{"id":20459,"date":"2022-06-14T12:16:42","date_gmt":"2022-06-14T15:16:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/?p=20459"},"modified":"2022-07-01T09:34:09","modified_gmt":"2022-07-01T12:34:09","slug":"vidas-itinerantes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/vidas-itinerantes\/","title":{"rendered":"Vidas itinerantes"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-drop-cap has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#ededed\">Na regi\u00e3o metropolitana de Porto Alegre, uma estudante de jornalismo encontra uma cigana e quiromante. Na tradu\u00e7\u00e3o desse encontro, encontramos pistas da rela\u00e7\u00e3o itinerante dos ciganos com os territ\u00f3rios-cidades, um v\u00ednculo bem mais complexo do que um gadj\u00e9 (n\u00e3o cigano) poderia imaginar. A cr\u00f4nica-reportagem foi produzida em 2021 durante a disciplina de Jornalismo e Cultura do curso de Jornalismo da FABICO, com orienta\u00e7\u00e3o da professora Cida Golin.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\"><em>*Por: Joyce Rocha de Oliveira<br>*Imagem: Associa\u00e7\u00e3o Ciganos Itinerantes do Rio Grande do Sul (ACIRGS)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Espalhadas pelas cidades, vi barracas abrigarem sobreviventes de uma cultura centen\u00e1ria. Para os<em> gadj\u00e9<\/em>, ou n\u00e3o-ciganos, o imagin\u00e1rio sobre o nomadismo dos povos romani \u00e9 cheio de estere\u00f3tipos. Alguns idealizam a vida itinerante como uma constante busca pela liberdade, o jeito cigano de ser livre e aventureiro. Outros, tomados pela discrimina\u00e7\u00e3o, consideram a vida n\u00f4made como inferior, folgados, ouvi de muitas pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como n\u00e3o-cigana, eu tamb\u00e9m carregava estere\u00f3tipos. Acreditava que mantinham a viv\u00eancia em barracas por conta da tradi\u00e7\u00e3o e da escolha pela liberdade. Os acampamentos armados, cheios de gente, despertaram em mim a curiosidade sobre a vida itinerante e a rela\u00e7\u00e3o com os territ\u00f3rios-cidades.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi assim que nos conhecemos, Rose Winter e eu, num di\u00e1logo formado por duas pessoas bem diferentes. Eu, uma cuiabana, estudante de jornalismo, e ela, uma cigana, s\u00e3o leopoldense e quiromante. Rose, mulher falante de unhas pintadas de vermelho, me contou que sua rela\u00e7\u00e3o com o territ\u00f3rio-cidade de S\u00e3o Leopoldo come\u00e7ou em 1825, quando sua fam\u00edlia chegou, em um navio transatl\u00e2ntico, \u00e0s \u00e1guas do Rio dos Sinos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Naquela \u00e9poca, seus parentes viveram um per\u00edodo de persegui\u00e7\u00e3o \u00e9tnica na Europa, ela disse. Durante a noite, os ciganos eram<em> gueteados <\/em>em acampamentos e expulsos em navios como imigrantes alem\u00e3es. Sem escolha, tiveram que aprender, nesse tempo, a l\u00edngua alem\u00e3 e deixar a l\u00edngua romani de lado. Os relatos que passaram pela fam\u00edlia da cigana nesses quase 200 anos lembram que quem n\u00e3o falava a l\u00edngua alem\u00e3 dentro dos navios n\u00e3o ganhava comida. Se houvesse uma crian\u00e7a que pedisse <em>mam\u00e1<\/em> em romani, Rose conta, ela era jogada para fora do navio, e, com certeza a m\u00e3e pularia para tentar salvar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Minha conversa com a cigana durou mais do que duas horas. Entre as curiosidades contadas, soube que os ciganos <em>Sinti<\/em>, etnia da qual ela faz parte, s\u00e3o \u00f3timos artistas e gostam de praticar fotografia, pintura e dan\u00e7a. Tamb\u00e9m descobri que Rose \u00e9 uma cigana fixa, ela ainda mora na casa original da sua fam\u00edlia, constru\u00edda quando vieram da Alemanha, e que abrigava um est\u00fadio fotogr\u00e1fico criado por seu pai.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Confesso que, quando a conheci, n\u00e3o sabia do fato de que Rose n\u00e3o era n\u00f4made. Afinal, porque existiam tantos ciganos em barracas, sen\u00e3o por uma regra da tradi\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi a\u00ed que a cigana me contou: a marginaliza\u00e7\u00e3o e a discrimina\u00e7\u00e3o nunca deixaram de perseguir aquelas pessoas sob as tendas. Assim, continuaram a viver da forma que aprenderam, nas mudan\u00e7as constantes, para que n\u00e3o fossem violentados, perseguidos ou dominados pela pobreza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A itiner\u00e2ncia da vida em acampamento, ent\u00e3o, se tornou uma necessidade, n\u00e3o somente pela tradi\u00e7\u00e3o, pelo desejo de ser livre ou pelo esp\u00edrito aventureiro, como se criou no imagin\u00e1rio dos n\u00e3o-ciganos. A liberdade que desejam n\u00e3o \u00e9 a de morar em acampamentos, mas a de viver a singularidade dos seus h\u00e1bitos, da forma de conv\u00edvio e da cultura multifacetada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Conversando com Rose, compreendi: <a>a rela\u00e7\u00e3o itinerante dos ciganos com os territ\u00f3rios-cidades &#8211; seja Porto Alegre, Gravata\u00ed, ou qualquer outro lugar &#8211; \u00e9 muito mais complexa do que um <em>gadj\u00e9 <\/em>poderia imaginar.<\/a> As rotas centen\u00e1rias e a vida de mudan\u00e7as se confundem com a tradi\u00e7\u00e3o e a necessidade, a liberdade e o aprisionamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dias depois, eu e Rose trocamos mensagens pelo celular e ela me enviou o seguinte texto de Cec\u00edlia Meireles, cigana e poetisa:<br><br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><strong>Epigrama n\u00ba 7<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">A tua ra\u00e7a de aventura<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">quis ter a terra, o c\u00e9u, o mar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Na minha, h\u00e1 uma del\u00edcia obscura<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">em n\u00e3o querer, em n\u00e3o ganhar&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">A tua ra\u00e7a quer partir,<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">guerrear, sofrer, vencer, voltar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">A minha, n\u00e3o quer ir nem vir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">A minha ra\u00e7a quer passar.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na regi\u00e3o metropolitana de Porto Alegre, uma estudante de jornalismo encontra uma cigana e quiromante. 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