{"id":22050,"date":"2022-09-19T10:54:30","date_gmt":"2022-09-19T13:54:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/?p=22050"},"modified":"2022-09-19T11:01:40","modified_gmt":"2022-09-19T14:01:40","slug":"historias-de-uma-vila-sem-nome","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/historias-de-uma-vila-sem-nome\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3rias de uma vila sem nome"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\"><em>*Por: Mateus Rodrigues<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#ededed\">Os alunos da disciplina de Jornalismo e Cultura da FABICO, durante o ensino remoto, foram convidados a problematizar e a escrever sobre cidade e pertencimento. Acompanhe aqui a cr\u00f4nica-reportagem de Mateus Rodrigues, produzida em 2021, um relato em primeira pessoa sobre o seu <em>lar<\/em>, num espa\u00e7o sem nome ou apelido. Retratos de uma Porto Alegre que nem sempre se fala, se importa, ou se v\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Moro h\u00e1 25 anos em uma vila sem nome. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">L\u00e1 na Rua D\u00e1rio Totta, a \u00e1rea verde que fica em frente ao Minimercado M Dias e vai frontalmente de encontro com a Rua Cunha Neto, \u00e9 o local que eu chamo de lar desde que nasci e ainda chamo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Geralmente ou\u00e7o questionamentos sobre residir em uma vila nessa regi\u00e3o e rostos que franzem a testa quando digo que \u201cn\u00e3o, n\u00e3o moro na Vila Cruzeiro ou qualquer outra que seja\u201d. Vivo neste espa\u00e7o, que n\u00e3o tem nome ou apelido, mas que existe h\u00e1 mais de tr\u00eas d\u00e9cadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">At\u00e9 dizer em qual bairro fico \u00e9 complicado: o mapa oficial de Porto Alegre nos coloca como parte do Bairro Nonoai, mas por conta da proximidade com o bairro Teres\u00f3polis recebemos cartas com essa identifica\u00e7\u00e3o. \u00c9 um local de dois mundos e se caminham planetas para chegar \u00e0s principais paradas de \u00f4nibus da regi\u00e3o. Costumo dizer que, como moro bem no meio da rua, tanto faz pegar \u00f4nibus na parada que fica em frente \u00e0 pra\u00e7a Guia Lopes (no bairro Teres\u00f3polis) ou na que fica em frente \u00e0 Igreja Batista (no bairro Nonoai): os dez minutos de caminhada s\u00e3o t\u00e3o \u00e1rduos tanto em um quanto em outro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A verdade \u00e9 que, apesar da falta de uma alcunha, essa vila \u00e9 repleta de gente com nome, sobrenome e muita hist\u00f3ria para contar. Entretanto, como este texto n\u00e3o deve ganhar o status que a produ\u00e7\u00e3o rebuscada de um livro tem &#8211; e muito menos o tamanho &#8211; busco um bom resumo de como chegamos at\u00e9 aqui nesse espa\u00e7o na Rua D\u00e1rio Totta. Para isso, n\u00e3o encontro melhor pessoa para conversar sobre o assunto do que o meu pai, Clodoaldo.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft size-full\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Legenda-Meu-pai-Clodoaldo-e-Beto-meu-vizinho.-Foto-Arquivo-de-familia.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"386\" height=\"421\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Legenda-Meu-pai-Clodoaldo-e-Beto-meu-vizinho.-Foto-Arquivo-de-familia.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-22058\"\/><\/a><figcaption>Meu pai, Clodoaldo, e Beto, meu vizinho. Foto: Arquivo de fam\u00edlia.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Clodoaldo Ant\u00f4nio Alves da Silva nasceu em 1973, \u00e9 natural de Ca\u00e7ador-SC e veio para Porto Alegre aos 13 anos. Por ideia das tias, que visitaram a cidade e ficaram deslumbradas com a capital, a fam\u00edlia largou tudo que tinha em busca das oportunidades que uma metr\u00f3pole pode oferecer. Vieram as tias, tios, as duas irm\u00e3s (mais novas, que se tornaram tr\u00eas ap\u00f3s a chegada), av\u00f4 e av\u00f3 maternos, pai e m\u00e3e.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cE aqui come\u00e7a o inferno, pois a gente n\u00e3o tinha no\u00e7\u00e3o da maldade, da viol\u00eancia, da ruindade da gente da capital, mis\u00e9ria, tiroteio, correria\u2026 Isso tudo abalou a cabe\u00e7a da gente, mas eu acabei me adaptando com aquilo ali\u201d, conta ele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como a \u201cbarriga roncava\u201d (nas suas pr\u00f3prias palavras), meu pai praticamente come\u00e7ou a trabalhar assim que chegou em Porto Alegre. Primeiramente, a fam\u00edlia toda morou na rua Mata Coelho, que \u00e9 o limite m\u00e1ximo da Rua D\u00e1rio Totta no bairro Nonoai, e depois por um tempo na Orfanotr\u00f3fio, que fica a algumas quadras acima no Alto Teres\u00f3polis. L\u00e1 ele presenciou muitas confus\u00f5es por conta de um bar que ficava na frente do seu terreno e que, frequentemente, terminava em coisa pior, como briga com facas e armas de fogo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O pai, Oswaldo, veio para a Capital praticamente \u201cpor obriga\u00e7\u00e3o\u201d e acabou ficando depressivo com o choque cultural proporcionado pela cidade grande. Caiu no alcoolismo, doen\u00e7a que acabou por selar um destino tr\u00e1gico e precoce para ele. Ap\u00f3s o ocorrido &#8211; e por estar cansada de ficar &#8220;empoleirada&#8221; &#8211; a m\u00e3e, Orlandina, ficou sabendo de um terreno \u00e0 venda na rua D\u00e1rio Totta, onde existiam alguns barracos feitos com tapumes de compensado. Com os filhos (incluindo o meu pai), ela veio morar na regi\u00e3o l\u00e1 pelo in\u00edcio dos anos 90. No local, a casa era praticamente um quadradinho em que mal se cabia uma cama. Ao lado, corria esgoto a c\u00e9u aberto at\u00e9 o fim da \u00e1rea a uns 300 metros, onde desembocava em um grande riacho que cruza a rua Mata Coelho. Hoje \u00e9 bem diferente. Com o encanamento de esgoto e aterramentos feitos pelo pr\u00f3prio Clodoaldo, a \u00fanica coisa que verte at\u00e9 l\u00e1 \u00e9 a \u00e1gua da chuva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda nos anos 90, uma desaven\u00e7a com a irm\u00e3 e a m\u00e3e Orlandina fez com que ele fosse expulso de casa e, posteriormente, criasse uma \u201cpe\u00e7a\u201d para morar que ficaria exatamente ao lado dela. A partir disso, Clodoaldo conheceu Patr\u00edcia, minha m\u00e3e, e juntos dividiram um lar que continua em constru\u00e7\u00e3o, reforma e expans\u00e3o at\u00e9 hoje. Nessa \u00e9poca, ele j\u00e1 estava come\u00e7ando a se estabelecer como marmorista (profiss\u00e3o que ainda exerce) e um faz-tudo em constru\u00e7\u00e3o civil, servindo tamb\u00e9m como arquiteto e engenheiro da pr\u00f3pria resid\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A casa ao lado, que foi por mais de 20 anos o centro da minha fam\u00edlia paterna, literalmente come\u00e7ou a desmoronar entre 2013 e 2014 ap\u00f3s a morte de minha av\u00f3. Hoje o espa\u00e7o est\u00e1 abandonado e vive a promessa de que um dia alguma tia venha e erga tudo novamente, mas isso ainda parece um futuro distante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Voltando a falar sobre a comunidade como um todo, naquela \u00e9poca j\u00e1 estavam estabelecidas algumas figuras que at\u00e9 hoje s\u00e3o a cara da tal Vila Sem Nome. A dona Jurema, por exemplo, \u00e9 uma das pessoas mais antigas da regi\u00e3o e uma das respons\u00e1veis por povoar o local com muitos familiares. Diz meu pai que a parte onde ela fica (que \u00e9 a casa mais a frente) era parte de um terreno privado ligado \u00e0s pessoas que ela conhecia, mas fico de apurar esta informa\u00e7\u00e3o em um outro momento. O fato \u00e9 que todas as pessoas que vivem aqui moram de forma irregular no que se chamaria \u201c\u00e1rea verde\u201d (lembro desse termo quando me inscrevi no vestibular e que n\u00e3o saiu mais da cabe\u00e7a). Naquela \u00e9poca, ele estimava a exist\u00eancia de ao menos 15 fam\u00edlias residentes, mas hoje j\u00e1 seriam entre 30 e 50.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignright size-full is-resized\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Foto-arquivo-pessoal.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Foto-arquivo-pessoal.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-22052\" width=\"495\" height=\"279\"\/><\/a><figcaption>Foto: Arquivo Pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Muitas dessas pessoas eu conhe\u00e7o de vista, outras n\u00e3o. E mesmo em um local pequeno como esse, obviamente n\u00e3o somos uma mistura homog\u00eanea. \u00c9 poss\u00edvel at\u00e9 dividi-las em tr\u00eas grupos. O <strong>primeiro<\/strong> \u00e9 formado pelos moradores que ficam na entrada em que est\u00e1 a minha casa (foto acima), que \u00e9 a que aparece na ponta do local, at\u00e9 o j\u00e1 mencionado bueiro. O pessoal aqui \u00e9 um pouco menos festeiro, mais velho e menos disposto a se relacionar com o resto, mas isso n\u00e3o \u00e9 uma regra. Para o meu pai e minha m\u00e3e, sim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cPara sobreviver em uma vila assim, \u00e9 melhor n\u00e3o manter contato\u201d, diz ele. Ou\u00e7o frases parecidas com essa desde que me dou por gente, mas dessa vez ele explica seu ponto ao lembrar que, no fim de semana passado, ouvimos tiros que pareciam vir do lado de onde mora o <strong>segundo grupo<\/strong>, que \u00e9 o pessoal do \u201cbeco\u201d, regi\u00e3o que come\u00e7a na casa da Dona Jurema (na foto abaixo, a casa atr\u00e1s do carro preto) e termina no mesmo bueiro. Esse grupo \u00e9 mais unido (seja por la\u00e7os familiares ou n\u00e3o), est\u00e1 na \u00e1rea mais densamente populosa, geralmente do local de onde parte a maioria das confus\u00f5es que rolam por aqui, ainda que sejam poucas. Nesse caso, a boataria da rua (e por isso irei preservar a identidade das pessoas) conta que uma mulher bem conhecida na comunidade (e que mora por ali) teria recebido os tiros que ouvimos naquele dia. A motiva\u00e7\u00e3o \u00e9 desconhecida e ela estaria no hospital neste momento com quadro est\u00e1vel.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/capa-Fotografias-Producao-e-acervo-do-autor.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/capa-Fotografias-Producao-e-acervo-do-autor.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-22051\" width=\"845\" height=\"476\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/capa-Fotografias-Producao-e-acervo-do-autor.jpg 1363w, https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/capa-Fotografias-Producao-e-acervo-do-autor-920x518.jpg 920w, https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/capa-Fotografias-Producao-e-acervo-do-autor-768x433.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 845px) 100vw, 845px\" \/><\/a><figcaption>Foto: Arquivo Pessoa<br><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O <strong>terceiro grupo<\/strong> \u00e9 formado pelas pessoas que n\u00e3o moram na vila propriamente dita, mas fazem parte da comunidade &#8211; como o Beto, que aparece naquela foto com o meu pai. Por conhecimento pr\u00f3prio, \u00e9 dif\u00edcil dizer que algu\u00e9m \u00e9 realmente seu amigo, mas Beto \u00e9 um grande conhecido dele. Viveram muitas coisas juntos por aqui e ele at\u00e9 ajudou a fazer algumas reformas na nossa casa, como quando trocamos todo o telhado uns anos atr\u00e1s. Beto \u00e9 serralheiro, geralmente trabalha ali mesmo na nossa rua, o que faz ser um dos vizinhos que mais vejo quando saio &#8211; e que sempre me cumprimenta. Algumas vezes me chama de \u201co jornalista\u201d, assim como o Elton, que anda com ele e sempre est\u00e1 por a\u00ed. \u00c9 poss\u00edvel colocar tamb\u00e9m os gatos e cachorros comunit\u00e1rios (esses \u00faltimos mais acess\u00edveis), como a Nina (foto abaixo), que flagrei em pleno hor\u00e1rio de trabalho dela (claro, catando lixo para comer).<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft size-full is-resized\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/foto-cachorro.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/foto-cachorro.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-22055\" width=\"437\" height=\"245\"\/><\/a><\/figure>\n<\/div>\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft size-full is-resized\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Foto-cachorro-2-arquivo-pessoal.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Foto-cachorro-2-arquivo-pessoal.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-22054\" width=\"438\" height=\"243\"\/><\/a><figcaption>Fotos: Arquivo Pessoal.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim como a simp\u00e1tica Nina, o lixo tamb\u00e9m sempre me intrigou, mas de forma diferente. Faz parte de muitas das minhas reflex\u00f5es sobre o que eu penso de onde moro. Desde que me dou por gente, as pessoas jogam lixo para a coleta na frente da minha casa e sem motivo algum. Antigamente, existia uma grande \u00e1rvore com pregos onde as pessoas colocavam as sacolas de lixo. Assim como tamb\u00e9m deixavam no ch\u00e3o mesmo. A \u00e1rvore acabou morrendo, mas a conven\u00e7\u00e3o continua e fazemos parte desse ciclo. \u00c0s vezes me irrita um pouco, mas n\u00e3o o suficiente para mudar algo, ent\u00e3o fico calado e aceito a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vergonha? J\u00e1 tive muita. Tamb\u00e9m me aborrecia demais uma placa que a prefeitura colocou h\u00e1 alguns anos informando que era proibido construir ali. O contraste dela com os pr\u00e9dios vizinhos servia como uma paisagem quase que discriminat\u00f3ria, como se as pessoas abaixo dela fossem de uma casta menor. A placa foi instalada por conta de um dos v\u00e1rios momentos em que se correu a hist\u00f3ria, oficial ou n\u00e3o, de que as pessoas daqui seriam removidas, ou de que as casas seriam enfim regularizadas. Hoje a placa n\u00e3o existe mais, pois sempre que a colocam, algu\u00e9m tira. N\u00e3o julgo.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignright size-full is-resized\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Frente-da-minha-casa-em-2011-menos-mata-verde-mas-com-a-grande-arvore.-.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Frente-da-minha-casa-em-2011-menos-mata-verde-mas-com-a-grande-arvore.-.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-22057\" width=\"527\" height=\"348\"\/><\/a><figcaption>Frente da minha casa em 2011, menos mata verde, mas com a grande \u00e1rvore.<br>Foto: Google Maps<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em espa\u00e7os em que a unidade parece indicar que todos t\u00eam origens parecidas, as diferen\u00e7as surgem e podem ser gritantes. No ensino fundamental, quase nada, pois \u00e9ramos todos de um local parecido. No m\u00e9dio, quando estudei na escola Padre Reus, existia a pomposidade do pessoal que vivia bem, mas em bairros afastados, e os mais pobres que viviam em bairros igualmente carentes, como a Restinga. Na universidade, percebi o maior abismo de realidades. Como vou querer ser compreendido por pessoas que moraram a vida toda em bairros nobres e viajam para a Europa semestralmente? Dentro de sala, somos todos iguais, mas o teto que paira sobre a cabe\u00e7a de cada um diz muito sobre n\u00f3s.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft size-full is-resized\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Vista-para-a-rua.-Foto-Arquivo-Pessoal..jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Vista-para-a-rua.-Foto-Arquivo-Pessoal..jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-22059\" width=\"510\" height=\"288\"\/><\/a><figcaption>Vista para a rua. Foto: Arquivo Pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignright size-full\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Foto-rapaz-arquivo-pessoal-e1663595470540.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"386\" height=\"541\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Foto-rapaz-arquivo-pessoal-e1663595470540.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-22056\"\/><\/a><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O meu lar \u00e9 a minha identidade, a minha hist\u00f3ria e parte de mim at\u00e9 o fim dos meus dias. Por tr\u00e1s de qualquer poss\u00edvel acanhamento que venha a sentir pelas problem\u00e1ticas desse espa\u00e7o, sinto respeito e orgulho por quem colocou tudo isso de p\u00e9. Meu pai \u00e9 um homem imperfeito como eu tamb\u00e9m sou, mas que teve como maior caracter\u00edstica o senso de responsabilidade. Foi (e ainda \u00e9) pai presente em um pa\u00eds que n\u00e3o sabe o que \u00e9 isso e at\u00e9 hoje pinga muito suor por cada tijolinho novo que \u00e9 colocado por aqui.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E minha m\u00e3e tamb\u00e9m. \u00c9 de origem t\u00e3o pobre quanto a de meu pai, ficou anos desempregada para me cuidar quando eu era menor, mas, mesmo assim, encontrou a for\u00e7a necess\u00e1ria para fazer faculdade e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Se temos conforto para conseguir at\u00e9 mesmo viajar, isso se deve aos anos de trabalho, condi\u00e7\u00e3o que muitos receberam durante a vida toda de m\u00e3o beijada. N\u00e3o \u00e9 necessariamente uma cr\u00edtica a essas pessoas, mas sim a realidade das coisas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A nossa hist\u00f3ria \u00e9 s\u00f3 uma das v\u00e1rias que a Vila Sem Nome, local de gente que por algum motivo calhou de estar aqui, tem a oferecer para o retrato de uma Porto Alegre que nem sempre se fala ou se importa o suficiente.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Moro h\u00e1 25 anos em uma vila sem nome. L\u00e1 na Rua D\u00e1rio Totta, a \u00e1rea verde que fica em frente ao Minimercado M Dias e vai frontalmente de encontro com a Rua Cunha Neto, \u00e9 o local que eu chamo de lar desde que nasci e ainda chamo. Geralmente ou\u00e7o questionamentos sobre residir em uma vila nessa regi\u00e3o e rostos que franzem a testa quando digo que \u201cn\u00e3o, n\u00e3o moro na Vila Cruzeiro ou qualquer outra que seja\u201d. 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