.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-17403\" width=\"841\" height=\"506\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/image-14.png 556w, https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/image-14-300x181.png 300w\" sizes=\"(max-width: 841px) 100vw, 841px\" \/><\/a><figcaption>Escultura localizada no topo do pr\u00e9dio da Livraria do Globo na rua da Praia (Foto: Leandro Selister)<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi nesse local que, em 1890, come\u00e7ou a trabalhar a pessoa que deu um outro rumo para a empresa no in\u00edcio do s\u00e9culo XX: Jos\u00e9 Bertaso. O jovem de 12 anos, contratado para ser servente e aprendiz de caixeiro, se transformou em s\u00f3cio e bra\u00e7o direito de Laudelino no comando da Livraria do Globo ao longo do tempo. Ele foi a primeira gera\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia Bertaso a ingressar no neg\u00f3cio e introduziu nesse mercado os filhos Henrique, Jos\u00e9 e Paulo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A loja contava com uma oficina gr\u00e1fica nos fundos do estabelecimento, que oferecia servi\u00e7os de tipografia, encaderna\u00e7\u00e3o e pauta\u00e7\u00e3o, e possibilitava a Laudelino e a Bertaso se aventurarem no meio editorial. \u201cMeu av\u00f4 come\u00e7ou a editar escritores do Rio Grande do Sul, mas ainda n\u00e3o tinha formado uma se\u00e7\u00e3o editora. Ent\u00e3o, era s\u00f3 impress\u00e3o de um ou outro livro, as chamadas Edi\u00e7\u00f5es da Livraria do Globo. Depois, o Get\u00falio Vargas falou com meu av\u00f4: ah, Bertaso, n\u00f3s precisamos fazer uma revista aqui, da\u00ed foi criada a Revista do Globo\u201d, relembra, aos 88 anos, Fernando, filho mais novo de Henrique Bertaso.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image is-style-default\"><figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/image-15.png\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/image-15.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-17405\" width=\"840\" height=\"633\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/image-15.png 666w, https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/image-15-300x226.png 300w\" sizes=\"(max-width: 840px) 100vw, 840px\" \/><\/a><figcaption>Atualmente, Fernando \u00e9 o \u00fanico filho vivo de Henrique Bertaso (Foto: Rafaela Pollacchinni)<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim como o av\u00f4 e o pai, Fernando tamb\u00e9m come\u00e7ou a trabalhar cedo na Livraria. Por muito tempo, foi tip\u00f3grafo e linotipista e se dedicou mais \u00e0 \u00e1rea gr\u00e1fica. A hist\u00f3ria da fam\u00edlia foi, em grande parte, ligada \u00e0 da empresa. Ao todo, quatro gera\u00e7\u00f5es se mantiveram no empreendimento e ajudaram a concretizar o sonho de Laudelino. <em>Urbi et orbi<\/em>!<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>Uma cidade transformada<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde a abertura da Livraria, Porto Alegre j\u00e1 era uma cidade em ascens\u00e3o. O in\u00edcio do s\u00e9culo XX foi um per\u00edodo de significativas transforma\u00e7\u00f5es sociais e econ\u00f4micas. Nessa \u00e9poca, a rua da Praia come\u00e7ou a se consolidar como o principal centro de sociabilidade da cidade. Foi uma das primeiras vias a receber melhorias urbanas, como ilumina\u00e7\u00e3o a g\u00e1s e cal\u00e7amento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O progresso no polo industrial foi assegurado pela implanta\u00e7\u00e3o do sistema el\u00e9trico na cidade, a partir de 1907. Jos\u00e9 Bertaso sugeriu a Laudelino que a Livraria deveria se adaptar a essa melhoria, para ultrapassar a concorr\u00eancia. Em 1909, eles adquiriram a primeira linotipo do Rio Grande do Sul. A aquisi\u00e7\u00e3o colocou ent\u00e3o as oficinas gr\u00e1ficas da Globo em destaque, conquistando clientes de estabelecimentos concorrentes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com o passar dos anos, o desenvolvimento da gr\u00e1fica, aliado ao comando empresarial de Bertaso \u00e0 frente do neg\u00f3cio, viabilizou a cria\u00e7\u00e3o da <em>Revista do Globo<\/em>, que surgiu a pedido do ent\u00e3o presidente do Estado, Get\u00falio Vargas, em 1929. A publica\u00e7\u00e3o virou um s\u00edmbolo de requinte e qualidade, sendo editada at\u00e9 1967.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image is-style-default\"><figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/image-17.png\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/image-17.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-17408\" width=\"512\" height=\"720\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/image-17.png 367w, https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/image-17-214x300.png 214w\" sizes=\"(max-width: 512px) 100vw, 512px\" \/><\/a><figcaption>Capa ilustrada pelo artista Edgar Koetz, em 1935.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A <em>Revista do Globo<\/em> representava as aspira\u00e7\u00f5es de uma Porto Alegre moderna, baseada em uma nova est\u00e9tica. Com grande circula\u00e7\u00e3o, a revista trazia mat\u00e9rias sobre variedades locais, nacionais e internacionais, com colunas de escritores como M\u00e1rio Quintana e Raul Bopp. O sucesso da publica\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m esteve relacionado ao trabalho de uma s\u00e9rie de ilustradores que impactaram o cen\u00e1rio cultural da \u00e9poca, como Sotero Cosme e Edgar Koetz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No final de 1930, um novo protagonista entrou para a hist\u00f3ria da Livraria do Globo. Um escritor desempregado, vindo de Cruz Alta, cruzou o caminho de Mansueto Bernardi, orientador liter\u00e1rio da empresa e um grande articulador editorial, que estava de partida da dire\u00e7\u00e3o da Revista do Globo. Os dois j\u00e1 se conheciam, e Mansueto resolveu contratar o jovem para ocupar o seu lugar. Foi assim que Erico Verissimo ingressou na equipe da Globo.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>Ponto de converg\u00eancia cultural<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Porto Alegre ganhou uma fei\u00e7\u00e3o mais cosmopolita, e a rua da Praia passou a concentrar as principais lojas, al\u00e9m de cinemas, bares, caf\u00e9s e confeitarias. A Livraria do Globo garantiu sua import\u00e2ncia cultural e se consolidou como ponto de encontro de pol\u00edticos, intelectuais, escritores e jornalistas. O local acompanhava a evolu\u00e7\u00e3o da cidade que j\u00e1 n\u00e3o era mais t\u00e3o provinciana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mesmo com a passagem do tempo, a Globo ainda ocupava o lugar de refer\u00eancia para a intelectualidade do munic\u00edpio. \u201cAli, se reuniam muitos pol\u00edticos, eles iam para a frente da Livraria, junto com diversos escritores. Eles iam ao gabinete do meu pai e do meu tio. Eram professores, amigos e editados tamb\u00e9m. Ficavam lendo o Correio l\u00e1\u201d, conta Fernando Bertaso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante uma \u00e9poca em que as pessoas frequentavam a rua da Praia bem-arrumadas e com roupas sofisticadas, a Globo tamb\u00e9m era palco de momentos c\u00f4micos. Fernando comenta que \u201co assoalho da Livraria, em um certo tempo, ficou com uns buraquinhos. E uma senhora quebrou o salto e entrou no escrit\u00f3rio onde estava o Manoelito de Ornellas, sentado lendo o jornal. Ela entrou reclamando e contando o que tinha acontecido. E ele disse assim: mas por que a senhora n\u00e3o faz como as moscas? As moscas caminham pelo teto. Ela ficou furiosa com ele e foi embora. De fato, o assoalho estava meio ruim e mandaram arrumar [risos].\u201d<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image is-style-default\"><figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/image-18.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/image-18.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-17409\" width=\"837\" height=\"583\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/image-18.png 681w, https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/image-18-300x209.png 300w\" sizes=\"(max-width: 837px) 100vw, 837px\" \/><\/a><figcaption>Reda\u00e7\u00e3o e ger\u00eancia da Revista do Globo, localizada no segundo andar da Livraria. Fonte: 50 anos de trabalho da Livraria do Globo &#8211; 1883 &#8211; 1933<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde a inaugura\u00e7\u00e3o, o espa\u00e7o f\u00edsico da loja passou por v\u00e1rias transforma\u00e7\u00f5es. Devido ao crescimento da empresa, que se transformou na maior do Rio Grande do Sul, ocorreu a compra do im\u00f3vel ao lado, al\u00e9m de outro aos fundos. Em 1924, foi iniciada a constru\u00e7\u00e3o dos pavimentos superiores para abranger o crescimento da Livraria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A obra, finalizada em 1928, foi projetada pelo arquiteto italiano Armando Boni. O pr\u00e9dio, que atravessa uma quadra, recebeu duas fachadas. O tratamento neorenascentista dado \u00e0 fachada da rua da Praia faz contraponto com o desenho da fachada da rua Jos\u00e9 Montaury. Esses detalhes destacam o im\u00f3vel como um exemplo simb\u00f3lico do ecletismo arquitet\u00f4nico presente na cidade nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>Um novo cap\u00edtulo no mundo editorial<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O filho mais velho de Jos\u00e9 Bertaso trabalhava na Globo desde 1922, quando tinha 15 anos. Nesse per\u00edodo, ningu\u00e9m imaginava que o jovem Henrique Bertaso se transformaria em um dos editores mais importantes do pa\u00eds nos anos seguintes. A aproxima\u00e7\u00e3o com o novo diretor da Revista do Globo, Erico Verissimo, ajudou-o a desenvolver a Editora Globo, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1930.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No Brasil, pouco se traduzia al\u00e9m da l\u00edngua francesa no campo da literatura. Henrique Bertaso come\u00e7ou a publicar a tradu\u00e7\u00e3o de autores praticamente desconhecidos no pa\u00eds, como Edgar Wallace e Agatha Christie. A Livraria seguia firme e consolidada no ramo, o que possibilitou o direcionamento de mais apoio financeiro \u00e0 edi\u00e7\u00e3o de livros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Somerset Maughan, Honor\u00e9 de Balzac, Aldous Huxley, James Joyce e Virginia Woolf foram alguns dos escritores que a Editora trouxe ao alcance de leitores brasileiros, em boas tradu\u00e7\u00f5es. Henrique e Erico planejaram cole\u00e7\u00f5es, novas tradu\u00e7\u00f5es e formas de vender os livros em um per\u00edodo que n\u00e3o era f\u00e1cil fazer esse tipo de neg\u00f3cio, ainda mais fora do eixo Rio-S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Atrav\u00e9s dessa dupla, a popula\u00e7\u00e3o teve acesso \u00e0 obra <em>Em busca do tempo perdido<\/em>, de Marcel Proust. \u201cNa \u00e9poca em que eu trabalhei na linotipo, eu compus um dos livros do Proust. A gente n\u00e3o podia levar o original para a casa. E eu comecei a ler aquele neg\u00f3cio e pensei: bah, at\u00e9 que esse cara \u00e9 bom. [risos] Era <em>O Caminho de Guermantes, <\/em>traduzido por Mario Quintana\u201d, conta Fernando.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E n\u00e3o foram apenas autores internacionais que ganharam destaque por meio da Globo, ela tamb\u00e9m foi respons\u00e1vel por projetar em n\u00edvel nacional diversos escritores ga\u00fachos. O pr\u00f3prio Erico, que passou a dedicar-se exclusivamente \u00e0 Editora ao lado de Henrique, foi lan\u00e7ado para o pa\u00eds por meio da empresa, com a publica\u00e7\u00e3o de seus livros que o consolidaram como um dos principais romancistas brasileiros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A amizade entre as fam\u00edlias Bertaso e Verissimo permaneceu por bastante tempo. Quando moraram no mesmo edif\u00edcio, em 1935, os la\u00e7os foram estreitados. \u201cAntes de o seu Erico ter filhos, a Clarissa e o Luis Fernando, ele me pegava e me levava para o apartamento dele, e eu ficava l\u00e1 com ele e com a dona Mafalda. Dizem que eu fiz xixi nos originais de <em>Caminhos Cruzados<\/em>. Dei uma sorte danada. [risos] As fam\u00edlias sempre foram muito unidas\u201d, relembra Fernando.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image is-style-default\"><figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/image-19.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/image-19.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-17410\" width=\"528\" height=\"535\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/image-19.png 446w, https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/image-19-297x300.png 297w\" sizes=\"(max-width: 528px) 100vw, 528px\" \/><\/a><figcaption>Erico Verissimo e Henrique Bertaso nosescrit\u00f3rios da Editora Globo, em 1965. Fonte: A Globo da rua da Praia, 2012, p.22.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em uma cole\u00e7\u00e3o destinada ao p\u00fablico infantil, Erico deu ao her\u00f3i do primeiro livro, <em>As Aventuras do Avi\u00e3o Vermelho<\/em>, o nome de Fernando, em homenagem ao ca\u00e7ula de Henrique Bertaso. Anos depois, ele tamb\u00e9m virou o padrinho de Crisma de Fernando.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tradu\u00e7\u00f5es caprichadas, revis\u00f5es cuidadosas, requintes gr\u00e1ficos: a Globo tinha virado sin\u00f4nimo de qualidade e prest\u00edgio. Na d\u00e9cada de 1930, a Editora foi a segunda maior do pa\u00eds, atr\u00e1s da Companhia Editora Nacional e \u00e0 frente da Jos\u00e9 Olympio. Os anos 1940 registraram uma explos\u00e3o da Globo no mercado de livros, projetando nacional e internacionalmente a notoriedade do empreendimento de Porto Alegre. Em 1956, o cat\u00e1logo da empresa atingiu 2000 t\u00edtulos. Nesse mesmo ano, a Editora foi reestruturada e separada da Livraria, criando-se a Editora Globo S.A. e a Livraria do Globo S.A.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os protagonistas desse empreendimento faleceram em per\u00edodos pr\u00f3ximos \u2014 Erico em 1975, e Henrique em 1977. Dos anos de ouro a um per\u00edodo de enfraquecimento, a Editora Globo foi vendida, em 1986, \u00e0 Rio Gr\u00e1fica Editora, das Organiza\u00e7\u00f5es Globo, que adotou o nome.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>Descentraliza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em meados dos anos 1980, Porto Alegre passou por uma outra fase de mudan\u00e7as. Com\u00e9rcios mais diversificados longe do centro, modifica\u00e7\u00f5es na paisagem urbana e um novo estilo de vida contribu\u00edram para que a rua da Praia n\u00e3o fosse mais a mesma. O crescimento da popula\u00e7\u00e3o e a expans\u00e3o geogr\u00e1fica da cidade s\u00e3o fatores que geraram um processo de descentraliza\u00e7\u00e3o comercial. A Livraria do Globo, que chegou a ter 18 filiais no Estado, come\u00e7ou a perder for\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A chegada dos shoppings e das grandes livrarias como a Saraiva e a Cultura impactaram diretamente o funcionamento da empresa. Rodrigo Bertaso, um dos filhos de Fernando, faz parte da quarta gera\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia que trabalhou na Livraria e que tamb\u00e9m ingressou cedo na empresa, na sede da avenida Get\u00falio Vargas, onde ficava a gr\u00e1fica da Globo. Ele participou do processo de revitaliza\u00e7\u00e3o do pr\u00e9dio da rua da Praia nos 1990 e conta que, com a reforma, houve uma melhora no movimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O mercado liter\u00e1rio, no entanto, passou por v\u00e1rias fases e, nesse per\u00edodo, iniciou-se um movimento que a Globo n\u00e3o seguiu. \u201cNaquela \u00e9poca, a onda era de megastore, que a gente n\u00e3o acompanhou. Hoje em dia, nem faz mais sentido ter grandes lojas. Agora, a nova onda s\u00e3o as pequenas livrarias\u201d, aponta Rodrigo, que, mesmo ap\u00f3s sair da Livraria, permaneceu no ramo durante anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m das mudan\u00e7as na cidade, a Globo tamb\u00e9m passou a enfrentar problemas na administra\u00e7\u00e3o, nos anos 2000. A fam\u00edlia Bertaso ainda comandava a empresa, mas estava dividida. Os problemas financeiros e a falta de profissionaliza\u00e7\u00e3o foram agravantes. A Livraria seria vendida para a Saraiva, e as negocia\u00e7\u00f5es estavam adiantadas. Por causa de discord\u00e2ncias entre os integrantes da fam\u00edlia, o neg\u00f3cio foi interrompido, e Fernando e seu irm\u00e3o foram afastados da dire\u00e7\u00e3o da Globo. Nesse intervalo, os membros que permaneceram na empresa venderam o im\u00f3vel da rua da Praia, em 2007.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cO valor e o nome da empresa eram o pr\u00e9dio da rua da Praia\u201d, lamenta Fernando. Quando ele e o irm\u00e3o voltaram, a situa\u00e7\u00e3o da empresa, que ficou na parte da rua Jos\u00e9 Montaury, estava ainda mais delicada. Algum tempo depois, a Globo fechou definitivamente.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>Porto Alegre e a Livraria<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hist\u00f3rias que ainda se fazem presentes no imagin\u00e1rio de parte da popula\u00e7\u00e3o mant\u00eam viva a import\u00e2ncia da Livraria do Globo n\u00e3o s\u00f3 para o Rio Grande do Sul, mas tamb\u00e9m para o restante do Brasil. Com mais de cem anos de exist\u00eancia, ela foi o ponto de partida de uma s\u00e9rie de empreendimentos liter\u00e1rios que impactaram e conduziram a vida intelectual do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A escultura no topo do pr\u00e9dio talvez continue despercebida por aqueles que caminham diariamente na rua da Praia, apressados demais para reparar em detalhes nos dias de hoje. O local onde tudo come\u00e7ou, que abrigou escritores, tradutores, ilustradores, pol\u00edticos, jornalistas, dentre tantas outras personalidades, agora se reduz a uma loja de roupas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi nesse endere\u00e7o que o mercado editorial come\u00e7ou a tomar outro rumo, que parte da cultura da cidade se desenvolveu, que as pessoas passaram a ter acesso a um extenso cat\u00e1logo liter\u00e1rio, que Erico Verissimo escreveu o primeiro volume de <em>O Tempo e o Vento<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Porto Alegre foi palco de um dos cap\u00edtulos mais emblem\u00e1ticos da hist\u00f3ria do universo editorial brasileiro, assistindo ao nascimento, ao crescimento e ao fim da Livraria do Globo. A rela\u00e7\u00e3o entre a cidade e a empresa \u00e9 indissoci\u00e1vel. Afinal, ainda nos referimos a ela como a Globo da rua da Praia.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem passa em frente ao pr\u00e9dio da antiga Livraria do Globo na rua da Praia, em Porto Alegre, talvez ainda n\u00e3o tenha reparado na escultura de ferro que existe no topo. H\u00e1 uma mulher, um menino com o globo terrestre e uma frase em latim: urbi et orbi (\u00e0 cidade e ao mundo). A inscri\u00e7\u00e3o latina foi a inspira\u00e7\u00e3o de Laudelino Pinheiro de Barcellos para fundar a Livraria, que, desde o in\u00edcio, ele confiava que iria prosperar, e as previs\u00f5es dele estavam certas. A Globo cresceu, de Porto Alegre para o mundo.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":17409,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_ppma_block_editor_authors":""},"categories":[356],"tags":[],"ppma_author":[536],"class_list":["post-17400","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-laboratorio-fabico"],"authors":[{"term_id":536,"user_id":1,"is_guest":0,"slug":"gerente","display_name":"gerente","avatar_url":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/393dc22afd6b2cd82f7070609e920a18fc6bd15e9d5fd37599dfcdd2d82ffe47?s=96&d=mm&r=g","author_category":"","user_url":"","last_name":"","first_name":"Gerente","job_title":"","description":""}],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17400","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17400"}],"version-history":[{"count":19,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17400\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17492,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17400\/revisions\/17492"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17409"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17400"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17400"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17400"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/ppma_author?post=17400"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}