{"id":17534,"date":"2022-01-31T14:40:21","date_gmt":"2022-01-31T17:40:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/?p=17534"},"modified":"2022-02-23T10:10:44","modified_gmt":"2022-02-23T13:10:44","slug":"pertencimento-percurso-e-identidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/pertencimento-percurso-e-identidade\/","title":{"rendered":"P\u00e2mela Zorn: pertencimento, percurso e identidade"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\">*<em>Por Victoria Rodrigues<\/em><br><em>*Foto: Filipe Conde<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Muitas vezes, o primeiro contato que temos com qualquer fazer art\u00edstico acontece na inf\u00e2ncia, seja ao desenhar uma \u00e1rvore ou pintar uma imagem qualquer sem preocupa\u00e7\u00e3o. Pois foi assim que, ainda crian\u00e7a, aos quatro anos de idade, P\u00e2mela Zorn Vianna teve seu primeiro contato com a arte que hoje estuda e pratica. Ao lado de sua av\u00f3, artes\u00e3 e professora de pintura, P\u00e2mela experimentou a cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica ajudando na confec\u00e7\u00e3o das pinturas feitas em panos de prato e em camisetas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Levou a atividade como um hobby at\u00e9 a adolesc\u00eancia, quando passou a olhar com mais seriedade para o meio art\u00edstico, at\u00e9 se dar conta de que queria se aprofundar nesse mundo. Aos 17 anos, ingressou no curso de Bacharelado em Artes Visuais na UFRGS. Apesar de muito jovem e sem saber se estava seguindo o caminho certo, P\u00e2mela desejava fazer algo que realmente gostasse. \u201cN\u00e3o me arrependo de ter escolhido essa \u00e1rea porque hoje \u00e9 o que eu amo fazer\u201d, diz.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por conta de ter nascido no interior do estado, na cidade de Tr\u00eas Coroas, a artista nunca havia tido a oportunidade de visitar espa\u00e7os como museus e galerias de arte. P\u00e2mela lembra com nostalgia a primeira vez em que entrou no ateli\u00ea do Instituto de Artes. Ficou encantada com tudo que viu, com todas as possibilidades do lugar. \u201cVer aqueles banquinhos altos, as tintas, um monte de gente pintando e produzindo foi muito bacana, me marcou muito\u201d, conta a graduanda. De acordo com ela, ao mesmo tempo em que se sentiu deslocada quando entrou, sentiu tamb\u00e9m uma vontade imensa de explorar tudo daquele novo universo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cAquelas janelas gigantes com uma vista muito linda do centro de Porto Alegre s\u00e3o muito impactantes. Entra uma luz muito bonita que \u00e9 proposital, porque a luz natural ajuda a pintar. Ver tudo isso foi maravilhoso\u201d<\/p><cite>P\u00e2mela Zorn <meta http-equiv=\"content-type\" content=\"text\/html; charset=utf-8\">Vianna<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao longo da sua trajet\u00f3ria no curso de Artes, P\u00e2mela tentou aproveitar ao m\u00e1ximo o que a Universidade proporciona. Foi bolsista no acervo da Pinacoteca Bar\u00e3o de Santo \u00c2ngelo, situada no pr\u00e9dio do Instituto de Artes da UFRGS. \u201cConheci muita coisa ali, foi muito legal ver as reservas t\u00e9cnicas\u201d, declara. Ela aponta que o acervo conta com diversas obras de diferentes artistas e que todas as pessoas deveriam ter a oportunidade de o visitar e conhecer. Fora da Universidade, como est\u00e1gio n\u00e3o obrigat\u00f3rio, atuou como mediadora no Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS), onde p\u00f4de colocar em pr\u00e1tica um pouco do que estava aprendendo no curso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda para al\u00e9m da UFRGS, P\u00e2mela conseguiu bolsa no Atelier Livre Xico Stockinger. Sua motiva\u00e7\u00e3o para buscar o Atelier foi a vontade de expandir sua arte a outros lugares para al\u00e9m da Universidade. \u201cTem muita gente que entra nas Artes Visuais e j\u00e1 passou pelo Atelier Livre, ou ent\u00e3o conhece, j\u00e1 teve algum envolvimento\u201d, declara. De acordo com P\u00e2mela, com ela foi o contr\u00e1rio. S\u00f3 depois de ingressar na UFRGS foi que procurou o espa\u00e7o n\u00e3o acad\u00eamico para que pudesse aprimorar suas produ\u00e7\u00f5es art\u00edsticas e, tamb\u00e9m, entrar em contato com outros artistas da cena local. Por conta de o mundo das artes ser muito fechado, \u00e9 importante conhecer pessoas para conseguir se movimentar melhor nele. O interesse de P\u00e2mela \u00e9, futuramente, poder criar brechas para novas pessoas entrarem nesse c\u00edrculo. \u201cQuero que mais pessoas entrem, se quiserem, nesse meio. Ampliar um pouco ele para que n\u00e3o seja mais t\u00e3o fechadinho\u201d, acrescenta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\" id=\"experiencia-em-portugal\"><strong>Experi\u00eancia em Portugal<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2017, P\u00e2mela teve conhecimento de que a Universidade proporciona bolsas de mobilidade acad\u00eamica. Decidiu se inscrever e no ano seguinte conseguiu uma bolsa para estudar por um semestre na cidade de \u00c9vora, em Portugal. Sem nunca ter sa\u00eddo do pa\u00eds, ir para o exterior foi uma experi\u00eancia que a transformou em termos art\u00edsticos e pessoais. Teve oportunidade de visitar diversos museus e galerias de arte, ver pinturas de artistas que ela estudou ao longo da gradua\u00e7\u00e3o. \u201cAqui no Brasil, principalmente em Porto Alegre, a gente n\u00e3o tem acesso a muitas obras que estudamos na Universidade\u201d, afirma. \u201cEnt\u00e3o l\u00e1 eu tive a oportunidade, que todo mundo deveria ter, de conseguir ver isso pessoalmente.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m das visitas aos museus europeus, outra quest\u00e3o chamou a aten\u00e7\u00e3o de P\u00e2mela durante a viagem: a forma como era vista em Portugal. Segundo a graduanda, houve coment\u00e1rios um pouco degradantes por parte dos portugueses, inclusive dos pr\u00f3prios professores da Universidade em que esteve. \u201cA experi\u00eancia em si, at\u00e9 por conta disso, de perceber essa forma com que muitas vezes a gente pode ser tratada foi bem importante pra mim\u201d, conta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso, por\u00e9m, n\u00e3o a impediu que usufru\u00edsse o m\u00e1ximo de sua viagem. Fez amizades importantes com pessoas de diferentes cursos. Explorou, ainda, outros pa\u00edses, como Fran\u00e7a e Espanha, al\u00e9m de visitar cidades de Portugal, como Lisboa, Porto e Nazar\u00e9, o que s\u00f3 aprimorou o seu conhecimento no fazer art\u00edstico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cEssas cidades hist\u00f3ricas foram muito bacanas de conhecer, a gente fica bem emocionado\u201d<\/p><cite>P\u00e2mela Zorn <meta http-equiv=\"content-type\" content=\"text\/html; charset=utf-8\">Vianna<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\" id=\"coabitar-entre-lugares\"><strong>Coabitar entre lugares<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em meio a tantos turbilh\u00f5es de acontecimentos em um ano dif\u00edcil como o de 2021, P\u00e2mela se formou bacharel em Artes Visuais. Ela encara com muita felicidade essa conquista, pois, com todas as dificuldades que uma estudante-artista enfrenta durante o percurso da gradua\u00e7\u00e3o, conseguiu chegar ao fim. Em sua pesquisa, chamada \u201cEntre Lugares: uma investiga\u00e7\u00e3o pict\u00f3rica sobre autorrepresenta\u00e7\u00e3o e identidade\u201d, a artista convida o p\u00fablico a refletir sobre o pertencimento de corpos mesti\u00e7os\/negros na sociedade e sobre a pluralidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Pamela-Zorn-Vianna-Este-solo-e-ruim-para-certos-tipos-de-flores-2021-poliptico-sobre-tela-25-x-30-cm-e1639405362727.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"500\" height=\"334\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Pamela-Zorn-Vianna-Este-solo-e-ruim-para-certos-tipos-de-flores-2021-poliptico-sobre-tela-25-x-30-cm-e1639405362727.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-17606\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Pamela-Zorn-Vianna-Este-solo-e-ruim-para-certos-tipos-de-flores-2021-poliptico-sobre-tela-25-x-30-cm-e1639405362727.jpg 500w, https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Pamela-Zorn-Vianna-Este-solo-e-ruim-para-certos-tipos-de-flores-2021-poliptico-sobre-tela-25-x-30-cm-e1639405362727-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Pamela-Zorn-Vianna-Este-solo-e-ruim-para-certos-tipos-de-flores-2021-poliptico-sobre-tela-25-x-30-cm-e1639405362727-391x260.jpg 391w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption>&#8220;Este solo \u00e9 ruim para certos tipos de flores&#8221; (Pol\u00edptico sobre tela, P\u00e2mela Zorn Vianna, 2021)<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar de explorar outros temas durante sua trajet\u00f3ria nas artes, P\u00e2mela nunca fugiu muito da tem\u00e1tica que traz na sua pesquisa. Desde o seu primeiro trabalho mais s\u00e9rio como pintora, em meados de 2015, logo ap\u00f3s seu ingresso na UFRGS, a artista retrata mulheres negras em seus quadros. \u201cEu ainda n\u00e3o havia tido quase nenhum contato com discuss\u00f5es raciais ou algo assim\u201d, recorda. \u201cMas era algo que eu queria desenhar, queria falar sobre de alguma forma.\u201d Ao longo do curso, foi se afastando um pouco dessa quest\u00e3o; isso, contudo, sempre pulsou nela de alguma forma.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O retrato e a figura humana sempre permearam os trabalhos de P\u00e2mela durante a gradua\u00e7\u00e3o. A artista conta que durante uma \u00e9poca passou a se interessar por cr\u00e2nios de animais. A quest\u00e3o do osso, da morte a fascinava muito, acompanhada sempre dessa pegada do retrato. No entanto, com o passar do tempo, foi perdendo o sentido.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">At\u00e9 que, em 2019, P\u00e2mela foi convidada para uma exposi\u00e7\u00e3o coletiva na Pinacoteca Ruben Berta. Segundo ela, o acervo do lugar n\u00e3o contava com nenhuma mulher negra artista, e as curadoras do evento gostariam de dar \u201cuma sacudida\u201d nesse acervo, repaginando o estilo das obras. A artista decidiu ent\u00e3o trazer \u00e0 tona a quest\u00e3o da representatividade como tema de reflex\u00e3o. \u201cEu fiz um autorretrato com sangue menstrual\u201d, diz, \u201cquestionando essa coisa da sujeira, que \u00e9 muito comum quando se fala de corpos negros\u201d. Muitas vezes, em obras de arte, n\u00e3o \u00e9 raro existir uma associa\u00e7\u00e3o direta de corpos negros com a sujeira, seja no sentido de hipersexualiza\u00e7\u00e3o, seja no sentido literal da palavra. Por esse motivo, P\u00e2mela quis trazer isso nesse trabalho.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cEu achei muito potente por conta da autorrepresenta\u00e7\u00e3o, que eu tava me colocando ali, colocando esse corpo, que muitas vezes n\u00e3o \u00e9 o corpo que a gente v\u00ea representado em uma exposi\u00e7\u00e3o de arte\u201d<\/p><cite>P\u00e2mela Zorn <meta http-equiv=\"content-type\" content=\"text\/html; charset=utf-8\">Vianna<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir da\u00ed, a autorrepresenta\u00e7\u00e3o e a figura humana sempre estiveram presentes nas pinturas da artista. Passou a perceber que nos museus e nas galerias que visitava se viam poucos autorretratos de artistas negros e, quando havia algum, eram pintados por pessoas brancas. Isso fazia com que os corpos fossem colocados em posi\u00e7\u00f5es subalternizadas ou em situa\u00e7\u00f5es degradantes, como se fossem caricaturas. \u201cFoi a\u00ed que eu vi uma lacuna\u201d, conta P\u00e2mela. \u201cPorque eu vejo uma import\u00e2ncia em falar sobre isso. Me colocando tamb\u00e9m, colocando meu pr\u00f3prio corpo que tamb\u00e9m foi um corpo que por muito tempo n\u00e3o foi lido como negro.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O fato de o corpo de P\u00e2mela n\u00e3o ser visto como negro sempre foi muito forte em sua vida desde a inf\u00e2ncia. Por crescer em uma cidade do interior onde a maior parte da popula\u00e7\u00e3o era branca &#8211; inclusive sua fam\u00edlia materna, que possu\u00eda descend\u00eancia alem\u00e3 -, a artista sempre conviveu com pessoas brancas que, consciente ou inconscientemente, tentavam embranquecer seu corpo. Essas situa\u00e7\u00f5es recorrentes na vida de P\u00e2mela foram os motores que a fizeram trazer o assunto para sua pesquisa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cPor isso o t\u00edtulo \u2018Entre lugar\u2019. Estar nesse lugar que muitos tentam classificar por conta do projeto de Brasil em que a gente sempre cresceu e viveu. E hoje temos tentado desmistificar e conscientizar o m\u00e1ximo de pessoas de que n\u00e3o \u00e9 bem assim\u201d<\/p><cite>P\u00e2mela Zorn <meta http-equiv=\"content-type\" content=\"text\/html; charset=utf-8\">Vianna<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\" id=\"ressignificacao\"><strong>Ressignifica\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sobre seus trabalhos, P\u00e2mela relata que alguns a tocam de alguma forma at\u00e9 hoje por conta de nascerem de um lugar muito pessoal. Um deles \u00e9 a pr\u00f3pria pintura que apresentou no seu TCC, chamada \u201cEste solo n\u00e3o \u00e9 ruim para certos tipos de flores\u201d, que consiste em um mural de pinturas &#8211; intitulado pol\u00edptico, por ser uma obra formada por outras pequenas obras. O processo para montar esse mural, formado por 110 pequenas pinturas e medindo quase 5 metros de comprimento, aconteceu por conta de P\u00e2mela estar sem dinheiro para comprar telas novas durante a pandemia. Foi a\u00ed que teve a ideia de reciclar telas antigas, cortando-as e pintando outras coisas por cima. Assim, cada dia ela fazia uma pintura, como se fosse um processo cont\u00ednuo, quase infinito, em que ela representava sempre uma mesma fotografia. \u201cUma foto minha na lembrancinha de 1 ano\u201d, relembra. \u201cEu t\u00f4 um bebezinho. O cabelo todo penteadinho, com um vestidinho alem\u00e3o que a minha bisav\u00f3 tinha me dado, e com uma cara muito emburrada\u201d, diverte-se.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar de achar a foto engra\u00e7ada, P\u00e2mela tamb\u00e9m a considera significativa. Segundo ela, a imagem de um beb\u00ea preto vestindo uma roupa alem\u00e3 despertou quest\u00f5es que complementaram sua pesquisa de maneira muito forte. \u201cAchei uma imagem muito emblem\u00e1tica para explorar e at\u00e9 mesmo esgotar ela\u201d, pondera. Ent\u00e3o a artista foi repetindo a imagem, pintando-a de formas diferentes. \u201cAlgumas eu deixava sem o rosto, em algumas eu fazia um rosto bem realista, outras eu o desfigurava bastante. \u00c0s vezes fazia umas cores mais escuras, outras partia de um tom muito mais claro\u201d, exemplifica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m de explorar sua fotografia, P\u00e2mela trouxe palavras para a obra. Palavras que lia em livros, das refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas que usou na sua pesquisa ou at\u00e9 de retratos de outros artistas. Ela brinca que a palavra invadiu a figura da crian\u00e7a e foi se tornando imagem tamb\u00e9m, formando assim uma grande colcha de retalhos que representa o que a artista foi durante sua trajet\u00f3ria na gradua\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cFala diretamente sobre a quest\u00e3o do entre lugar. De ser uma pessoa de certa forma preta demais pra ser branca e branca demais pra ser preta. E como tu te movimentas no mundo com essas identifica\u00e7\u00f5es, como tu te constr\u00f3i enquanto ser?\u201d<\/p><cite>P\u00e2mela Zorn <meta http-equiv=\"content-type\" content=\"text\/html; charset=utf-8\">Vianna<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As refer\u00eancias que P\u00e2mela utilizou para estruturar sua pesquisa s\u00e3o variadas. A graduanda transitou por pensadores como Kabengele Munanga e bell hooks para compreender melhor sobre miscigena\u00e7\u00e3o e o mito da democracia racial. J\u00e1 para a parte art\u00edstica, trouxe pesquisadores que trabalham com a quest\u00e3o do autorretrato na hist\u00f3ria da arte, como o escritor Matt Ferranto e a pr\u00f3pria orientadora de P\u00e2mela, a professora de pintura do Departamento de Artes Visuais da UFRGS Marilice Corona. \u201cTrago artistas mais contempor\u00e2neos para ir dialogando com os artistas do s\u00e9culo 19, ou do s\u00e9culo 20 mesmo, como o Wilson Tib\u00e9rio, um artista negro que a gente tem no acervo da pinacoteca\u201d, conta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Atualmente, a artista tem como principal refer\u00eancia para suas obras a pintora Maria L\u00eddia Magliani, primeira mulher negra a se formar no Instituto de Artes da UFRGS, na d\u00e9cada de 1960. A pintura expressiva de Maria L\u00eddia encanta muito P\u00e2mela, al\u00e9m da forma com que ela constr\u00f3i suas figuras de um jeito espont\u00e2neo e despretensioso. \u201cO trabalho de cor que ela faz \u00e9 complementar; uma pintura muito viva, muito fren\u00e9tica, eu gosto muito\u201d, declara. Outra artista que se tornou refer\u00eancia para P\u00e2mela \u00e9 a pintora Lynette Yiadom-Boakye, cujas obras conheceu na viagem a Portugal. Ela traz para suas pinturas retratos de pessoas negras, o que ajudou ainda mais P\u00e2mela a se encontrar em seus trabalhos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\" id=\"ainda-ha-muito-para-desbravar\"><strong>Ainda h\u00e1 muito para desbravar<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sobre os planos para este ano, P\u00e2mela diz que tem a pretens\u00e3o de seguir estudando. Tem o desejo de complementar a gradua\u00e7\u00e3o com disciplinas da licenciatura e depois ingressar no mestrado na UFRGS. A graduanda tem vontade de aprofundar mais sua pesquisa porque, segundo ela, ainda tem muito mais a aprender e conhecer sobre o assunto.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No in\u00edcio deste ano foi anunciada como primeira colocada no 5.\u00b0 Pr\u00eamio Alian\u00e7a Francesa de Arte Contempor\u00e2nea. Com isso, foi premiada com uma resid\u00eancia art\u00edstica de dois meses no Centre Intermondes, em La Rochelle, na Fran\u00e7a. Novamente P\u00e2mela ter\u00e1 a oportunidade de desbravar museus e galerias do exterior e conhecer diferentes artistas para enriquecer ainda mais sua bagagem art\u00edstica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outros projetos acontecem agora em janeiro. P\u00e2mela foi convidada para uma exposi\u00e7\u00e3o intitulada \u201cColetiva 22 &#8211; Jardim dos Desejos\u201d. O evento re\u00fane diferentes linguagens art\u00edsticas da cena local. P\u00e2mela ir\u00e1 expor sua obra original \u201cEste solo n\u00e3o \u00e9 ruim para certos tipos de flores\u201d, em que o p\u00fablico ter\u00e1 oportunidade de ver sua \u201ccolcha de retalhos\u201d de mais de cinco metros pessoalmente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Empolgada com o que est\u00e1 por vir, P\u00e2mela reitera a import\u00e2ncia que a arte teve na sua vida &#8211; e tamb\u00e9m para discutir e refletir sobre o mundo. \u201cQuando entrei na universidade, eu tinha uma vis\u00e3o muito romantizada do papel da arte\u201d, lembra. \u201cHoje em dia eu sei que a arte sozinha n\u00e3o consegue modificar estruturalmente a nossa sociedade, que precisa de pol\u00edticas p\u00fablicas, precisa modificar nosso sistema econ\u00f4mico tamb\u00e9m pra conseguir reais mudan\u00e7as.\u201d Al\u00e9m disso, a artista v\u00ea a arte como ferramenta de educa\u00e7\u00e3o. O acesso \u00e0 arte, ao fazer art\u00edstico, \u00e9 muito importante para que mais pessoas consigam ocupar museus de arte, por exemplo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cMais pessoas precisam ocupar esses lugares para que n\u00e3o seja esse cubo branco &#8211; em v\u00e1rios sentidos &#8211; que a gente conhece, esse espa\u00e7o branco elitizado. Acho que nesse momento pand\u00eamico, nesse momento complicado que estamos vivendo no Brasil, todos n\u00f3s dever\u00edamos ter direito a nossa subjetividade\u201d<\/p><cite>P\u00e2mela Zorn <meta http-equiv=\"content-type\" content=\"text\/html; charset=utf-8\">Vianna<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>*Por Victoria Rodrigues*Foto: Filipe Conde Muitas vezes, o primeiro contato que temos com qualquer fazer art\u00edstico acontece na inf\u00e2ncia, seja ao desenhar uma \u00e1rvore ou pintar uma imagem qualquer sem preocupa\u00e7\u00e3o. Pois foi assim que, ainda crian\u00e7a, aos quatro anos de idade, P\u00e2mela Zorn Vianna teve seu primeiro contato com a arte que hoje estuda e pratica. Ao lado de sua av\u00f3, artes\u00e3 e professora de pintura, P\u00e2mela experimentou a cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica ajudando na confec\u00e7\u00e3o das pinturas feitas em panos de prato e em camisetas.&nbsp; Levou a atividade como um hobby at\u00e9 a adolesc\u00eancia, quando passou a olhar com mais seriedade para o meio art\u00edstico, at\u00e9 se dar conta de que queria se aprofundar nesse mundo. Aos 17 anos, ingressou no curso de Bacharelado em Artes Visuais na UFRGS. Apesar de muito jovem e sem saber se estava seguindo o caminho certo, P\u00e2mela desejava fazer algo que realmente gostasse. \u201cN\u00e3o me arrependo de ter escolhido essa \u00e1rea porque hoje \u00e9 o que eu amo fazer\u201d, diz.&nbsp; Por conta de ter nascido no interior do estado, na cidade de Tr\u00eas Coroas, a artista nunca havia tido a oportunidade de visitar espa\u00e7os como museus e galerias de arte. P\u00e2mela lembra com nostalgia a primeira vez em que entrou no ateli\u00ea do Instituto de Artes. Ficou encantada com tudo que viu, com todas as possibilidades do lugar. \u201cVer aqueles banquinhos altos, as tintas, um monte de gente pintando e produzindo foi muito bacana, me marcou muito\u201d, conta a graduanda. De acordo com ela, ao mesmo tempo em que se sentiu deslocada quando entrou, sentiu tamb\u00e9m uma vontade imensa de explorar tudo daquele novo universo.&nbsp; \u201cAquelas janelas gigantes com uma vista muito linda do centro de Porto Alegre s\u00e3o muito impactantes. Entra uma luz muito bonita que \u00e9 proposital, porque a luz natural ajuda&#8230; <\/p>\n<p><a class=\"readmore\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/pertencimento-percurso-e-identidade\/\">Leia mais<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":19,"featured_media":17604,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_ppma_block_editor_authors":""},"categories":[195],"tags":[183,473,472,483,481,119,482,480,223,266,214],"ppma_author":[542],"class_list":["post-17534","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artista-da-capa","tag-artista","tag-autorrepresentacao","tag-autorretrato","tag-corpos","tag-entre-lugares","tag-exposicao","tag-figura-humana","tag-galerias","tag-instituto-de-artes","tag-pesquisa","tag-pintura"],"authors":[{"term_id":542,"user_id":19,"is_guest":0,"slug":"victoriarodrigues","display_name":"Victoria Rodrigues","avatar_url":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/d3997792c26b1ea0c4669c3516d4bbfe6508b75f0d78afdbbd437a29e0d2c2a3?s=96&d=mm&r=g","author_category":"","user_url":"","last_name":"Rodrigues","first_name":"Victoria","job_title":"","description":"Bolsista do Jornal da Universidade"}],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17534","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/19"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17534"}],"version-history":[{"count":20,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17534\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18013,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17534\/revisions\/18013"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17604"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17534"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17534"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17534"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/ppma_author?post=17534"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}