{"id":22080,"date":"2022-09-19T12:10:43","date_gmt":"2022-09-19T15:10:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/?p=22080"},"modified":"2022-09-19T14:01:20","modified_gmt":"2022-09-19T17:01:20","slug":"uma-voz-que-percorre-a-cidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/uma-voz-que-percorre-a-cidade\/","title":{"rendered":"Uma voz que percorre a cidade"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\"><em>*Por: Victoria Paula Rodrigues<\/em><br><em>*Foto: Daniel De Bem<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#ededed;font-size:15px\">Conhe\u00e7a dona Luiza Hellena, a voz negra da velha guarda do samba que, aos 76 anos, faz do samba um grito de liberdade. Esse perfil foi produzido em 2022 para a disciplina de Jornalismo e Cultura da Fabico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje em dia, pouco se fala da velha guarda musical ga\u00facha. Com os novos meios de se fazer m\u00fasica invadindo o mundo, fica mais dif\u00edcil conhecer as trajet\u00f3rias de muitos dos cantores mais antigos. Isso se intensifica ainda mais quando se fala de musicistas negras. A interseccionalidade entre viol\u00eancia de g\u00eanero, invisibilidade e marginaliza\u00e7\u00e3o de mulheres negras na m\u00fasica em Porto Alegre \u2013 espa\u00e7o em que a branquitude se faz presente -, sempre foi muito marcante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi o que aconteceu com a trajet\u00f3ria de dona Luiza Hellena. Nascida em S\u00e3o Louren\u00e7o do Sul, a cantora de 76 anos iniciou sua caminhada musical cantando em emissoras de r\u00e1dio ainda jovem, aos 13 anos, na d\u00e9cada de 1960. O trabalho com m\u00fasica, por\u00e9m, n\u00e3o era visto com bons olhos \u2013 e fazia com que fosse considerada \u201cuma menina mal falada\u201d. Por esse motivo, decidiu fugir de casa porque a m\u00e3e n\u00e3o a deixava cantar. \u201cDesde crian\u00e7a eu j\u00e1 gostava de cantar\u201d, relembra dona Luiza. \u201cNo jardim de inf\u00e2ncia eu lembro que eu j\u00e1 cantava samba\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aos 16 anos se mudou para Porto Alegre em busca de seu sonho. \u201cResolvi encarar o mundo porque eu queria ser artista\u201d, relata. No entanto, o plano de seguir na carreira musical teve que ser deixado de lado quando se casou aos 19 anos. Tal qual a m\u00e3e, o marido de dona Luiza n\u00e3o a deixava cantar, fazendo ela optar entre a m\u00fasica ou o casamento. \u201cO amor faz a gente cometer burrices\u201d, diz. Com dois filhos, precisou procurar outros meios para sobreviver nesse per\u00edodo; trabalhou como costureira e cabeleireira, fazia de tudo um pouco para conseguir se manter. Dona Luiza Hellena permaneceu casada at\u00e9 os 27 anos, quando decidiu se separar para ir atr\u00e1s da sua maior paix\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Retomou a carreira cantando nas noites de Porto Alegre, interpretando diversas can\u00e7\u00f5es em m\u00faltiplos bares e casas noturnas na d\u00e9cada de 1970. A partir da\u00ed n\u00e3o parou mais. Participou de festivais, puxou escola de samba no interior, al\u00e9m de viajar para o Uruguai e para o M\u00e9xico representando as cantoras negras brasileiras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De acordo com dona Luiza, no decorrer de sua trajet\u00f3ria conheceu o cantor e compositor Lupic\u00ednio Rodrigues &#8211; embaixador do samba \u201cdor de cotovelo\u201d na capital. Frequentou sua casa, onde se apresentava antes mesmo de se tornar uma cantora profissional. \u201cMuito cantei as m\u00fasicas dele, porque todo cantor antigo da noite de Porto Alegre tinha que cantar Lupic\u00ednio\u201d, conta. \u201cN\u00f3s n\u00e3o tivemos uma amizade profunda, mas ele me chamava de guriazinha quando eu rec\u00e9m estava engatinhando na noite\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">\u201cLuiza Hellena: uma voz\u201d<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar de possuir uma longa caminhada no \u00e2mbito musical, dona Luiza Hellena nunca havia gravado nenhum CD ou \u00e1lbum. Quando ingressou no Sindicato dos M\u00fasicos para se estabelecer e lutar pela classe art\u00edstica, n\u00e3o imaginava que sua carreira iria se transformar completamente. Foi l\u00e1 que a artista conheceu o m\u00fasico e pesquisador Paulinho Parada, que foi at\u00e9 o local justamente para conhecer um pouco mais sobre a velha guarda ga\u00facha. \u201cNos conhecemos casualmente quando ele apareceu no Sindicato\u201d, relembra. \u201cO Paulinho \u00e9 muito apegado com velhos. L\u00e1 ele me adotou e me convidou para fazer a grava\u00e7\u00e3o de um EP\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao longo de sua vida, dona Luiza Hellena escreveu algumas composi\u00e7\u00f5es que nunca foram gravadas. \u201cEu gosto de compor dor de cotovelo. Sou muito passional, ent\u00e3o quando t\u00f4 com dor de corno j\u00e1 vem m\u00fasica\u201d, diverte-se.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, Paulinho resgatou essas can\u00e7\u00f5es que compuseram o EP Luiza Hellena: uma voz. Ao todo, s\u00e3o cinco faixas inspiradas em desilus\u00f5es amorosas, al\u00e9m de dialogarem com a MPB e o samba. Dona Luiza conta que duas can\u00e7\u00f5es, \u201cAviso Pr\u00e9vio\u201d e \u201cJusti\u00e7a\u201d, t\u00eam endere\u00e7o certo. \u201cForam feitas de quem sofre de amor\u201d, acrescenta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A invers\u00e3o de narrativas est\u00e1 muito presente nas composi\u00e7\u00f5es da cantora. Em \u201cAviso Pr\u00e9vio\u201d, por exemplo, ela que manda o homem para fora de casa. J\u00e1 em \u201cAvante Pov\u00e3o\u201d faz um samba em homenagem ao Sport Clube Internacional. \u201cFiz uma m\u00fasica pro meu time, porque eu sou colorad\u00e9sima\u201d, declara. \u201cTempos atr\u00e1s surgiu um concurso de um samba para o Inter, eu participei, ganhei e o samba t\u00e1 inserido no EP\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com o lan\u00e7amento do EP, dona Luiza conta que finalmente consegue perceber suas m\u00fasicas rodando e chegando nas pessoas. \u201cMuita gente entra em contato, me parabeniza, porque, mod\u00e9stia \u00e0 parte, eu tenho um bom tr\u00e2nsito no meio musical\u201d, relata. Mesmo assim, muitos ainda se surpreendem quando conhecem a longa trajet\u00f3ria da cantora no cen\u00e1rio musical de Porto Alegre. \u201cTem muita gente que n\u00e3o sabe que eu fa\u00e7o m\u00fasica, que eu escrevo, que eu canto, e esse reconhecimento est\u00e1 sendo muito bom\u201d, se emociona.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m do lan\u00e7amento do EP, estreou tamb\u00e9m um document\u00e1rio que mostra dona Luiza Hellena cantando suas composi\u00e7\u00f5es e falando sobre sua carreira. O document\u00e1rio \u00e9 como se fosse o audiovisual do EP, al\u00e9m dos bastidores de um encontro entre ela e Paulinho. O lan\u00e7amento aconteceu justo no dia 20 de novembro de 2021, uma casualidade, j\u00e1 que a produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o havia previsto a data de Zumbi dos Palmares: \u201cteve um significado muito grande para mim, foi \u00f3timo. Porque eu sou uma mulher negra e amo minha ra\u00e7a\u201d, declara.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Legenda-Foi-uma-homenagem-muito-boa-porque-para-uma-pessoa-negra-da-terceira-idade-e-como-se-fosse-um-grito-de-liberdade-para-a-gente-aind-1.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"930\" height=\"520\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Legenda-Foi-uma-homenagem-muito-boa-porque-para-uma-pessoa-negra-da-terceira-idade-e-como-se-fosse-um-grito-de-liberdade-para-a-gente-aind-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-22081\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Legenda-Foi-uma-homenagem-muito-boa-porque-para-uma-pessoa-negra-da-terceira-idade-e-como-se-fosse-um-grito-de-liberdade-para-a-gente-aind-1.jpg 930w, https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Legenda-Foi-uma-homenagem-muito-boa-porque-para-uma-pessoa-negra-da-terceira-idade-e-como-se-fosse-um-grito-de-liberdade-para-a-gente-aind-1-920x514.jpg 920w, https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Legenda-Foi-uma-homenagem-muito-boa-porque-para-uma-pessoa-negra-da-terceira-idade-e-como-se-fosse-um-grito-de-liberdade-para-a-gente-aind-1-768x429.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 930px) 100vw, 930px\" \/><\/a><figcaption><em> \u201cFoi uma homenagem muito boa porque, para uma pessoa negra da terceira idade, \u00e9 como se fosse um grito de liberdade para a gente ainda\u201d &#8211; Luiza Hellena<\/em> (Foto: <em>Daniel De Bem<\/em>)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>Paix\u00e3o avassaladora<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">At\u00e9 hoje, dona Luiza Hellena ainda \u00e9 convidada para se apresentar nos bares da cidade, sua maior paix\u00e3o. Moradora do bairro Navegantes, zona norte de Porto Alegre, onde reside h\u00e1 35 anos, a cantora conta como a cidade mudou ao longo do tempo, como agora n\u00e3o se pode andar \u00e0 noite sozinha como antigamente. \u201c\u00c9 muito perigoso. Apesar de receber muitos convites, tenho que ser seletiva\u201d, declara. No entanto, quando aceita se apresentar em algum local, ela mesma gerencia tudo. \u201cEu combino o cach\u00ea e, se tem que montar banda, eu mesma monto. Sempre fui eu que organizei tudo\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cEu sempre falo que quando eu canto eu chego mais perto de Deus\u201d. \u00c9 assim que dona Luiza define seu amor pela m\u00fasica. Depois de tantos empecilhos e dificuldades, a cantora conta que finalmente pode fazer o que gosta e como gosta. \u201cEu lutei com unhas e dentes pela minha profiss\u00e3o\u201d, afirma. \u201cLevei surras hom\u00e9ricas porque minha m\u00e3e n\u00e3o queria que eu cantasse, mas eu aguentei, persisti e hoje eu digo que venci\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mesmo com todas as dificuldades e com todas as quest\u00f5es que transcorreram em sua vida, o desejo de cantar, a vontade de mostrar quem \u00e9 e o talento falaram mais alto. Ap\u00f3s anos de invisibilidade, finalmente todos podem conhecer o trabalho de dona Luiza.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201c<em>J\u00e1 estou aposentada e finalmente vou fazer aquilo que eu gosto. Nunca vou me queixar da minha profiss\u00e3o, tenho que me queixar \u00e9 do mundo\u201d<\/em><\/p><cite><em>Luiza Hellena<\/em><\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje em dia, pouco se fala da velha guarda musical ga\u00facha. Com os novos meios de se fazer m\u00fasica invadindo o mundo, fica mais dif\u00edcil conhecer as trajet\u00f3rias de muitos dos cantores mais antigos. Isso se intensifica ainda mais quando se fala de musicistas negras.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":22083,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_ppma_block_editor_authors":""},"categories":[356,105],"tags":[],"ppma_author":[685],"class_list":["post-22080","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-laboratorio-fabico","category-uncategorized"],"authors":[{"term_id":685,"user_id":0,"is_guest":1,"slug":"curso-de-jornalismo-fabico-ufrgs","display_name":"Curso de Jornalismo Fabico\/UFRGS","avatar_url":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/?s=96&d=mm&r=g","author_category":"","user_url":"","last_name":"","first_name":"","job_title":"","description":""}],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22080","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22080"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22080\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":22124,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22080\/revisions\/22124"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/22083"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22080"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22080"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22080"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/ppma_author?post=22080"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}