{"id":2240,"date":"2022-05-12T14:08:50","date_gmt":"2022-05-12T17:08:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/das\/?p=2240"},"modified":"2022-05-12T14:58:06","modified_gmt":"2022-05-12T17:58:06","slug":"__trashed","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/das\/__trashed\/","title":{"rendered":"COVID-19 e o peso da desigualdade sobre as mulheres"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Por Gislaine Thompson, Enfermeira da DPS<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Historicamente, ainda que a classe trabalhadora tenha conquistado importantes direitos trabalhistas, a desigualdade de g\u00eanero socialmente estabelecida permeia as rela\u00e7\u00f5es de trabalho, no que se estabelece uma rela\u00e7\u00e3o de inferioriza\u00e7\u00e3o da mulher em rela\u00e7\u00e3o ao homem. Socialmente e, por muito tempo, legalmente estabelecidos, os costumes patriarcais separaram o trabalho com base no g\u00eanero, designando aos homens o trabalho de produ\u00e7\u00e3o e \u00e0s mulheres, restritas pela privacidade do lar, \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o e o cuidado dom\u00e9stico (FONSECA, JORGE e SALIBA, 2021; MATA et al, 2021).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mesmo ap\u00f3s o ingresso das mulheres no mercado de trabalho e em outros tantos aspectos da vida em sociedade, o trabalho dom\u00e9stico e de cuidado de pessoas, ainda que seja algo de interesse de todos, continua quase que exclusivamente, sob responsabilidade das mulheres. A necessidade de associar o trabalho laborativo com a rotina de responsabilidades da fam\u00edlia configura o que foi denominado de dupla (ou at\u00e9 tripla) jornada; situa\u00e7\u00e3o considerada como cerceadora da capacidade de emancipa\u00e7\u00e3o total da mulher (IPEA, 2019; FONSECA, JORGE e SALIBA, 2021; DORNA, 2021).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Anteriormente \u00e0 pandemia de COVID-19, as desigualdades de g\u00eanero j\u00e1 estavam em evid\u00eancia no Brasil. Estudo do IBGE (2020\u1d43) demonstrou que as mulheres dedicavam o dobro de horas \u00e0s tarefas de cuidado da casa e de outras pessoas. Tal situa\u00e7\u00e3o associada ao fato de as mulheres comporem no mundo 70% da for\u00e7a de trabalho na \u00e1rea da sa\u00fade e social, resultou em uma enorme sobrecarga \u00e0s mulheres durante o per\u00edodo da pandemia (ONU MULHERES, 2020; DORNA, 2021).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Recentemente, um estudo identificou que mais da metade das mulheres entrevistadas passou a cuidar de algu\u00e9m por conta da situa\u00e7\u00e3o pand\u00eamica. Para 72% dessas mulheres, o cuidado com idosos e crian\u00e7as passou a ser redobrado, j\u00e1 que houve o fechamento das escolas e a aus\u00eancia dos cuidadores pelo risco do cont\u00e1gio (G\u00caNERO E N\u00daMERO e SEMPREVIVA, 2020). Esse contexto refletiu na desigualdade associada ao desemprego que, ao atingir 14,3% dos brasileiros nos primeiros tr\u00eas meses de 2020, foi ainda mais prevalente sobre as mulheres (25% a mais que os homens), obrigadas a sair dos empregos para cuidar dos filhos ou familiares ou demitidas por \u201cn\u00e3o conseguir\u201d conciliar o trabalho e as responsabilidades de cuidado com o lar ou fam\u00edlia (IBGE, 2020\u1d47).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro aspecto, caracter\u00edstico do per\u00edodo pand\u00eamico, foi a amplia\u00e7\u00e3o do trabalho em <em>home office<\/em> que, dada as caracter\u00edsticas de dupla jornada, sobrecarregou ainda mais as mulheres ao unir e sobrepor as jornadas, aliado ao aumento da carga mental e das responsabilidades de cuidado (DORNA, 2021; MATA et al, 2021; PORCI\u00daNCULA, 2022). As medidas de distanciamento social, necess\u00e1rias para o controle da pandemia, tamb\u00e9m resultaram, por outro lado, em maiores dificuldades para mulheres v\u00edtimas de viol\u00eancia dom\u00e9stica. A diminui\u00e7\u00e3o ou perda da autonomia financeira, o aumento do tempo de conv\u00edvio com o agressor, o estresse causado pelo medo da doen\u00e7a, a restri\u00e7\u00e3o de acesso \u00e0 servi\u00e7os, foram fatores associados ao agravamento dos indicadores de viol\u00eancia dom\u00e9stica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cabe ressaltar que todos os aspectos descritos at\u00e9 aqui est\u00e3o permeados por desigualdade na desigualdade. Ou seja, s\u00e3o ainda mais cr\u00edticos quando analisados direcionando o olhar para mulheres negras e pobres. A pandemia e a desigualdade afetam a todas as mulheres, mas afetam a todas de maneira desigual, conforme a ra\u00e7a, a renda, o trabalho e a orienta\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A sa\u00fade das mulheres, entendida em seu conceito amplo, \u00e9 diretamente impactada pela desigualdade e, no contexto atual, pela pandemia e suas consequ\u00eancias. Pensar na sa\u00fade da mulher, portanto, \u00e9 pensar e debater, urgentemente, essas desigualdades e a forma como a sociedade se organiza, objetivando mudan\u00e7as culturais e estruturais s\u00f3lidas e efetivas.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:40px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:14px\">DORNA, L.B.H. O trabalho dom\u00e9stico n\u00e3o remunerado de m\u00e3es na pandemia da COVID-19: mudan\u00e7as e perman\u00eancias. <strong>Laboreal<\/strong> [Online], v. 17, n. 1, 2021. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/journals.openedition.org\/laboreal\/17860\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">\u02c2http:\/\/journals.openedition.org\/laboreal\/17860\u02c3<\/a>. Acesso em: 03 maio 2022.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:14px\">FONSECA, B.G.; JORGE, C.; SALIBA, G.R. Da sobrecarga de trabalho ao desemprego: os impactos da pandemia sobre a mulher que trabalha. <strong>Cadernos de Direito<\/strong>, v. 20, n. 38, 2021. p. 141-155. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.metodista.br\/revistas\/revistas-unimep\/index.php\/cd\/article\/view\/41704222\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">\u02c2https:\/\/www.metodista.br\/revistas\/revistas-unimep\/index.php\/cd\/article\/view\/41704222\u02c3<\/a> . Acesso em: 04 maio 2022.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:14px\">G\u00caNERO E N\u00daMERO; SEMPREVIVA ORGANIZA\u00c7\u00c3O FEMINISTA. <strong>Sem parar<\/strong>: o trabalho e a vida das mulheres na pandemia. Sempreviva Organiza\u00e7\u00e3o Feminista, 2020. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/mulheresnapandemia.sof.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Relatorio_Pesquisa_SemParar.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">\u02c2http:\/\/mulheresnapandemia.sof.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Relatorio_Pesquisa_SemParar.pdf\u02c3<\/a>. Acesso em: 05 maio 2022.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:14px\">INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTAT\u00cdSTICA. Ag\u00eancia IBGE Not\u00edcias. <strong>Em m\u00e9dia, mulheres dedicam 10,4 horas por semana a mais que os homens aos afazeres dom\u00e9sticos ou ao cuidado de pessoas.<\/strong> Editoria de Estat\u00edsticas Sociais, 2020. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/agenciadenoticias.ibge.gov.br\/agencia-sala-de-imprensa\/2013-agencia-de-noticias\/releases\/27877-em-media-mulheres-dedicam-10-4-horas-por-semana-a-mais-que-os-homens-aos-afazeres-domesticos-ou-ao-cuidado-de-pessoas\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">\u02c2https:\/\/agenciadenoticias.ibge.gov.br\/agencia-sala-de-imprensa\/2013-agencia-de-notici as\/releases\/27877-em-media-mulheres-dedicam-10-4-horas-por-semana-a-mais-que-oshomens-aosafazeres-domesticos-ou-ao-cuidado-de-pessoas.\u02c3<\/a>. Acesso em: 03 maio 2022.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:14px\">INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTAT\u00cdSTICA. <strong>Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios Covid-19<\/strong>, 2020. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/covid19.ibge.gov.br\/pnad-covid\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">\u02c2https:\/\/covid19.ibge.gov.br\/pnad-covid\/\u02c3<\/a>. Acesso em: 11 maio 2022.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:14px\">INSTITUTO DE PESQUISA ECON\u00d4MICAAPLICADA (IPEA). Trabalho para o mercado e trabalho para casa: persistentes desigualdades de g\u00eanero. <strong>Comunicados do IPEA<\/strong>, n. 149. Bras\u00edlia, 2012. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/oig.cepal.org\/sites\/default\/files\/usodotempo_br.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/oig.cepal.org\/sites\/default\/files\/usodotempo_br.pdf<\/a>. Acesso em: 05 maio 2022.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:14px\">MATA, C.C.I.B.; ARA\u00daJO, M.M.; MELO, J.K.F; SOUZA, L.A.A.; SILVA, A.I.G.; CRUZ, J.R.; SOARES, L.R.; GUIMAR\u00c3ES, N.S.; AZEVEDO, V.G.M.; SANTOS, L.J. A mulher no mercado de trabalho uberizado em tempos de pandemia: breve an\u00e1lise sobre os caminhos da desigualdade de g\u00eanero laborativo no Brasil. <strong>Revista Laborare<\/strong>, Dossi\u00ea F\u00f3rum Social Mundial Justi\u00e7a e Democracia, v. 4, n. 7, 2021. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/revistalaborare.org\/index.php\/laborare\/article\/view\/91\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">\u02c2https:\/\/revistalaborare.org\/index.php\/laborare\/article\/view\/91\u02c3<\/a>. Acesso em: 06 maio 2022.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:14px\">ORGANIZA\u00c7\u00c3O DAS NA\u00c7\u00d5ES UNIDAS MULHERES. <strong>Covid-19<\/strong>: Mulheres \u00e0 frente e no centro. ONU Mulheres Brasil. 2020. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.onumulheres.org.br\/noticias\/Covid-19--mulheres-a-frente-e-no-centro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">\u02c2http:\/\/www.onumulheres.org.br\/noticias\/Covid-19&#8211;mulheres-a-frente-e-no-centro.\u02c3<\/a>. Acesso em 05 maio 2022.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:14px\">INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E EPORCI\u00daNCULA, M.B. Uma breve reflex\u00e3o sobre carga mental. <strong>InformA\u00e7\u00e3o Sa\u00fade DPS<\/strong>, Divis\u00e3o de Promo\u00e7\u00e3o da Sa\u00fade, UFRGS, 2022. Dispon\u00edvel em: \u02c2https:\/\/www.ufrgs.br\/das\/uma-breve-reflexao-sobre-carga-mental\/\u02c3. Acesso em: 06 maio 2022.TAT\u00cdSTICA. Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios Covid-19, 2020. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/das\/uma-breve-reflexao-sobre-carga-mental\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">\u02c2https:\/\/covid19.ibge.gov.br\/pnad-covid\/\u02c3<\/a>. Acesso em: 11 maio 2022.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Gislaine Thompson, Enfermeira da DPS Historicamente, ainda que a classe trabalhadora tenha conquistado importantes direitos trabalhistas, a desigualdade de g\u00eanero socialmente estabelecida permeia as rela\u00e7\u00f5es de trabalho, no que se estabelece uma rela\u00e7\u00e3o de inferioriza\u00e7\u00e3o da mulher em rela\u00e7\u00e3o ao homem. 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