{"id":19004,"date":"2022-04-05T14:00:38","date_gmt":"2022-04-05T17:00:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/?p=19004"},"modified":"2022-07-01T09:33:03","modified_gmt":"2022-07-01T12:33:03","slug":"os-muros-da-cidade-de-passagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/os-muros-da-cidade-de-passagem\/","title":{"rendered":"Os muros da cidade de passagem"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-drop-cap has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#ebebeb\">Os alunos de Jornalismo Cultural, no semestre acad\u00eamico de 2021-01, contaram hist\u00f3rias de suas cidades por meio da cr\u00f4nica-reportagem. Buscaram entender as mudan\u00e7as do lugar a partir da perspectiva da mem\u00f3ria. Em Canoas, regi\u00e3o atravessada pelas rotas de passagem, nenhuma divis\u00e3o alterou tanto a rotina e o rumo da cidade quanto o muro da Trensurb.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\"><em>*Por: Guilherme Jacques<br>*Foto: Guilherme Jacques\/ Esta\u00e7\u00e3o Trensurb em Canoas<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 muito de n\u00f3s no espa\u00e7o que habitamos e vice-versa, mas pensamos pouco sobre isso. Digo, refletimos muito sobre nossa vida, nossa hist\u00f3ria, o quanto mudamos ao longo do tempo, e olhamos pouco para a transforma\u00e7\u00e3o do ch\u00e3o no qual pisamos. Al\u00e9m dos nossos, infinitos passos foram dados antes e s\u00e3o dados, agora, sem que nem percebamos. Nossa rua, nosso bairro e nossa cidade mudam a todo o instante, e nossa compreens\u00e3o desse espa\u00e7o tamb\u00e9m flui.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ningu\u00e9m experimenta o tempo e o espa\u00e7o da mesma forma, motivo pelo qual todos n\u00f3s dever\u00edamos refletir. E instigar que o fa\u00e7am conosco os mais velhos, que tanto t\u00eam para nos contar. Por minha parte, posso garantir que \u00e9 uma viagem e tanto, de paisagens sempre in\u00e9ditas e emo\u00e7\u00f5es sempre novas. Afinal, ningu\u00e9m experimenta o tempo da mesma forma. E \u00e9 dessa multiplicidade de olhares que surgem as melhores reflex\u00f5es, profundas ou banais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por exemplo, pensar a minha cidade \u00e9, logo de in\u00edcio, se deparar com uma fina ironia. Ora, veja se n\u00e3o, a \u201ccidade das Canoas\u201d \u00e9 simbolizada pelos avi\u00f5es, mas tem seu \u00edntimo marcado por outro meio de transporte: o trem. Ali\u00e1s, foi o trem que primeiro esteve por aqui, l\u00e1 em 1867, para ligar Porto Alegre ao munic\u00edpio de S\u00e3o Leopoldo. \u00c0 \u00e9poca, os \u00fanicos meios de transporte da regi\u00e3o eram balsas e aqueles puxados por animais, mas era preciso escoar a produ\u00e7\u00e3o rural realizada fora da capital. Assim, a fazenda que pertencia \u00e0 Gravata\u00ed tornou-se caminho para as mercadorias e as pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Parecia ser uma sina o t\u00edtulo de cidade de passagem, cidade dormit\u00f3rio, enfim. N\u00e3o \u00e0 toa, a esta\u00e7\u00e3o inaugurada junto aos trilhos foi a semente para que se iniciasse o vilarejo que culminaria em munic\u00edpio. Da fazenda, desdobraram-se pequenas moradias e ch\u00e1caras maiores, mas era preciso mais que isso. Vieram, ent\u00e3o, os pequenos armaz\u00e9ns e, claro, a escola \u2013 hoje, Universidade La Salle \u2013 e a igreja \u2013 atualmente, a matriz S\u00e3o Lu\u00eds Gonzaga. Todas elas, orbitando a linha f\u00e9rrea e a pequena esta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas como divis\u00e3o pouca era bobagem, o territ\u00f3rio se desenvolveu e a linha seguinte a atravessar o espa\u00e7o foi quase simb\u00f3lica. Em 1937, aterrissou por aqui o 3\u00ba Regimento de Avia\u00e7\u00e3o Militar. Quem cortava a \u2013 quase \u2013 cidade, agora, eram as aeronaves \u2013 e pelos c\u00e9us. A import\u00e2ncia trazida pela base militar foi tamb\u00e9m concreta e motivou um pedido de emancipa\u00e7\u00e3o. Canoas tornou-se cidade em 1939, com o ch\u00e3o riscado pelos trilhos e os ares pela esquadrilha da fuma\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Naquele momento, j\u00e1 eram quase 50 mil canoenses, mas s\u00f3 depois da Segunda Guerra Mundial houve um novo salto. O momento era pr\u00f3spero para o desenvolvimento e as ind\u00fastrias queriam estar ao lado da capital. Empresas nacionais e internacionais adotaram a cidade e abriram a oportunidade para a instala\u00e7\u00e3o da Refinaria Alberto Pasqualini, logo na d\u00e9cada de 1960 \u2013 um dos atuais marcos do munic\u00edpio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Canoas seguia sendo uma cidade de tr\u00e2nsito, por\u00e9m desenvolvida e carente de algo \u00f3bvio, ao menos segundo o pensamento que predominava no per\u00edodo. Faltava uma estrada, o s\u00edmbolo cl\u00e1ssico do governo de Juscelino Kubitschek, que ocupava a presid\u00eancia \u00e0 \u00e9poca. Vinha outra divis\u00e3o, novamente terrestre, para a cidade que nascera com esse carma. N\u00e3o era o fim, por\u00e9m, e nem a mais significativa de todas.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/image-13.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1016\" height=\"669\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/image-13.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-19093\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/image-13.jpg 1016w, https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/image-13-300x198.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/image-13-768x506.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1016px) 100vw, 1016px\" \/><\/a><figcaption><em>A regi\u00e3o central antes da Trensurb | Imagem: acervo da Prefeitura de Canoas<\/em><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mesmo em desenvolvimento, por vezes o mais acelerado da regi\u00e3o metropolitana, a cidade nunca conseguiu fugir das sombras de Porto Alegre. Para onde ir para fazer compras maiores? Para a capital. Quando eram necess\u00e1rios bons hospitais ou consultas de alta complexidade? Capital. Entretenimento e vida noturna? Bom, voc\u00ea j\u00e1 sabe. E, ainda com as ind\u00fastrias e todo o potencial que elas carregavam, as vagas de trabalho em outros setores ficavam na cidade vizinha tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ou seja, assim como \u201cA casa\u201d de Vinicius de Moraes, Canoas era uma cidade muito engra\u00e7ada. Tinha habitantes, potencial e muito esmero, mas n\u00e3o tinha mais nada. Por longos e bons anos, lembram os mais antigos, os \u00f4nibus do munic\u00edpio n\u00e3o convergiam no centro da cidade como \u00e9 habitual. Tinham dois destinos apenas: Porto Alegre e a \u201cPetrobr\u00e1s\u201d \u2013 leia-se o local em que ficavam a refinaria e as principais ind\u00fastrias. Por isso, n\u00e3o se podia dizer que era uma grande e independente metr\u00f3pole e tampouco uma pequena cidade. Tinha ares de ambas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estranho, mas compreens\u00edvel: Canoas mesmo com os trens, os avi\u00f5es e a BR-116, n\u00e3o tinha identidade, somente unidade. At\u00e9 bem pouco tempo, a cidade era formada por poucos e grandes bairros \u2013 e, at\u00e9 hoje, muitos habitantes estranham quando ouvem os nomes de bairros e vilas que surgiram recentemente. Nesses locais consagrados, havia grandes fam\u00edlias distribu\u00eddas. \u00c0s vezes, por inteiro em um s\u00f3 ponto (bairro ou rua), noutras em \u00e1reas distintas, que se conversavam e se reuniam nos poucos pontos de encontro que existiam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cabia, ali\u00e1s, a esses pequenos pontos \u2013 a antiga esta\u00e7\u00e3o, a igreja matriz, as pra\u00e7as dos arredores e as poucas lojas \u2013 servirem de embri\u00e3o para o centro da cidade. Mas ele ainda n\u00e3o existia, de fato. Surgiu apenas quando de um novo tra\u00e7ado, ou melhor, muro concreto e f\u00edsico come\u00e7ou a se desenhar. Era in\u00edcio da d\u00e9cada de 1980, o per\u00edodo em que as obras da Trensurb tiveram in\u00edcio. A proposta de transferir aqueles que j\u00e1 abarrotavam a BR-116 para um meio de transporte mais eficiente, barato e r\u00e1pido poderia ser um marco \u00e0 \u00e9poca.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/image-14.jpg\"><img decoding=\"async\" width=\"1008\" height=\"665\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/image-14.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-19078\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/image-14.jpg 1008w, https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/image-14-300x198.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/image-14-768x507.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1008px) 100vw, 1008px\" \/><\/a><figcaption><em>As obras de instala\u00e7\u00e3o da Trensurb, no centro de Canoas | Imagem: acervo da Prefeitura de Canoas<\/em><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E foi \u2013 em v\u00e1rios sentidos. A come\u00e7ar pela n\u00e3o invisibilidade. Nenhuma divis\u00e3o estabelecida em Canoas antes era vis\u00edvel e alterou tanto a rotina e o rumo da cidade quanto a Trensurb. Ao passo que a BR-116 ganhou uma via expressa e os trilhos do trem foram cercados de ponta a ponta, a cidade foi fatiada em tr\u00eas partes. Um lado leste, um oeste e, bem ao meio (assim mesmo, quase redundante), o centro, que virou um territ\u00f3rio delimitado e capaz de unir os dois lados. Um dos poucos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir de ent\u00e3o, n\u00e3o exatamente como a divis\u00e3o da Alemanha ocidental e oriental (para nossa sorte), os dois lados da cidade tornaram-se um tanto quanto estranhos. Jovens nascidos depois da d\u00e9cada de 1980, ao contr\u00e1rio de seus pais e av\u00f3s, passaram a ver a cidade somente at\u00e9 os muros que cercavam os trilhos. Perderam a cultura, as p\u00e9rolas escondidas e at\u00e9 a no\u00e7\u00e3o de pertencimento da regi\u00e3o que ficava al\u00e9m do trem. Era como se o desenvolvimento tivesse separado Canoas, ao inv\u00e9s de uni-la. Pior, era como se refor\u00e7asse o estere\u00f3tipo da cidade de passagem, que insistia em n\u00e3o sumir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas o tempo ou a globaliza\u00e7\u00e3o parece ter ajudado tamb\u00e9m os microcosmos canoenses. E, nesse movimento, o mesmo desenvolvimento que \u00e0 \u00e9poca separou, tornou a unir. O centro, preso \u00e0s grades do trem e ao asfalto da rodovia, precisou se expandir. Primeiro foi um shopping, de um dos lados, e quase vinte anos depois, outro, no espectro oposto. A fome consumista fez desenvolver as regi\u00f5es ao redor e, tamb\u00e9m, trouxe for\u00e7a para que as pessoas rompessem os limites que suas mentes haviam imposto e os muros, materializado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A cidade do movimento, de Canoas, trens e avi\u00f5es, parecia dar aos seus moradores, finalmente, motivos para que criassem ra\u00edzes. Empregos, moradias, alternativas de lazer e cultura. Tudo isso fez com que as pessoas descobrissem o potencial nas sombras da capital. Mas \u00e9 claro, n\u00e3o sem perder o combust\u00edvel, a capacidade de mudar. Da\u00ed o brilho e o motivo de olharmos sempre com aten\u00e7\u00e3o para os passos que foram dados, que estamos dando e que ainda daremos.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cr\u00f4nica | H\u00e1 muito de n\u00f3s no espa\u00e7o que habitamos e vice-versa, mas pensamos pouco sobre isso. 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